Licença Creative Commons
Prajalpa é uma obra sob Licença da Creative Commons. Esta licença permite que outros adaptem, e criem obras derivadas sobre a obra, desde que citada a fonte, é vedado o uso para fins comerciais.

domingo, 1 de maio de 2016

Comendo com os olhos

Igreja matriz de Ubatuba. Foto:  Pref. Mun. Ubatuba
Na parede da memória, cada vez mais desbotada, o nome já se apagou, mas ficava na primeira esquina, no sentido de quem se dirige ao centro, logo após o campo de aviação, que muitos, principalmente os nativos, insistem em chamar de aeroporto. Era ali, naquela esquina que ficava meu restaurante predileto em Ubatuba.

Mesas de madeira, comme il faut, luz difusa, nunca lotado, garçom atencioso… Mas não era apenas isso, não era a comida com porções bem servidas, dentro de um preço honesto, e nem pelo sabor digno de agradar palatos mais enjoados; não era pelo vinho, ou pela decoração que me deixava com vontade de levar várias peças para casa, nem pela abundância do verde em vasos; aliás, era por todo esse conjunto sim, mas o que muito me atraia para o charmoso bistrô era que ali aconteciam, enquanto saboreávamos nossos pratos, no meio do saguão, ladeado por nossas mesas…
aulas de tango, às sextas e sábados a noite. No máximo dois pares a cada hora, com direito ao casal de professores de mostrar passos e dançar com os alunos. E ali embevecidos com a dança em seu gestual libidinoso, a música naquele tom que acaricia os ouvidos, comíamos mais devagar e apreciávamos o tinto sem pressa.

Para mim, que nunca aprendi a dançar, nem com as aulas de dança de salão e toda a paciência de Laura, nem com o incentivo de Patricia, aquilo, sim, era uma festa para os sentidos. O melhor programa para as noites chuvosas do balneário.

Por tudo isso, o espaço se cristalizou e eternizou-se em minhas lembranças. O frequentamos todas as vezes que fomos a Ubatuba, várias ao longo do ano, a cada pequena folga obtida ou roubada à labuta. Até que um dia ele fechou. E aí, uma pequena tristeza nublou nossos olhos, como o céu de Ubatuba onde tanto chove, e lamentamos aquela “perda”.

Hoje, me veio à mente o rapazote que víamos sempre a tomar aulas, com a parceira bem maquiada e vestida, assim como ele, a caráter para a dança. E o simpático professor, pouca coisa mais velho que ele, a ensinar um passo. Da mesa, sorrimos ao escutá-lo: “_Mas isso é muito descortês, eu me recuso a fazer isso com uma dama.” No que o professor chama a professora-assistente, e diz: “vou te mostrar, e aí, você vai mudar de ideia”. Toma nos braços a colega, numa volta passa-lhe a perna por trás da sua, como se fosse um golpe a dar-lhe uma rasteira, e ela, levantando a perna, inclina as costas como se fosse cair, amparada por seus braços, enquanto uma das mãos segura a de seu condutor, retorna à posição ereta, enlaça com sua perna de polvo as daquele que a conduz e saem a rodopiar um sobre o outro. Apenas uma coisa nos faltou: coragem para aplaudir!


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Cabelo, pra que te quero?

Quando criança, colecionava figurinhas nos álbuns, sem jamais ter completado um. Vieram selos, postais, cartões telefônicos, mas ali, pela sétima série comecei uma bizarra coleção de... cabelos.

Sim, fios de cabelos. Colocava-os em um caderno, com um durex, adicionando data e a quem pertenciam, fios pequenos, longos, louros, escuros, naturais em sua maioria já que, àquele tempo a tintura, não era algo tão difundido, entre a mulherada. A grande maioria dos fios provinha das colegas de colégio, mas também de vizinhas, primas, e mesmo professoras, Marisa, Bartira, etc. Tinha de várias, às vezes colhidos nas costas, fios que caíam, às vezes pedidos e dados gentilmente; outras vezes um puxãozinho inusitado me propiciava o troféu...

