sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Alegres tristezas


             A tristeza não tem razão, ela chega e se instala simples assim. 
 
            Tem coisas que a deflagram, lógico. Um chefe escroto, uma falso amigo, uma traição de qualquer nível, trabalhos enfadonhos, leituras feitas por obrigação onde o autor é prolixo em texto chato e demasiadamente técnico... Se bem que há quem goste dos textos técnicos, como há os que apreciem em romances apenas a técnica e não a sensibilidade mostrada em nuances, aquela gama de sabores que o bom autor traz e que é capaz de nos entristecer também, mas de forma diferente, aquela tristezinha gostosa chamada nostalgia. Que acontece até com e sobre lugares que não conhecemos, coisas que não vimos.

            A tristeza chega no crepúsculo, tarde da noite, ou no alvorecer. Ela não se faz de rogada, íntima que é, não bate à porta. Chega! Pronto!

            Em geral, dura pouco, se bem que há os que se apegam a ela, e erguem-lhe um altar, fazendo com que fique ali, e se ela quer ir embora, ajoelham, rogam, imploram para que fique, pelo menos um pouquinho mais. E ela vaidosa, desfaz malas e deita-se ao lado de seu fiel servidor. E ai ele cultivando-a se entrega, nada está bem, nada presta, não vou para este ou aquele compromisso pois não estou bem. Ah, adoraria, mas hoje não. Ah, gostaria muito, mas hoje não vai dar. Ah, sabe o que é, já tenho compromisso... e tem mesmo... O de cultuar a donzela de olhos fundos. E ela sentindo-se tão amada envolve cada vez seu servo, os braços longos como que se transformam em tentáculos e vão deslizando sutilmente e prendendo o incauto como trepadeiras que se agarram a árvores

            Às vezes você a curte por um dia, ou dois, e nesse dia, pode ter certeza, vai aparecer gente para fazer você ficar ainda mais triste. Do mesmo jeito que urubus são atraídos por carniça, existe gente que sente cheiro de tristeza, poder-se-ia dizer inclusive que alguns são viciados nele, e estão sempre rondado, em círculos vão se aproximando, se chegando, e cada vez mais perto querem saber o porquê, como, onde, como e o que aconteceu para te deixar triste. Afinal a qualquer momento vão poder evocar essas lembranças quando estiveres bem, no intuito de trazer a tristeza de volta. É a única forma que eles têm de se sentir felizes, é sentindo que alguém não está bem.
  
            O poema famoso do Neruda diz: “Estou triste, porém, sempre estou triste, venho de seus braços, para onde vou, não sei...” Que tristeza mais bela, a tristeza que faz criar poemas, imagens, músicas. O filme mais triste que vi foi “Dançando no escuro.” E alguns não gostaram exatamente por ser triste. Oras, de que serve um filme se não provoca sentimentos, se não transmite conhecimento, seja ele qual for. Em outro poema famoso, esse de Vinícius, lemos: “Tristeza não tem fim. Felicidade sim.” Os dois poemas foram musicados, fizeram sucesso enquanto música, ou seja, não sou apenas eu a cultuar vez em quando a tristeza. Adoniran Barbosa já a saudava com seu bom dia e a convidava a sentar-se e beber de seu copo. Vejam só quantas coisas belas a tristeza propicia. Tão belas que fazem da tristeza pura alegria. A alegria de ver que um sentimento dito negativo suscita a arte a apoderar-se dela e transformá-la em beleza!


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Morrer e matar de amor...


            Ontem morreu o cantor Wando, cantor romântico que embalou romances, “pegações” e  outras nuances, fundo musical há décadas de enlaces sexuais, afetivos ou não. Cantando ora em prosa, ora em verso, realidades como em Moça: “Moça, sei que já não és pura, teu passado é tão forte, pode até machucar...”, em uma época que a virgindade ainda era condição sine qua non para que uma moça fosse considerada de respeito. Depois o cantor já não tão romântico passou a colecionar calçolas, calcinhas e tangas atiradas por fãs em seus shows. Estimulando que o fizessem...
            O público romântico é grande, haja visto a imensa quantidade de comentários, lamentos e homenagens nas redes sociais da internet. Também o sol não há como negar. Mas... Vou mais fundo, mais que o romantismo... adoro o “Passional”, aquela passionalidade intermitente que narra o fim dos casos de amor.

