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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Ser, Não ser, Tornar-se.

Já não sou quem eu era. 
 
Sim, pois mudamos a cada minuto, não apenas com rugas novas ou mais um fio de cabelo branco, mas o modo de ver as coisas; não no que se refere à perda de visão, cataratas, miopias e outras que se acentuam com a velhice, mas o modo de perceber as coisas, pessoas, sentimentos, ações…

Também não sou o que eu queria ser. E ser metamorfose não é questão de preferir ou escolher, é de viver, lutar, perceber, perceber-se, sobreviver… Além do “estar”, “ser”. Sem essa de “to be”, que ser é muito mais profundo que estar, pois independentemente de onde e como se “está” o que se é, é ainda maior. E embora o fato de “estar” interfira metamorfoseando o ser, ele é.

A vontade de ser outro o torna uma pessoa que não aquela que gostaria de ser, e ainda uma diferente daquela que é. Como que comunga-se de ambos e se torna aí uma terceira pessoa. Não, deixemos Freud e a teoria dos recalques fora disso, afinal, “um charuto é as vezes apenas um charuto” não disse ele mesmo?

As expectativas, correspondidas ou não, os lugares, as pessoas, os signos redescobertos, redefinidos, redesenhados, alinham pareceres claros e obscuros num jogo de luz e sombras, encerram visões açucaradas e freios controladores, a lagarta entra na solitária repressora do casulo para metamorfosear, e dali sai, tanto faz se mariposa ou borboleta; se liberta, completa, já não é lagarta.

E a barata de Kafka? E a mosca de Cronenberg?

E se a mosca pousa na sua sopa? Você a espanta ou se espanta? O que lhe causa espanto? A mosca ou o medo de ser a mosca?




Foto: Djair - Espantalho - Parque D. Carlos I - Caldas da Rainha, Portugal - 05/10/2017 - Evento: Tradições da Vila.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ocasos e Alvoradas

"De repente a gente vê que perdeu 
Ou está perdendo alguma cois
 Morna e ingênua 
Que vai ficando no caminho  
Que é escuro e frio, mas também bonito 
Porque é iluminado 
Pela beleza do que aconteceu 
Há minutos atrás"




Foto: Djair - Pôr do sol visto do Parque D. Carlos I, Caldas da Rainha.

    Chegando para viver em Portugal, passeio por parques, monumentos, museus, igrejas, antigos casarios, deslumbrantes em seus detalhes de acabamentos suntuosos ou singelos, mas que buscam acima de tudo tornar bela a paisagem; azulejos, jardins bem cuidados, e as pereiras - com seus últimos frutos a brilhar sob a luz do sol de outono - a mais bela - tornando seus variados tons amarelos em ouro 16, aquele mais pálido, cujas frutas vão despedindo-se e, caindo à terra, vão de novo fertilizá-la para tornarem doces os frutos do ano vindouro. Em seus lugares começam a aparecer, nos jardins e pomares, as maçãs, a avermelhar-se e então, em breve, o pomo de ouro em breve rivalizará com o brilho do sol, justamente por receber dele os raios que na casca lustrosa se refletirá.

    Nos parques, as amarílis numa mescla de branco e rosa reinam absolutas, rainhas postas sobre um rei morto, o que existia nos tons lilases e brancos de agapantos, dos quais só vejo que floresceram e que agora estão cheios de sementes. Não os alcancei no esplendor, mas não há problemas, esperarei um ano e eles tornarão ao trono.

    Vindo de período um tanto agridoce,  - no que tange a muitas coisas, mas a maioria delas de particular envolvimento emocional, e mesmo romântico, já que tenho como sina esse modo de achar que as coisas darão certo, que a arte vai nos levar a um lugar melhor, que fazer o mundo mais belo envolverá a todos - tenho ido a museus, ouvido concertos, e pasmem, até a uma missa assisti... Se vissem a igreja de Nossa Senhora do Pópulo, em Caldas da Rainha, entenderiam o que me levou a fazê-lo; não que a cerimônia em si tenha a mim dito qualquer coisa…

    Tenho conversado com pessoas interessantes, e todo mundo o é, cada um é uma experiência, e a cada um desperta uma sensação. Mas alguns mais que outros nos fazem os achar assim.