Naqueles dias, eu justificava a coleção como sendo um pedacinho da pessoa que ficava comigo. Obviamente, ideia colhida de uma música muito difundida em rádios e programas televisivos da época:  “Fio de cabelo”, de João Mineiro e Marciano, onde o verso do refrão diz:
 
 "E hoje, o que eu encontrei
Me deixou mais triste 
Um pedacinho dela que exite
Um fio de cabelo no meu paletó..."

Não sei com quantos fios contava, aliás com quantas amostras, já que de algumas tinha vários fios, formando uma pequenina mecha de três, cinco cilindros de espessura fina, como diz outra música “Cabelo”, de Arnaldo Antunes e Jorge Ben. O fato é que já ia longe no caderno de 200 páginas, e àquele dia, pedi o fio a uma colega, com quem tinha já uma aproximação e que estudava na sala em frente à minha. Não lhe lembro o nome, nem o diria se lembrasse; era lourinha, branquinha, bonitinha, como diz uma conhecida: tudo “inha”. E obtendo o consentimento, tirei-lhe o fio, da parte de cima da cabeça; foi dali, daquela região logo acima da testa, que me veio o fio finíssimo e dourado, acompanhado de um pequeno, pequeníssimo anopluro. A caminhar sobre aquele fio amarelo, o pediculus capitis me causou tal desconforto que agradeci, desconversei, e não sei muito bem como saí dali, provavelmente tendo deixado o fio cair no corredor.

Foi o que bastou; todos os pedacinhos das pessoas foram jogados fora e assim acabou-se a coleção. Como diria uma colega, deu-me um “nojinho”... Sem revelar o santo, cheguei a contar o milagre a alguns que me perguntaram pela coleção. Não sei se era crível, uma vez que eu mesmo a acho inusitada, mas como diria Chicó*: “Só sei que foi assim”.



* Personagem de Ariano Suassuna presente em “O auto da compadecida.”

Foto: Internet - "Natasha Moraes de Andrade " disponível aqui.
Clicando nas palavrinhas azuis você pode ouvir as músicas citadas.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Nem medusa, nem sansão, muito menos Rapunzel.

Todo tipo de doido tem por essas terras, ou como dizia D. Antônia, lá em Cezídia, àqueles tempos mais tranquilos e frescos, inocentes e sem tanta maldade: “Deus deixou cada agregado nesse mundo véio dele...”
Enfim...

Naquele primeiro ano de faculdade, acabei por fazer amizade com o pessoal da turma que me antecedia, e ali, no decorrer dos quatro longuíssimos anos do curso, acabei por saber algumas histórias que naquela estranha classe se passava. Se na minha turma haviam grupos distintos e antagônicos como as bibas subservientes, as patricinhas, a bancada evangélica, os da terceira idade e lá no fundão, nós, os normais, naquela outra turma anterior haviam figuras de igual calibre, sem contar outros ainda mais raros.

A distância de um ano, assim como a física, não me permitiu saber-lhes os apelidos. Enquanto que em minha sala haviam algumas identificatórias ditas a alto som como o “bagaceira” e a “vírgula”, também haviam aqueles ditos entredentes, como o “homem primata” e a “Carrie”. Sim, ela era estranha...

Mas a história bizarra naquela turma se passava com Alexandra, uma senhora já entrada em anos que tardiamente fazia sua primeira faculdade, uma dessas mulheres de quem se diz: “Ela não leva desaforo pra casa.” Era uma negra alta, esguia, gostava de usar um lenço à cabeça, de palavreado fácil, em tom que se categorizaria por allegro ma non troppo, nunca a rotular como moderado, no que se refere à altura. A antagonista dessa pequenina passagem era Rose, que vos apresento como uma bela moça de seus vinte e poucos anos, de porte esguio sem deixar que a magreza lhe tolhesse curvas e sinuosidades, muito bem distribuídas em sua pele “morena arroxeada” como se dizia de minha avó materna em sua juventude – o que valeu-lhe, até a morte, o apelido de “roxa”. Mas, voltando à beldade que descrevia, tinha cabelos lisos, o que em tempos onde já existia a tal escova progressiva seria de difícil afirmação a naturalidade de tais madeixas.
Segundo reza a lenda e os relatos contados por seus colegas, Rose teria cismado com Alexandra já nos primeiros dias de aula. E então lhe inventava histórias contundentes, como que estava grávida mas que ia tirar o filho pois o pai era casado, chocando a colega mais pelo aborto que pelo casamento do suposto genitor, ou que, noutras horas, o dito cujo era bandido, traficante, pederasta, ou que lhe tinha tomado o corpo à força. Por aí corria a correnteza de diversidade substanciosa e a imaginação fertilíssima fazia escorrer o Nilo das mais bizarras características.

