Licença Creative Commons
Prajalpa é uma obra sob Licença da Creative Commons. Esta licença permite que outros adaptem, e criem obras derivadas sobre a obra, desde que citada a fonte, é vedado o uso para fins comerciais.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Primeira infância

A recordação mais antiga que trago - e talvez já tenha falado disso, pois parece que já contei tudo o que tinha a dizer - possivelmente é a de minha mãe a me comprar lanche numa lanchonete, onde havia um enorme aquário cujos peixes me encantavam. Talvez por isso a partir dos nove, ou dez anos de idade, nunca mais tenha deixado de tê-los, senão por breves hiatos. Mas o texto de hoje não é sobre eles, nem sobre as duas ciganas exóticas que naquele café estavam e que me chamavam atenção com seus muitos colares, brincos e pulseiras, anéis e roupas coloridas, as quais me lembro ser saias enormes, enriquecidas com muito pano e de um vivo cor de abóbora de fazer inveja ao próprio fruto.

A cidade era São Mateus do Sul, no Paraná, e como já enunciado, dela pouco me lembro; o que sei, na maior parte, é o que me contaram... Que dei banho numa galinha, com café, e de garrafa térmica em punho fui surpreendido em plena ablução… Que não gostei de meu tio Antônio, quando lá esteve a nos visitar, vindo de carro, do Maranhão, naquele distante final dos anos 1960, numa época em que o país se fazia com homens e estradas. Pela narrativa, atentei contra sua vida, jogando nele, que estava deitado em uma rede, uma faca de mesa. Numa foto daquele período, ele ostenta uma cabeleira que já não possui há muito tempo e óculos ray-ban a compor sua pinta de galã.

A escola, ou melhor, o jardim de infância era de freiras, e onde as lembranças não alcançam, fica a provar uma outra foto, que provavelmente minha mãe ainda tenha, na qual estou ali e entre tantas crianças me destaco por ser o único de cabeça baixa e mão na testa, num sinal claro de cansaço. Aliás, esse cansaço trago desde aqueles longínquos três anos de idade. O uniforme verde, calções curtos, naquele tempo a nos diferenciar dos púberes, que mais tarde se convencionou chamar de adolescentes. Na ponta da foto, a irmã baixinha, cuja estatura, próxima à nossa, dá a explicação à alcunha. Segundo os relatos paternos, eu a chamava de irmã “bafinha”, por não pronunciar corretamente o “x”. Vai ver, desde aí, já teria problemas com o efe, vai saber, mas chegaremos a isso no primário.

As reminiscências escasseiam e passam pelos dois coleguinhas vizinhos, da casa ao lado, com quem muito brincava, e em dias de chuva a diversão era nos escondermo-nos de nossas mães. Dentro de casa, e dos risíveis esconderijos, ficávamos a gritar a nossas mães, repetido a frase provocadora e mentirosa: “Tô no barro, tô no barro!!!” Lembro da enorme palmeira e seus coquinhos-catarro no quintal lateral, do sobrado enorme onde moramos, antigo prédio dos correios, e que quando dali fomos embora, meu pai passou a procuração de venda a um amigo a quem nunca mais viu, num dos muitos golpes que tomou pela vida. Ali, ele também comprou as ações do Bradesco, - que me valeriam, uma década depois, por alguns anos, as camisetas brancas com o nome grafado em vermelho - fruto da amizade com o vizinho gerente, nosso vizinho com cuja filha eu também brincava. Da casa desses só me lembro de uma enorme escada.

Era eu então uma criança muito quieta; ainda trago na testa a cicatriz de quando derrubei por cima de mim a cristaleira de minha mãe. Seu maior medo era que eu caísse da escada, onde segundo ela conta, do alto desta, uma vez gritei que a vó, há pouco falecida, ali estava e teria me dito algo que ela, imperdoavelmente, não se recorda. O galinheiro no fundo do quintal é a única lembrança que tenho de animais em casa; não devíamos ter cachorro já que Feijão, o cachorro marrom de quem eu tomava a comida meses antes, ficara no Rio de Janeiro, em Resende, quando nos transferimos de lá. Mas essa história já está registrada no blog em outro causo.

Nessa mudança, meu pai nos levou no Fusca, e na estrada, em limites de velocidade da época, não teve tempo de frear e atropelou um cachorro que surgiu repentinamente na estrada. Ainda segundo minha mãe, só houve o tempo de dizer: "Segura o menino que vai bater." Com um braço me abraçou forte e com o outro segurou o apoio de mão que existia nos fuscas, conhecido  popularmente (ao menos o foi nas décadas seguintes) como: "puta-que-o-pariu". Sim, naqueles tempos criança também viajava livremente no colo, e no banco da frente. O estrago no carro foi grande devido a velocidade a ao impacto. O pobre cão que vagava pela estrada foi-se e ficamos nós. 