    E, é assim que tenho passado os dias, inebriado por coisas que queria que houvessem do outro lado do Atlântico e não sei porque é que não acontecem, porque não vingam. Secretários de cultura, prefeitos, governadores, todos viajam, mas porque não cuidam também dessa coisa, que é fazer belo e agradável o lugar onde se vive, e para todos? Não, vou conter-me, e não vou falar de edis que preferem cinza nos muros, e muros... e cinza… Não, não é um texto panfletário.

    Esse, é um texto sobre esse meu momento de deglutição, um texto sobre o processo de percepção de um monte de coisas mal digeridas, e também por um outro lado sobre esse momento de nutrição, pois a nutrição ora se faz presente. Mas o fato de estar a ser nutrido faz também com que eu queira que todos também o sejam. Com a segurança que nos permita andar nas sombras, no escuro, e ver seu contraste com a luz. Com a beleza que torna leve tudo o que engolimos de feio no cotidiano, e venha essa beleza de onde vier, seja como for percebida, pela visão, pela audição, pelo paladar, pelo olfato, pelo tato, quer seja pelo etéreo, pois que só sentimos, e é aquele sentimento de estar bem, alegre, satisfeito e sem saber o porque, sem sequer perceber, apenas a sentir. Às vezes, é essa mesma beleza que traz uma pequena tristeza, fruto de saudades e reflexões diversas, e é mesmo para isso que ela serve, para despertar as emoções. Como digo a respeito dos filmes, um filme é bom se desperta algum sentimento, assim é a arte, assim é a beleza, seja ela manipulada pelo homem, um desenho, um jardim, uma pintura ou um poema, quer seja pela natureza que retorceu um galho, ou pelo sol que fez com que a sombra desse mesmo ramo se projetasse de tal ou qual forma. Que as possamos perceber todas.


"Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saíba, 
e, que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer." 
Oswaldo Montenegro

domingo, 17 de setembro de 2017

Segurança

Parque Dom Carlos I
Cá em Caldas da Rainha, Portugal, percebo o quanto nos faltam diversas coisas no Brasil, tolerância, dignidade, respeito, autoestima, segurança. Não que passassem despercebidos antes, ao contrário, sempre foram percebidos, mas o contraste quando se vê é ainda maior, das duas vezes anteriores que vim a Europa foram viagens de turismo e o olhar turístico também nos faz perceber muitas coisas, lembro que a primeira vez na Espanha, em Sevilha, as três da madrugada caminhávamos voltando de uma apresentação de flamenco onde o jantar ainda mais se estendeu, era uma rua semi-deserta, um tanto escura, onde haviam trechos em obras, e me surpreendi com um casal a sacar dinheiro em um caixa eletrônico sem sequer olharem para os lados, vês essa cena aí no Brasil? Outrossim, os caixas eletrônicos aqui são apenas máquinas encaixadas em uma parede qualquer, sem qualquer aparato de vidro ou paredes a cercá-lo, uma máquina na parede á beira da calçada e pronto. Enquanto que no Brasil custam mais caro, ao mais das vezes ergue-se um cômodo de vidro… É como as estações de metrô com pisos de mármore, redomas de vidro, enquanto cá são apenas também acessos, com piso de cimento, entra-se e pega-se o trem. Nada contra as estações da Paulista onde vemos obras de arte, painéis de Tomie Ohtake, reproduções de obras do Masp. Isso é outra coisa, é arte, já tão em falta e vilipendiada. Mas pisos de mármore redomas de vidro na entrada quando se tem uma linha pífia parece um tanto desnecessário.


Uma vez, comentando com um amigo sobre essas coisas, disse-me ele que Anne-Aymone Sauvage de Brantes, esposa do presidente francês (Valéry René Marie Georges) Giscard d'Estaing em sua visita ao Brasil (1978) teria perguntado como um país tão pobre como o Brasil podia usar tanto mármore simplesmente revestindo paredes de prédios. Até já citei isso no texto “Observações esparsas sobre uma cidade sem eixo narrativo”. Aqui no blog, quando falava sobre os prédios (feios) de Macéio, que não tem praticamente recuo (pelo menos em trechos que visitei), mas são revestidos com essa pedra. Bem, quem quiser clique acima e leia o texto, esse é sobre outras coisas…