Alexandra, sempre chocada, manifestava-se baixinho, acreditando ser confidente dos segredos inenarráveis de Rose. Pois bem, chegou o dia que soube-se que ela não estava grávida, que como lhe afirmava Rose, tinha sido rebate falso, como se diz. Só que agora ela estaria gostando de mulher. Alexandra, como já o dissemos, era uma senhora entrada em anos, e ouvia a colega, tentando aconselhar sem preconceitos, até que Rose lhe declarou que ela era a mulher por quem estaria apaixonada. Deu para Alexandra, que barra ali mesmo quaisquer tentativas sentimentais de um contato, digamos, mais carnal.

A partir dali, Rose tendo achado o ponto, falava, durante as aulas, baixinho, sobre seu desejo pela colega, que, no tom sempre alto, algo indignada, no seu exagero verbal, ao ser questionada pelos colegas ou professores, afirmava: “Ela é louca, eu não falei nada disso, tô aqui acompanhando a matéria...” E por aí, ia...

Passado esse surto, aconselhada a mudar de lugar, afasta-se do lado da colega e pula para a cadeira imediatamente à frente dela. E aí era o jogar de cabelos que irritava a já indignada senhora que reclamava em brados cada vez mais retumbantes, e a outra a se divertir jogando-lhe as madeixas sobre a carteira.

Pois bem, Alexandra decide calar-se; cala um dia, dois, no terceiro, quando a outra provocante lhe joga a cabeleira sobre os cadernos, ela não tem dúvida, assim como também os colegas que já não a tinham sobre as provocações de Rose. A mão é rápida e certeira ao manejar a tesoura e a mecha enorme, à guisa do escalpo, vira troféu nas mãos de Alexandra.

Rose? Bem, teve que cortar o cabelo à altura da nuca, e desde então cessaram as brincadeiras, pois que a outra não estava pra isso.


***


Allegro ma non troppo (italiano para "rápido, mas não muito") é o nome de um andamento utilizado para indicar ao músico que a execução deve ser moderadamente rápida. Em geral o movimento allegro é executado com pulsação rápida e expressão leve e alegre. Fonte: Wikipédia



Foto: Djair - Minhas próprias madeixas, a serem doadas ao Outubro Rosa

sexta-feira, 11 de março de 2016

E livrai-nos de todo o mal...

      Em algum lugar li, ou ouvi, já não sei dizer, não retive o suporte, só guardei a informação: “O mal não é maior que o bem, ele é apenas mais ruidoso.”
      Tudo leva-me a crer que é verdade, afinal, o bem é discreto, não gosta, ou ao menos não sente necessidade da propaganda. Talvez porque num livro mundialmente muito aceito, chamado Bíblia, a que alguns acrescentam a palavra sagrada, em algumas de suas passagens alerte que para se fazer o bem, pelo menos na forma de caridade, não se deve fazê-lo com o intuito de buscar glórias e reconhecimentos. 

      Já o mal talvez seja tão ruidoso porque nunca se sacia. O ódio nele contido fermenta e cresce sem limites. Como um câncer. Afinal o que é o câncer senão o descontrole, um crescimento sem limites de células podres? Assim também é o mal, aqueles que desejam o mal dos outros jamais se satisfazem, uma pequena maldade que deu certo e já estão a arquitetar a próxima: uma fofoca, uma puxação de tapete, qualquer ato que possa tirar um pouco o sossego da vítima. Aos olhos desses pequenos carrascos, ainda por cima, a vítima é sempre ele mesmo, o outro é sempre o culpado por seus males, sejam eles quais forem. E com vorazes apetites de vinganças seguem em seus planos de perturbação; se não os executam, fomentam outros, ou como serpentes que vivem do próprio veneno, segregam vibrações negativas em direção ao outro sem perceber que chafurdam eles mesmos nesse denso e enxovalhado caldo. A mais das vezes, nada ganharão com aquilo, é apenas o prazer de fustigar o outro, de fazê-lo perder tempo, paz, sono, saúde.

