quinta-feira, 22 de julho de 2010

Três Marias Gozosas


Maria Letícia sempre foi uma moça avantajada, seios fartos e firmes como os glúteos, pernas longas como um obelisco, se queixava de não ter cintura, mas precisava? 
  Fazia o gênero morena de sobrancelhas grossas, que ornavam olhos de um negro profundo que as vezes desafiavam noutras convidavam a aproximar-se deles, dela... 
  Casou-se apaixonada, arrebatada, emocionada. 
Ainda se usava casar virgem, então se guardou. Mais por ele, que por ela. Resolveram não ter filhos. Estava tudo tão bem, pra que arriscar, e embora a mãe de ambos cobrassem, eles sempre davam como resposta que elas já tinham netos suficientes dos irmãos. E ela frisava, que todo o instinto materno, tinha ficado com a irmã mais velha, que tinha quatro rebentos. Com ela não. 
  Um dia, e sempre há: “um dia”, ela descobre um caso dele com a secretária. Continuam juntos, mas algo havia se quebrado. O amor e pureza, dedicação e credulidade estavam perdidos. E com isto, veio o desejo de vingança.

  De espírito prático e investigativo, indagou e teve como resposta que o que mais humilharia um homem não era ser trocado por um homem, mas por uma mulher. E decidiu, então se é assim, que assim seja!

  Conheceu uma amiga de uma amiga em uma festa, e demosntrou a esta, que já tinha sua opção definida, que estava disposta, e muito bem disposta a experimentar.

  E assim, foi, não como quem dá-se ao carrasco, mas de peito aberto, e com o prazer de quem se vinga. Não sei qual o prazer foi maior, mas ela gostou da experiência, repetiram uma duas, e as vezes que foram necessárias.

Comunicou ao marido, e mandou-lhe cuidar do filho e amante, ela seria ótima esposa, já que fora secretária tão competente.

  Maria Lúcia veio morar com Maria Letícia, que continuou a gozar a vida.

***** 

Gisele Maria era uma loura bonita, olhos azuis claríssimos, pele alva com sardas charmosas a tornar-lhe os ombros sensuais, magra sem excessos, e uma graça natural que somada ao sorriso de dentes alvos e perfeitos fariam anjos descerem a terra.

  Casou-se logo depois de formar-se. Virgem, como queria, para se guardar ao homem a quem amava. Branco, festa, flor de laranjeira.

  O marido, alta patente do exercito, era de uma beleza física que ornava com a sua em número e grau, apenas de gênero diferente e em versão amorenada e embora a sisudez máscula se fizesse presente, era de carisma tal e qual, despertando cobiças nas amigas e primas  de Gisele Maria.

  Logo depois do casamento a decepção. Àquele para quem ela se guardara, e tão belo que era, tinha ejaculação precoce. Há tratamentos, logo o problema não haveria de ser assim tão grave. No entanto, o machismo arraigado, talvez até acentuado pela carreira militar, fazia com que ele sequer pensasse na idéia de submeter-se a tal.

  Para piorar, não era dado a carinhos, era penetrar, ejacular, sair, banhar-se. E ela, submetia-se sem prazer e enquanto ele de bruços sonhava, ela encarava o pesadelo cotidiano.

  Os anos passaram-se e vieram os filhos, um casa, gêmeos, herdaram a morenice do pai e os olhos da mãe.

  Um dia ela revê um primo que tinha ido estudar fora, e matam saudades, matam curiosidades, e a amizade que era profunda volta na forma de atração. Ela decide ceder a tentação, já sete anos de casada, sem nunca um orgasmo sequer, era hora de experimentar outro, afinal para o marido estava tudo bem, e ele não admitia mais seuqer tocar no assunto. Ela era mulher, não tinha que conversar destas coisas.

  Na alcova, achou tudo muito diferente, carinhos, beijos, afagos, tantas mãos ele tinha, tantas bocas, tanto contato, e derepente, no fogacho da narrativa, ela tem o seu orgasmo na vida, seguido por um desmaio que assustou o primo que não sabia o que lhe proporcionava.

  Depois disto, não teve jeito. Pediu divórcio, o primo foi embora, ela pediu transferência no emprego e também mudou de cidade, vieram outros homens, vieram outros orgasmos, tão, mais e menos intensos.

  Ela voltou a andar com um sorriso nos lábios.

 
 *****

Maria Rita era uma morena vistosa, a quem deus presenteou com as curvas mais voluptuosas do bairro.

  Casou-se cedo, e cedo enfadou-se do sexo monótono do marido, afinal decotes, meias calças, mini-saias, peitos fartos, coxas roliças, cintura fina, grossos lábios sempre cobertos de carmim, eram pra despertar maior cobiça naquele moço pacato, trabalhador e que acima de tudo a adorava.

              Ouvia sempre cantadas por onde passasse, das mais sutis às mais descaradas. Na rua, no trabalho, na feira. E um dia resolveu, vou experimentar. E daí a pratica foi um pulo, a experimentação deu certo, e assim o hábito se fez frequente.

              O Marido até sabia, mas era dos que não se importam desde que não lhes falte, até porque a chama de afeto que por ela sentira, nunca deixou de arder dentro dele. A de tesão então, não era apenas uma labareda, mas um incêndio. Para ele, para ela não.

              Um dia perguntada por uma amiga porque não o deixava respondeu: “_Ele gosta de mim, me aceita do jeito que eu sou, cuida bem da casa, de mim, e do filho. Vou deixá-lo por quê?”

              E assim vivia suas aventuras, e vivia muito bem o marido. Um dia, em uma discussão comum entre casais, o marido xingou-a: “_Vagabunda!”

              Não teve dúvidas, foi direto à delegacia da mulher, prestar queixa. Afinal a palavra era forte!

              Enquanto aguardava, prestava atenção à fauna presente, mulheres estropiadas, olhos roxos, braços quebrados, lábios inchados, hematomas dos mais diversos tons e cores. Choro, ranger de dentes, lagrimas no rosto e catarro jogado às paredes.

              Uma “estrupiadinha” que estava ao lado, talvez tendo a curiosidade despertada pela mulher bonita e com cara de bem cuidada sentada também a aguardar, pergunta-lhe o que faz ali.