            Em Bilhete, de Ivan Lins e Victor Martins, interpretada por Fafá de Belém (não a dos pastéis de Belém, mas a cantora da capital paraense), há alguns dos versos mais fortes, a meu olhar pelo menos, acerca dos fins de relacionamento. “Eu limpei minha vida. Te tirei do meu corpo. Te tirei das entranhas. Fiz um tipo de aborto. E por fim nosso caso acabou, acabou, está morto.”  Difícil uma comparação mais forte... É a imagem de ressentimento e resolução. E para que não restem dúvidas do fim, prossegue: “Jogue a cópia da chave, por debaixo da porta, que é pra não ter motivos de pensar numa volta. Fique junto dos seus, boa sorte. Adeus!”

            De cara me traz a lembrança de falecidos relacionamentos, por exemplo, a de uma amiga cujo marido achou que precisava de um tempo, mesmo depois de um tempo longe, forçado pelo trabalho. Ela não teve dúvidas: “Como a casa é minha, você tem duas alternativas: ou você arruma suas coisas, ou... eu arrumo suas coisas, qual você escolhe?”.

            Muitas músicas como esta evocam imagens, caso de Espumas ao vento, de Accioly Neto, interpretada por Fagner, Ricky Vallen e estupendamente por Elza Soares. Nessa composição o autor pernambucano “chora” as mágoas de um amor que morre, tentando com o pranto e dor oferecidos, como se fosse uma dose de epinefrina, ressuscitar o moribundo amor: “Sei que errei, estou aqui pra te pedir perdão. Cabeça doida, coração na mão. Desejo pegando fogo. Sem saber direito aonde ir e o que fazer.Eu não encontro uma palavra para te dizer. Mas se eu fosse você, eu voltava pra mim de novo.” No filme Lisbela e o prisioneiro, na cena que vai à tela com a música ao fundo, a epinefrina não surte efeito, o amor já está morto, substituído, e foi unilateral. A mulher abandonada chora, limpa lágrimas, retoca pintura e vai em busca de vingança.
            Um casal conhecido, ao separar-se depois de poucos anos de convívio, onde um não queria a separação, no caso o marido, executivo bem posicionado, saiu-se com a vingança de... dividir os presentes de casamento, por pura picuinha, e levou metade das panelas. Deve ter jogado no primeiro lixo à frente, mas vingou-se.
            A Passionalidade, permitida às mulheres com choros e ranger de dentes, ganha aspecto masculino na vingança, agora um pouco mais evoluído, passa pelo financeiro. Outrora era fatal, lavar a honra com sangue era uso corrente, principalmente porque nos idos anos da história adultério era crime. Podia mandar pra cadeia. Mas os senhores de suas esposas não perdoavam, e  apenas para ficar nos casos famosos, Lindomar Castilho (que era cantor de músicas apaixonadas, passionais... Como: Nós somos dois sem vergonhas A vida imita a arte?)  e Van Doca Street foram notórios casos de desfecho funesto. Helena de Grammont e Angela Diniz foram para as covas, mortas supostamente por amor. Vieram campanhas nacionais “Quem ama não mata” e outras por condenações aos assassinos em uma época que Maria da Penha não era lei e a mulher era ainda mais desamparada.
            Mas a passionalidade musical nem sempre é tão perversa, e exceptuando Amado Batista em  Não faça jamais como eu fiz, não me recordo de outro caso acabado em morte. “Se acaso lhe acontecer de amar uma mulher da vida, você nunca deve esconder, não faça jamais como eu fiz. Matar uma pobre infeliz pelo amor que ela foi vender.” Este amor infeliz é mais comum às literaturas e caiu em desuso no cinema.
            Talvez a canção mais clássica sobre separações seja Trocando em Miúdos de Chico Buarque de Hollanda, que aprecio em todas as versões, do próprio Chico à Zezé Mota. Nela o casal faz a partilha dos bens e arremata ao dizer que o outro “Pode guardar as sobras de tudo que chamam lar.” E  no desfecho uma praga: “Aceite uma ajuda do seu futuro amor, pro aluguel.” Afinal, nos rompimentos sempre se deseja que o outro lembre que sua própria vida era melhor com aquele a quem deixa. Mas Chico deixa claro o fim com o verso: “Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer. Aquela aliança você pode empenhar ou derreter.” E... lá me vem a memória mais um “causo”, de uma amiga que após alguns anos do término do relacionamento, já passado luto, foi empenhar a aliança, e ao ouvir da caixa: “Nossa, mas tão bonita, tão diferente, a senhora tem certeza de que quer mesmo empenhar?” respondeu a sábia amiga: “Minha filha, o marido valia muito menos, e eu já larguei. Passa esse dinheiro pra cá!”
              Renato Russo, entre muitos, prova que o coração roqueiro também sofre, em versos como: “Estamos medindo forças desiguais, qualquer um pode ver, só terminou pra você” (Os barcos).   E, aproveitando a deixa do verbo terminar, fico por aqui; se fosse uma tese ou dissertação iria fazer uma análise comparativa e discorrer sobre muitos outros casos e causos de amor e canções, mas como não se trata de... ficamos aqui, quem sabe retome o assunto em outro momento. Outras músicas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pauta: A síndrome da reunião