      Mas se Freud não explica, explico eu novamente, pois já o disse em outros textos nesse mesmo canal: tem gente que é tão infeliz que só consegue sentir-se um pouquinho melhor quando vê o outro infeliz.

      E como o assunto é mesmo pesado, termino uma frase lida, há mais de década, na camisa de um rapaz, em Barreiras – BA, atribuída a um espírito de nome Joana de Angelis: “O mal que me fazem não me faz mal. O que me faz mal é o mal que faço aos outros porque me torna um homem mau.”

      E ainda em tempo, retomo, na forma de vibração a você que me lê, o texto final sempre presente nas saudosas cartas que outrora recebia de Sophie Symarc:

     “Que nem um mal o (a) atinja.
      Que nem um mal o (a) atinja.
      Que nem um mal o (a) atinja.”


Foto: Djair – O representante do mal sob os pés do representante do bem (S. Miguel Arcanjo. - Igreja de São Gonçalo Garcia – Penedo – AL.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Os risos e as lágrimas de D. Dalma

Nunca conheci ninguém de riso mais fácil que o de Dásia, a quem chamamos: Dona Dalma, pois é “tão boa e dá manga pra nóis”, mas o caso das mangas é para outro dia, que hoje o caso é sério.

Pode até haver quem ria tanto quanto ela, porém, rir mais do que ela será difícil; com tudo e por tudo ela ri. Ela ri, não sorri, não se trata apenas daquela suave curvatura de lábios para cima que apenas insinua um pequeno contentamento, como muitos esboçam à guisa de discrição, mas um riso largo, solto, frouxo, altissonante, acompanhado de levantares de queixo, abaixados de cabeça, curvatura de tronco, para cima, para baixo, movimentos de braço, fechar e abrir de olhos; sim, ela ri, ri com todo o corpo, ri inteira, ri com a alma. Se a alegria tem um formato, é o formato de D. Dalma.

Todavia, boa pulsatilla* que é, chora com a mesma facilidade com que ri. Passa do riso às lágrimas e das lágrimas ao riso mais rápido que os olhos possam acompanhar. Quando você começa a se condoer com o causo triste que ela conta entre lágrimas, eis que ela dá uma gargalhada e conta o momento alegre que viveu com a mesma pessoa pela qual estava em pesar.

Já entrada em anos, nos conta ela, rindo, e antes de ir ao urologista, que agora está com um problema seríssimo: “_Quando não estou chorando, eu tô rindo, e quando eu dou risada eu faço xixi. Hoje mesmo já troquei de calcinha quatro vezes.” E é um sofrimento, continua ela: “_Se eu rio faço xixi, aí eu choro porque é uma coisa triste, mas como também é engraçado eu dou risada e aí eu faço xixi.” E gargalha com a própria sina.

Mas noutro tempo, distante temporalmente, mas que na memória está bem ali, mais próximos que muitos momentos recentes, D. Dalma, mocinha de tudo, foi estudar em Belo Horizonte. Havia de cursar pedagogia e como faculdade só era na capital, lá fora ela morar “com meu irmão Luciano”. Na cidade grande ela se encantava com tudo, como sempre se encantou na cidade miúda, na roça, ou mais tarde na Europa. Pois se há coisa que seus olhos veem melhor é a beleza das coisas.

Pois muito bem, antes que o texto se alongue por demais, e canse o leitor, pois sou suspeito, enquanto o escrevo, o encantamento com a personagem faz vagar. E o fogacho da narrativa se dispersa aqui e ali. Então, vamos acelerar...

Já instalada, Dalma, que ainda não era Dona, tomou como tarefa sua comprar pão e leite para o café da manhã, enquanto tia Dedê passava o café na capital do mesmo jeito que passava na roça, em coador de pano e com todo amor do mundo.