Foto: Djair - Uma das tantas estradas percorridas nessa vida.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Santos Sepulcros


“(…) Todas as variedades de cruzes, anjos, bustos, medalhões, colunas, corações, âncoras,
figuras chorando, espadas, flâmulas, brasões, tochas viradas, vasos cobertos com panos funerários,
ampulhetas, corujas, caveiras, poliedros, livros da Vida abertos ou fechados, a foice do Tempo,
inscrições lacônicas ou lancinantes, humildes ou vaidosas, apelos de oraiporele ou porela
– Tudo recobrindo a mesma treva e o mesmo zero.”*

Pedro Nava


Quando, nos dias de finados, visitávamos as sepulturas de meus avós, eu, já desde cedo, era o incumbido de cortar as flores do jardim. Morávamos próximo de uma área já às entradas de uma reserva, à beira do morro onde, se adentrando um pouco, logo iniciaria a reserva dos Pilões. De lá, voltava com margaridas selvagens, amarelas, daquelas que se esparramam como trepadeiras, helicônias variadas, e ramas de manacás, mais difíceis de apanhar pela altura dos galhos… A mais das vezes o grande sucesso, quem o faziam eram as hortênsias do jardim de casa, os antúrios dos vasos de mamãe, que juntados às folhas de samambaias iam repousar e morrer também, elas, nas catacumbas de entes amados.

Chegando ao cemitério, primeiro avistávamos o lindo jazigo em granito, que era do padrinho de meu pai – aliás de sua família, pois aquele já não tinha nada, só as preces e velas que lhe eram acesas. Talvez fosse o mais vistoso dali, ele que tinha sido prefeito, e cuja lenda, por ter sido maçom, quem sabe, era que se transformava em lobisomem. Mas meu pai nunca falou muito dele; afinal, a mania de pobre dar filho a ricos para apadrinhar só distancia afilhados dos padrinhos, até pela quantidade de afilhados que os “remediados” têm. Já da madrinha, que não sei em que sepulcro foi parar, contava ele que era muito magra, alta, branca e feia, e que os irmãos dele o convenceram que seria uma bruxa; assim, todos os confeitos que ela lhe dava iam parar nas mãos de meus tios, já que meu pai morria de medo dela e seus possíveis feitiços e venenos.

A poucas quadras depois, chegávamos à residência oficial de meus avós, onde minha mãe abria os buquês, e em cruzes vivas transformava as flores sobre a cerâmica dos túmulos; acendíamos as velas, rezávamos procurando entrar em sintonia com eles, depois íamos ao cruzeiro rezar por outros parentes…

Quado criança, uma vez, nesse cemitério de Melo Viana, em Coronel Fabriciano, que não tinha muros e sim cerca, e poucas covas transformadas em sepulturas, o que deixava a terra, ali vermelhada, mais presente, para lembrar talvez que a esse pó retornaríamos – nesse cemitério, próximo ao cruzeiro onde fomos render homenagens aos parentes postos em sossego, morrentes em outros sítios, nos deparamos com aquela cena inusitada da vela que lacrimejava sangue. Uma pequena multidão já ao redor, a olhar e a comentar a novidade da pequena vela, comum, que chorava sangue. Pois bem, minha mãe foi lá ver, pegou um raminho, um pequeno galho seco, o que seja, e escarafunchando o pavio do lume, tirou dali os grãos de vermelhão; daquele mesmo que se misturava à cera para dar mais cor ao assoalho, e assim… c'est fini. Acabou-se a farsa, sabe-se lá provocada com que intuito mistificador. Finda a diversão, como o pequeno aglomerado, agora silencioso, que já dispersava, fomos embora dali, rezar noutra freguesia.



* NAVA, Pedro. Balão cativo. São Paulo: Companhia das Letras. 2012 p.70

Foto: Djair – Cemitério Municipal de Floriano – PI



domingo, 1 de maio de 2016

Comendo com os olhos

Igreja matriz de Ubatuba. Foto:  Pref. Mun. Ubatuba
Na parede da memória, cada vez mais desbotada, o nome já se apagou, mas ficava na primeira esquina, no sentido de quem se dirige ao centro, logo após o campo de aviação, que muitos, principalmente os nativos, insistem em chamar de aeroporto. Era ali, naquela esquina que ficava meu restaurante predileto em Ubatuba.