              Narrado o fato, que por ter sido chamada de vagabunda irira prestar queixa, a interlocutora indaga incrédula: “_Mas você vai dar queixa dele só por isso?”

              A resposta fulminante, corta quaisquer possibilidade de continuidade no diálogo: “Vou, sim senhora, antes que ele pegue gosto e eu chegue aqui como você!”

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Labareda



Labareda

Calor que vem das chamas
Rebatendo o fresco vento leste
As estrelas a brilhar
Competem com a luz das labaredas
 
Nem junho é - dizem alguns...
É preciso que seja? Respondo eu.
Sempre fiz fogueiras
Sempre farei
 
Perto do fogo
Aconchegado no calor
Junto do fogo e do vinho
- iluminado...
 
A madeira ardente crepita
Sobrinhos ao lado
Conto histórias
De trancoso* e de fadas
 
A água
Apaixonada pelo fogo
Se aproxima (por cima)
E do céu desce
 
O sereno lento cai
E encontra a chama
No beijo voluptuoso
Se consomem
 
O tempo, senhor das horas corre
As crianças e mais velhos se recolhem
Fico só. Ou não...
Eu, o fogo e o vinho
 
E sinto-me iluminado
Como hippies, como hindus
Como adoradores de fogo da idade média
Ou cuspidores de fogo dos circos
 
E ouço no silêncio
Apenas a madeira crepitando
Chorando a arder
E se transformando em algo também belo
 
Talvez pela embriaguez do vinho
Um sentimento de solidão
E ao mesmo tempo de acolhimento
E só quero estar ali.
 
Perto do fogo
Aquecido
Abandonado
Querido
Inebriado.



* A expressão histórias de trancoso, denomina histórias de encantamento, de autoria desconhecida ou lendas e crendices. As histórias de trancoso independente de autores recebem esta denominação, tem tradição oral e serviram como inspiração para muitas obras da  literatura de cordel.


quinta-feira, 8 de julho de 2010

Sobre a copa e o orgulho nacional

Domingo próximo encerra-se mais uma Copa do Mundo de Futebol.

Para o Brasil, terminou mais cedo, há praticamente uma semana... Ao primeiro impacto da derrota para a equipe holandesa, o país pareceu murchar. Até a manhã que antecedeu a eliminação da equipe brasileira, por onde se passasse haviam pessoas acompanhando jogos, bandeiras nas janelas, ruas enfeitadas nas cores pátrias, que eram onipresentes no vestuário das pessoas, pelas ruas, ônibus e metrô. O assunto invariavelmente esbarrava em “copa”.

Discussões sobre quem entende mais, homens ou mulheres, as zebras, bolões e seus ganhadores...

De repente, silêncio. Como o que antecede o gol. Só que desta vez o silêncio continuou. Como um engasgo...

Em um editorial, li que talvez fosse “enfim” o sepultamento “de uma vez por todas” do ufanismo brasileiro que sempre desperta em época de copa do mundo.

Não creio. Faz parte da cultura nacional. E mesmo os menos interessados pelo esporte em questão, como eu, que gosto mais do “furdunço em torno de” a cada jogo ganho pela seleção, deixam dentro de si um pouco de esperança quanto à vitória no próximo mundial e certo orgulho de ter chegado até ali e vencido mais uma etapa.

Há exceções, claro, até mesmo aparentemente antinacionalistas. Fanáticos de certo time, que não teve um só representante na seleção, alegaram torcer para a Argentina, que tinha jogadores que já haviam jogado em seu time. Mas seria verdade essa “torcida” ou apenas um discurso repetido em massa, plantado por um fanático em grau maior, apenas para marcar posição ao preterimento do técnico em favor de jogadores de outros times, ou para esconder a fustração pela perda da seleção que muitos achavam iminente, e depois dizer: “Eu não estava torcendo pro Brasil mesmo!”?

Lembro que, há alguns anos, coordenando as bibliotecas de uma instituição de ensino superior, a cada mês, entre exposições e atividades culturais, decorávamos as bibliotecas de acordo com as datas folclóricas do período, procurando assim manter vivas tradições nacionais, como por exemplo Cosme e Damião, que a cada ano perde espaço para os halloweens da vida. Ou ciclo do milho que começa com o plantio no dia de S. José (19/03) e termina na colheita, no dia de S. João (24/06). Mas enfim, calhou de termos Copa do Mundo naquele ano e resolvemos decorar também as unidades com esse motivo.

Na biblioteca de Sociologia os alunos se revoltaram e rasgaram e destruíram enfeites, pois o futebol é o ópio do povo, e afinal eles iam (ainda vão) fazer a revolução. Mas, fora isso, no centro acadêmico da mesma faculdade, uma TV transmitia os jogos para alguns de nossos “Ches”.

Uma propaganda de página inteira no jornal de sábado anunciava: "Brasil, nunca deixaremos de acreditar em você, faltam X meses para o hexa."

Agora o assunto se volta para as Olimpíadas 2016 e a Copa do Mundo de Futebol de 2014, ambos no Brasil. Muitos são contra, pelos gastos, pela corrupção, por motivos políticos. Sou a favor. Pelos empregos que serão gerados, pelas obras, principalmente de infra-estrutura, que hão de permanecer após os eventos. Afinal, Barcelona não passava de uma cidade portuária com os infindos problemas que os portos acarretam a estas cidades, mas soube capitalizar a Olimpíada e reinventar-se a ponto de hoje ser uma das cidades mais modernas do mundo. Cabe a nós aproveitarmos a oportunidade de melhoria de nossas cidades, ao invés de destruir as coisas belas que já tivemos, para dar lugar a avenidas, como o Palácio Monroe (que foi construído para a Exposição Internacional de Saint Louis, em 1904, a primeira obra de arquitetura brasileira reconhecida internacionalmente).

Adaptando o verso do poeta-cantor: Que a força da grana seja usada para erguer, e não para destruir coisas belas.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Caídos do Céu

Esta semana ia falar sobre a escrotidão humana, sobre a arrogância e prepotência, mas... não vale a pena, vale?