E lá ia Dalma, cantando baixinho pelo caminho até a padaria, ia olhando a tudo, e sorrindo satisfeita com o mundo e consigo mesma. Olhava, ria, cantava, seguindo o rumo, e invariavelmente, já que a padaria era pertinho e ficava no final da quadra seguinte, ela passava em frente a uma dessas casas chiques do Savassi**, onde estavam ali diariamente, em frente ao sobrado, um motorista uniformizado que polia o carro ou apenas observava o mundo, encostando-se nele, e uma babá que ora empurrava um carrinho de bebê para frente e para trás, embalando a criança, ora o tinha ao colo, acalentando o pequeno. Nunca sorriam, nunca a cumprimentavam, “bom dia” então, nem pensar...

Pois muito bem, pensou nossa heroína, se eles não cumprimentam, vou cumprimentar eu. Vou dar bom dia pro motorista e vou falar pra moça: “Como vai?”, e vou brincar com aquele bebezinho. Oras, mas que gente mais mal humorada, mas eu vou acabar com isso.

E assim decidida, falou a seus botões: “_ É amanhã. Amanhã eu cumprimento aqueles dois e aperto a bochecha daquele menininho: gracinha!”

No dia seguinte, firme no propósito, enquanto tia Dedê colocava água no fogo para passar o café, que só de abrir a lata inundava a casa com seu aroma, lá foi ela cantando, sorrindo e com a ideia fixa. Dou bom dia aos dois e faço graça ao bebê. A pessoa não pode ser fechada assim não, uai!

Os avistou, foi se aproximando, chegando mais pertinho pra poder falar de perto. Os dois de lá, acostumados com a figura a passar pela calçada, não a estranharam; o motorista estava mais à frente e então seria ele o primeiro a receber o cumprimento com o sorriso de bom humor que o desconcertaria, pensou disposta!

A dois passos do moço, podendo olhar já em seus olhos que os mesmos a observavam pela estranheza de tanta proximidade, ela abre o seu maior sorriso, daqueles com todo o rosto, e de olhos bem abertos exclama em alto e alegre tom: “_Oi neném!!!”

Imediatamente, ela se dá conta do erro, abaixa a cabeça, encobre o corpo, põe a mão aberta sobre a boca, apressa o passo em linha reta e sem olhar para trás, ruma para a padaria. Meio que desnorteada de tanta vergonha, pensa consigo mesma: Dásia, Dásia, o que é que você fez, Dásia? Você tá louca? E antes de chegar na padaria já ria com a própria gafe, alternando a vergonha com a gargalhada.

Pois bem, ela continuou a comprar os pães diariamente pelos 4 anos do curso, mas desde então a padaria ficou mais longe, porque ela dava a volta por trás da quadra para nunca mais passar em frente à casa onde ficavam a babá, o bebê e o motorista!


Foto – Djair – Dona Dalma na janela da casa da roça.

*Pulsatilla – Medicamento homeopático o qual segundo a matéria médica homeopática é indicado para a pessoa que tem como característica rir e chorar ao mesmo tempo.

** Savassi – Bairro de Belo horizonte.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

No Serro, surpresas...

     Entre as coisas estranhas do ser estão as recordações; como diz minha mãe, se o espiríto não me engana e a verdade não me mente, foi em um poema que li que “os acontecimentos eram como conchinhas na praia a serem recolhidas por uma criança. Ninguém jamais sabe quais serão as escolhidas e guardadas como um tesouro”.

     Hoje acordei lembrando de um menino, cujo breve contato se encrustou em minha memória e que, hoje, insiste em ali brilhar, daí vem o texto que ora escrevo...

      Depois de cairmos no conto da Estrada Real (sobre a qual se dizia haver toda uma infra-estrutura que não encontramos, pelo menos não naquele trecho após Mariana no sentido à Diamantina), resolvemos sair dela, e encaramos a Serra do Cipó, conforme narrei aqui em outra ocasião.*

      Pois bem, quase chegando à cidade do Serro, o pneu do carro estoura em uma estradinha de mão dupla, sem movimento, sem iluminação. A noite já havia caído, sem lua, sem estrelas, apenas com o breu... E lá fui eu cortar galhos para indicar o entrevero, já que o triângulo do carro não me parecia que ia dar conta ali, e antes que o leitor mo pergunte, não, não tínhamos sequer uma lanterna no carro.