Mesas de madeira, comme il faut, luz difusa, nunca lotado, garçom atencioso… Mas não era apenas isso, não era a comida com porções bem servidas, dentro de um preço honesto, e nem pelo sabor digno de agradar palatos mais enjoados; não era pelo vinho, ou pela decoração que me deixava com vontade de levar várias peças para casa, nem pela abundância do verde em vasos; aliás, era por todo esse conjunto sim, mas o que muito me atraia para o charmoso bistrô era que ali aconteciam, enquanto saboreávamos nossos pratos, no meio do saguão, ladeado por nossas mesas…
aulas de tango, às sextas e sábados a noite. No máximo dois pares a cada hora, com direito ao casal de professores de mostrar passos e dançar com os alunos. E ali embevecidos com a dança em seu gestual libidinoso, a música naquele tom que acaricia os ouvidos, comíamos mais devagar e apreciávamos o tinto sem pressa.

Para mim, que nunca aprendi a dançar, nem com as aulas de dança de salão e toda a paciência de Laura, nem com o incentivo de Patricia, aquilo, sim, era uma festa para os sentidos. O melhor programa para as noites chuvosas do balneário.

Por tudo isso, o espaço se cristalizou e eternizou-se em minhas lembranças. O frequentamos todas as vezes que fomos a Ubatuba, várias ao longo do ano, a cada pequena folga obtida ou roubada à labuta. Até que um dia ele fechou. E aí, uma pequena tristeza nublou nossos olhos, como o céu de Ubatuba onde tanto chove, e lamentamos aquela “perda”.

Hoje, me veio à mente o rapazote que víamos sempre a tomar aulas, com a parceira bem maquiada e vestida, assim como ele, a caráter para a dança. E o simpático professor, pouca coisa mais velho que ele, a ensinar um passo. Da mesa, sorrimos ao escutá-lo: “_Mas isso é muito descortês, eu me recuso a fazer isso com uma dama.” No que o professor chama a professora-assistente, e diz: “vou te mostrar, e aí, você vai mudar de ideia”. Toma nos braços a colega, numa volta passa-lhe a perna por trás da sua, como se fosse um golpe a dar-lhe uma rasteira, e ela, levantando a perna, inclina as costas como se fosse cair, amparada por seus braços, enquanto uma das mãos segura a de seu condutor, retorna à posição ereta, enlaça com sua perna de polvo as daquele que a conduz e saem a rodopiar um sobre o outro. Apenas uma coisa nos faltou: coragem para aplaudir!


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Cabelo, pra que te quero?

Quando criança, colecionava figurinhas nos álbuns, sem jamais ter completado um. Vieram selos, postais, cartões telefônicos, mas ali, pela sétima série comecei uma bizarra coleção de... cabelos.

Sim, fios de cabelos. Colocava-os em um caderno, com um durex, adicionando data e a quem pertenciam, fios pequenos, longos, louros, escuros, naturais em sua maioria já que, àquele tempo a tintura, não era algo tão difundido, entre a mulherada. A grande maioria dos fios provinha das colegas de colégio, mas também de vizinhas, primas, e mesmo professoras, Marisa, Bartira, etc. Tinha de várias, às vezes colhidos nas costas, fios que caíam, às vezes pedidos e dados gentilmente; outras vezes um puxãozinho inusitado me propiciava o troféu...

Naqueles dias, eu justificava a coleção como sendo um pedacinho da pessoa que ficava comigo. Obviamente, ideia colhida de uma música muito difundida em rádios e programas televisivos da época:  “Fio de cabelo”, de João Mineiro e Marciano, onde o verso do refrão diz:
 
 "E hoje, o que eu encontrei
Me deixou mais triste 
Um pedacinho dela que exite
Um fio de cabelo no meu paletó..."

Não sei com quantos fios contava, aliás com quantas amostras, já que de algumas tinha vários fios, formando uma pequenina mecha de três, cinco cilindros de espessura fina, como diz outra música “Cabelo”, de Arnaldo Antunes e Jorge Ben. O fato é que já ia longe no caderno de 200 páginas, e àquele dia, pedi o fio a uma colega, com quem tinha já uma aproximação e que estudava na sala em frente à minha. Não lhe lembro o nome, nem o diria se lembrasse; era lourinha, branquinha, bonitinha, como diz uma conhecida: tudo “inha”. E obtendo o consentimento, tirei-lhe o fio, da parte de cima da cabeça; foi dali, daquela região logo acima da testa, que me veio o fio finíssimo e dourado, acompanhado de um pequeno, pequeníssimo anopluro. A caminhar sobre aquele fio amarelo, o pediculus capitis me causou tal desconforto que agradeci, desconversei, e não sei muito bem como saí dali, provavelmente tendo deixado o fio cair no corredor.