A escritora austríaca Marie Von Ebner Eschenbach já disse: "Quem cede é o mais inteligente. Nisso se baseia a dominação universal da estupidez".

Fazer o quê?

Bem...

Falarei de um filme, um filme peruano, que assisti há vários anos, mas que ainda hoje está entre meus favoritos. E soube, informalmente que iria ser apresentado em uma mostra de cinema latino, então, caso isso se confirme avisarei aqui aos que possam interessar-se.

Caídos do Céu / Caídos del Cielo - Dirigido pelo peruano Francisco Lombardi. Ficção. 119 Min. Peru/Espanha. 1990.


Sempre gostei dos filmes crus, que mostram a realidade pura, ainda que em obras de ficção. Claudio Assis, em Amarelo Manga e ainda mais em Baixio das Bestas, sabe fazer isso como ninguém, por aqui. Baixio das Bestas mostra um nordeste tão real que sai do cinema tenso e assim permaneci por horas. Almódovar antes de "Oscars" e outras tantas premiações chegava a tanto, continua fabuloso, continuo fã, mas já está bem diluído do Almódovar de uma década.

Mas enfim, vamos a "Caídos do Céu".

Três histórias são contadas paralelamente e humor, tragedia social, amor e conflitos são apresentados escancaradamente em cada uma das histórias, que mostram três gerações, na Lima (Peru) doa anos 1980.

Dois idosos outrora abastados, mas arruinados pelas reformas políticas e sociasi dos anos 1970, perderam o filho, e vivem de alugueis, um dos quais o inquilino é um radialista que se envolve com uma mulher em um relacionamento inusitado e conflituoso.

Enquanto isto, duas crianças que vivem com a avó idosa, cega, e marcada pela desventura, são envolvidas por ela mesmo em um ambiente de revolta, violência e desesperança.

É um filme para estomagos fortes, e acredito, extremamente desaconselhado para uma doutoranda de cinema da Éca, com quem conversei certa vez, à época do "Carandiru", de Hector Babenco, dizia ela: "_Ah, mas o Brasil não devia fazer esse tipo de filmes, a gente (sic) tem tanta coisa bonita pra mostrar." Bem, era ela a doutoranda, e diante deste argumento melhor calar...

Caídos do Céu é um filme sobre como se sobrevive, quando a vida é tirada, quando pouco resta além de manter em pé o corpo. Um livro sobre "sinas" porque destino é outra coisa.

O trailler de caídos do Ceú pode ser visto em: http://www.youtube.com/watch?v=mXc16TmT9Z0&feature=player_embedded#%21


Ilustração: Cartaz de divulgação do DVD - imagem da internet: http://www.quedepeliculas.com/cartel-200801/200801112107_02187400-pelicula-caidos-del-cielo.jpg

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Três Marias Gloriosas


Mariinha, era uma loura (natural) estilosa, de personalidade forte e que causava impacto onde quer que chegasse; competente profissionalmente, trabalhava em um dos melhores escritórios da cidade, amava o pai acima de tudo, a quem ajudava na criação dos muitos irmãos, desde que a mãe falecera, deixando-o só com quase uma dezena de filhos. Na verdade, era Mariinhao pulso firme da casa, em questões de compras, trato com empregadas, e no trabalho do pai em revisões de processos, etc.

Uma noite, à hora do jantar avisou que queria todos à mesa e assim, todos reunidos, abriu um vinho, serviu a todos, e ao final da refeição, onde fez questão de comida especial e louça de visitas, em tom sóbrio anunciou: "Aqui em casa, tem três porta, então o negócio é o seguinte: Eu gosto de mulheres, se você aceitam, ótimo! Se não, é só escolherem por qual das portas vocês querem que eu saia."

Não só permaneceu, como sempre contou com o apoio de todos familiares.

***

Maria era a única neta de uma senhora católica, apostólica romana. A mãe casou grávida, o que deu grande desgosto à avó, que não quis saber de festas ou comemorações; a tia, nunca casou, e assim a avó pôs toda esperança do branco e da flor de laranjeira na neta.

Maria cresceu, embelezou, estudou e foi fazer faculdade. Lá conheceu um rapaz, se olharam se gostaram, namoraram. Ela descendente de italianos da Mooca; ele de fazendeiros do Mato Grosso.

O moço conheceu sua família e ela foi conhecer a dele. Férias maravilhosas com futuros sogros, comida e vida na fazenda de sonhos; o namoro prosperou, a faculdade acabou e resolveram casar.

A avó não fez por menos, o que não tinha feito pelas filhas pela neta, Festa pra mais de metro, Igreja Nossa Senhora do Brasil, vestido de costureiro famoso, logo: caro, muito caro, carissímo. "Trocentos" convidados, bolo de vários andares, bem-casados, bufê nos Jardins... Enfim, a velhinha gastou a economia de uma vida.

Depois da festa, viagem de núpcias, como se dizia outrora, e foram morar na fazenda. Dias maravilhosos se seguiram, até que aos 18 dias de casada, ele teve uma crise de ciúmes do próprio irmão; gritos, correria, uma confusão. Queria bater-lhe para ela aprender a respeitá-lo.

A mãe do rapaz, após acalmar um pouco a situação, com voz compungida fala para a moça: “_Sabe o que é? A gente esqueceu de contar, mas de vez em quando ele tem esses surtos, mas é coisa rápida, logo passa.”

E Maria lhe responde no mesmo tom de voz: “_Sabe o que é? Eu esqueci de contar, mas não sou o tipo de mulher que se submete a isso. Tô indo embora!”

Fez as malas e 19 dias depois de casada voltou pra casa: “_Gente, voltei!”


***

Maria Rita o conheceu um tempo antes do primeiro casamento, se olharam, conversaram, se gostaram mas tinham outro destino naquele momento: ela casou com outro, foi morar na França, ele foi embora para Barcelona.

Como o planeta ainda dá voltas e as pessoas dão volta em torno dele, voltaram ao Brasil, ambos livres agora, se encontraram, se olharam, conversaram, se casaram.

Anos de felicidade, certamente com alguns dias nublados, como é comum em todo relacionamento.

