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quinta-feira, 27 de abril de 2017

Fora Livros, fora!

Fora tu, livro.
Vai esfregar-te nos olhos de outros,
Não nos meus, que já te leram.
Faz com que sofram como eu sofri, com a sina de teus personagens, e a vil personalidade dessa gente bandida que descreves.
Fá-los sorrir com as tiradas de tuas páginas, como me fizeste gargalhar.
Encanta-os com a sutileza de tuas metáforas,
E tu outro, de capa dura, vai e ajuda o professor a enraizar em solos áridos, a raiz do aprendizado,
Para que ali floresça o conhecimento.

Saiam, saiam das estantes e ide por aí a ganhar o mundo.

Que vos pintem em cores fortes as personagens, as paisagens e, na falta de palavras para traduzir, todo o abstrato. E se me faltam, que as sorvam em ti, onde profusas proporcionam salutares benesses.
Despertai noutros seres, outras palavras tantas,
Para que assim eles produzam outros livros
Começando novo ciclo de escrita, leitura, descoberta e prazer.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Da fragilidade das relações



“Há algo  inevitável na queda de deuses; não caem um pouco de cada vez, desmoronam abruptamente e se espatifam, mergulhando no lodaçal. É um trabalho árduo e tedioso tornar a erguê-los, mas a verdade é que nunca mais brilham como antes.” 
John Steinbeck
O Elan
A amizade se dá por um ato de afinidade, de aproximação de curiosidade pelo que o outro é. O que sente; o que vê; o que viu. Como reage às coisas, o que quer ver, provar, sentir.
A tentativa de absorver no (do) outro sensações, fantasias, sonhos, colher pensamentos e razões.
Tillandsias em flor - Foto: Djair

O congraçamento
E no intuito de se reconhecer no outro, acaba-se, por também colocarmos todas as cartas à mesa. Sem, importar, se os naipes são de fantasias, de dor, amor, alegria, tristeza, ou se trazem apenas futilidades e mimos que se cultiva sem deles apercerber-se. E assim, tenta-se manter a simbiose. Comparando vinhos, degustando filmes, provando saladas e preferindo as carnes, escondidinhos...
 O esgarçamento
Mas a mais das vezes, tudo é frágil, fugaz, neblinado. E sem que se deem conta, ou talvez porque saibam de ambos o tamanho da carga de existir, se afastam. Distanciam-se sem alarde, tentando fazer silêncio para que a fuga não seja percebida, embora na maioria essa fuga, que o silêncio acoberta, seja recíproca.
 O rompimento
O momento do “creck”, onde se dá a primeira rachadura na porcelana, onde se inicia o rompimento, a mais das vezes, não nos é dado perceber com clareza. Pequeninas coisas, um gesto rude, uma palavra dita em tom de escárnio, um abuso na confiança, atos sutis... Um pequeno ciúme despertado por uma amizade outra, um descaso com algo que para o outro tem grande importância, uma piada feita na hora errada, a atenção maior ao celular ou a contínua interrupção quando falamos. A necessidade de ser o centro das atenções em qualquer ocasião lustrando seu ego, e colocando-o acima do super-ego dos demais... Qualquer deles pode ser o gatilho do primeiro disparo, a partir daí não há retorno, somam-se impactos. E como as ondas apagando pegadas, os sentimentos comuns e as ideologias afins, já não são nítidas, não se partilham. O tempo, esse se encarrega do resto, às vezes em cumplicidade com a distância, sua amante preferida. E assim, nem é preciso esperar o Alzheimer para que se esqueçam nomes.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Anatomia

Foto: Djair
Quase tudo dói
Alma, coração ou outro órgão qualquer onde se guardem os sentimentos.

Quase tudo se rói,
Amores, ódios, amizades, lamentos.

Hoje tudo está roto,
Como a figueira sem figos ou a roseira sem brotos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

E o cheiro persiste...

