segunda-feira, 4 de junho de 2018

Réquiem a Lourival, meu tio querido.

Tio Louro, foto: Nilton de Souza
Ele era o mais velho dos três irmãos.

Em nosso último encontro emocionou-se muito ao falar de meu pai, de quem sentia enorme pena não estar junto em seus últimos dias. Falou-me de como meu pai desperdiçou seus últimos dias por conta do alcoolismo, de como isso lhe causava terríveis sensações sendo ele mesmo alcoólatra na juventude. Tia Maria Klaus, aquela bela moça que desposara ainda pouco mais que garoto sofreu muito com isso, mas ele largou a bebida a tempo de refazer um lar. Falava do meu pai com forte impressão, de como ele próprio trabalhava a fim de que os irmãos estudassem. Sobre tudo o Olavo, meu pai, que ele achava o mais inteligente, e Raul, o mais novo. O Lindoval, esse que depois de um casamento rico afastou-se do resto da família, nunca sobre muito, e sobre esse ele também não falou-me.

Era o mais humilde, satisfeito com sua vida simples, lembro, entre as mais antigas reminiscências as visitas a sua casa, como eu me sentia bem ali, a geladeira antiga que eu achava linda, e destas que hoje poucas existem nos apartamentos dos descolados, e minha paixão o fogão a lenha, que um dia ele desmanchou, tendo presenteado tia Maria com um fogão a gás… Isso era inicio dos anos 1970. Uma longa estrada de terra percorríamos até lá chegar depois do ponto final do ônibus. Nessa época meu pai tinha acabado com o fusca num acidente onde todos se espantavam de nada ter acontecido a ele.

Mas trago comigo a reminiscência de minha mãe que grávida de mim, enjoava com as comidas do hotel, em Santos, em visita a família do marido. Sua melhor refeição naquele dia foi na casa dele, onde meu primo Nilton chegara com os peixinhos pescados no rio próximo, tia Maria os cozinhou, fez pirão, caldo forte. Ele fala-me nesse manjar dos céus até hoje.

Tinha uma mexeriqueira enorme no quintal imenso, mais tarde tomado por casa dos filhos. Um pé de rosas, isso deixou de existir mais tarde. Seus tesouros ficavam em seu quartinho no quintal, coleção da revista placar, flâmulas do São Paulo, time de seu coração, como também do meu pai. Tio Raul era um desgosto, torcia para o Corinthians, Ali ficavam seus materiais de trabalho, eu adorava a morsa, com que prendia coisas para serrar, apertar ou que o valha… Sobre a mesa de madeira onde esta era presa havia um grosso papelão, que com pingos de graxas e óleos, acumulo de poerias e suores tinha tomado uma densidade de couro. Os troféus do Ponte Preta, time da terceira divisão que tomava emprestado seu nome a ponte do Bairro, que nos anos 2000 viria a cair, esquecida pelo patrimônio público. Servia inicialmente a travessia de um trem que não mais existia.

Aquela área rural onde ele se situou por décadas era então bela geograficamente e sentimentalmente me desperta saudades de um tempo feliz. águas limpas a correr em riachos, morangos e amoras silvestres, no meio do bananal que já não existe. No quarto dos tios uma lâmpada azul, que pouco iluminava. Dormíamos ali, em visita quando vinhamos de Minas. 

Os primos calorosos, os mais velhos, Nilton, Nilson, Eliete, Neide e Nereide encontramos anos depois já casados e com suas próprias famílias, mas sempre a gravitar em torno dos tios, pais amantíssimos. Elizete, Dida e Marlene mais novos, regulando as idades comigo e meu irmão, brincavam conosco, brigavam conosco, conversavam e assim tecíamos planos e sonhos. Esperavam sempre o tio que vinha diariamente almoçar em casa. Quantas vezes eu também ali estava. A ouvir suas histórias do dia-a-dia. Depois voltava ao trabalho até a noitinha, ganhou medalha de funcionário padrão, que foi juntar a seus tesouros no quartinho, junto aos álbuns de fotos da família, com gente que só ele sabia identificar. Ao lado de Carlos Magno e os 12 pares de França, livro volumoso que fora de minha avó, e, que nunca tive a oportunidade de ler.

Um dia deu-me uma jaqueta de couro, preta, que usei até onde não sei mais. Outra feita uma camisa de compridas mangas, bege, que foi minha preferida até acabar.

