quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Caça às Bruxas


Caça às Bruxas



A queima de livros é o ato ritual, geralmente praticado num local público, de se queimar livros ou outras formas de registros escritos que destoem da ideologia social dominante, numa forma de censura. Em alguns casos, os livros queimados são insubstituíveis, constituindo-se numa severa perda para o patrimônio cultural da humanidade, como nos casos das destruições da ibiblioteca de Bágda (1258), da queima de livros durante a dinastia Qin chinesa e da destruição de documentos efetuada pelo imperador asteca Itzcóatl.”

Wikipedia

Foto: Djair - Instalação "Caça às Bruxas"
Biblioteca Central da UFES - Vitória


10 de maio de 1933, Alemanha. São queimados em praça pública, em várias cidades, centenas de livros inoportunos, ou assim tidos, ao regime nazista. É o auge da perseguição do regime aos artistas e intelectuais, sobretudo aos escritores.

19 de setembro de 1937, Salvador, Brasil. Em frente à Escola de Aprendizes Marinheiros são queimados 1.827 livros considerados propagandistas do “credo vermelho”, epíteto dado pelos militares ao comunismo.

06 de fevereiro de 2020, Brasil. Suamy Vivecanda Lacerda de Abreu, secretário de Estado da Educação de Rondônia, solicita às Coordenadorias Regionais de Educação o recolhimento de 43 títulos, entre eles clássicos da literatura brasileira e todos os livros de Rubem Alves - psicanalista, educador, teólogo, escritor e pastor presbiteriano brasileiro, autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis - para posterior entrega ao Núcleo do Livro Didático da mesma secretaria, sem especificar no documento a destinação posterior que seria dada a esse material…

A simples ideia de censura literária ou artística faz-nos tremer e lembrar das ditaduras brasileiras. A emissão de um documento nesse sentido por parte de uma secretaria de Educação soa inconcebível.
Aqui encontram-se os livros “censurados” por aquele órgão que, depois do protesto de grupos intelectuais, artísticos e populares de todo o país e do exterior recuou da decisão.

Todos encontram-se disponíveis para empréstimo domiciliar a nossos associados e acessíveis para leitura local aos usuários externos.

Enquanto não nos proíbem, vamos à leitura.



Djair Rodrigues de Souza*
Curador


*
Bibliotecário
Especialista em Sóciopsicologia


Mestre em Gestão Cultural

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

A bilha


Tinha por costume deixar a porta da garagem um tanto levantada a fim de que o ar de fora entrasse a arejar o espaço, até porque num cômodo anexo, mas ainda dentro da garagem, fazia compostagem, assim, quando em casa, deixava lá coisa de trinta, quarenta centímetros, meio metro que fosse…

Aquele dia, já final de tarde, início de noite, passou como de costume a família que vinha recolhendo recicláveis. Olhos treinados, pela fresta lá dentro, ao fundo, depois do carro, enxergaram a botija de gás. Tocaram a campainha, e reconhecendo e apontando na calçada a caixa de gás encanado, perguntam-me se tinha recém-colocado o gás de rua, atentos portanto ao que acontecia, já que essa opção do combustível tinha chegado a rua apenas há algumas semanas.
Após minha assertiva perguntam se poderia então dar a eles o botijão, a dizer que tinham conseguido um fogão, mas não a bilha de gás, e cozinhavam a lenha. Em troca ofereciam-me os préstimos do marido para cuidar do jardim ou fazer algum reparo, e da mulher para fazer limpeza na casa ou passar roupa, etc…

Entro pego a bilha de gás e lhes entrego, digo não precisar de nada em troca. As três meninas gritam alvoroçadas fazendo festa. Marido e mulher enchem-me de agradecimentos ofertando uma vez mais os préstimos desnecessários. Pedem a deus, não sei qual deles, que me abençoe e partem felizes, sorrindo contentes as crianças a pular festejando.

Sou contagiado por sua alegria.

Entro e dou a nova a meu companheiro, que alerta para o valor do objeto ofertado. Por instantes passa uma sombra pelo contentamento que trazia, mas logo respondo que não precisávamos daquilo, a alegria deles seja lá qual for o uso que deram àquilo não tinha preço.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Amarcord


Amarcord é uma referência à tradução fonética da expressão a m' arcord (eu me lembro), usada na região da Emilia-Romagna, onde nasceu o cineasta Federico Fellini, e que empresta o nome ao título a um de seus filmes.

No drama histórico (série televisiva britânica) Downton Abbey, a personagem de Laura Carmichael, Lady Edith Crawley, perdoa as maldades da irmã Lady Mary (Michelle Dockery), pois somente elas é que viveram naquele lugar, tiveram aquelas experiências, apenas elas lembrar-se-ão de tudo o que viveram.

         Existe uma velha canção brasileira, que lembro-me, era cantada por meu pai, cujo verso mais marcante, pelo menos assim parece-me, diz “recordar é viver, vivo porque amo você.”