Um dia, ele que tinha um barco, resolve participar de uma regata que sairia de Lisboa chegando à Bahia. O barco estava em Miami, e ele seguiu para lá, de lá desatracou e rumou a Portugal, para então voltar na tal regata. No meio da travessia, eis que o barco quebra, nada tão grave, mas teve que voltar a Miami para consertos. Resumo da ópera: três meses no mar.

Ele volta, ela ansiosa por vê-lo, fazem amor, matam saudades e, em poucos dias, ele a chama e diz: “_Acho que estou precisando de um tempo... Para pensar.”

Ela apenas arremata: “_Você passa 3 meses no mar e volta precisando de um tempo??? Bem, como a casa é minha, eu te dou duas opções: ou você arruma suas coisas, ou eu arrumo suas coisas. Qual você escolhe?'

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Vuvuzelas e outros barrulhos



A bola da vez das reclamações nessa Copa, mais que contra a arrogância de seleções, técnicos e mesmo dos argentinos, tem sido a tal da vuvuzela.
 Até o jogador português Cristiano Ronaldo referiu à polémica corneta: "Mas há algum jogador que goste? " Acho que todos ficam irritados.

Blogs, colunas de jornais, comunidades em redes de relacionamentos, todos a criticam...

É óbvia a irritação que causa, mas realmente o problema é só ela? O problema é a má-educação que se alastra como um câncer por todos os lados... Afinal, já não existiam por aqui as terríveis cornetas há mais de década? Só mudou de denominação, agora, pela necessidade de dar um nome ao modismo esparramado pelas redes de TV. É praticamente como o ritmo baiano de música, que permanece praticamente o mesmo e a cada dois verões é noticiado como algo fantástico e ganha novo nome. 

No primeiro jogo do Brasil, eis que a neta da vizinha em frente, que por ser criança até se compreende, estava lá com a sua, a infernizar os ouvidos da rua mas, se Deus quiser, há de estar com cãibras nas bochechas (que já não são pequenas), até agora.

Mas já não andamos suficientemente irritados com as buzinas que alguns insistem em tocar como se fosse a Nona Sinfonia de Beethoven? Seja o trânsito ou em frente à própria casa ou a dos outros a fim de que lhe venham abrir as portas? Com efeito, as campainhas parecem ter caído em desuso, porque ninguém mais pode descer do carro e dar dois passos até elas.

O som de CDs  dos carros, então, nem se fala. Não importa a hora, se é dia ou noite, seja o negrinho do funk, o pittboy da academia ou a caboclesse dorée abastada que desfila em seus 4x4. Ou ainda os mauricinhos e pats com seus bate-estacas. A necessidade de mostrar a potência do som (será porque falta potência em outro lugar?) é generalizada.

Mas não para por aí o barulho nosso de cada dia...

Em shoppings, metrôs e ruas veem-se jovens e nem tanto, a berrar como se sua vida dependesse dos outros verem o quanto estão felizes, o quanto são espontâneos e alegres... Aliás, por falar em shopping, me é estranho como as pessoas gostam de se acotovelar para comer nas tais praças de alimentação, onde se tem que gritar para ser ouvido pela pessoa que está do outro lado da mesa, pois o alarido estafante é tamanho que quando se percebe se está também a gritar. E assim a elegância vai pelo ralo, como um líquido se arrastando moroso até o esgoto.

Moro próximo ao aeroporto de Congonhas e últimamente por volta das 06:00 tenho ouvido barulhos cada vez maiores e mais estranhos, às vezes até comento que devem estar utilizando carroças aladas, Não é à toa que volta e meia alguma dá problema, mas afinal não fossem elas e a chuva nada cairia mesmo do céu.

E os celulares? Outro dia quase teve briga em uma biblioteca. Um rapaz a tentar trabalhar no laptop o texto de sua tese e uma moçoila a deixar o celular tocar várias vezes em alto e bom Pop (acho que é assim que se chama a atual leva de música estadunidense). Afinal, não se pode atender na primeira chamada, todos tem que compartilhar seu magnânimo gosto musical e ver que vem do celular "dela". Após isto, da-lhe a conversar as asneiras sobre o fulano, mas aí a sicrana disse... E tome-lhe assunto, em agudo altissonante. O rapaz levanta e pede-lhe que fale mais baixo, e ela, por pirraça, jogando o cabelo alisado e louro-cinza-médio-claro, ou outra nuance próxima, capricha ainda mais no agudo e tom. Ele dirige-se à senhora do balcão de atendimento para que interceda, o que só então ela resolve fazer; observando isso, a tal moça rapidamente recolhe caderno e canetas e sai da biblioteca em desabalada carreira, a fim de não ter a atenção chamada por quem deveria inclusive ter podado desde o início dos toques.

Por tudo isso me pergunto... São as vuvuzelas as culpadas ou a falta de educação , tranvestida em necessidades como exibir toques, apertar buzinas e bradar a alegria que apenas ganhou um novo brinquedo? 

Ilustração: Imagem da internet: 

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Perguntas que não querem calar.

Hoje pela manhã, ao tomar o metrô, lotado como sempre, e com maior tempo de paradas nas estações pra variar, me deparei com um poster da propaganda deste serviço: o cartaz do expansão metrô. E me retornaram as questões...

  • O governo do Estado de São Paulo divulga a largo que tirou do papel 15 estações de metrô e trens... Mas se o mesmo partido está há mais de 15 anos no governo do Estado, então... Quem as colocou no papel?

  • Por que na cidade de São Paulo estações de metrô são inauguradas apenas nos anos de eleições, ou no final do ano que as antecede?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sobre amores e atores

Dentre as diversas coisas que leio, vivo, vejo e guardo, está uma poesia que vez li, e que tratava do amor carnal, se é que se pode chamar assim o tesão. O título era “Amor de verdade” que era mais ou menos assim:


Amor de Verdade

Me dê sua mão.
Toque aqui.
Veja como está!
E Então?
Acredita agora?