Seu sorriso era tão gostoso que dói-me hoje lembrar. Emociono-me e sinto saudades. Uma vez fomos a um jogo do São Paulo, no Morumbi. Ele, meu pai, meu irmão e dida, nosso primo, no jogo contra o atlético eu era a ovelha negra, torcia para o Palmeiras, time de meu avô, já contei aqui isso, e de como meu tio perdeu no estádio seu radinho, onde acompanhava o jogo do corinthians.

Houve um tempo onde tia Maria, Nereide e Eliete frequentavam uma igreja episcopal, a casa da Benção, em Santos. Ele as acompanhava e nos levava. Íamos pela fara do passeio. Logo voltou a religião de origem, afinal vó Felina tinha sido filha de Maria, congregada Mariana, e ele cedo voltou às missas dominicais

Gostava das excursões, Poços de Caldas, Aparecida, Caverna do Diabo…

Engraçado como na sua imagem para mim está sempre a sorrir. Magro como sempre foi, e atrás dos óculos. Poderia estender-me horas em lembranças… Os jogos de canastra, sua empolgação com as pequenas viagens, com o time de várzea, já citado, do qual foi presidente por muitos anos, e após o jogo chegava com os uniformes para minha tia lavar. De seu jeito calmo, do rádio grande que comprou de presente para Elisete, um motorola, que ficava em cima do bufê, e onde ela ouvia Ely Corrêa enquanto com capricho arrumava a sala, de como aconselhava meu pai, acolhia tio Raul, empolgava os sobrinhos e netos com historietas. Seu caminhar vindo ao longe em passo apreçado para almoçar com a família a tempo de voltar ao emprego…

Noventa anos… 90 anos é muito tempo… Por mais que se goste da vida, e ele gostava, imagino o cansaço, o desconforto do corpo que já não responde como gostaríamos...

Ontem ele se foi… Em mim ele fica. É parte de minhas boas lembranças. Jamais terei como equacionar seus ensinamentos. Sinto inveja de seus sentimentos. Era um homem bom. Cumpriu sua missão.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O maldito frequentador das salas