     Perdendo-me de vista, Zi, o companheiro de viagem, gritava por mim, onde eu estava, o que estava fazendo, e eu a explicar que estava sinalizando a estrada retornei. Pois bem, com o anjo da guarda de plantão, esse foi o pneu mais rápido que já troquei na vida. Gastei mais tempo em sinalizar a estrada que com ele em si.

      Conseguimos chegar ao Serro, que se mostrou uma surpresa tão boa que acabei gostando mais de lá que de Diamantina. Não pelo melhor doce de leite que já comi, não pelo arroz tropeiro de lamber os beiços com aquele torresminho que só os mineiros sabem fazer, nem pelo queijo saboroso, de que não foi tirada toda a gordura a fim de se fazer outros produtos, mas pela acolhida naquela pousadinha simples, onde havia sim vagas depois de tantas peripécias e onde pudemos tomar banho quente e nos secar com toalhas cheirosas, de gente que estava ali tentando progredir na vida e mais que uma pousada ofereciam, marido e mulher, uma conversa solta e sorrisos acolhedores.

      A chácara do Barão do Serro estava em reforma, mas a casa dos Ottoni, transformada em um pequenino museu foi um encanto. As igrejas também são belas e as pessoas nas recepções desses lugares oferecem histórias e sorrisos sem cobrar nada, diferente de Mariana onde os guias nas igrejas vestem camisas com logotipos da prefeitura mas cobram pelas caras e você só percebe que caiu no conto depois quando no final o preço é dado. Como vínhamos já de Ouro Preto, São João del Rey e Tiradentes, onde o serviço não era cobrado, nos sentimos lesados em Mariana. Felizmente, o Serro nos fez esquecer o engodo.

      Mas lembrei do Serro ao lembrar de um menino. No dia seguinte à chegada, fomos a uma borracharia para fazer a compra de pneu novo e a realização de uma cambagem e alinhamento, já que na saída de São Paulo, na rodovia Fernão Dias, logo no começo da viagem, um pneu estourou e, segundo o mecânico, a roda que raspou no “guard rail” estava a “comer” o estepe de troca, o mesmo que se foi na entrada do Serro. Enfim, peças trocadas, serviços feitos, com o primeiro dia de Serro a passar-se ali na oficina, esperando e de prosa com borracheiros e mecânico, esse último indicou um restaurantezinho um pouco adiante do posto, de propriedade de uma irmã sua, o qual era simples de tudo e com uma comida bem saborosa.

      Quase ali chegando, me vem um menino correndo em minha direção. Nitidamente tinha síndrome de Down. Devia ter uns oito, nove anos, não mais, correu em minha direção e abraçou-me... como se eu fosse um velho conhecido, um parente, amigo, ou o que o valha. Encantou-me, a ponto de anos depois, como agora, eu lembrar-me dele e a partir daí sair esse texto.

      Depois do abraço, a surpresa: ele me pediu para pagar-lhe uma coxinha; ou seja, mesmo Down, mesmo criança, ele já sabia manipular.


* E a vaca não foi pro brejo.

Foto: Internet. Disponível em:


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Ao bibliotecário que diz não gostar de ler


Tinha a sua frente todo os ensinamentos do Buda.
Os do alcorão ao alcance da mão
História da vida privada a poucos metros, mas nada...
E adiante, avalanches de romances

Não o atraíam
Nem as generalidades no 00
Nem a filosofia da classe 100
Tampouco todo o conhecimento da história no final do corredor.

Ah, mas com que dor,
Entrego que esse senhor
que tinha ali tanto conhecimento
Para nosso tormento, enxergava no mundo apenas um aglomerado de letras e números
Uma tabela
P.H.A


Foto: internet -  El bibliotecario:  Giuseppe Archimbaldo - Óleo sobre tela. 97x71 cm.
Skoklosters Sloott - Suécia

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Marias, Matildes, Macabéas

Sempre me senti perturbado com a subserviência. 
 