Bem, googleei no intuito de encontrar o autor da poesia, que acredito ser de Paulo Leminski,  mas em vão, vai ver não postaram na net, vai ver estou um bibliotecário enferrujado que não consegue achar... Pois outro dia em mesa de bar com Maluce e Jair, citei a que considero uma das mais bonitas declarações de amor:

“Se todos me vaiarem e só você me aplaudir, ainda assim eu me sentirei como um Napoleão coroado.”

Essa, quando a recebi,  era atribuída a Michelangelo Buonarroti e seria um trecho de uma carta dele a Tommaso Cavalieri. Tive essa citação por anos guardada entre tesouros que só tem valor a meus olhos e guardo na cabeça. Mas eis que, Jair, como bom conhecedor de história que é, alertou-me de imediato: não pode ser, a frase é linda, mas Michelangelo é muito anterior a Napoleão.

De fato, eu encantado com a frase, nunca conjuminei os fatos. Procurei no Google mais uma vez, e nada. Como diz um conhecido, se não está no Google, não existe... E agora? Bem, continuo a achar a frase preciosa, recebi de uma moça que conheci há mais de década, que mentia muito (e quem mente rouba), portanto pode até ser que a frase seja dela, apesar de mentir muito (ou exatamente por isso) ela escrevia muito bem. Ou roubou-a de alguém e deu a ela outro autor, no sentido de enriquecer, ou, como disse Jair, pode ter trocado César por Napoleão com a intenção de atualizar a bela citação.

Mas sobre o que é essa postagem mesmo? Ah, sobre o amor e algumas de suas formas de expressão...

Vinícius de Moraes, na crônica: “O bom e o mau fã”, descreve uma relação na sala de cinema: “E os casais de namorados, que desgraça! ‘você gosta de mim?’ ‘Gosto!’ ‘Mas gosta mesmo?’ ‘Mesmo!’ ‘Muito?’ ‘Muito!’ ‘Mas jura?’ ‘Juro, juro e pronto, tá satisfeita?’ Depois, dois suspiros (...) E recomeça: ‘Mas você gosta mesmo?...’”

Deuses meus, realmente é o inferno; imagine se Vinícius visse os que hoje teimam em ficar lado a lado nas escadas rolantes, bloqueando a passagem dos apressados no horário de pico, naquela hora em que você está mais que atrasado e vê o trem chegando à plataforma. Ou do casal, com invariavelmente um dos dois gordo, que insiste em querer andar de mãos dadas nas calçadas de São Paulo, estreitas e tomadas por postes, camelôs, lixeiras, carros estacionados e baús de motos...

Lembro que, em Madri, a única moça sentada no colo do namorado no metrô era brasileira, num agarramento vexatório que me fez esquecer automaticamente qualquer palavra lusófona.

E aqueles a quem o amor não convence a eles mesmos e precisam o tempo todo demonstrar ao resto do mundo o quanto amam o parceiro? Confesso que sinto engulhos, até porque geralmente algo soa falso nesses alardes. Principalmente se já convivem juntos, aí o alarido estafante é de tal forma fake que vira uma comédia. Tem gente que até aumenta o tom a fim de quedos possam ouvir suas declarações.

Conheço casais que sentam um em frente ao outro na hora de refeição em casa alheia, e ficam jogando beijinhos um pro outro. Chamam o par: “Môoo...” “Oi...?” e aí vem o biquinho e o pu-pu-pu dos beiços a fazer biquinho e o barulhinho característico do arrufo. Cômico? Nem isso... E os demais a disfarçar pra não correr o risco de tecer nenhum,  nenhum comentário.

E aqueles que dizem amar tão apaixonadamente, que nunca viveram amor assim, mas que, sabendo o outro ciumento, provocam e alimentam esse ciúme. A meu ver, nada mais egoísta e digno de repúdio que alimentar esse sentimento apenas para manter a “pessoa amada” insegura. Afinal, estando insegura, eu estou no controle, eu comando! Deve ser este o pensamento (consciente ou não) que emana de tal ser.

Sinceramente os casais mais felizes que conheço não fazem (nem precisam) fazer alarido algum, a felicidade está no olhar, nos gestos, nos pequenos comentários que não falam em palavras de amor, pois ela está no carinho e respeito com que se tratam. Até porque a maior demonstração de amor está na cumplicidade e respeito um pelo outro.

E aí vem a velha questão que sempre falo: vale mais o respeito próprio que  o amor próprio. Nesse caso, mais o respeito e dedicação à outra pessoa do que as demonstrações apenas para convencer o outro, ou em muitos casos, os outros. Ou seria para convencer a si mesmo? Afinal, tem por aí pessoas que não se dão em quaisquer tipos de relacionamento, e talvez fosse o que mais gostaria mas simplesmente não conseguem.

Nem levo em conta traições carnais que, como em “Amor de Verdade”, que continuo acreditando ser do Leminski, nada mais é que um instinto animal, apenas físico. Mas o pior é a traição de sentimento, a alvorada altissonante que ressoa em alto brado retumbante, como dezenas de címbalos sonoros a cantar um amor que não existe.

E como comecei com citações diversas, termino com uma que acredito casar perfeitamente com o tema tratado. Afinal, Adélia Prado está sempre a nos dizer coisas absurdamente preciosas da forma mais simples:

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é. 
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo: 
"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo.


*MORAIS, Vinícius de. O cinema de meus olhos. São Paulo : Companhia das Letras, 2001.


PRADO, Adélia. Prosa reunida. São Paulo : Siciliano, 1999.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Crises

Um dos assuntos preferidos dos jornais nos últimos dias é a crise na economia grega, ou a possibilidade de uma quebra ainda maior na economia dos Piggs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, segundo a sigla em inglês). O macro sempre é lembrado, o que nunca se fala é do micro; o micro-universo não interessa a quase ninguém, apenas às pessoas relacionadas a ele e a um ou outro que se importe a título de interesse emotivo, profissional, antropológico ou, mais comumente, pura e mera curiosidade.
 
Trazendo essa crise para o micro, lembrei de um conhecido, filho de família de classe média, que estudou nas melhores escolas, fez na melhor faculdade um dos cursos mais renomados, foi para exterior a fim de  aprimorar o inglês, conheceu no avião uma moça de iguais valores (adquiridos na revista que é o catecismo da classe média no país).
 