Mas o que me despertou para esse texto foi um acontecido, por estar a residir próximo ao Parque D. Carlos I, Bem, ontem a noite já começava a escurecer, deviam ser entre 20 h a 20h30, pois bem, muitas pessoas cruzam o parque como um atalho, e eu descia por sua lateral, e fazer o mesmo, por uma das trilhas de terra, ladeada pelos ciprestes, pois bem, segundos antes de entrar por esse portão, entra lá também uma moça com algumas sacolas de compras, em seguida entro eu, vendo-a descer uma rústica escada feita pelas raízes das árvores de ali, pensei: Ela irá se assustar com uma figura masculina a seguir-lhe os passos a essa hora, com o escurecer do crepúsculo, e o deserto com que se torna o parque a essa hora devido ao vento frio que corria. Lembrei-me da insegurança das mulheres nos campus universitários do Brasil, dos ataques e violências de toda espécie. Pois muito bem, a moça continuou seu caminho, e embora eu tenha atrasado o passo em atenção a ela e sua sensação de segurança, a mesma sequer olhou para trás, manteve seu caminhar a mesma velocidade e atravessou o parque num sentido ainda menos movimentado do que o que eu segui.

Vitrine de loja de Cerâmica em Caldas da Rainha - Foto: Djair
Há também aqui as famosas cerâmicas que tradicionalmente trazem a forma de falos, de tamanhos variados, desde a miniatura até os Hercúleos de proporções assombrosas, de todas as cores possíveis, dos mais diversos formatos, inclusive o famoso caralho de asa. Estão às vitrines de todas as lojas, sem que ninguém se choque, sem que nenhum “cidadão de bem” ou fanático religiosos que não fez terapia para tratar seus recalques vá a um juiz igualmente tosco para proibir-lhes a exibição e comércio, ou que lhes quebrem as vitrines… E em seu sossego, sem censura, dizem cá os artesãos que o fazem, após encerrarem seu turno de trabalho: “Hoje já não faço mais caralho nenhum!”


Difícil terminar o texto sem emitir mais algum juízo de valor, então termina aqui, como começou, com reflexões e sentimentos variados. Que possamos todos sentir-nos seguros.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Até breve



Bem, pediram-me para discursar na festa de despedida que tão gentilmente me prepararam, com tanto carinho que até convidaram a ela, meu companheiro. Como disse ali, constrangido por falar em público, ainda que cercado de pessoas queridas, não sou bom com palavras verbalizadas oralmente, ainda mais quando de improviso. Não que seja melhor com elas escritas, mas me saem muito mais fácil. Diante disto…

            Quero agradecer a todos os envolvidos, direta ou indiretamente nesse gesto de carinho e respeito, “quase” surpresa. E ainda agradecer a convivência, a atenção e respeito dos colegas (servidores e bolsistas) que ali não puderam estar, por diferença de horário de trabalho, - coisa que volta e meia gera descontentamentos e bochichos, mas que não é senão contingência de um trabalho feito em turnos -, e/ou tantos outros motivos.

            Dois anos passam rápido, tanto que já estou no Espírito Santo há três… Mas todo afastamento traz em si o ensejo de despedidas e emoções que advém de tal condição. Assim, não é apenas pela alegre despedida que me prepararam, mas pela convivência salpicada aqui e ali de momentos de carinho. Acredito que cada um procura dar o melhor de si em tudo que faça, sim é claro existem exceções flagrantes, mas no geral é o que fazemos, e muitas vezes o melhor de um  não o parece para o outro, e geram-se interstícios de desencantos. Assim, aproveito para pedir desculpas a todos pelos momentos em que o cansaço, correria, pressa e pressão tenham feito com que agisse de forma desagradável ou ríspida.

            Aproveito ainda para agradecer a confiança, camaradagem e respeito da direção que me permitiu levar à biblioteca tantas exposições e atividades culturais em tão pouco tempo, o que me possibilitou o mestrado que ora inicio, e também pelo período que estive à frente da Divisão de Assistência ao Usuário, coisa que não queria, mas que foi necessária. E aí a cooperação de todos vocês foi mais que nunca imprescindível por tornar mais leve o fardo do “administrativo”.