Foi o que bastou; todos os pedacinhos das pessoas foram jogados fora e assim acabou-se a coleção. Como diria uma colega, deu-me um “nojinho”... Sem revelar o santo, cheguei a contar o milagre a alguns que me perguntaram pela coleção. Não sei se era crível, uma vez que eu mesmo a acho inusitada, mas como diria Chicó*: “Só sei que foi assim”.



* Personagem de Ariano Suassuna presente em “O auto da compadecida.”

Foto: Internet - "Natasha Moraes de Andrade " disponível aqui.
Clicando nas palavrinhas azuis você pode ouvir as músicas citadas.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Nem medusa, nem sansão, muito menos Rapunzel.

Todo tipo de doido tem por essas terras, ou como dizia D. Antônia, lá em Cezídia, àqueles tempos mais tranquilos e frescos, inocentes e sem tanta maldade: “Deus deixou cada agregado nesse mundo véio dele...”
Enfim...

Naquele primeiro ano de faculdade, acabei por fazer amizade com o pessoal da turma que me antecedia, e ali, no decorrer dos quatro longuíssimos anos do curso, acabei por saber algumas histórias que naquela estranha classe se passava. Se na minha turma haviam grupos distintos e antagônicos como as bibas subservientes, as patricinhas, a bancada evangélica, os da terceira idade e lá no fundão, nós, os normais, naquela outra turma anterior haviam figuras de igual calibre, sem contar outros ainda mais raros.

A distância de um ano, assim como a física, não me permitiu saber-lhes os apelidos. Enquanto que em minha sala haviam algumas identificatórias ditas a alto som como o “bagaceira” e a “vírgula”, também haviam aqueles ditos entredentes, como o “homem primata” e a “Carrie”. Sim, ela era estranha...

Mas a história bizarra naquela turma se passava com Alexandra, uma senhora já entrada em anos que tardiamente fazia sua primeira faculdade, uma dessas mulheres de quem se diz: “Ela não leva desaforo pra casa.” Era uma negra alta, esguia, gostava de usar um lenço à cabeça, de palavreado fácil, em tom que se categorizaria por allegro ma non troppo, nunca a rotular como moderado, no que se refere à altura. A antagonista dessa pequenina passagem era Rose, que vos apresento como uma bela moça de seus vinte e poucos anos, de porte esguio sem deixar que a magreza lhe tolhesse curvas e sinuosidades, muito bem distribuídas em sua pele “morena arroxeada” como se dizia de minha avó materna em sua juventude – o que valeu-lhe, até a morte, o apelido de “roxa”. Mas, voltando à beldade que descrevia, tinha cabelos lisos, o que em tempos onde já existia a tal escova progressiva seria de difícil afirmação a naturalidade de tais madeixas.
Segundo reza a lenda e os relatos contados por seus colegas, Rose teria cismado com Alexandra já nos primeiros dias de aula. E então lhe inventava histórias contundentes, como que estava grávida mas que ia tirar o filho pois o pai era casado, chocando a colega mais pelo aborto que pelo casamento do suposto genitor, ou que, noutras horas, o dito cujo era bandido, traficante, pederasta, ou que lhe tinha tomado o corpo à força. Por aí corria a correnteza de diversidade substanciosa e a imaginação fertilíssima fazia escorrer o Nilo das mais bizarras características.

Alexandra, sempre chocada, manifestava-se baixinho, acreditando ser confidente dos segredos inenarráveis de Rose. Pois bem, chegou o dia que soube-se que ela não estava grávida, que como lhe afirmava Rose, tinha sido rebate falso, como se diz. Só que agora ela estaria gostando de mulher. Alexandra, como já o dissemos, era uma senhora entrada em anos, e ouvia a colega, tentando aconselhar sem preconceitos, até que Rose lhe declarou que ela era a mulher por quem estaria apaixonada. Deu para Alexandra, que barra ali mesmo quaisquer tentativas sentimentais de um contato, digamos, mais carnal.

A partir dali, Rose tendo achado o ponto, falava, durante as aulas, baixinho, sobre seu desejo pela colega, que, no tom sempre alto, algo indignada, no seu exagero verbal, ao ser questionada pelos colegas ou professores, afirmava: “Ela é louca, eu não falei nada disso, tô aqui acompanhando a matéria...” E por aí, ia...