A tomar um chá para acalmar-me o coração, afinal, esse já enfartado e maltratado, de modo que qualquer dorzinha me chama a atenção.
            Vinicius de Moraes tem um texto de 1943, que adoro, intitulado “Obom e o mau fã”. É engraçado como os maus fãs se reproduzem mundo afora como baratas, conforme diziam os estadunidenses sobre nós, os cucarachas.
            Pois bem, entre os inúmeros e-mails da universidade – que, na maior parte só servem para encher a caixa de entrada - havia um que era mesmo bué da fixe. Tratava da exibição de um filme. Um documentário espanhol, narrado por José Mujica. 81 minutos, 2016. Imediatamente interessei-me. Marquei o e-mail como não lido e estrelado, para não o perder de vista. Marquei na agenda, dia horário, e até adiei em um dia, entre outros motivos, não apenas esse claro, mas também ele, uma ida a Lisboa. Ok. Será mesmo fixe e instrutivo.
            Correria com os trabalhos do mestrado, muita correria e tensão com os trabalhos do mestrado, extrema correria, tensão e preocupação com os trabalhos do mestrado. Sobretudo em dias de total desânimo.
            Mas é hoje o dia do filme. Pausa nas leituras e trabalhos e vamos lá. Será culturalmente enriquecedor, e uma pausa nas correrias e no desânimo. Estou mesmo a precisar. Almoço a correr, pois, está em cima da hora. Chego um tanto esbaforido, mas a tempo.
            Ninguém de publico ainda na sala. Ótimo que não atrasei-me. Também faço eventos e esse é um momento de tensão, quando o público ainda não chegou e os convidados da apresentação lá estão.
            Sento à quinta fila de cadeiras, Vinicius aprovaria.
            Converso com o responsável pela exibição, que vem de Leiria, onde ocorre um festival de documentários. Falamos sobre isso e sobre o cinema, como é cá, no Brasil... Somos interrompidos, chega mais uma pessoa, se diz professor, e está estarrecido por não haver público. Que ele mesmo nos próximos vai trazer alunos, para ser avisado... Muito bem. Também acho o desinteresse da malta grande. O gajo senta-se na quarta fila... Pax-ciência...
            Pois então, o cidadão abre lá seu laptop e começa a... Sei lá... Trabalhar? Vai ver que não preparou as aulas que tinha a dar... Pode ser isso.
            Resolve-se começar a exibição, afinal a espera já passa 15 minutos além do horário, e nisso chega mais um rapaz. Simpático, senta-se à sexta fila.
            Luz apagada, exibem-se os trailers da mostra de cinema documental que ocorre nos próximos dias. São cerca de uns cinco, e nada do gajo desligar o notebook. Começa o filme... O notebook ainda ligado. Queria mesmo ver o filme, mas já começo a irritar-me. Pois é, sou o estrangeiro enervado... Então... Saio do lugar e vou sentar-me ao meio da terceira fileira. É mau. Muito em cima da tela, e com meus olhos biônicos – sim, os dois foram operados – a imagem não é tão boa vista dali. Percebo então o apagar da luz da tela do computador do outro... Ok. Ótimo, posso voltar a sentar-me acima...
            Pego o casaco, o guarda chuva, e volto para minha querida quinta fila, logo, estou novamente atrás do tal “professor” – não me perguntem de quê, bons modos é que não é. Pois bem.... E corre-me o frio na espinha a pensar que poderia ser de cinema, ou som e imagem, já que há ali esses cursos. E penso em Luciana Araujo, Maria Rita Galvão, Adilson Mendes, Arthur Autran, Roberto Noritomi e outros tantos colegas que são ou foram professores de cinema, e mais que isso realmente gostam da luz sobre o ecrã.
Sento-me e começo a curtir o filme.
            Passam-se apenas alguns minutos, ainda não deu tempo de pegar gosto pelo filme, e a raiva ainda está presente, quando o gajo, saca o celular, e então a luz deste, como um sabre de luz Jedí, invade a sala. Afinal, o outro não pode deixar para ficar a teclar no WatssApp  depois do filme. Não, tem que achar que a sala de cinema é a sala de estar da casa dele. Bem, sou um enfartado, é melhor perder o filme que a vida, pego novamente o casaco e o chapéu de chuva e saio da sala irritado, triste e com raiva por perder o filme mas com uma raiva maior pela falta de educação da humanidade. Rogo mentalmente mil pragas e ódio eterno. E raiva de mim por não ser do tipo que faz logo um escândalo e manda desligar aquela porra.
Muito já se anunciou o fim do cinema, primeiro era a televisão a acabar com ele depois era o videocassete, em seguida seu exterminador era o DVD logo perdendo para a TV a cabo, mas o que vai realmente acabar com o cinema são seus frequentadores.
 
           

terça-feira, 8 de maio de 2018

Sem simpatias

Cai o garfo
Cai colher
Nem te animas, ninguém vai chegar
Nem homem
Nem mulher

Cai a faca
Diz, que deve riscar-se o chão com ela, três cruzes, no lugar exato onde caiu
Ou...
Vem briga na certa, a casa ruiu

Ah, basta de bobagens, nem te apoquentes
Ninguém vai chegar
Não inventes,
Não terás com quem brigar

O exílio é assim solitário
Mas finges rir.
Posta nas redes, uma foto assim com um sorriso na cara.
Hão de colocar logo um comentário do tipo: "Cara boa", "vida boa". Algo assim, até não é ruim.

Ai de mim.
Valei-me Raimundo Correia e seu "mal secreto"
Já que não valeu-me a Nossa Senhora
Deixemo-la lá descansar até que chega a boa hora.
E ela pegando-me a mão diga: _Agora chega, vambora.


Foto: Azulejo a representar N.Sra. de Fátima - Fátima - Portugal
(réplica do painel de azulejos da Capelinha das Aparições, datado de 1927.
Carlos Ramiro (Pintor), cerâmica de Bicesse 2007

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Nosso estranho modo de sentir afeto


O que é que determina nossa tolerância?
O que determina nossa tolerância em termos de amizade?
O que nos leva a romper laços?

Talvez o fato desses laços não serem fundamentados em um nó sólido… Talvez por serem laços não de atar, mas puro enfeite… Laços coloridos, multifacetados… Como são certas convivências, que as vezes são longas mas não enraizadas.

O que nos faz perdoar os achaques de um e não de outro? A dimensão das coisas vividas? As intimidades? Os favores devidos? A carência, nossa, ou a dependência e admiração em relação ao outro?