Ambos dando muito valor ao que é de fora, à grife de roupas, carros, imóveis...
 
Ela loura, “of course”, como ele diria, já que costuma usar termos em inglês no meio das frases.
 
Voltou e procurou a moça que também tinha voltado. Namoram, noivam e com a ajuda do pai dele e economias dela, compram um apartamento, e enfim, casam-se.
  
Valores financeiros acima de tudo, tanto que ele se orgulhava sempre em afirmar que “coisa boa” era com a esposa, pois ela só gostava do que era bom, dos eletrodomésticos do último tipo em inox, ao molho de macarrão importado. O sonho de consumo dela é uma jóia, não me lembro de que tipo, da Tiffany. Afinal agora têm duas em São Paulo. Mas, cá entre nós, se têm duas já não é algo tão exclusivo assim, certo?
 
Um dos programas de fim de semana é visitar lançamentos de imóveis de alto padrão. E voltam deslumbrados. A frase comum é: “É outro nível, você não entende, é outro nível!”
 
Troca-se de apartamento para dar lugar aos rebentos que vêm. Troca-se de carro para que o carrinho de bebê da grife Y, possa caber no porta-malas. E, no futuro, se ufanam do fato que os filhos sempre tiveram tudo do bom e do melhor.
 
Nos almoços e reuniões familiares os comentários são do tipo: “Este filé mignon está excelente!”, com o acento no filé mignon soando exagerado, onde cairia bem apenas a carne, ou bife, o filé que fosse, sem sobrenome...  Ou: “Este Prosecco é muito bom!” E você olha e vê pela garrafa  que o vinho servido é um Lambrusco...
 
O “modus vivendi” já demonstra insatisfação com a vida que se leva. Afinal, se a felicidade está apenas em objetos e estilos que tem de ser consumidos com furor a fim de se provar ser feliz, onde está a felicidade realmente? Na posse? A meu olhar, parece muito distante dali...
 
De repente, acorda-se do sonho, e... cansado de jornada mais ou menos longa, porém muito incômoda de trabalho, resolve pedir demissão do emprego a fim de estudar para um concurso...
 
A esposa, bem... concorda e continua a trabalhar. Continua a gastar, continua a querer para si e os seus o “do bom e do melhor”.
 
Os concursos públicos passam, e ele não passa. O que passa, cada vez mais rápido, é o tempo, e nosso pequeno herói continua fora do mercado de trabalho. As contas, essas, continuam a chegar, e a serem quitadas, mas começam a preocupar. O pai dele, que antes tinha uma renda excelente para os padrões, aposenta-se e com isso a renda cai; a mãe, que sempre foi do lar e acostumada a não se preocupar tanto com contas, começa também a preocupar-se com elas e com a situação do filho. Somam-se a isso uma doença aqui e outra ali... Um gasto inesperado acolá... Ou seja, o pai aos poucos começa também a dilapidar as economias feitas no tempo de bonança.
 
Enquanto isso, a irmã de nosso personagem principal soma cada vez mais sucesso profissional e financeiro, deixando o irmão cada vez mais a descoberto quanto às possibilidades de sucesso pessoal e profissional. Ele, por sua vez, começa a negar o curso que fez, e a dizer que nunca gostou daquela profissão, fêz por culpa do pai, mas aquele nunca impôs isto a ele, ficou evidentemente feliz com a escolha, mas daí a impor há uma distância intransponível.
 
Vem a depressão e, com ela, a falta de ânimo absoluta para reagir à situação que se apresenta. Daí para a doença mental se manifestar no físico é um passo, ela vem na forma de dores lancinantes em patologias que me escuso de expor, mas que o impedem fisicamente de agir, se a vontade de agir viesse.
 
Mas, enfim, a Crise Grega ou a dos Piigs, pode ser maior que nossas crises individuais? Profissionais, financeiras, emocionais?
 
A Europa e o resto do mundo preocupam-se com gregos, portugueses e italianos... E conosco? Com os seres viventes de carne e osso, que se apegam em valores empurrados goela abaixo por semanários e jornais, programas de TV, filmes e outras torrentes de invenções midiáticas? O apego a esses produtos consumidos a mão cheia já não é um sinal de adoecimento?
 
Um adoecimento como este aqui, exposto em nível individual, representa, somado a outros tantos indivíduos tais e quais, o adoecimento de uma sociedade inteira.
 Mas quem liga para o indivíduo, se a sociedade sobreviver?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Divulgados os semifinalistas da 8ª Edição do Prêmio Portugal telecom de Literatura

Neste último sábado, dia 15 , foram anunciados os 54 semi-finalistas da oitava edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura.

A divulgação da lista dos concorrentes, selecionados a partir dos 408 livros inscritos, para segunda fase da premiação se deu no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. Que foi seguida por um coquetel no Paço das Artes.


O Júri Intermediário elege em 31 de agosto, em votação secreta, os 10 livros finalistas dentre os 54 escolhidos pelo Júri Inicial. Serão escolhidos ai os seis profissionais entre seus membros para, junto com os quatro curadores, formar o Júri Final, responsável pela terceira e última etapa do Prêmio.

Em 8 de novembro, a divulgação dos vencedores será feita pela Portugal Telecom em cerimônia de premiação.

O primeiro colocado ganhará R$ 100 mil, o segundo R$ 35 mil e o terceiro R$ 15 mil. Os vencedores receberão um troféu idealizado pelo artista plástico Paulo Von Poser.

Entre as 54 obras semifinalistas, a maioria são autores e obras brasileiros (48),  seguidos por portugueses (4),  angolanos (2) e um moçambicano.