Passado esse surto, aconselhada a mudar de lugar, afasta-se do lado da colega e pula para a cadeira imediatamente à frente dela. E aí era o jogar de cabelos que irritava a já indignada senhora que reclamava em brados cada vez mais retumbantes, e a outra a se divertir jogando-lhe as madeixas sobre a carteira.

Pois bem, Alexandra decide calar-se; cala um dia, dois, no terceiro, quando a outra provocante lhe joga a cabeleira sobre os cadernos, ela não tem dúvida, assim como também os colegas que já não a tinham sobre as provocações de Rose. A mão é rápida e certeira ao manejar a tesoura e a mecha enorme, à guisa do escalpo, vira troféu nas mãos de Alexandra.

Rose? Bem, teve que cortar o cabelo à altura da nuca, e desde então cessaram as brincadeiras, pois que a outra não estava pra isso.


***


Allegro ma non troppo (italiano para "rápido, mas não muito") é o nome de um andamento utilizado para indicar ao músico que a execução deve ser moderadamente rápida. Em geral o movimento allegro é executado com pulsação rápida e expressão leve e alegre. Fonte: Wikipédia



Foto: Djair - Minhas próprias madeixas, a serem doadas ao Outubro Rosa

sexta-feira, 11 de março de 2016

E livrai-nos de todo o mal...

      Em algum lugar li, ou ouvi, já não sei dizer, não retive o suporte, só guardei a informação: “O mal não é maior que o bem, ele é apenas mais ruidoso.”
      Tudo leva-me a crer que é verdade, afinal, o bem é discreto, não gosta, ou ao menos não sente necessidade da propaganda. Talvez porque num livro mundialmente muito aceito, chamado Bíblia, a que alguns acrescentam a palavra sagrada, em algumas de suas passagens alerte que para se fazer o bem, pelo menos na forma de caridade, não se deve fazê-lo com o intuito de buscar glórias e reconhecimentos. 

      Já o mal talvez seja tão ruidoso porque nunca se sacia. O ódio nele contido fermenta e cresce sem limites. Como um câncer. Afinal o que é o câncer senão o descontrole, um crescimento sem limites de células podres? Assim também é o mal, aqueles que desejam o mal dos outros jamais se satisfazem, uma pequena maldade que deu certo e já estão a arquitetar a próxima: uma fofoca, uma puxação de tapete, qualquer ato que possa tirar um pouco o sossego da vítima. Aos olhos desses pequenos carrascos, ainda por cima, a vítima é sempre ele mesmo, o outro é sempre o culpado por seus males, sejam eles quais forem. E com vorazes apetites de vinganças seguem em seus planos de perturbação; se não os executam, fomentam outros, ou como serpentes que vivem do próprio veneno, segregam vibrações negativas em direção ao outro sem perceber que chafurdam eles mesmos nesse denso e enxovalhado caldo. A mais das vezes, nada ganharão com aquilo, é apenas o prazer de fustigar o outro, de fazê-lo perder tempo, paz, sono, saúde.

      Mas se Freud não explica, explico eu novamente, pois já o disse em outros textos nesse mesmo canal: tem gente que é tão infeliz que só consegue sentir-se um pouquinho melhor quando vê o outro infeliz.

      E como o assunto é mesmo pesado, termino uma frase lida, há mais de década, na camisa de um rapaz, em Barreiras – BA, atribuída a um espírito de nome Joana de Angelis: “O mal que me fazem não me faz mal. O que me faz mal é o mal que faço aos outros porque me torna um homem mau.”

      E ainda em tempo, retomo, na forma de vibração a você que me lê, o texto final sempre presente nas saudosas cartas que outrora recebia de Sophie Symarc:

     “Que nem um mal o (a) atinja.
      Que nem um mal o (a) atinja.
      Que nem um mal o (a) atinja.”


Foto: Djair – O representante do mal sob os pés do representante do bem (S. Miguel Arcanjo. - Igreja de São Gonçalo Garcia – Penedo – AL.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Os risos e as lágrimas de D. Dalma

Nunca conheci ninguém de riso mais fácil que o de Dásia, a quem chamamos: Dona Dalma, pois é “tão boa e dá manga pra nóis”, mas o caso das mangas é para outro dia, que hoje o caso é sério.