Foto: Djair -Estátua da Virgem de Fátima - Fátima - Portugal
Eu que sou de tomar partidos, e sim, sei que isto é mal, já rompi laços com alguns por amar a um terceiro e vê-lo maltratado por quem até então era também amigo. Por ser amizade mais antiga, por ser mais verdadeira, por não tolerar grosserias, ou seja lá qual for o motivo da minha simpatia pelo outro naquele momento.

Já perdoei coisas que não sei porque perdoei. Já levei a ferro e fogo muita bobagem e me arrependi em seguida, e lógico, óbvio, que não tive humildade ou coragem para reconhecer meu ego inflamado e pedir desculpas. Claro que não.

Já deixei pra lá o fato de ter amigos trabalhando ao lado e nunca ter partido deles um convite para um almoço no restaurante ao lado da “firma”, embora o mesmo convite já tivesse partido de mim. Já execrei outros por terem faltado a um convite e dado uma desculpa rota para justificar a falta de interesse. A uns perdoei serem mais amigos de outros, a outros não perdoo serem mais amigos de uns.

Difícil determinar onde somos, eu pelo menos, simpáticos e onde não gastamos tempo com isso. O que nos liga, em geral é a convivência, e a consciência de um certo destino comum. Talvez aí esteja a razão de uma afinidade eletiva, a consciência de um destino, um sofrimento comum. E quanto mais comum, mais partido tomamos a favor deste, afinal é o mesmo trajeto, ainda que por poucos passos, ainda que o caminhar se afaste ali adiante, mas a forma com que caminhamos juntos pode ser tão intensa, que fará falta no que resta da caminhada. Outros ansiamos por nos distanciar ou sentimos aquela “saudade aliviada” quando se afasta. De outras carregaremos sempre uma pequena mágoa, sobretudo quando nos sentimos usados, ou quando não sabemos o porque do rompimento.

Uma parte das vezes ansiamos retomar a amizade, noutras não queremos aproximação. O que muda? O sofrimento que o rompimento causou? De que perspectiva observamos esse distanciamento? O que foi maior? O prazer de estar junto, a dor do rompimento? O medo de se repetirem ações e gestos? De quem se sente saudade? De quem estranhamente esquecemos o nome? E pior, de quem sentimos raiva a mera menção, ou vaga lembrança quando como um espectro nos surge a mente e nos faz inconscientemente fechar a face, franzir o senho travestindo a face numa incômoda máscara de gárgula? E o que faz com que toleres aquele amigo do teu amigo? Por não ferir ao primeiro? Por medo que ele escolha o outro?

São questões sem respostas, mas que muitas vezes faz bem colocar para tentar nos entender. Afinal, quantos matamos dentro de nós? Quantos lembramos sem saudades, e de quantos outros sentimos muita falta, sem saber onde estão ou o que se tornaram? Quantas lembranças apenas você e uma outra pessoa tem? Afinal apenas vocês dois podem tê-la, por serem os únicos a viverem aquilo, mas você nunca mais vai encontrá-la, e nem sabe que fim levou.

Saudades que gritam, nós na garganta, silêncios constrangedores, abraços que não querem mais de desfazer… A nossa humanidade, nossas afinidades, nossas simpatias… Para onde nos levam, com quem nos levam?

Toda a gentarada que nos cerca… Um oceano, ondas… em quais mergulhas, e de quais foges, só quando mergulharmos ou fugirmos saberemos, mas o porque, isso nunca.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Sobre eles, sobre vocês...

Meu pai, Rafael, Zé Luís, Asael, Zuleica… A lista é enorme, não nos damos conta até começar a lembrar de tantos e tão queridos amigos que partiram e aí, temos ainda os que não lembramos de imediato, e os que lembramos mais raramente, de acordo com a proximidade que tínhamos, com a frequência com a qual nos encontrávamos ou de acordo com o espaço que ocupavam em nossos corações.

E é assim… de repente nos damos conta que talvez não tenhamos demonstrado o quanto eram-nos importantes, o quanto gostávamos deles, de quanto apreciávamos seu riso, seu humor, sua atenção. Muitas das vezes porque nem nós sabíamos, ou porque tínhamos vergonha, porque o outro nos parecia duro, escondendo-se atrás de uma máscara para defender-se do mundo. Ou, quem sabe, porque nós mesmos com medo de demonstrar nosso afeto - medo de ser machucado? - também nos escondemos.
Foto: Djair - Florzinha - Caldas da Rainha

E aí, quando se vão se fica - quem fica - a pensar, será que ele(a) sabia o quanto eu lhe tinha respeito, afeto, admiração? Mas nem por isso mudamos de estratégia, é sempre o mesmo medo de se expor. Sim, talvez porque a especialidade dos humanos seja machucar o outro, ou porque nós é que nos magoemos por tudo. A fragilidade de um é proporcionalmente inverso a capacidade do outro de ferir. Mas e a empatia com essas pessoas que amamos? Porque não é capaz de romper essa linha imaginária de limite afetivo?