            Agradeço a todos a participação nas palestras, saraus, encontros literários, que permitem tornar a biblioteca viva, atuante e não apenas um depósito de livros, fazendo assim com que se gere cultura e conhecimento, e não apenas guarde os suportes que levam a isso.

            Agradeço sorrisos, palavras de incentivo, olhares cúmplices, happy hours, arrastar de mobiliário, as festas a que fui convidado, as caminhadas em períodos de greve, os tantos cafés (e muitos sabem o quanto um café é necessário na vida de alguém. Rsrsrs)

            Agradeço aos bolsistas que facilitam tanto nosso trabalho e por vezes assumem tarefas de linha de frente. E que quando eu voltar, a maioria já estará formada, e, desejo, terão se tornado profissionais de sucesso em suas áreas.

            Poderia continuar a discorrer e a agradecer a tanta coisa vivida com vocês, mas antes de que essa se torne uma carta testamento e ainda mais enfadonha, termino por aqui. Sintam-se queridos e abraçados, cada um vocês. Mais uma vez… Obrigado por tudo. E até breve.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Fora Livros, fora!

Fora tu, livro.
Vai esfregar-te nos olhos de outros,
Não nos meus, que já te leram.
Faz com que sofram como eu sofri, com a sina de teus personagens, e a vil personalidade dessa gente bandida que descreves.
Fá-los sorrir com as tiradas de tuas páginas, como me fizeste gargalhar.
Encanta-os com a sutileza de tuas metáforas,
E tu outro, de capa dura, vai e ajuda o professor a enraizar em solos áridos, a raiz do aprendizado,
Para que ali floresça o conhecimento.

Saiam, saiam das estantes e ide por aí a ganhar o mundo.

Que vos pintem em cores fortes as personagens, as paisagens e, na falta de palavras para traduzir, todo o abstrato. E se me faltam, que as sorvam em ti, onde profusas proporcionam salutares benesses.
Despertai noutros seres, outras palavras tantas,
Para que assim eles produzam outros livros
Começando novo ciclo de escrita, leitura, descoberta e prazer.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Da fragilidade das relações



“Há algo  inevitável na queda de deuses; não caem um pouco de cada vez, desmoronam abruptamente e se espatifam, mergulhando no lodaçal. É um trabalho árduo e tedioso tornar a erguê-los, mas a verdade é que nunca mais brilham como antes.” 
John Steinbeck
O Elan
A amizade se dá por um ato de afinidade, de aproximação de curiosidade pelo que o outro é. O que sente; o que vê; o que viu. Como reage às coisas, o que quer ver, provar, sentir.
A tentativa de absorver no (do) outro sensações, fantasias, sonhos, colher pensamentos e razões.
Tillandsias em flor - Foto: Djair

O congraçamento
E no intuito de se reconhecer no outro, acaba-se, por também colocarmos todas as cartas à mesa. Sem, importar, se os naipes são de fantasias, de dor, amor, alegria, tristeza, ou se trazem apenas futilidades e mimos que se cultiva sem deles apercerber-se. E assim, tenta-se manter a simbiose. Comparando vinhos, degustando filmes, provando saladas e preferindo as carnes, escondidinhos...
 O esgarçamento
Mas a mais das vezes, tudo é frágil, fugaz, neblinado. E sem que se deem conta, ou talvez porque saibam de ambos o tamanho da carga de existir, se afastam. Distanciam-se sem alarde, tentando fazer silêncio para que a fuga não seja percebida, embora na maioria essa fuga, que o silêncio acoberta, seja recíproca.
 O rompimento
O momento do “creck”, onde se dá a primeira rachadura na porcelana, onde se inicia o rompimento, a mais das vezes, não nos é dado perceber com clareza. Pequeninas coisas, um gesto rude, uma palavra dita em tom de escárnio, um abuso na confiança, atos sutis... Um pequeno ciúme despertado por uma amizade outra, um descaso com algo que para o outro tem grande importância, uma piada feita na hora errada, a atenção maior ao celular ou a contínua interrupção quando falamos. A necessidade de ser o centro das atenções em qualquer ocasião lustrando seu ego, e colocando-o acima do super-ego dos demais... Qualquer deles pode ser o gatilho do primeiro disparo, a partir daí não há retorno, somam-se impactos. E como as ondas apagando pegadas, os sentimentos comuns e as ideologias afins, já não são nítidas, não se partilham. O tempo, esse se encarrega do resto, às vezes em cumplicidade com a distância, sua amante preferida. E assim, nem é preciso esperar o Alzheimer para que se esqueçam nomes.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Anatomia

Foto: Djair
Quase tudo dói
Alma, coração ou outro órgão qualquer onde se guardem os sentimentos.