Pode até haver quem ria tanto quanto ela, porém, rir mais do que ela será difícil; com tudo e por tudo ela ri. Ela ri, não sorri, não se trata apenas daquela suave curvatura de lábios para cima que apenas insinua um pequeno contentamento, como muitos esboçam à guisa de discrição, mas um riso largo, solto, frouxo, altissonante, acompanhado de levantares de queixo, abaixados de cabeça, curvatura de tronco, para cima, para baixo, movimentos de braço, fechar e abrir de olhos; sim, ela ri, ri com todo o corpo, ri inteira, ri com a alma. Se a alegria tem um formato, é o formato de D. Dalma.

Todavia, boa pulsatilla* que é, chora com a mesma facilidade com que ri. Passa do riso às lágrimas e das lágrimas ao riso mais rápido que os olhos possam acompanhar. Quando você começa a se condoer com o causo triste que ela conta entre lágrimas, eis que ela dá uma gargalhada e conta o momento alegre que viveu com a mesma pessoa pela qual estava em pesar.

Já entrada em anos, nos conta ela, rindo, e antes de ir ao urologista, que agora está com um problema seríssimo: “_Quando não estou chorando, eu tô rindo, e quando eu dou risada eu faço xixi. Hoje mesmo já troquei de calcinha quatro vezes.” E é um sofrimento, continua ela: “_Se eu rio faço xixi, aí eu choro porque é uma coisa triste, mas como também é engraçado eu dou risada e aí eu faço xixi.” E gargalha com a própria sina.

Mas noutro tempo, distante temporalmente, mas que na memória está bem ali, mais próximos que muitos momentos recentes, D. Dalma, mocinha de tudo, foi estudar em Belo Horizonte. Havia de cursar pedagogia e como faculdade só era na capital, lá fora ela morar “com meu irmão Luciano”. Na cidade grande ela se encantava com tudo, como sempre se encantou na cidade miúda, na roça, ou mais tarde na Europa. Pois se há coisa que seus olhos veem melhor é a beleza das coisas.

Pois muito bem, antes que o texto se alongue por demais, e canse o leitor, pois sou suspeito, enquanto o escrevo, o encantamento com a personagem faz vagar. E o fogacho da narrativa se dispersa aqui e ali. Então, vamos acelerar...

Já instalada, Dalma, que ainda não era Dona, tomou como tarefa sua comprar pão e leite para o café da manhã, enquanto tia Dedê passava o café na capital do mesmo jeito que passava na roça, em coador de pano e com todo amor do mundo.

E lá ia Dalma, cantando baixinho pelo caminho até a padaria, ia olhando a tudo, e sorrindo satisfeita com o mundo e consigo mesma. Olhava, ria, cantava, seguindo o rumo, e invariavelmente, já que a padaria era pertinho e ficava no final da quadra seguinte, ela passava em frente a uma dessas casas chiques do Savassi**, onde estavam ali diariamente, em frente ao sobrado, um motorista uniformizado que polia o carro ou apenas observava o mundo, encostando-se nele, e uma babá que ora empurrava um carrinho de bebê para frente e para trás, embalando a criança, ora o tinha ao colo, acalentando o pequeno. Nunca sorriam, nunca a cumprimentavam, “bom dia” então, nem pensar...

Pois muito bem, pensou nossa heroína, se eles não cumprimentam, vou cumprimentar eu. Vou dar bom dia pro motorista e vou falar pra moça: “Como vai?”, e vou brincar com aquele bebezinho. Oras, mas que gente mais mal humorada, mas eu vou acabar com isso.

E assim decidida, falou a seus botões: “_ É amanhã. Amanhã eu cumprimento aqueles dois e aperto a bochecha daquele menininho: gracinha!”

No dia seguinte, firme no propósito, enquanto tia Dedê colocava água no fogo para passar o café, que só de abrir a lata inundava a casa com seu aroma, lá foi ela cantando, sorrindo e com a ideia fixa. Dou bom dia aos dois e faço graça ao bebê. A pessoa não pode ser fechada assim não, uai!

Os avistou, foi se aproximando, chegando mais pertinho pra poder falar de perto. Os dois de lá, acostumados com a figura a passar pela calçada, não a estranharam; o motorista estava mais à frente e então seria ele o primeiro a receber o cumprimento com o sorriso de bom humor que o desconcertaria, pensou disposta!

A dois passos do moço, podendo olhar já em seus olhos que os mesmos a observavam pela estranheza de tanta proximidade, ela abre o seu maior sorriso, daqueles com todo o rosto, e de olhos bem abertos exclama em alto e alegre tom: “_Oi neném!!!”