E aí se vão. Contrário Fernando pessoa quando diz que “Só serão lembradas em duas datas aniversariantes / Aniversário de Nascimento / Aniversário de morte.” Reproduzo de cabeça e a frase pode não ser exatamente essa. Mas sintetiza-se nisso. Apesar de ser um de meus poemas favoritos, o “Porque não te matas?” por mim peca aí. Lembro deles, sinto saudades, queria que tivessem sabido o quanto lhes apreciava, o quanto fazem falta.

Quanto mais velho ficamos, menos amigos temos. E por mim, pelo menos, também diminui em muito a capacidade, talento, ou paciência para fazer novos. Talvez por isso os fantasmas me rondem. Ou vai ver já é preparação para com eles encontrar-me. Eu que tenho uma quedinha pela morte…

E os que aí estão e me fazem a mesma falta? Digo-lhes? Não! Demonstro-lhes? Não sei. Quero-lhes bem a meu modo. Um modo torto muitas vezes impaciente, ignóbil. Tosco feito um Shrek e sem expressão feito uma Macabéa. Mas sim, fazem e farão falta. Fazem saudades, muitas vezes, como digo, uma saudade aliviada, mas fazem. Afinal já fazem parte de mim. Em alguma parte foram importantes, cada um a seu modo, cada um dentro de uma especificidade. Sejam aqueles que são amigos, sejam os que assim o foram considerados até terem sido atirados no lodaçal e afundados como ídolos que já não servem ao culto. Afinal, quantas pessoas achamos por vezes que seriam aquele amigo que levaríamos pelo resto da vida e mais seis meses, e que hoje não ousamos convidar para que adentrem nossa casa? Mas seguirão sempre numa lembrança ou noutra, e não importa se vivos ou mortos, e não apenas em datas aniversariantes, mas num gesto, num carinho, num arrependimento, numa mágoa ou sorriso, numa flor que se vê, numa falta que se fez ou num comentário que o lembra.

sábado, 24 de março de 2018

Texto sem fundamento


Ainda nem são cinco horas da manhã e já acordo. De acordo com a in-Sônia, o horário certo é mesmo este, ela nunca se atrasa muito. Teimo em ficar na caverninha, apelido carinhoso que dou ao edredon quando cubro-me dos pés a cabeça. O verdadeiro homem da caverna. A barba crescida de meses, pelo frio, preguiça, modismo, e que sofre apenas pequenos talhes aqui e ali ajuda a compor o visual da personagem.
Nos ouvidos os trechos de poema, voz na cabeça é de Maria Bethânia.

Detalhe arquitetônico ao lado da ponte D. Luís I - Porto
"Mora comigo na minha casa um rapaz que eu amo. Aquilo que ele não me diz porque não sabe, vai me dizendo no seu corpo que dança para mim. Ele me adora e eu vejo através dos seus olhos um menino que aperta o gatilho do coração sem saber o nome do que pratica. Ele me adora e eu o gratifico só com os olhos que o vejo. Corto todas as cebolas da casa, arrasto os móveis, incenso. Ele tem medo de dizer que me ama. E me aperta e mão, e me chama de amiga”

Ao texto de Luiz Carlos Lacerda segue a voz dela emendando a canção de Caetano “Ah, esse cara tem me consumido, a mim e a tudo que eu quis…”

Está em minha cabeça há dias. Devo ter ouvido pela primeira vez da metade para o final dos 1980, e a despeito do meu pai escrever poesias, talvez tenha sido com a voz de Betânia que comecei a amá-las de facto. E por isso as vezes elas entram e é dificíl saber quando saem. Martela-me também a cabeça - será devido minha crise existencial, cada vez mais crise e menos existência? – a frase inicial do poema I´m nobody (Não sou ninguém) de Emily Dickson e- “Não sou Ninguém! E tu, és quem?” Ok. Ok. coloco o texto do poema minimalista ao final.