Quase tudo se rói,
Amores, ódios, amizades, lamentos.

Hoje tudo está roto,
Como a figueira sem figos ou a roseira sem brotos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

E o cheiro persiste...

Naquele dia, no início da tarde, ela pegou o ônibus com destino à capital, levava o filho pela mão, tinha seis ou sete anos, não mais que oito. Apenas uma valise, voltaria no dia seguinte, ia apenas para a festa de casamento da prima, levava a roupa do filho e a dela, o vestido de festa e a lingerie nova, que tinha custado um rim, já que o vestido era decotado e deixava transparecer alcinhas e rendas da peça superior.
A festa deve ter sido boa afinal, deve ter comido à beça, e assim no dia seguinte lá rumava ela de volta à cidade onde morava, não chegavam a 400 quilômetros, mas o ônibus fazia um pinga-pinga por outras cidades antes de chegar ao destino, e assim, ai de quem precisasse fazer o tal translado em coletivos. Amargava-se umas 06 horas de estrada.
Mal o veículo partia e ela sentiu o primeiro sinal de que algo não ia bem, a pontada fina da cólica logo acima do umbigo a fazendo suar frio. Não, não havia banheiro no ônibus...
Para sua sorte, ela pensou, logo na saída da capital o ônibus parava num posto de combustível para pegar uma carga que levaria, e alguns passageiros. Aproveitando a pausa, deixou o filho ali, já que ocupavam os primeiros bancos, desceu pedindo ao motorista só um instante, e correu ao toillete. Chegando lá, a porta fechada... Alguém informou que precisava pegar a chave no caixa, correu pra lá, pediu, pegou e correu de novo ao reservado. Mal enfiou a chave na porta sentiu que era tarde, escorriam-lhe pelas pernas o que tinha comido na festa...
A calcinha, da festa, aquela cara, que ela usara pela primeira vez, ficou ali mesmo no cesto de papéis, e com papel higiênico ela tentava limpar coxas, pernas, flancos... O vestido, não sabia como ou por qual sorte não havia sido atingido. Na torneira, parcos pingos caíam, impossibilitando uma melhor higienização, o desespero que parecia não ter como piorar provou como sempre que o pior não tem limites: começou a ouvir a buzina do ônibus, que o motorista tocava com pressa e nervosismo, dando a entender que ela já devia estar de volta a seu assento há algum tempo. Limpou-se como deu, a meia calça que tinha na bolsa foi juntar-se à calcinha nova no cesto, aprumou-se, ergueu a cabeça e entrou no ônibus, pedindo desculpas ao motorista, desconfiada, envergonhada, vencida.
Mal o ônibus deu partida, janelas abertas, lá atrás alguém grita: _Motorista, estão peidando aí na frente!
Outro responde gaiato: _Peidando nada, tão é cagando mesmo!
Ela afunda-se na poltrona, sente o calor que acompanha o rubor nas faces, e continuando a máxima de que sempre se pode piorar, ouve do filho: _Nossa mãe, é você. Você tá fedendo...Eu não tô aguentando não, vou sentar lá atrás.
_Vai não, que aí é que todo mundo vai saber, pode ficar aqui comigo!
_Não mãe, eu não tô aguentando não, deixa eu ir lá pra trás.
_De jeito nenhum, pode ficar aqui.
E assim a pobre criança teve que ficar resguardada sob os eflúvios do que tinha sido um jantar elegante numa festa chique. Lá atrás, volta e meio, um manifesto em alto brado retumbante contra a emanação mal cheirosa, que era prontamente respondido por um e outro comentário em tom de chacota.
Duas horas depois, o ônibus faz sua parada para um café. Vencida, mas não derrotada, sentindo um certo alívio apesar de todo o desconforto, ela desce, pede ao filho que vá comer algo, entregando-lhe o dinheiro, e corre ao caixa, compra um sabonete, daqueles verdes, baratinhos, que era o que havia na parada simples da cidadezinha que pouco mais era que um povoado. Compra de uma vez três litros de água, sem gás, sem gelo, e no banheiro, lava as pernas como pode, mãos, braços, uma, duas, três vezes... Enfim termina, quando todos já estão subindo de volta ao ônibus. Pergunta se o filho comeu, esse diz que sim, para ela já não há tempo para sequer um café, compra mais uma água, dessa vez uma garrafinha, gelada, mas assim sem gás, pois o burburinho em seu interior ainda grande, não vai arriscar.
Sobe ao ônibus com a criança, num suspiro aliviado encosta as costas na poltrona, vira de lado e tenta sorrir para a criança que a olha e responde ao sorriso da mãe com um comentário: _Hummmm mãe, não adiantou nada, você ainda tá fedendo!