                Uma amiga carente, daquelas que ainda não resolveu os problemas de déficit de atenção da primeira infância, dizia sempre: “Reunião boa é aquela em que você sai dela com outras quatro ou cinco reuniões marcadas!” Para mim, que nunca tive a síndrome da reunião, ou a de palco, era a morte. Nada contra reuniões produtivas, mas o problema é que a maioria delas... não são!

                Uma vez ousei dizer que precisávamos ser mais pontuais e objetivos, ao invés de ficar nos auto-elogiando, dizendo como éramos lindos e maravilhosos; depois soube que haviam dito que eu era muito duro no falar.

                Bem, os adeptos de tais ajuntamento de gente vão me acusar de disfemismo, com certeza, mas o que se nota é: as pessoas não tem o menor respeito com o tempo dos outros. E tome discurso incoerente do tipo: “Isto está resolvido”, e lá vamos nós falar dele novamente daqui a cinco minutos... na mesma reunião! E tome-lhe o mesmo assunto e tatibitate... E você, com licença da enxurrada de gerúndios que o  assunto merece, vai cansando, bocejando, afundando na cadeira, e o saco enchendo, às vezes a bexiga também, e... quando finalmente o orador chega ao ponto final, você ajeita-se na cadeira e respira... ele começa tudo outra vez! Ai de mim... Deve ser o tipo de pessoa pela qual as telenovelas globais fazem flashback no meio e no fim do capítulo, do que ocorreu na primeira parte daquele mesmo dia. Devem ficar felizes da vida. Quem sabe até tenham orgasmos... Multiplos...

                Será medo de não se fazerem compreendidos? Mas raios, se estão entre adultos, aptos e em plena faculdade... Ora pois...

                Ou é a síndrome do palco? A necessidade de mostrar sua oratória, seu conhecimento de tal ou qual assunto? Ou de ser visto. Lembro de Isoldina, uma colega que nas reuniões sempre tinha o que comentar, o que dizer a respeito de tudo, num tom mais alto que os demais. Um belo dia estivemos em um aniversário de uma amiga comum, havia caraoquê (nem vou entrar no mérito da infeliz idéia que não deixou mais que fluíssem conversas), mas quem foi a primeira a pegar o microfone? A própria Isoldina. E canta, e canta, e grita, e berra, e urra, e muge... A tia da aniversariante consegue a custo tomar-lhe o microfone e começa a cantar enquanto Isoldina vai sentar-se em uma das mesas. E na metade da música... levanta e vai cantar junto com a tia, dividindo com ela o microfone! Até que a tia desiste e entrega novamente o microfone a Isoldina, que canta, que berra, que grita... É a mesma síndrome (se não for a mesma pessoa).

                Concluo daí que andam juntas: a síndrome da reunião e a síndrome do palco. A mais das vezes, muita gente com coisas a falar acaba por conter-se e desistir. Recentemente vi uma pessoa pedir a palavra por quatro vezes em uma reunião, sempre sendo dada a palavra a outro, que era interrompido por um terceiro e por um quarto que se alternavam. Nunca soube a colocação ou dúvida a ser explicitada por aquele companheiro!

                Sim, tem gente que mete o bedelho em toda e qualquer colocação que tenha a fazer, depois usa seu próprio tempo, e... pede licença e sai antes da reunião acabar por ter outro compromisso.

                Também tem gente que preside reuniões e usa da palavra mais do que devia. Por seu cargo, por sua necessidade de falar. E tome piadinha, e tome repetição, a anáfora toma conta, pode deixar...
                E ai de quem tem compromisso posterior, ai de quem ainda vai pegar metrô, ônibus ou o raio que a parta para chegar em casa, no trabalho ou simplesmente a sair do lugar da reunião que pode ser remoto, sobretudo quando se tem pólos empresariais, estudantis ou o que quer que seja em diferentes locais. Ou seja: falta de respeito com o tempo do outro.