Imediatamente, ela se dá conta do erro, abaixa a cabeça, encobre o corpo, põe a mão aberta sobre a boca, apressa o passo em linha reta e sem olhar para trás, ruma para a padaria. Meio que desnorteada de tanta vergonha, pensa consigo mesma: Dásia, Dásia, o que é que você fez, Dásia? Você tá louca? E antes de chegar na padaria já ria com a própria gafe, alternando a vergonha com a gargalhada.

Pois bem, ela continuou a comprar os pães diariamente pelos 4 anos do curso, mas desde então a padaria ficou mais longe, porque ela dava a volta por trás da quadra para nunca mais passar em frente à casa onde ficavam a babá, o bebê e o motorista!


Foto – Djair – Dona Dalma na janela da casa da roça.

*Pulsatilla – Medicamento homeopático o qual segundo a matéria médica homeopática é indicado para a pessoa que tem como característica rir e chorar ao mesmo tempo.

** Savassi – Bairro de Belo horizonte.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

No Serro, surpresas...

     Entre as coisas estranhas do ser estão as recordações; como diz minha mãe, se o espiríto não me engana e a verdade não me mente, foi em um poema que li que “os acontecimentos eram como conchinhas na praia a serem recolhidas por uma criança. Ninguém jamais sabe quais serão as escolhidas e guardadas como um tesouro”.

     Hoje acordei lembrando de um menino, cujo breve contato se encrustou em minha memória e que, hoje, insiste em ali brilhar, daí vem o texto que ora escrevo...

      Depois de cairmos no conto da Estrada Real (sobre a qual se dizia haver toda uma infra-estrutura que não encontramos, pelo menos não naquele trecho após Mariana no sentido à Diamantina), resolvemos sair dela, e encaramos a Serra do Cipó, conforme narrei aqui em outra ocasião.*

      Pois bem, quase chegando à cidade do Serro, o pneu do carro estoura em uma estradinha de mão dupla, sem movimento, sem iluminação. A noite já havia caído, sem lua, sem estrelas, apenas com o breu... E lá fui eu cortar galhos para indicar o entrevero, já que o triângulo do carro não me parecia que ia dar conta ali, e antes que o leitor mo pergunte, não, não tínhamos sequer uma lanterna no carro.

     Perdendo-me de vista, Zi, o companheiro de viagem, gritava por mim, onde eu estava, o que estava fazendo, e eu a explicar que estava sinalizando a estrada retornei. Pois bem, com o anjo da guarda de plantão, esse foi o pneu mais rápido que já troquei na vida. Gastei mais tempo em sinalizar a estrada que com ele em si.

      Conseguimos chegar ao Serro, que se mostrou uma surpresa tão boa que acabei gostando mais de lá que de Diamantina. Não pelo melhor doce de leite que já comi, não pelo arroz tropeiro de lamber os beiços com aquele torresminho que só os mineiros sabem fazer, nem pelo queijo saboroso, de que não foi tirada toda a gordura a fim de se fazer outros produtos, mas pela acolhida naquela pousadinha simples, onde havia sim vagas depois de tantas peripécias e onde pudemos tomar banho quente e nos secar com toalhas cheirosas, de gente que estava ali tentando progredir na vida e mais que uma pousada ofereciam, marido e mulher, uma conversa solta e sorrisos acolhedores.

      A chácara do Barão do Serro estava em reforma, mas a casa dos Ottoni, transformada em um pequenino museu foi um encanto. As igrejas também são belas e as pessoas nas recepções desses lugares oferecem histórias e sorrisos sem cobrar nada, diferente de Mariana onde os guias nas igrejas vestem camisas com logotipos da prefeitura mas cobram pelas caras e você só percebe que caiu no conto depois quando no final o preço é dado. Como vínhamos já de Ouro Preto, São João del Rey e Tiradentes, onde o serviço não era cobrado, nos sentimos lesados em Mariana. Felizmente, o Serro nos fez esquecer o engodo.

      Mas lembrei do Serro ao lembrar de um menino. No dia seguinte à chegada, fomos a uma borracharia para fazer a compra de pneu novo e a realização de uma cambagem e alinhamento, já que na saída de São Paulo, na rodovia Fernão Dias, logo no começo da viagem, um pneu estourou e, segundo o mecânico, a roda que raspou no “guard rail” estava a “comer” o estepe de troca, o mesmo que se foi na entrada do Serro. Enfim, peças trocadas, serviços feitos, com o primeiro dia de Serro a passar-se ali na oficina, esperando e de prosa com borracheiros e mecânico, esse último indicou um restaurantezinho um pouco adiante do posto, de propriedade de uma irmã sua, o qual era simples de tudo e com uma comida bem saborosa.