Foto: Djair

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sobre o retorno ao Facebook

Os que me conhecem mais de perto, sabem de minha predileção pelo carmere, tinto, da casa Concha y Toro, no entanto depois de dias tensos e intensos, até os gêneros de primeira necessidade estão se esvaindo aguardando disposição para que se faça o reabastecimento. Então com um Fortant de France, safra 2012, se não me falha a memória presente de Patricia, na última noite de caldos cá em casa, é que anuncio o retorno...
E assim, depois de três meses de exílio, resolvo voltar ao Facebook. Um tempo bom, de irritações diminuídas, a agradecer aqueles que preocupados com minha ausência procuraram números antigos e acabaram por me ligar no fixo, gente que via blog e e-mail mandou notícias, outros que mandaram zaps e sinais de fumaça de diversos outros tipos. Como se diz na atual modinha: “Gratidão”! De verdade. Por outro lado mais de duas dezenas se foram, de vez??? Se assim for... Bye, bye baby, bye, bye... Embora alguns façam realmente grande falta.
Mas enfim, tem muitas fotos nesse perfil que daria trabalho copiar e salvar em outro espaço; muita gente que só tenho contato por aqui; e, claro, também tem os chatos que não fazem parte de meu mundo e nem estão adicionados mas se acham no direito de virem comentar abobrinhas e patasquadas em minhas postagens, gente que posta Prajalpas diversas, gente que compartilha até fotos pessoais mas é incapaz de curtir qualquer coisa antes de compartilhar e acha que é isso mesmo (e talvez seja, o chato aqui sou eu), gente que não perde nada, mas também é incapaz de curtir ou comentar qualquer coisa, e que quando o faz é em "pvt" para assim, não se comprometer, e levanta a bandeira “Rede”, já que “Social” não quer dizer nada nesses casos. T Tem a rede de trabalho, pois às vezes o social dá lugar ao profissional e é por aqui que são agendadas reuniões, saraus, exposições e o que mais der.
Mas têm os que se fazem presentes, os que dão saudades, os que trocam ideias e não apenas palavras, gente que a gente vê a foto e morre de vontade de estar perto, e lembra a última cerveja ou vinho tomados juntos. Tem gente que nunca vi mas que é mais próxima que muito parente, tem de tudo nessa geleia geral que, com licença de Torquato Neto, tomo emprestado o título para metaforizar a ‘rede social’, e assim vamos, mais uma vez, de volta... Até sei lá quando, lembrando que a ausência foi deveras salutar. E assim vamos, mesmo tendo deixado de acreditar em “curtidas”, em “amigos”, em reciprocidade, pelo menos nesse ambiente; de resto, de ingênuo que sou, sigo acreditando naquilo que desde há muito eu devia ter deixado de acreditar, que está no ar, nas entrelinhas, aqui no blog...

“Metade de mim agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto, depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só.”

Foto: Tania Macedo - Eu, em uma das edições do Premio Portugal Telecom de Literatura.
Poesia citada: Trecho da música O Anjo mais velho

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Primeira infância

A recordação mais antiga que trago - e talvez já tenha falado disso, pois parece que já contei tudo o que tinha a dizer - possivelmente é a de minha mãe a me comprar lanche numa lanchonete, onde havia um enorme aquário cujos peixes me encantavam. Talvez por isso a partir dos nove, ou dez anos de idade, nunca mais tenha deixado de tê-los, senão por breves hiatos. Mas o texto de hoje não é sobre eles, nem sobre as duas ciganas exóticas que naquele café estavam e que me chamavam atenção com seus muitos colares, brincos e pulseiras, anéis e roupas coloridas, as quais me lembro ser saias enormes, enriquecidas com muito pano e de um vivo cor de abóbora de fazer inveja ao próprio fruto.