                Para que uma reunião seja produtiva ela deve ser pontual, dinâmica, sem diálogos ou discussões fora do proposto. Sem que os carentes e necessitados de palco a tornem um catalogo de elucubrações a respeito do que já foi dito. Bem, e antes que o texto se torne o mesmo imbróglio de reuniões, querendo chamar a atenção mais do que devia, encerro por aqui. Comentários abaixo ou se inscrevam pra pauta na próxima reunião!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

São Paulo 458 anos

São Paulo 458 anos

Hoje aniversário da cidade de São Paulo.

Visto preto.

Visto luto.

                Luto por todas as àrvores sãs que cortam sem motivo, ou porque as folhas caem na calçada e dá trabalho, ou porque a paisagista da prefeitura não gosta, ou para fazer mais uma vaga de estacionamento.

                Luto pelos que estacionam carros na calçada e acham que é correto, pelos jovens que ocupam as vagas de idosos nos estacionamentos de supermercados, shoppings e afins; pelos estacionamentos e pontos comerciais que fazem da calçada extensão de seus domínios.

                Luto pelos rios e corregos da cidade, que não estão morrendo, estão mortos.

                Luto pelas pessoas que usam mochilas nas costas nos corredores de metrôs e ônibus lotados e ainda assim se acreditam educados. O mesmo para as moçoilas com bolsas enormes  que enfiam à cara das pessoas sem se importar com quem está ao lado. Aliás, luto pelo transporte público sucateado, porque pobre não tem vez, melhor abrir uma nova avenida para mais carros que um corredor de ônibus, e assim melhor o trânsito, não o transporte, luto pelo descaso com a população.

                Luto pela vergonhosa câmara de vereadores; luto por quem vota em celebridades, sejam artísticas, instantâneas ou religiosas. Luto por quem cai em artimanhas políticas que apresentam candidatos antigos como se fossem novos, e pior ainda, como tábua de salvação.

                Luto pelas faixas táteis do terminal de ônibus da estação Santa Cruz do metrô, onde  a faixa de piso táctil (para cegos) leva a uma coluna, sai de trás daquela e leva à... Outra coluna.

                Luto pela falta de espaços onde o cidadão possa se apropriar deles, luto pela falta de parques, luto pela progressão escolar, que desmoraliza e desincentiva ainda mais os professores.

               Luto pela arrogância e preconceito.

               Luto pelos engarrafamentos por falta de transporte público de qualidade.

          Luto pelo metrô que segue por bairros nobres e menos populosos, mas que dão maior visibilidade que bairros populosos como o Jardim Miriam que está há poucos quilômetros do Jabaquara o que facilitaria sua inclusão no transporte público de maior qualidade.

                Luto pelas salas de cinema fechadas.

          Luto pela falta de ciclovias, pela falta de banheiros públicos decentes que evitariam a fedentina no centro.

                Luto por um teatro municipal que só é “municipal” no nome já que não serve ao povo.

                Luto pela maioria das pessoas não se importar.

                Luto por jornais que fazem campanha contra censura e demitem pela mesma causa.

               Luto pela violência, luto por policiais que fardados passeiam pela Av. Paulista e peitam e dão ombradas em transeuntes por serem “a lei”. E esquecem que por isso mesmo deviam dar exemplo.
                 
                Luto pela falta de cordialidade, de educação.

                Que o luto em sinal de pesar tenha a força de luto do verbo Lutar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Criança feliz, é criança educada.

                Há uma tendência generalizada, a se achar que crianças são boazinhas, especialmente as mulheres com seus instintos maternais e estrogênio em abundância.

                Não são! Crianças são apenas bonitas. E olhe lá... Pois pequenos ogros estão por ai, e muitos deles em concursos de beleza infantil.

                Pais despreparados, mães culpadas por não terem tempo suficiente para se dedicar a eles, avós permissivos e encantados pelo feitiço incompreensível que os netos exercem sobre eles. Tios corujas, padrinhos deslumbrados em “ter” um afilhado.

                Todos cúmplices, todos criadores, mantenedores e fomentadores de pequenos egos que fermentam e crescem mais rápido que epidemias de conjuntivite no verão. Mais rápido que os próprios pequenos.

                Conheço dezenas de casos... A “princesinha” que pais, avós, tios, dia após dia diziam ser linda e ao ouvir repetidamente tais e tantos elogios, neles crê, e que fazem crescer no mesmo ritmo uma personalidade oposta ao elogio.