Pixação em Coimbra - Portugal
        Mas o quão boas são as lembranças é um fato ultra pessoal. Não costumamos escolher as lembranças, abruptamente aparecem entre nossos pensamentos e nada, ou pouco podemos fazer para que se vão. Bem, deve haver lá quem consiga esquecer fácil, não é o caso desse que digita essas palavras

         E o fato de ter vivido com alguém, desse alguém alguma situação acaso aproxima-nos mais? Sim, porque cremos que a mesma intensidade que nos atinge também atinge o outro, mas nem sempre é assim, há casos de convivências longas, o que não quer absolutamente dizer que seja uma longa amizade. Ter vivido algo com outra pessoa não significa absolutamente que ela respeite aquele momento, que ela tenha seu sentimento equiparado ao seu, pelo contrário, pode usar isso inclusive como forma de envolvimento apenas para tirar lá suas vantagens, seja um almoço “grátis”, um empréstimo, um contato com alguém que conheces e que a ela interessa. Viver com alguém uma situação agradável pode trazer saudosismo, mas o mais das vezes as saudades são de quem éramos naquele momento, de nossa ingenuidade perdida, da nossa fé no outro, de termos rido sem reservas.

         E as más lembranças? Ah, essas fustigam de fato e com requintes de fixação na mente que são um chiclete; quanto mais queremos nos livrar delas mais se fixam. Pode haver quem nunca tenha perdido o sono por lembrar uma vergonha ou raiva que passou em 1930, o que não é meu caso, perco o sono e tenho a mesma vergonha ou raiva. As situações são revividas e a raiva também. Lembro (sim o texto é sobre reminiscências então o verbo lembrar vai repetir-se à exaustão, oublié?) de uma situação onde um sujeito que fazia questão de me lembrar de desagradáveis momentos profissionais, quando a raiva me tomou, disse: “_Nossa, ficas com raiva, a gente relembra essas coisas pra relaxar, não é pra ficar com raiva.” E respondi-lhe: Fico com raiva sim, isso não é pra relaxar, queres que eu relaxe faz-me um bom boquete que isso sim, relaxa pra caramba.

         Não precisamos de pessoas a lembrar-nos momentos maus, eles aparecem por si. E recordar momentos bons, vá lá, não são argumentos para se perdoar sacanas. Que me desculpe lady Edith.

         Sempre disse que se pudesse escolher quais os neurônios seriam queimados, eu seria adepto da cocaína e de outras drogas, mas como não se escolhe, melhor deixá-los intactos, as raivas e decepções já os queimam o suficiente.

         Quantas supostas amizades já tivemos e gostaríamos de esquecer? Quantas pessoas já estiveram conosco e nos esquecemos seus nomes, ou pior, seus rostos? Quantas vezes não nos chega alguém e fala de uma situação ou uma pessoa da qual já não nos lembramos? Quantas senhas esquecemos? E parentes, tios, primos, ou vizinhos, colegas de escola, que são apenas um mero rosto, sem que os liguemos mais a nada, ou então colocamos lá junto a imagem desse rosto uma palavra-chave: “metida”, “chata”, “bonzinho”...

         E o outro lado dessa moeda sem valor, o sentimento que nos evoca a pessoa, às vezes despertado por uma canção, um cheiro, um prato? “_Nossa, lembrei de fulano!” E o fulano em questão nem era-lhe alguém tão ligado a si. As lembranças estão ligadas aos conceitos que damos a uma situação ou personagem. É mais fácil dar um parecer sobre algo ou alguém que esquecer algumas dessas marcações que lhes fazemos. É dia de ferrar gado, ou melhor, qualificar pessoas. Uma vez dada a alcunha ela gruda-lhe, e embora a primeira impressão geralmente seja errada, ela é a principal responsável por essas tatuagens mentais que lhes emprestamos. “Ai, a primeira vez que te vi achei-a tão...” E o qualificativo fica por conta de cada um. – Riem-se disso ambos, se a amizade está em voga, ou se já não está a frase é outra: “Bem que quando eu a conheci tive a impressão de que era...” e acrescente-se: “minha intuição não fa-lha”.
        
         Esse é um daqueles textos onde o fogacho da narrativa é o sentimento e por isso mesmo ele pode não ter lógica alguma, talvez mais um desabafo que uma reflexão, enfim é o que temos pra hoje, um texto onde se relembram sentimentos, ou melhor onde lembra-se de falar das lembranças, sem fim, sem fio condutor, apenas isso: um texto a ser lembrado, ou quiçá, a ser esquecido.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Animalidades e Inanimações.


“Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher...” A voz de Ney Matogrosso afaga-me os ouvidos com esses versos, nos quais ele continua: “sou a mesa e as cadeiras desse cabaré...”
Pois bem, no último texto, falamos justamente dessa dualidade do ser humano, ser homem, ser bicho... Negar um para ser o outro... Ser muito mais bicho que humano. Terminei o texto e fiquei com essa trilha sonora na cabeça. E, junto, uma sensação de que não terminou.
Lembrança de uma amiga que preocupava-se muito com a doutrina espírita da reencarnação pois não queria de forma alguma já ter sido cachorro. Uma vez, numa destas reuniões, fez a pergunta e lhe responderam que não, que bicho nunca vira gente, gente nunca foi bicho... Será? Correntes do hinduísmo, que é muito mais antigo que o cristianismo, dizem que sim. E mais: que podes voltar a sê-lo. Eu, em verdade, acredito mais nessa corrente que permite a involução. Aliás, vejo pessoas próximas e políticos distantes (não tenho muita proximidade com esse tipo de besta), voltando como asnos ou feras peçonhentas.
Tenho amigos tão carinhosos com bichos que sempre dizia: quero voltar gato do Zé Luís ou da Fernanda.
Ora, os animais humanizados demonstram muito mais respeito e carinho pelos que lhe são próximos (humanos e outro bichos) que os humanos entre si. Há ciúmes, mas não competições sujas por promoções de empregos, por carinhos maternos e paternos, por heranças...
Ser homem, ser bicho, ser mulher... Ser um objeto inanimado... O que somos durante todas as horas de nossa existência? As impaciências, rangeres de dentes, berros, afagos, inércia... Quantas máscaras... e nem todas exatamente humanas. Como os bichos, sentimos fome, frio, calor, cansaço. Cagamos, urinamos e nos sentimos amados ou rejeitados. Rejeitamos também, como cães que cismam com determinada pessoa e nada os faz calarem-se ou serem amistosos. Gatos que se escondem de gente ou pássaros e marimbondos que vêm fazer suas casas nas varandas das casas, como a pedir proteção.
Foto: Djair *
E o ser homem e mulher, o desejo do macho de sobrepor-se, e mesmo de ter o prazer sexual e lidar mal com a rejeição do sexo oposto (ou até do mesmo sexo), não é um impulso animalesco que tende muitas vezes a deixar a racionalidade e fazer com que certos tipos partam para a agressividade e o desrespeito? Preferiria eu voltar como um cão amoroso.
Em uma canção de Caetano, ele fala sobre “o macho adulto branco sempre no comando”. A perpetuação desse comando não é uma forma de territorialidade de certas espécies? Como os que banem os outros machos do bando logo após esses amadurecerem sexualmente?
Um tio, ótima pessoa, afetuoso, cordial e aparentemente sensato, tinha por preceito que ao completar dezoito anos os filhos tinham que sair de casa. De qualquer forma. O instinto materno de minha tia, da proteção aos filhos, levou-os à separação por isso. Pensamentos e instintos puramente humanos? Quem equaciona essas sensações, modus vivendi e decisões? Quem tem razão, o homem, o bicho, a mulher? Nem com muito álcool nos copos sobre a mesa, e sentados às cadeiras de um cabaré, poderíamos (pelo menos, eu não) chegar a deduzir esse teorema.
A grande invenção criacionista deixa de fora as evoluções animais e nos coloca num patamar próximo a um criador, sua imagem e semelhança. O quanto de animal teria essa força criadora? No Budismo, no final, nos fundimos com o todo, alguns xamãs indígenas prestam culto aos espíritos animais e a eles incorporam... A religiosidade, criação humana, é tão diversa quanto as espécies animais, e olhe lá, nem todas elas estão catalogadas, e das que estão, muitas foram vistas pouquíssimas vezes e por um número reduzidíssimo de pessoas. Em moda, atualmente, anda o termo pessoa tóxica... Seriam as pessoas nocivas? Mas o termo bem poderia ser vírus, que estão no reino animal, como outrora era comum chamar o fulano que não largava o “pé” do outro de carrapato. E quando a pessoa é verborrágica? Fala mais que papagaio? Parecem umas galinhas?
Um amigo querido, quando quer dizer que uma pessoa é feia, diz logo: “Encontrei fulano, tá um “camelo”. E antes que perguntem-me porque camelo, como já o fizeram, visualizem a face de um camelo, ruminando...
Reinaldo, na sexta série, era chamado de porquinho, não só pela camisa nem sempre limpa, mas também por ser gordinho. A filha da professora Isamar, um dia que foi com ela ao colégio, riu-se muito e falou à mãe do apelido do colega, mas emendou: “Ele é feio, parece uma menina.” Não sei o que a levou ao fazer o comentário, mas foi um dia de risada.
Dona Maria, da época da piscicultura, se referia a uma vizinha da fazenda como tendo corpo de abóbora.
E assim seguimos próximos dos animais, dos objetos, dos objetos inanimados... Seguimos sendo homens, bichos, mulheres.

 * Conjunto de objetos inanimados a adornar um bar no centro histórico de Lisboa