A cidade era São Mateus do Sul, no Paraná, e como já enunciado, dela pouco me lembro; o que sei, na maior parte, é o que me contaram... Que dei banho numa galinha, com café, e de garrafa térmica em punho fui surpreendido em plena ablução… Que não gostei de meu tio Antônio, quando lá esteve a nos visitar, vindo de carro, do Maranhão, naquele distante final dos anos 1960, numa época em que o país se fazia com homens e estradas. Pela narrativa, atentei contra sua vida, jogando nele, que estava deitado em uma rede, uma faca de mesa. Numa foto daquele período, ele ostenta uma cabeleira que já não possui há muito tempo e óculos ray-ban a compor sua pinta de galã.

A escola, ou melhor, o jardim de infância era de freiras, e onde as lembranças não alcançam, fica a provar uma outra foto, que provavelmente minha mãe ainda tenha, na qual estou ali e entre tantas crianças me destaco por ser o único de cabeça baixa e mão na testa, num sinal claro de cansaço. Aliás, esse cansaço trago desde aqueles longínquos três anos de idade. O uniforme verde, calções curtos, naquele tempo a nos diferenciar dos púberes, que mais tarde se convencionou chamar de adolescentes. Na ponta da foto, a irmã baixinha, cuja estatura, próxima à nossa, dá a explicação à alcunha. Segundo os relatos paternos, eu a chamava de irmã “bafinha”, por não pronunciar corretamente o “x”. Vai ver, desde aí, já teria problemas com o efe, vai saber, mas chegaremos a isso no primário.

As reminiscências escasseiam e passam pelos dois coleguinhas vizinhos, da casa ao lado, com quem muito brincava, e em dias de chuva a diversão era nos escondermo-nos de nossas mães. Dentro de casa, e dos risíveis esconderijos, ficávamos a gritar a nossas mães, repetido a frase provocadora e mentirosa: “Tô no barro, tô no barro!!!” Lembro da enorme palmeira e seus coquinhos-catarro no quintal lateral, do sobrado enorme onde moramos, antigo prédio dos correios, e que quando dali fomos embora, meu pai passou a procuração de venda a um amigo a quem nunca mais viu, num dos muitos golpes que tomou pela vida. Ali, ele também comprou as ações do Bradesco, - que me valeriam, uma década depois, por alguns anos, as camisetas brancas com o nome grafado em vermelho - fruto da amizade com o vizinho gerente, nosso vizinho com cuja filha eu também brincava. Da casa desses só me lembro de uma enorme escada.

Era eu então uma criança muito quieta; ainda trago na testa a cicatriz de quando derrubei por cima de mim a cristaleira de minha mãe. Seu maior medo era que eu caísse da escada, onde segundo ela conta, do alto desta, uma vez gritei que a vó, há pouco falecida, ali estava e teria me dito algo que ela, imperdoavelmente, não se recorda. O galinheiro no fundo do quintal é a única lembrança que tenho de animais em casa; não devíamos ter cachorro já que Feijão, o cachorro marrom de quem eu tomava a comida meses antes, ficara no Rio de Janeiro, em Resende, quando nos transferimos de lá. Mas essa história já está registrada no blog em outro causo.

Nessa mudança, meu pai nos levou no Fusca, e na estrada, em limites de velocidade da época, não teve tempo de frear e atropelou um cachorro que surgiu repentinamente na estrada. Ainda segundo minha mãe, só houve o tempo de dizer: "Segura o menino que vai bater." Com um braço me abraçou forte e com o outro segurou o apoio de mão que existia nos fuscas, conhecido  popularmente (ao menos o foi nas décadas seguintes) como: "puta-que-o-pariu". Sim, naqueles tempos criança também viajava livremente no colo, e no banco da frente. O estrago no carro foi grande devido a velocidade a ao impacto. O pobre cão que vagava pela estrada foi-se e ficamos nós. 




Foto: Djair - Uma das tantas estradas percorridas nessa vida.