                O neto, já pré-adolescente que sempre morou com a avó, e que, após os pais separarem, cede à chantagem emocional da mãe, que o quis abortar, e vai morrar com aquela. Com ela assite filmes madrugada adentro, acorda ao meio dia, e vai almoçar... Na casa da avó. Após a sobremesa sai às carreiras e vai para lan house. Joga até o tempo acabar e retorna à casa da mãe. À hora do jantar liga ao pai que vai buscá-lo e, já jantado não se demora e volta à asa materna(?).

                Uma pequena miss diz a mãe que não quer que esta vá a festinha na pré-escola pois tem vergonha da mãe ser mais feia e mais velha  que as das coleguinhas. Pois que a mãe continue a incentivar a beleza externa e colha mais louros.

                Uma conhecida, de tempos atrás, dizia que para ser mãe se deveria fazer vestibular. É vero, os pequenos monstros, não domados, cada vez mais não tem que fazer esfoço para nada, para agradar ninguém. Apenas ser bonitinhos e engraçados...

                E antes QUE o texto fique ainda mais denso, vou concluindo com aquela “lindezinha de mamãe” que aos sete bem vividos anos disse à mãe noite dessas que não iria jantar, pois não queria ficar gorda como ela. Detalhe a mãe da “lindezinha” não pesa mais que 70 kilos distribuídos em seus cerca de 1.73m.

                São essas as que me despertam imensas saudades de Herodes...


                É óbvio que existem crianças lindas, educadas e simpáticas, muito queridas por todos e por estas, estão de parabéns os pais que lhe impõem limites, que lhes educam verdadeiramente, com conceitos morais e éticos, que ensinam respeito e bondade. Mas se não são assim... Não, não deixai que venham a mim as criancinhas...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Chupa essa manga

                Estava eu a ler Fatos de Fato, blog da Mary Miranda, e eis que um post sobre “Mangas” lembrou-me variadas mangas, de manguitas que nunca mais vi às mangas rosa de quintais alheios, cobiçadas e muitas vezes roubadas, como as mangas de fiapo da casa de D. Juscelina.Em uma ocasião inclusive, em galho altíssimo, estava uma lá posta em sossego tal Bela Inês, dependurada e brilhante à luz do sol, e Patrícia, prima minha, a olhava cobiçando a dizer que podia cair, e... Com uma brisa rara naquele calor de Floriano, a tal manga cai, e ela corre apanhando para lavá-la e degustá-la com gosto. Lembro também das manguitas, pequeninas e cheirosas que comia quando morávamos em Minas e que meu pai na feira comprava às dúzias. Uma vizinha, excepcional, que em sua infância tinha dificuldade ao falar, sempre que íamos à feira, vinha em casa e dizia que “A mamãe mandou falar pra mandar uma manga pra ela, pra colocar na ferida de papai”. Não sei de onde ela deve ter tirado que manga poderia servir como cataplasma, e como sabíamos de certo que as mangas não seriam para curativos, sempre dávamos a ela mangas para a família toda. 

                Já as dúzias de mangueiras de tia Maída tomam um enorme pedaço de chão na roça do “quebra cangalha” e não posso lembrar dela sem lembrar do padre que ao pedir algumas colocou dois sacos no carro dando voltas que víamos da janela, mas pra finalizar o serviço pegou apenas meio saco e passou mesmo pelo quintal da casa (na fazenda). Escorregou rolando saco, mangas e padre... Tia Maída, com seu sorrisinho malicioso de canto de boca, apenas falou sobre o castigo: “Mas que bobagem, pode pegar à vontade, que as mangas estão a fazer lama, e tem tanta gente na paróquia...”
                Lembro das mangas rosa de Dona Caetana, avó da esposa de um primo, de quem eu muito gostava, e ela de mim, tanto que, mesmo em outra cidade, sempre que tinha oportunidade, ela mandava-me sacolas de manga. Quando ia visitá-los é que comíamos com gosto. Chegava às vezes de madrugada das festas, sentávamos eu e minha tia Teresa, na praça em frente a casa e às quatro de “la matina” púnhamo-nos a comer manga rosa... 

                Aliás mangas rosa me perseguiam. Quando em Recife, as mangas rosa da casa do Terceiro, que morava em Olinda, eram saborosíssimas, e ele como bom amigo sempre me dava aquelas delícias. E lembrando as mangas de sua casa não há como não lembrar que lá também havia pimenta malagueta, e que certa feita um tio dele colheu um pacotinho e o levou no bolso de trás da calça. Contou depois as peripécias de quando se sentou no ônibus que o levaria à casa e as pimentas com a pressão do peso... bem, fizeram sentir seu ardor... e ele sem lembrar a causa do sofrimento tentava se ajeitar na poltrona e mais esmagava, e nisso mais elas ardiam em uma região tão inóspita que mesmo quando “caiu-lhe a ficha” sobre o porque de seu tormento, e tirar dali o saquinho de pimentas, o mal estava feito e o pobre velhinho ficou a arder-se por horas. 