Diferente daqueles que protestam por perder regalias e que ainda não se conformaram com a abolição da escravatura, me incomoda ver o outro a trabalhar enquanto nada faço. Mas também é lógico: gosto de ter quem faça serviços que não estou a fim de fazer, e para isso contratamos uma doméstica para uma jornada de 06h, três vezes por semana (registro em carteira, salário decente – o dobro do que uma conhecida paga a sua por jornada de 08h, em uma jornada de 5 dias semanais).

E assim livrei-me do fogão; não que não goste de cozinhar, gosto, mas sem o compromisso do “ter” que fazer. E livrei-me também da maior parte das tarefas de limpeza da casa. Posso me dedicar com mais calma às plantas e pude, por exemplo, ir à praia antes de sentar aqui para escrever esse texto sobre algo que me incomoda há dias, com sentimentos antagônicos.

O desejo de agradar àquele que seria o patrão (termo que me perturba), a levou há poucos dias a perguntar-me se poderia lavar meus tênis. 
 
Estupefacto, perguntei: _Como? e ela explica:_Aqueles tênis brancos, posso lavar?
Respondi ainda meio surpreso e constrangido que sim.
_Ah, sim, claro... 
 
Bem, desde o fim da adolescência não sou de lavar os tênis; como sempre disse: eles perdem a personalidade, a história de por onde andaram e as marcas do que pisaram...

Lembro de um namoro distante, que foi pouco mais que um flerte, onde a pessoa ao chegar em casa certa vez, também lavou-me um par de tênis e engraxou-me um coturno que eu adorava. Lógico que fiquei feliz naquela ocasião, e nesta agora também me agrada tê-los tão brancos como quando foram adquiridos, no entanto não me conforta a ideia de alguém fazê-lo por mim. Ainda que paga para isso, não estava combinado que esta seria uma das tarefas da doméstica. 
 
Assim, a cada olhar, enxergo nela minha Macabéa*.
Provavelmente eu não sirva para ser patrão. Nunca me senti bem em olhar para alguém trabalhando enquanto eu apenas existiria, ocupando um lugar onde deveria ter ar. Coisa que a muita gente faz muito bem, inclusive no trabalho, onde deveriam honrar seus salários, mas se fôssemos falar sobre os que só produzem fezes, urina e suor, a crônica seria outra. E os bois teriam outros nomes.
 
A Macabéa fala pouco e baixinho, e eu, que já não ouço muito bem, tenho que por vezes pedir que repita. Senta-se à mesa conosco às refeições; em casa sempre foi assim: lembro de meu pai pedir certa vez à minha mãe que dispensasse uma de nossas contratadas por ela se recusar a comer conosco. Em casa de alguns amigos, elas nunca o fazem. Não são parte da família, não se tornam amigas, são mantidas à distância. - E aqui o ponto é mais longo para uma reflexão maior do que eu teria capacidade de verbalizar.


*Vide A Hora da Estrela, LISPECTOR, Clarice.
Foto: Djair -




terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Em briga de marido e mulher, contam-se os pontos do ibope!

Todos nós, ali da roda mais próxima, sabíamos que o casamento daqueles dois, outrora pombos arrulhadores, não ia bem; as pequenas grosserias cotidianas já se faziam notar a muito fora da alcova. Talvez dentro dela ocorressem carinhos na mesma intensidade, como vai se saber afinal dos mistérios dos laços matrimoniais que insistem alguns em manter, mesmo todos sabendo que dos laços só sobraram nós e emaranhados de difíceis alinhavares.

Nunca se chegou a ouvir como em um outro caso famoso um: “_Cala-te estupor!”, dito em alto brado retumbante, durante as festas e reuniões, mas o fato é que tempos depois chegavam à boca pequena os comentários sobre as pequenas agressões já não apenas verbais que trocavam. Isto, para a estupefação de uns, lágrimas de poucos e alegria de outros, pois tem gente que só é feliz quando sabe que o outro está pior que ele. Mas isso é assunto para outro texto a versar sobre as desgraças humanas. Voltemos ao casal que a essas alturas o marido já deixava nela marcas arroxeadas.


Reza a lenda, e quem sou eu para desmentir a lenda, já que todas elas contém fundos de verdade?, que àquela noite, ele que ocupava um posto de liderança no partido político, depois de se acalmar à custa de safonões bem dados naquela que jurou diante de um altar amar na doença e na saúde, na riqueza e na pobreza, veio a ela já arrumado e decretou que ela ficasse lá esperando porque ele ia na reunião do partido para decidir sobre as comemorações do Dia da Mulher.