Não a poesia não vai ajudar com a insônia, na verdade como se tivesse vários cérebros, os pensamentos ocorrem todos ao mesmo tempo, Dickson, Bethânia, cobranças de leituras técnicas, textos que deveria aproveitar para escrever enquanto a ideia está ali… Levanto, ligo o micro e venho para cá, lá fora, 7, 8 graus, os termômetros divergem, eu, concordo com eles: está frio! Ligo o aquecedor, coloco sob a mesa de trabalho, esquento leite na panela grande pois as outras estão ocupadas ou sujas, afinal a taça de vinho também está ali à pia, em consonância com elas, o Feng Shui é perfeito, filtra a energia negativa que vem do sudoeste. Lembro de Gizelton me dizendo pra por canela. Não tenho, e o beato que tem o dom de transformar milho em canela está do outro lado do Atlântico, adoço com mel e anoto canela na lista de compras que não farei hoje, os textos técnicos… Sim, os textos técnicos…

Penso a quem pode interessar um texto desses, e dou-me conta que o que tinha na cabeça ao ligar o micro já não existe, foi embora e não volta. Assim como tempo correu, o leite quente foi sorvido, e vamos então voltar a caverninha… Os textos técnicos ficam para quando acordar definitivamente. Agora a poesia sufoca-me. Dou-me conta uma vez mais que ontem foi o dia dela. Num fiz nenhuma, vai ver é por isso que ela me castiga.
Bom dia!

Não sou Ninguém! E tu, és quem?
Ninguém – Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!
Que triste – ser – Alguém!
Que pública – a Fama –
Dizer seu nome – como a Rã –
Para as palmas da Lama!

Emily Dickinson: "I'm nobody", - "Não sou ninguém"




quinta-feira, 15 de março de 2018

Eguagem

Se está tudo na cabeça, porque não consegue migrar para o papel?
Todas as justificações, todo o plano de trabalho, tudo, tudo está ali... Mas tem aversão à tela, aos caracteres, significantes, significados, palavras, frases, metáforas, mesmo oximoros... Permanecem nas sombras do cérebro, não querem abandonar a caixa craniana, e permanecem a espreita. Verbalizar sim, oralmente, como a cultura africana, a nordestina do cordel, a mineira dos casos... Fora o alfabeto! Ai de mim que permaneço insone mesmo quando o corpo só deseja a cama. Depressão pré-texto? Porque não? Não há de ser menor que a pós-parto. Sim, antes das pedras atiradas guardem as proporções, e lembrem-se do eu lírico. Que à merda vão as explicações que me são cobradas.
Sem palavras. Não as quero, só abraços.
Verbalizem sentimentos com atos, não com renhenhéns, prajalpas e três beijinhos, que nem são dados à face, mas ao vento.
Quero minhas palavras de volta, não as metáforas e poesia que vem mais facilmente,
mas a do texto técnico. Sou da produção… O administrativo me entedia e mata. Já não aguento mais tomar café. E o tomo por pura desculpa para protelar. Ah a procrastinação, essa minha amante tão sedutora…
Tão o é a ponto de ter fugido do texto que deveria estar a escrever e vim embrenhar-me neste. Pobre coitado que escreve textos fúteis e listas de compras que sempre esquece de levar. Que escreve cartas sem respostas pois hoje todos preferem e-mails. Que manda cartões postais que as pessoas não recebem pois os correios hoje são uma piada de mau gosto.
Ah quanto lamento… Mas para isso também servem as palavras.
E se só a elas tenho, que vão ela ocupar a tela, fazer-me companhia e distrair-me ainda mais.
As ciladas que me meto… As coisas que aceito sem ter certeza de dar conta. Que a bem da verdade muitas vezes saem bem, mas que só eu sei o sofrimento por trás do cenário erguido.
Ai de mim. Que se digo não sou compreendido, se não digo muito pior, e que se tenho muito a dizer prefiro calar-me. Que vejo demais, que presto atenção demais em coisas que não mereceriam uma olhadela de escárnio.
E que se essas aqui saíram fáceis, voltemos ao trabalho e encerremos aqui essa éguagem. Que se fé eu tivesse rezava agora com fervor sem sentir pena de mim e deus existindo, e sendo mulher, dava-me carinho de mãe e inspiração de técnico. Vamos ao trabalho, que esse desabafo já deu.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O Punctum

Dentre as coisas belas que há no mundo, e das quais ainda quero ver, o Baobá é uma delas, aquela árvore que em si é quase um habitat, imponente, uma árvore já adulta, claro. Pequeno já tive a oportunidade de observar, em um sítio de um professor da Unesp, em Assis, interior do estado de São Paulo. Infelizmente era ainda um pequenino arbusto, sem imponência, que como se diz no “O pequeno príncipe” qualquer um pode dar cabo.