                Mas voltando às mangas lembro-me do Rogério Magri, ministro do governo Collor, que em uma viagem para reunião da OIT em Genebra na Suiça, faltou à reunião e afirmou que tinha saído para comprar... “Mangas”...
 
                Bem, ela poderia ser a fruta do pecado no lugar da maçã, que é mais seca, e a meu paladar causaria mais tentação. Mas as da casa do Sr. José, pai da Socorro Rocha, eram algumas das mais saborosas que já provei. Tinha espécies que apenas por lá vi, e eles nos mandava aos quilos; aliás tinha uma que chamávamos manga de quilo, devido a sua dimensão e peso. Muitas vezes estive debaixo daqueles pés, enquanto Socorro ou Maria José lavavam roupas com água do poço... Era realmente um pedaço de paraíso aquele quintal.
 
                Na praça atrás da Faculdade de Direito no centro do Recife, existe também dessas mangas enormes (assim como jambos roxos) e é preciso cuidado quando elas estão maduras e a cair. Em um bar que ia muito no Jockey em Teresina, acima das mesas, as mangueiras iam alto e perigosas. Mangas pairavam por sobre nossas cabeças enquanto a cajuína aplacava calor e adoçava boca e espírito. Nunca fui atingido por uma manga, fruta asiática que aqui (em que se plantando tudo dá) plantada se adaptou tão bem que parece nativa. Em boa hora um antigo prefeito de Floriano (Pi) arborizou a cidade com elas. As mangueiras, da família Anacardiaceae, estão por toda cidade, abençoada sejam.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Reflexões sobre pensamentos e ações

                Clarice  Lispector quando ia escrever um livro, exilava-se em um hotel, ainda que no bairro das laranjeiras, o mesmo em que residia. E ali, deitava a pena a folha sem preocupar-se com nada a não ser a dar cor, em forma de letras, às suas idéias.
                Tarsila, já habituada ao cotidiano de Paris, ao retornar ao Brasil trouxe seus experimentos pelo cubismo na bagagem. Aliás, cubismo que o próprio Picasso só foi experimentar ou pelo menos trazer à luz, depois da famosa “fase azul”. Afamado, afortunado...
                O processo criativo que nos chega como notícia de massa, beira o excentrismo de facto, porque parece dado livremente àqueles já abastados ou beijados pela fama.
                Pelas narrativas de cantores, compositores, atores e outros “ores” donos de outras dores, temos registros de brigas para fazer da sua arte, o que se quer, o que se acredita. Uma vez perguntada porque tinha aceitado um papel desprestigioso em um filme a atriz estadunidense Daryl Hannah, teria respondido que aceitava papéis de que não gostava por ser uma atriz que precisava trabalhar para comer...
                Nas artes em geral, no dia a dia...
                A fotografia do feio choca o gosto fácil pelo belo. O afago meigo que disfarça a mão – a mesma que apedreja – rude.
                A resposta que traz consigo novas perguntas e questionamentos, que faz mexerem-se neurônios, ao contrário das “short answers” que com suas respostas objetivas não fazem ninguém pensar nas possibilidades atrás de cada interrogação, mas trazem sim pontos finais, sem possibilidades de novos questionamentos.
                E assim se emburrece na leitura fácil do semanário que dita modas e comportamentos. Nas novelinhas que mostram que o “ficar” é mais importante que o gostar. Que o que importa não é o gasta, o quê se pode pagar e sim o comprar para mostrar aos outros que se tem.
Afinal, se o “tem olhos para ver, que vejam” se resume a pré-estréia da fita com mais efeitos “especiais”, quem é que vai ouvir?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Confraternização? Vou não!

                Sem tempo para fazer balanços ou reflexões. Muito menos promessas de fim de ano que serão quebradas ao raiar o ano novo do calendário Gregoriano.

                Como tenho dito por ai, ando mais aperreado que jumento de cego em estrada nova, e é verdade, tudo se acumula nesses finais de ano, como já disse na postagem do final do ano passado, porque não diluir pelo ano inteiro essa necessidade de ver, tocar, estar...?