Semifinalistas:

- "A Boca da Verdade", de Mario Sabino
- "A Casa Deles", de Ana Paula Pacheco
- "A Cidade Ilhada", de Milton Hatoum
- "A Minha Alma É Irmã de Deus", de Raimundo Carrero
- "A Passagem Tensa dos Corpos", de Carlos de Brito Mello
- "A Teoria do Jardim", de Dora Ribeiro
- "Aleijão", de Eduardo Sterzi
- "Algum Lugar", de Paloma Vidal
- "Antes de Nascer o Mundo", de Mia Couto
- "AvóDezanove e o Segredo do Soviético", de Ondjaki
- "Barroco Tropical", de José Eduardo Agualusa
- "Bili com Limão Verde na Mão", de Décio Pignatari
- "Boa Noite, Senhor Soares", de Mario Claudio
- "Caim", de José Saramago
- "Céu de Origamis", de Luiz Alfredo Garcia-Roza
- "Cine Privê", de Antonio Carlos Viana
- "Coração Andarilho", de Nélida Piñon
- "Crônicas da Mooca", de Mino Carta
- "Do que Ainda", de Júlio Castañon Guimarães
- "Escarnho", de Paulo Franchetti
- "Estive em Lisboa e Lembrei de Você", de Luiz Ruffato
- "Golpe de Ar", de Fabricio Corsaletti
- "Inverdades", de Andre Sant'Anna
- "Lar,", de Armando Freitas Filho
- "Leite Derramado", de Chico Buarque
- "Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova", de Nei Lopes
- "Matriuska", de Sidney Rocha
- "Meu Amor", de Beatriz Bracher
- "Miguel e os Demônios", de Lourenço Mutarelli
- "Moça com Chapéu de Palha", de Menalton Braff
- "Monodrama", de Carlito Azevedo
- "No Mundo dos Livros", de José Mindlin
- "O Albatroz Azul", de João Ubaldo Ribeiro
- "O Filho da Mãe", de Bernardo Carvalho
- "O Gato Diz Adeus", de Michel Laub
- "O Livro dos Mandarins", de Ricardo Lísias
- "O Meu Nome É Legião", de António Lobo Antunes
- "O Seminarista", de Rubem Fonseca
- "O Sexo Vegetal", de Sérgio Medeiros
- "Olhos Secos", de Bernardo Ajzenberg
- "Os Espiões", de Luis Fernando Veríssimo
- "Outra Vida", de Rodrigo Lacerda
- "Passageira em Trânsito", de Marina Colasanti
- "Perdidos na Toscana", de Afonso Romano Sant'Anna
- "Poemas do Brasil", de Maria Teresa Horta
- "Pornopopéia", de Reinaldo Moraes
- "Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?", de António Lobo Antunes
- "Rei do Cheiro", de João Silvério Trevisan
- "Se Eu Fechar os Olhos Agora", de Edney Silvestre
- "Sob o Céu de Samarcanda", de Ruy Espinheira Filho
- "Tabasco", de Lucila Nogueira
- "Um a Menos", de Heitor Ferraz Mello
- "Violetas e Pavões", de Dalton Trevisan
- "Yuxin", de Ana Miranda

Os onze membros que comporam junto aos curadores o júri intermédiario são:



Alcides VillaçaProfessor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo USP
Allison Marcos LeãoProfessor de Literatura Brasileira da Universidade do Estado do Amazonas UEA
Antonio Carlos SecchinPoeta, ensaísta e crítico literário
Antonio TorresEscritor
Beatriz ResendeTradutora e interprete
Cristovão Tezza Professor e escritor
Jerusa Pires Ferreira Professora de Literatura Brasileira da Universidade Católica de São Paulo
José Castello Escritor e crítico literário 
Lourival Holanda Professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Pernambuco UFPE
Regina Zilberman Escritora e Professora de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS
Sergio de Sá Professor e colunista do Jornal Correio Braziliense Caderno Pensar


Do  júri intermediário saírão os 06 participantes a compor o júri final que definirá os vencedores da edição 2010 a ser divulgada em novembro, aguardemos



Maiores detalhes em: http://www.premioportugaltelecom.com.br/2010



Boa sorte a todos.





segunda-feira, 10 de maio de 2010

Três Marias dolorosas


Maria, embora fosse de uma família de classe média em uma cidade onde isso é uma das cartas de referência para toda comunidade, era independente, como a mãe que na cidade pequena, sempre fêz escola em atitudes que por vezes podiam causar escândalos e comentários maldosos.
Maria foi miss da cidade, foi estudar fora, foi cuidar da vida...
Conheceu um rapaz, que era da mesma cidade, mas que assim como ela foi fazer faculdade fora, e embora morando em cidades diferentes, ela viajava até ele, ele viajava até ela, ambos viajavam até a cidade natal.
Foram anos nesse vai-e-vem, amor crescente, desejo ardente, passeios, cerveja em barzinho, retórica e discussões filosóficas...
A mãe de Maria, que há muito vinha doente, morreu, e ela como filha amantíssima, abatida, sofrida, carente... Ele estava na cidade, foi até ela, e levou-a a um canto para conversarem, e assim, antes do cortejo fúnebre sair, terminou o relacionamento.
***
Maria Amália, prima de meu pai, porém, um tanto mais velha que ele... Naquele tempo, anos 1950/60, interior de cidade nordestina, família séria, onde moça tinha que ter recato, Amália arrumou um namorado...
Flertaram, namoraram, noivaram, casaram...
Maria Amália de branco, como devia ser e grinalda de flor de laranjeira, representando sua pureza...
Depois da festa, Amália e o noivo foram para a casa que haviam mobiliado com carinho, os brocados, paninhos bordados e crochês feitos com capricho, por ela mesma
Lua de mel, ele a penetra com volúpia e prazer, desvirginando-a, perde-se o hímen, perde-se a pureza, torna-se mulher.
Ele saciado levanta, a manda tomar banho, e ele diz quando ela retorna entre envergonhada e suponho feliz: “_Agora volte pra casa do teu pai e diga que te mandei de volta porque você não era mais virgem e me enganou. Se você não confirmar essa história e seu pai e seus irmãos vierem tirar satisfação comigo eu mato seus irmãos, mato seu pai, e depois mato sua mãe e mato você também.
Só se soube da história muitos anos depois, quando o sujeito já não mais existia por ali; ela casada com outro homem que a respeitava e com quem viveu com até a morte.
***
Maria da Graça era nordestina, negra e analfabeta, oriunda de quilombolas de Oeiras – PI. Trabalhava na Granja, pelava frangos desde que ainda não havia peladeira elétrica e tudo era feito a mão. Para isso, acordava às quatro da matina nos dias de semana e às duas da madrugada aos sábados,  domingos e feriados. Além de não saber ler, também desconhecia as diferenças cédulas de dinheiro. Tanto fazia dar-lhe uma nota de cem, como de um. Para ela não havia diferença. Imaginem o tanto que não deve ter sido ludibriada.
Lavava e engomava roupa pra fora, sempre utilizando um daqueles ferros de ferro, o qual se aquece colocando-se carvão em brasa em seu interior, não se entendia bem com ferro elétrico. Vai ver quer que era como tia Alice (tia de um amigo), que usou fogão a lenha até morrer, pois não acreditava que comida em fogão a gás prestasse.
Gostava de usar um lenço na cabeça, e ficava uma graça com uma sainha branca e rendada em três babados que tinha, mas nunca acreditava quando dizia a ela que lhe caia bem, achava sempre que eu estava a caçoar.
Tinha uma casinha pitoresca, com um pé de caju à frente, que frutificava ano a ano, ignorando o terreno pedregoso que ela varria com vassoura feita com pés de velame ou outro mato similar que não sei o nome.
Casou-se com João, que um dia foi embora atrás de trabalho e ligava sempre aos domingos à casa de minha tia para falar com ela. O tempo passou e os telefonemas pararam abruptamente. João cansou, ou casou, ou morreu, quem há de saber?
Tempos depois, Graça arrumou um outro homem. Mais moço, mais branco, mais esperto, mais sem-vergonha. Bebia de vez em quando, e até por isso entre sabe-se lá quantos outros motivos, vez ou outra se separavam, mas logo ele ia atrás dela novamente e reatavam.
Um dia ele bebeu, eles discutiram e... Com um pedaço de pau, ele bateu nela até matar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Observações esparsas sobre uma cidade sem eixo narrativo.