O tempo passou e com ele veio finalmente a separação que todos achávamos que já tinha passado da hora.

O ápice do comentário geral foi ela tê-lo levado a um programa popular que levava o nome da apresentadora e que foi famoso pelas baixarias familiares que ali eram exibidas em praça pública, via satélite, ao vivo e a cores. O mote do dia, se o espírito não me mente e a verdade não me falha como diz minha mãe, era: Ele me agrediu!

Mas o tempo, ah, o tempo passa, o tempo voa, e a poupança bamerindus faliu! E assim chegamos a mais um ano eleitoral no qual ele concorria sorridente ao cargo de vereador. Ao lado da nova esposa fazia poses sorridentes, discursos de bom mocismo e nunca antes fôra tão cortês, gentil e educado. Ela? A primeira esposa? Bem... Fazia feroz campanha a favor da legislatura do ex-marido.

Afinal concordamos todos: ela queria uma pensão maior!


Foto: Djair - mulheres

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Os Mutilados



Texto de apresentação da exposição os mutilados. Novembro de 2015

Os Mutilados

   A Biblioteca Central da UFES, Campus Goiabeiras, abre ao público em outubro de 2015 a mostra “Os Mutilados”, uma exposição de livros de seu acervo que foram danificados, propositalmente ou não, durante o processo de consulta ou empréstimo, apesar de constituírem um rico patrimônio público que compõe o maior acervo bibliográfico no estado do Espirito Santo.
Embora seja uma biblioteca acadêmica, de uso do corpo docente e discente da Universidade, a Biblioteca Central atende também ao público externo, uma enorme quantidade de pessoas não só da capital, que tem nela o depositário legal de obras de literatura e conhecimento diverso, passando pelas obras raras e iconográficas, além de encontrar um local de refúgio a fim de se dedicar ao estudo e leitura.
Para chegar à estante, cada livro tem um longo caminho a percorrer. Depois de a ideia do autor ter tomado forma impressa, ele passa pelo crivo de especialistas, professores, bibliotecários, pesquisadores, alunos e leitores em geral, que os recomendam à biblioteca, onde se efetua a seleção dessas indicações com base no conjunto já existente. A compra é realizada por meio de pregão eletrônico (licitação) e, após a entrega, o livro passa pela conferência de seu estado físico, pelo processamento técnico (inserção na base de dados, carimbo, etiquetagem) e armazenamento, a partir do qual fica disponibilizado para consulta local ou empréstimo.
Infelizmente todo esse trabalho pode ser perdido num único dia, e não raro no mesmo dia da disponibilização, por um único usuário que o danifica, intencionalmente ou não, por descuido ou omissão.
Em um país onde a imprensa foi estabelecida há apenas dois séculos, e a primeira universidade data de 1912 (enquanto que a Universidade de Coimbra, por exemplo, foi criada em 1° de março de 1290), os livros representam uma riqueza extraordinária e a difusão do conhecimento contido numa biblioteca transcende espaços e convenções.
A exposição “Os Mutilados” busca apreender o olhar do observador de forma a sensibilizá-lo e indigná-lo diante do dano/crime causado a um patrimônio que, mais que público, é impessoal e transferível. Essa transferência se dá na medida em que o conhecimento assimilado em cada obra permanece com seu leitor, que o reelabora e o transmite a outro através dessa fineza que é a cultura adquirida e transformada em expressões, gestos, vocabulário e saber.

Djair Rodrigues de Souza
Curador

Ficha Técnica da Exposição
Reitor: Reinaldo Centoducatte
Vice-Reitora: Ethel Maciel
Diretora da Biblioteca Central: Arlete Franco
Superintendente de Cultura e Comunicação: Edgard Rebouças
Secretário de Cultura: Rogério Borges de Oliveira
Curador: Djair Rodrigues de Souza

Equipe Técnica:
Márcia Mendonça
Vera Lúcia Trancoso
Whashington Loureiro Barbosa
Eric Arantes Ribeiro