                E tome confraternização, inclusive com gente que nem gosta da gente e vice-versa, já que em geral, isso é recíproco. Já vi até gente que sai da copa na hora do almoço quando entra alguém de quem não gosta. Levantam-se e em tom sério: “_Dá licença que eu vou comer na minha sala.” Para não dividir o mesmo espaço, e agora, com as bênçãos de Noel, quer marcar almoço de confraternização, amigo secreto, lanchinho da tarde etc...

                Outra, que passa o ano sem me ligar, tem por costume querer passar em casa pra deixar uma lembrancinha. Ora, se não lembrou o ano inteiro de ligar para saber como eu estava, porque lembrar agora?

                Gente que nunca entrou em minha sala quer marcar de sair... Tem certeza de que é comigo?

                Estranhamente, gente que não quer marcar nada, não precisa comemorar nada, se faz presente o ano inteiro. Um sorriso, um almoço juntos, uma mensagem em redes virtuais, uma ligação se falto ao trabalho por motivo de doença para saber se melhorei...

                Uma mensagem no celular, um comentário no blog, um e-mail... Estão ali... E bravamente insistem cotidianamente em se fazer presentes, em mostrar que não estou só. Obrigado a eles que não precisam que o ano acabe, que o natal chegue ou que seja meu aniversário!

                Como diria uma personagem de humorístico semanal:

                Ele é chato? Ele é! Ele é mal-humorado? Ele é! Ele é ranzinza? Ele é!

                Feliz Natal, o blog volta ano que vem!


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Na cartilha, no trem, na ilha...

“Bitu era pequeno, pequeno...
Fofinho era gordinho, gordinho...
Mas Zecão era grande, muito grande...”

E aí...

Aprendi a ler...

            Sim, foi com a história dos três cabritinhos e da onça gabola...
           
            Vieram daí a pouco os livros de comunicação e expressão, que era como chamávamos a matéria ora denominada “Português”: o nome da língua, da última flor do Lácio, inculta e bela, como disse Olavo Bilac. Lembro bem do livro João-de-barro de Domingos Paschoal Segalla. Foi ele que seguiu às cartilhas. E depois vieram outros de autores e títulos que se perderam na memória e lembrarei no futuro, quando não puder lembrar o que se passou há cinco minutos. Isso se Deus não permita que o Alzheimer vier visitar-me. Mas, lembro bem de alguns textos e personagens que davam cor e sabor a eles.

            Lembro de um texto que detestei, uma turma estava à mesa de uma lanchonete e o personagem, de cabelos vermelhos e cheio de sardas, era descrito como o Gordo... “O gordo tirou meleca do nariz e colocou embaixo da mesa dizendo: O lado de baixo da mesa é feito para colocar meleca...”

Mas lembro também de outro texto delicioso, pura aventura, que discorria sobre o prazer de andar de bicicleta, onde o personagem descia correndo pela Alameda Nothmann, o vento batendo no rosto da personagem a fazer-lhe os cabelos esvoaçarem...

            O tempo passou, a quinta série chegou, e com ela: “A Ilha Perdida” de Maria José Leandro Dupré. O primeiro livro de romance, assim, inteiro... Era o livro de férias, para ser lido nas férias de julho. O primeiro... As letras não eram grandes, as gravuras, como chamávamos as ilustrações, muito poucas. Mas... Que delícia... Não foi preciso mais que poucas páginas para apaixonar-me. A história de Eduardo, Henrique, Simão e o macaco Lucas, fisgou-me por inteiro.



            Áquele ano, fomos passar as férias na casa de minha tia Hercília, em Guarapari, no Espírito Santo. A viagem de trem, de Coronel Fabriciano, no Vale do Aço mineiro à Vitória, capital capixaba, margeava o Rio Doce. Hoje não sei a quantas anda o rio, mas à época, anos 1970, era largo, portentoso, de águas barrentas, correnteza forte, inúmeras ilhas fluviais... E nelas imaginava os personagens, recriava “A Ilha Perdida” e, na utopia que criava, enlevado pelo prazer do livro que levava às mãos e alternava com a paisagem, também eu era personagem.

            Outros livros vieram, à mão cheia, centenas deles, várias histórias, mil nuances... Mas este, o primeiro, ficou para sempre gravado à alma. E é por ele e por professores queridos que vieram depois, Dona Maria das Graças, e Profa. Lenir no Schmidt, Tamina Oka Lobo no Nobel, que incentivaram-me a ler, a escrever, que, no “frigir dos ovos” como diz minha mãe, tornei-me bibliotecário e estou aqui a escrever. Obrigado por ler.

