A tristeza não tem razão, ela chega e se instala simples assim.
Tem coisas que a deflagram, lógico. Um chefe escroto, uma
falso amigo, uma traição de qualquer nível, trabalhos enfadonhos, leituras
feitas por obrigação onde o autor é prolixo em texto chato e demasiadamente
técnico... Se bem que há quem goste dos textos técnicos, como há os que
apreciem em romances apenas a técnica e não a sensibilidade mostrada em
nuances, aquela gama de sabores que o bom autor traz e que é capaz de nos
entristecer também, mas de forma diferente, aquela tristezinha gostosa chamada
nostalgia. Que acontece até com e sobre lugares que não conhecemos, coisas que
não vimos.
A tristeza chega no crepúsculo, tarde da noite, ou no
alvorecer. Ela não se faz de rogada, íntima que é, não bate à porta. Chega!
Pronto!
Em geral, dura pouco, se bem que há os que se apegam a
ela, e erguem-lhe um altar, fazendo com que fique ali, e se ela quer ir embora,
ajoelham, rogam, imploram para que fique, pelo menos um pouquinho mais. E ela
vaidosa, desfaz malas e deita-se ao lado de seu fiel servidor. E ai ele
cultivando-a se entrega, nada está bem, nada presta, não vou para este ou
aquele compromisso pois não estou bem. Ah, adoraria, mas hoje não. Ah, gostaria
muito, mas hoje não vai dar. Ah, sabe o que é, já tenho compromisso... e tem
mesmo... O de cultuar a donzela de olhos fundos. E ela sentindo-se tão amada
envolve cada vez seu servo, os braços longos como que se transformam em
tentáculos e vão deslizando sutilmente e prendendo o incauto como trepadeiras
que se agarram a árvores
Às vezes você a curte por um dia, ou dois, e nesse dia,
pode ter certeza, vai aparecer gente para fazer você ficar ainda mais triste.
Do mesmo jeito que urubus são atraídos por carniça, existe gente que sente
cheiro de tristeza, poder-se-ia dizer inclusive que alguns são viciados nele, e
estão sempre rondado, em círculos vão se aproximando, se chegando, e cada vez
mais perto querem saber o porquê, como, onde, como e o que aconteceu para te
deixar triste. Afinal a qualquer momento vão poder evocar essas lembranças
quando estiveres bem, no intuito de trazer a tristeza de volta. É a única forma
que eles têm de se sentir felizes, é sentindo que alguém não está bem.
O poema famoso do Neruda diz: “Estou triste, porém, sempre estou triste, venho de seus braços, para onde
vou, não sei...” Que tristeza mais bela, a tristeza que faz criar poemas,
imagens, músicas. O filme mais triste que vi foi “Dançando no escuro.” E alguns
não gostaram exatamente por ser triste. Oras, de que serve um filme se não
provoca sentimentos, se não transmite conhecimento, seja ele qual for. Em
outro poema famoso, esse de Vinícius, lemos: “Tristeza não tem fim. Felicidade sim.” Os dois poemas foram musicados, fizeram sucesso
enquanto música, ou seja, não sou apenas eu a cultuar vez em quando a tristeza.
Adoniran Barbosa já a saudava com seu bom dia e a convidava a sentar-se e beber
de seu copo. Vejam só quantas coisas belas a tristeza propicia. Tão belas que
fazem da tristeza pura alegria. A alegria de ver que um sentimento dito
negativo suscita a arte a apoderar-se dela e transformá-la em beleza!