Fazia um trabalho de recortes de fotografias para uma matéria do mestrado, acaso minha favorita, “arte contemporânea”. Na foto, uma vila do interior da Zamézia, a segunda maior província moçambicana, próxima ao delta do rio Zambeze. O baobá ali estava presente, se sobrepunha ao casario construído a base galhos, às pessoas, ao resto da vegetação ressequida. No céu o branco de nuvens e um azul pálido, No chão, o solo marrom, e entre eles, fazendo a ligação, o baobá imponente. Maior que tudo isso, vila, céu, chão... Maior que a vida das pessoas a beira do casario…

Já pronto para recortar a foto, viro a página, e na continuação da matéria sobre as andanças à beira do índico o jornal trazia uma outra foto. Um homem, de costas para o observador, com um pincel em uma das mãos, e sobre um barco, emborcado, uma lata, do tipo galão de tinta. Possivelmente era algum tipo de verniz ou um selador qualquer.

A imagem sugere que ele passava o produto sobre uma madeira nova, pela cor crua, que teria colocado recentemente no barco, num conserto, em substituição a outro fragmento já retirado. As demais tábuas traziam múltiplos tons de madeiras descascadas: vermelho, azul, cinza, branco, um outro tom de azul, mais claro, amarelo… Descrevo-os por ordem de ocorrência no velho barco, uma espécia de canoa bastante grande, que por estar virada só permite conjecturas a respeito de sua tipologia. Impossível definir se o homem é jovem, adulto, ou idoso. A camisa quadriculada é grande para o corpo esguio, e o shorts comprido, mas isso é das modas por todo o canto. A vegetação atrás do barco sugere mangue, e a cor escura da terra é justamente do tom da terra desse bioma que não tenho ideia se ocorre no Indíco.

Não canso de olhar a foto, a atenção, o punctum, se divide entre o barco e o homem. Custo a perceber que está, em verdade, no pincel à mão daquele e na lata do selador (que é o que determinei que seria o produto). Já escolhi essa foto ao invés do baobá que remete ao desejo antigo, embora beleza, a plasticidade da primeira muito maior a tenha tornado a foto para chamada da matéria.

Por que? O que me faz escolher a segunda? E como numa sessão de psicanálise pego-me a pensar que é por minha relação com o trabalho, com o que representa para mim o trabalhar, o fazer. Ouço na memória Renato Russo e seus versos: “sem trabalho não sou nada, não sinto meu valor, não tenho identidade. Mas o que eu tenho é só um emprego, um salário miserável, eu tenho meu ofício que me cansa de verdade(…) Tem gente que não quer saber de trabalhar...”

É, ali está o punctum. A explicação para escolha, e assim nasce esse texto, resolvo escrever sobre isto. Com a mente cheia de lembranças de pessoas que tem os mais variados tipos de trabalho e o infinitas variações sobre suas relações com eles. Gente que conheci na Europa e que cursando um mestrado não tem inibição de trabalhar nos caixas de supermercado para não depender completamente dos pais. Gente como tio Onofre, vaqueiro de tia Margarida que ama seu trabalho, com as vacas, com o plantio do milho, o colher das abóboras, o tirar do leite. Isso enche-me de orgulho alheio. Também vem a memória, em oposição a esse orgulho alheio, gente que não trabalha e nada produz a não ser fezes, urina, e quando muito fumaça de cigarro. Gente que apenas ocupa um lugar onde deveria haver “ar”.


Foto: Djair - Coleção de recortes para o Atlas de imagens

sábado, 2 de dezembro de 2017

Desconhecer o Conhecido


Existem aulas que dão sono, outras, nem sequer isso. Apenas se olha para o relógio, que durante esse tempo diminui sua marcha. As mentes, essas divagam… Escrevem-se trabalhos de outras matérias, poesias, fazem-se desenhos, rabiscam-se letras, símbolos, garatujas as mais diversas, escrevem-se cartas, fazem contas e listas de compras. Redigem-se até textos para blogs que tratam de conversas fúteis e mundanas que não levam a nada.