      Quase ali chegando, me vem um menino correndo em minha direção. Nitidamente tinha síndrome de Down. Devia ter uns oito, nove anos, não mais, correu em minha direção e abraçou-me... como se eu fosse um velho conhecido, um parente, amigo, ou o que o valha. Encantou-me, a ponto de anos depois, como agora, eu lembrar-me dele e a partir daí sair esse texto.

      Depois do abraço, a surpresa: ele me pediu para pagar-lhe uma coxinha; ou seja, mesmo Down, mesmo criança, ele já sabia manipular.


* E a vaca não foi pro brejo.

Foto: Internet. Disponível em:


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Ao bibliotecário que diz não gostar de ler


Tinha a sua frente todo os ensinamentos do Buda.
Os do alcorão ao alcance da mão
História da vida privada a poucos metros, mas nada...
E adiante, avalanches de romances

Não o atraíam
Nem as generalidades no 00
Nem a filosofia da classe 100
Tampouco todo o conhecimento da história no final do corredor.

Ah, mas com que dor,
Entrego que esse senhor
que tinha ali tanto conhecimento
Para nosso tormento, enxergava no mundo apenas um aglomerado de letras e números
Uma tabela
P.H.A


Foto: internet -  El bibliotecario:  Giuseppe Archimbaldo - Óleo sobre tela. 97x71 cm.
Skoklosters Sloott - Suécia

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Marias, Matildes, Macabéas

Sempre me senti perturbado com a subserviência. 
 
Diferente daqueles que protestam por perder regalias e que ainda não se conformaram com a abolição da escravatura, me incomoda ver o outro a trabalhar enquanto nada faço. Mas também é lógico: gosto de ter quem faça serviços que não estou a fim de fazer, e para isso contratamos uma doméstica para uma jornada de 06h, três vezes por semana (registro em carteira, salário decente – o dobro do que uma conhecida paga a sua por jornada de 08h, em uma jornada de 5 dias semanais).

E assim livrei-me do fogão; não que não goste de cozinhar, gosto, mas sem o compromisso do “ter” que fazer. E livrei-me também da maior parte das tarefas de limpeza da casa. Posso me dedicar com mais calma às plantas e pude, por exemplo, ir à praia antes de sentar aqui para escrever esse texto sobre algo que me incomoda há dias, com sentimentos antagônicos.

O desejo de agradar àquele que seria o patrão (termo que me perturba), a levou há poucos dias a perguntar-me se poderia lavar meus tênis. 
 
Estupefacto, perguntei: _Como? e ela explica:_Aqueles tênis brancos, posso lavar?
Respondi ainda meio surpreso e constrangido que sim.
_Ah, sim, claro... 
 
Bem, desde o fim da adolescência não sou de lavar os tênis; como sempre disse: eles perdem a personalidade, a história de por onde andaram e as marcas do que pisaram...

Lembro de um namoro distante, que foi pouco mais que um flerte, onde a pessoa ao chegar em casa certa vez, também lavou-me um par de tênis e engraxou-me um coturno que eu adorava. Lógico que fiquei feliz naquela ocasião, e nesta agora também me agrada tê-los tão brancos como quando foram adquiridos, no entanto não me conforta a ideia de alguém fazê-lo por mim. Ainda que paga para isso, não estava combinado que esta seria uma das tarefas da doméstica. 
 
Assim, a cada olhar, enxergo nela minha Macabéa*.
Provavelmente eu não sirva para ser patrão. Nunca me senti bem em olhar para alguém trabalhando enquanto eu apenas existiria, ocupando um lugar onde deveria ter ar. Coisa que a muita gente faz muito bem, inclusive no trabalho, onde deveriam honrar seus salários, mas se fôssemos falar sobre os que só produzem fezes, urina e suor, a crônica seria outra. E os bois teriam outros nomes.
 
A Macabéa fala pouco e baixinho, e eu, que já não ouço muito bem, tenho que por vezes pedir que repita. Senta-se à mesa conosco às refeições; em casa sempre foi assim: lembro de meu pai pedir certa vez à minha mãe que dispensasse uma de nossas contratadas por ela se recusar a comer conosco. Em casa de alguns amigos, elas nunca o fazem. Não são parte da família, não se tornam amigas, são mantidas à distância. - E aqui o ponto é mais longo para uma reflexão maior do que eu teria capacidade de verbalizar.


*Vide A Hora da Estrela, LISPECTOR, Clarice.
Foto: Djair -