Foto: Internet - Divulgação


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Lê pra mim?

A foto é antiga, em um preto e branco desbotado, onde o branco é amarelado e o preto... Claro.

Eu aos 5, 6 anos... Magrinho, e com os olhos tristes, como ainda hoje são. Deus podia ter tido melhor humor e ter alegrado o olhar e ter mantido o corpo magro, mas enfim, quem entende seus desígnios...

Na foto seguro nas mãos um exemplar de: “Lico, o coelhinho”. O pequeno livro tinha a forma estilizada do láparo que lhe intitulara. Não recordo sua história, mas a cara/capa do coelhinho/livro ainda é nítida em minha mente. Um verde claro, embora obviamente não existam coelhos verdes, mas isso não tinha a menor importância. O nariz era vermelho, redondo, de plástico, como fosse uma pequena bola cortada ao meio e colada no meio da cara, cheio de miçangas para que fizessem o barulhinho característico delas quando o livreto era balançado.

Detalhe... Eu não sabia ler.

Àquela época, ler era coisa que só se aprendia no primeiro ano primário, aos sete anos de idade. Era minha mãe, ou meu pai, que sempre o liam para mim. E aos cinco, seis anos, não se cansa de ouvir a mesma história. Uma, duas, dez, dezessete vezes...

Ás sextas-feiras, dia de pagamento, meu pai sempre chegava em casa com uma revista feminina para minha mãe. Uma Capricho ou Claudia, Contigo ou Ilusão, Grande Hotel ou Sétimo Céu. Ou algum especial só de fotonovelas. E para mim sempre vinha com um gibi. O fato de eu ainda não ler era menor. Devorava as figuras, fossem de Disney, ou a turma da Mônica, Brazinha ou Riquinho.

Na capa, invariavelmente a dedicatória, que era a rubrica de meu pai, que forma um coração, e dentro dele, nossos nomes. Ah, as folheava comendo as figuras, fingindo ler. Sei lá se vem desde esta época a mania de folhear revistas de trás para frente que dura até hoje...

Meu tio Raul, à época o mais querido dos tios, era livreiro. Logo, meus primos tinham coleções de livros infantis, tantos e tão ilustrados que eu ficava excitadíssimo quando ia visitá-los, por manusear e encher os olhos com tantos e tão belos desenhos. Como eram mais velhos, e já leitores, meus primos em uma das férias passadas em sua casa, em Santos,  eram quem liam para mim. Pinóquio, Alice no País das Maravilhas, Cinderela, Dumbo, e por aí vai... Pela manhã atravessávamos a rua e íamos a praia, tia Lourdes nos levava pela mão, voltávamos à hora do almoço, e depois de tomar banho na enorme e aconchegante banheira, almoçávamos e fazíamos a siesta.

Acho que foi nesse tempo também, de descobertas e ansiedades, que apaixonei-me por peixes e aquários. Meus primos tinham um lindo aquário de vidro redondo, repleto de conchinhas e com peixinhos dourados. Na entrada do prédio, um arranha-céu como se dizia nos anos 1970, de pastilhas e estilo art-deco, havia também um enorme laguinho com fonte e inúmeros (pelo menos para quem também ainda não sabia contar) peixinhos coloridos. Lembro de um senhor de bigode branco e poucos cabelos sob o chapéu, que colocava sempre uma folha de palmeira na água: “_Para fazer sombra para eles”, explicava-nos.

Foi aí também, acredito hoje, depois de tantas rememorações, que se deu certa aversão... Quando de minha primeira ida ao cinema, fomos Juninho, Gislaine e eu... Naquela época o Gonzaga (bairro onde meus tios moravam) era cheio de cinemas e podíamos ir às matinês sem sustos ou preocupações. Era uma fita estadunidense, de guerra... Falado em inglês, e com legendas, que nada significavam para mim, que ainda não conhecia o alfabeto.

Escuro, cenas de guerra, uma língua estrangeira... – Talvez more aí minha aversão também ao idioma. Pedi que me lessem e eles explicaram que não podiam ficar falando no cinema, insisti que não entendia, convenceram-me quando disseram que se lessem ali não me iam ler os livros de histórias à noite... Resignei-me até dar vontade de ir fazer xixi... Não podia, se saíssem iam perder o filme... Talvez eu tenha chorado...

Felizmente não perdi o gosto pelo cinema, mas não precisam me convidar para ver filmes de guerra.