Há aulas dadas com paixão e conhecimento, mas nenhuma didática. A verborragia sem pausas não dá tempo para digerir tanto. Cansa-se de tanto ouvir, sem que se possa realmente absorver, conflitar, questionar e gerar seu próprio ponto de vista, ou aceitar aquele apresentado. E se o aceitamos é mais por cansaço. Talvez um cansaço daquele mesmo tipo que faz o fiel crer no pastor, sem questionar posicionamentos, interpretações e dogmas.

Muitas vezes se detém títulos e conhecimento, mas já dizia Sócrates, segundo Platão. O mal de alguns homens é justamente o de se julgarem, que por serem expertos em alguma coisa específica se acharem conhecedores, sábios e capazes em todas as outras. Ter conhecimento sobre algo não quer dizer que se saiba transmitir. Ou pelo menos, não da melhor maneira, da forma a despertar interesse e fazer o outro querer buscar mais sobre aquilo, apaixonar-se.

Mas existem aulas de verdade, dadas com paixão e uma tal dinâmica que faz querer ouvir mais, onde se participa, se discute, discorda-se, diverte-se; e principalmente se absorve de uma maneira suave, prazerosa, viciante, tanto e tal que quando acaba, achamos que foi cedo, que queríamos mais um pouquinho, que aquilo devia ser discutido em uma mesa de bar, ou na mesa de casa mesmo, as com um copo de vinho a mesa, beliscando um queijinho, e fazendo o assunto render e ao esgotar-se já emendar noutro, e em outro, e…

E por que? Oras porque foi prazeroso ao ponto de a ligarmos com outros signos de prazer ao qual estamos acostumados. Porque quando há a pausa habitual, você mal se aguenta para fazer um comentário, pergunta, ou dizer à que aquilo lhe remeteu. Essas são as melhores, as que fazem valer a pena, que produzem ideias, geram conhecimento, que será transmitido depois num bate-papo, numa observação em um museu, sobre uma obra específica ou uma coleção, num café durante um bate-papo informal, numa troca de ideias durante um almoço, após ter sensações diversas ao assistir a um filme. O élan que nos transporta àquele conhecimento se dará espontâneo, inesperado, em qualquer lugar, pois já pertence a nossa experiência. São esses professores que ficarão e serão citados com carinho, com um sorriso nos olhos, nos lábios, no rosto, sendo lembrados por muito tempo. É esse conhecimento que ficará e será transmitido, pois é vivo.



Imagem: Sócrates e seus discípulos - Imagem da internet - disponível em: http://www.duniverso.com.br/wp-content/uploads/2016/02/socrates-filosofando-com-seus-discipulos.jpg 


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Molequinhos...

Estão a espreita… O riso é contido. Fazendo uns gestos de silêncio uns aos outros com o dedo em riste em frente a boca.

Esticam o estilingue! E quebrando o silêncio o grito ecoa: “_Quebra o cu dele com uma pedra!” “_Enche o coco dele de mamona” grita o outro. “_Pega, pega, não deixa fugir não! Não deixa fugir, Não deixa...”


E o pequeno alvo, pernas pra que te quero, o mais ladino, e que vinha distraído sai correndo, põe as mãos na cabeça para protejer-se das sementes de mamona. Corre e ri, ri e corre… Grita impropérios contra o grupo armado; puxa para cima o calção largo que está a cair. O elástico já não é novo, o corpo franzino ajuda a gravidade. Ri, e corre… corre e ri…

Riem e atiram, esquecem dos bodoques e já atiram as mamonas com as mãos. Correm atrás. Os gritos, as risadas, pega, pega… Pega!


Suam, sua o que corre na frente, suam os da malta que persegue. Tanto suam como riem, como correm, como arfam já de cansaço mas não desistem, sabem que na sua vez de correr a fuga não terão trégua, então põem-se no encalço a todo fôlego. Até o alcance já não ser possível, as freadas são bruscas, com gestos de desalento, risos e palavras divertidas. Não há bulling, só brincadeira, é diversão, na próxima será um deles a fugir. E depois vão ainda correr juntos atrás de bola, de pipa, de balão, no pique-esconde, no salve latinha, ou a levar muros no garrafão.

Até que chegue enfim a derradeira corrida do dia, correrem todos ao mesmo tempo, como um enxame de abelhas, cada qual numa direção, cada qual pra seu abrigo, afinal a ordem inquestionável ecoou lá de dentro: Corre menino, que é hora do banho!


Foto: Djair - André Luis Colorido, cansado de correr.