Ao chegar a Maceió, o assédio de taxistas no aeroporto é enorme, mas o ônibus que vai para Ponta Verde passando pelo centro e por Pajuçara sai da frente dele, e por apenas R$2,00 pode levá-lo até às duas das principais praias da cidade.

No trajeto, logo você vai assustar-se com um córrego fétido que toma grande parte do caminho e divide uma das principais avenidas de acesso à orla. Infelizmente, este esgoto a céu aberto, escuro e de odor extremamente desagradável, vai desembocar em uma praia, obviamente imprópria, onde talvez pelo cheiro acre constante, não se instalaram ali as quadras de esporte que se encontram sucessivas em praias vizinhas como Sete Coqueiros e Pajuçara.

De Sete Coqueiros à Ponta verde e de lá à Jatiúca, pode-se observar que a orla ostenta prédios sofisticados, embora muitos deles em terrenos mínimos, com pouco ou quase nenhum recuo. Em Pajuçara, o tom escuro predomina nos prédios, sabe-se lá por quê. O mármore é onipresente nos revestimentos, mas não quer dizer que embeleze, pelo menos não a meus olhos. Ao contrário, lembrou-me o comentário atribuído a esposa de Giscard D'Estaing (então presidente francês, quando da visita o Brasil, em outubro de 1978): “O Brasil um país tão pobre e utiliza tanto mármore...”

Aliás, a diferença entre as classes é aviltante, tanto que pode-se encontrar pessoas utilizando-se de um cano de água a vazar na rua para lavar roupas (foto), enquanto a grande maioria dos carros tem ar-condicionado, imperando os de grande porte.

Na orla ficam ótimos restaurantes e o atendimento é muito bom, assim como a comida farta e barata.

A variação de preços na pousadas é grande, então vale a pena pesquisar. Infelizmente não consegui achar uma sequer que tivesse ventilador ao invés de ar condicionado. Aliás, atendentes de pousadas e garçons são simpaticíssimos por lá.

O calçadão é fartamente arborizado por coqueiros, dando um astral agradável em tons e cores característicos. Uma extensa ciclovia se estende por toda essa orla, mas os moradores não a utilizam: os ciclistas preferem andar pela pista destinada à caminhada e, então, as pessoas transitam pela ciclovia. Em todo caso, a existência da ciclovia por si, mostra uma preocupação com uma estética que possa ser utilitária e ao mesmo tempo bonita. 

Infelizmente as igrejas no Centro Histórico não abrem aos domingos, o que é uma pena; por sinal, o local fica completamente deserto. E, apesar de um ou outro prédio, o histórico do Centro é incipiente.

O enorme monumento a Teotônio Vilela, mantêm o ar condicionado ligado constantemente, no calçadão de sete coqueiros, e quem sai do calor para aquele ar gélido corre o risco de um choque térmico! O monumento de Niemeyer tem ao alto uma escultura em concreto, que pretende lembrar uma foice e um martelo, mas recordou-me mais uma cabeça de “Alien, o oitavo passageiro”. Mas afinal, aquele arquiteto também faz monumentos... E este, por incrível que possa parecer,apesar da autoria, ainda tem grama e coqueiros; menos mal. Pretende-se ali cultuar a memória do “estadista”, que pretendem transformar em arauto do socialismo, por sua luta em favor das liberdades políticas e da redemocratização do país. Mas ele não foi membro da UDN e posteriormente da ARENA, braço de sustentação da ditadura militar?

O Mercado Central é um tanto sujo e desorganizado, com produtos expostos na linha do trem, sem o glamour mostrado em recentes programas de TV. Encontrei algo que procurava há algum tempo, sem sucesso em outros estados; deve ter caído em desuso, mas em época de dengue pode ser um acessório bastante útil: um mosqueteiro! Sim, lá eles ainda são vendidos e depois tornei a encontrá-los em Penedo, Neópolis, Aracaju... Mas, enfim, tem coisas que é melhor comprar de cara; já perdi inúmeros itens por deixar para comprar na próxima cidade, e nunca mais vê-los.

O artesanato local não empolgou, nem mesmo indo atrás dele, no Pontal da Barra, onde supostamente viveriam as rendeiras de Maceió. Pode ser que empolgue o leitor se este nunca tiver ido a Fortaleza, Teresina ou João Pessoa. 

Fotos: Djair