Naquele dia, no início da tarde, ela pegou o ônibus com destino à capital, levava o filho pela mão, tinha seis ou sete anos, não mais que oito. Apenas uma valise, voltaria no dia seguinte, ia apenas para a festa de casamento da prima, levava a roupa do filho e a dela, o vestido de festa e a lingerie nova, que tinha custado um rim, já que o vestido era decotado e deixava transparecer alcinhas e rendas da peça superior.
A festa deve ter sido boa afinal, deve ter comido à beça, e assim no dia seguinte lá rumava ela de volta à cidade onde morava, não chegavam a 400 quilômetros, mas o ônibus fazia um pinga-pinga por outras cidades antes de chegar ao destino, e assim, ai de quem precisasse fazer o tal translado em coletivos. Amargava-se umas 06 horas de estrada.
Mal o veículo partia e ela sentiu o primeiro sinal de que algo não ia bem, a pontada fina da cólica logo acima do umbigo a fazendo suar frio. Não, não havia banheiro no ônibus...
Para sua sorte, ela pensou, logo na saída da capital o ônibus parava num posto de combustível para pegar uma carga que levaria, e alguns passageiros. Aproveitando a pausa, deixou o filho ali, já que ocupavam os primeiros bancos, desceu pedindo ao motorista só um instante, e correu ao toillete. Chegando lá, a porta fechada... Alguém informou que precisava pegar a chave no caixa, correu pra lá, pediu, pegou e correu de novo ao reservado. Mal enfiou a chave na porta sentiu que era tarde, escorriam-lhe pelas pernas o que tinha comido na festa...
A calcinha, da festa, aquela cara, que ela usara pela primeira vez, ficou ali mesmo no cesto de papéis, e com papel higiênico ela tentava limpar coxas, pernas, flancos... O vestido, não sabia como ou por qual sorte não havia sido atingido. Na torneira, parcos pingos caíam, impossibilitando uma melhor higienização, o desespero que parecia não ter como piorar provou como sempre que o pior não tem limites: começou a ouvir a buzina do ônibus, que o motorista tocava com pressa e nervosismo, dando a entender que ela já devia estar de volta a seu assento há algum tempo. Limpou-se como deu, a meia calça que tinha na bolsa foi juntar-se à calcinha nova no cesto, aprumou-se, ergueu a cabeça e entrou no ônibus, pedindo desculpas ao motorista, desconfiada, envergonhada, vencida.
Mal o ônibus deu partida, janelas abertas, lá atrás alguém grita: _Motorista, estão peidando aí na frente!
Outro responde gaiato: _Peidando nada, tão é cagando mesmo!
Ela afunda-se na poltrona, sente o calor que acompanha o rubor nas faces, e continuando a máxima de que sempre se pode piorar, ouve do filho: _Nossa mãe, é você. Você tá fedendo...Eu não tô aguentando não, vou sentar lá atrás.
_Vai não, que aí é que todo mundo vai saber, pode ficar aqui comigo!
_Não mãe, eu não tô aguentando não, deixa eu ir lá pra trás.
_De jeito nenhum, pode ficar aqui.
E assim a pobre criança teve que ficar resguardada sob os eflúvios do que tinha sido um jantar elegante numa festa chique. Lá atrás, volta e meio, um manifesto em alto brado retumbante contra a emanação mal cheirosa, que era prontamente respondido por um e outro comentário em tom de chacota.
Duas horas depois, o ônibus faz sua parada para um café. Vencida, mas não derrotada, sentindo um certo alívio apesar de todo o desconforto, ela desce, pede ao filho que vá comer algo, entregando-lhe o dinheiro, e corre ao caixa, compra um sabonete, daqueles verdes, baratinhos, que era o que havia na parada simples da cidadezinha que pouco mais era que um povoado. Compra de uma vez três litros de água, sem gás, sem gelo, e no banheiro, lava as pernas como pode, mãos, braços, uma, duas, três vezes... Enfim termina, quando todos já estão subindo de volta ao ônibus. Pergunta se o filho comeu, esse diz que sim, para ela já não há tempo para sequer um café, compra mais uma água, dessa vez uma garrafinha, gelada, mas assim sem gás, pois o burburinho em seu interior ainda grande, não vai arriscar.
Sobe ao ônibus com a criança, num suspiro aliviado encosta as costas na poltrona, vira de lado e tenta sorrir para a criança que a olha e responde ao sorriso da mãe com um comentário: _Hummmm mãe, não adiantou nada, você ainda tá fedendo!

Foto: Djair