Curta a página no facebook

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O Punctum

Dentre as coisas belas que há no mundo, e das quais inda quero ver, o Baobá é uma delas, aquela árvore que em si é quase um habitat, imponente, uma árvore já adulta, claro. Pequeno já tive a oportunidade de observar, em um sítio de um professor da Unesp, em Assis, interior do estado de São Paulo. Infelizmente era ainda um pequenino arbusto, sem imponência, que como se diz no “O pequeno príncipe” qualquer um pode dar cabo.

Fazia um trabalho de recortes de fotografias para uma máteria do mestrado, acaso minha favorita, “arte contemporânea”. Na foto, uma vila do interior da Zamézia, a segunda maior província moçambicana, próxima ao delta do rio Zambeze. O baobá ali estava presente, se sobrepunha ao casario construído a base galhos, às pessoas, ao resto da vegetação ressequida. No céu o branco de nuvens e um azul pálido, No chão, o solo marrom, e entre eles, fazendo a ligação, o baobá imponente. Maior que tudo isso, vila, céu, chão... Maior que a vida das pessoas a beira do casario…

Já pronto para recortar a foto, viro a página, e na continuação da matéria sobre as andanças à beira do índico o jornal trazia uma outra foto. Um homem, de costas para o observador, com um pincel em uma das mãos, e sobre um barco, emborcado, uma lata, do tipo galão de tinta. Possivelmente era algum tipo de verniz ou um selador qualquer.

A imagem sugere que ele passava o produto sobre uma madeira nova, pela cor crua, que teria colocado recentemente no barco, num conserto, em substituição a outro fragmento já retirado. As demais tábuas traziam múltiplos tons de madeiras descascadas: vermelho, azul, cinza, branco, um outro tom de azul, mais claro, amarelo… Descrevo-os por ordem de ocorrência no velho barco, uma espécia de canoa bastante grande, que por estar virada só permite conjecturas a respeito de sua tipologia. Impossível definir se o homem é jovem, adulto, ou idoso. A camisa quadriculada é grande para o corpo esguio, e o shorts comprido, mas isso é das modas por todo o canto. A vegetação atrás do barco sugere mangue, e a cor escura da terra é justamente do tom da terra desse bioma que não tenho ideia se ocorre no Indíco.

Não canso de olhar a foto, a atenção, o punctum, se divide entre o barco e o homem. Custo a perceber que está, em verdade, no pincel à mão daquele e na lata do selador (que é o que determinei que seria o produto). Já escolhi essa foto ao invés do baobá que remete ao desejo antigo, embora beleza, a plasticidade da primeira muito maior a tenha tornado a foto para chamada da matéria.

Por que? O que me faz escolher a segunda? E como numa sessão de psicanálise pego-me a pensar que é por minha relação com o trabalho, com o que representa para mim o trabalhar, o fazer. Ouço na memória Renato Russo e seus versos: “sem trabalho não sou nada, não sinto meu valor, não tenho identidade. Mas o que eu tenho é só um emprego, um salário miserável, eu tenho meu ofício que me cansa de verdade(…) Tem gente que não quer saber de trabalhar...”

É, ali está o punctum. A explicação para escolha, e assim nasce esse texto, resolvo escrever sobre isto. Com a mente cheia de lembranças de pessoas que tem os mais variados tipos de trabalho e o infinitas variações sobre suas relações com eles. Gente que conheci na Europa e que cursando um mestrado não tem inibição de trabalhar nos caixas de supermercado para não depender completamente dos pais. Gente como tio Onofre, vaqueiro de tia Margarida que ama seu trabalho, com as vacas, com o plantio do milho, o colher das abóboras, o tirar do leite. Isso enche-me de orgulho alheio. Também vem a memória, em oposição a esse orgulho alheio, gente que não trabalha e nada produz a não ser fezes, urina, e quando muito fumaça de cigarro. Gente que apenas ocupa um lugar onde deveria haver “ar”.


Foto: Djair - Coleção de recortes para o Atlas de imagens

sábado, 2 de dezembro de 2017

Desconhecer o Conhecido


Existem aulas que dão sono, outras, nem sequer isso. Apenas se olha para o relógio, que durante esse tempo diminui sua marcha. Em geral, essas são dadas por um tipo que apenas apresenta a lista de chamada ao final da aula. Como forma de prender, se não a atenção, ao menos os corpos ali, a seu redor. As mentes, essas divagam… Escrevem-se trabalhos de outras matérias, poesias, fazem-se desenhos, rabiscam-se letras, símbolos, garatujas as mais diversas, escrevem-se cartas, fazem contas e listas de compras. Redigem-se até textos para blogs que tratam de conversas fúteis e mundanas que não levam a nada.

Há aulas dadas com paixão e conhecimento, mas nenhuma didática. A verborragia sem pausas não dá tempo para digerir tanto. Cansa-se de tanto ouvir, sem que se possa realmente absorver, conflitar, questionar e gerar seu próprio ponto de vista, ou aceitar aquele apresentado. E se o aceitamos é mais por cansaço. Talvez um cansaço daquele mesmo tipo que faz o fiel crer no pastor, sem questionar posicionamentos, interpretações e dogmas.

Muitas vezes se detém títulos e conhecimento, mas já dizia Sócrates, segundo Platão. O mal de alguns homens é justamente o de se julgarem, que por serem expertos em alguma coisa específica se acharem conhecedores, sábios e capazes em todas as outras. Ter conhecimento sobre algo não quer dizer que se saiba transmitir. Ou pelo menos, não da melhor maneira, da forma a despertar interesse e fazer o outro querer buscar mais sobre aquilo, apaixonar-se.

Mas existem aulas de verdade, dadas com paixão e uma tal dinâmica que faz querer ouvir mais, onde se participa, se discute, discorda-se, diverte-se; e principalmente se absorve de uma maneira suave, prazerosa, viciante, tanto e tal que quando acaba, achamos que foi cedo, que queríamos mais um pouquinho, que aquilo devia ser discutido em uma mesa de bar, ou na mesa de casa mesmo, as com um copo de vinho a mesa, beliscando um queijinho, e fazendo o assunto render e ao esgotar-se já emendar noutro, e em outro, e…

E por que? Oras porque foi prazeroso ao ponto de a ligarmos com outros signos de prazer ao qual estamos acostumados. Porque quando há a pausa habitual, você mal se aguenta para fazer um comentário, pergunta, ou dizer à que aquilo lhe remeteu. Essas são as melhores, as que fazem valer a pena, que produzem ideias, geram conhecimento, que será transmitido depois num bate-papo, numa observação em um museu, sobre uma obra específica ou uma coleção, num café durante um bate-papo informal, numa troca de ideias durante um almoço, após ter sensações diversas ao assistir a um filme. O élan que nos transporta àquele conhecimento se dará espontâneo, inesperado, em qualquer lugar, pois já pertence a nossa experiência. São esses professores que ficarão e serão citados com carinho, com um sorriso nos olhos, nos lábios, no rosto, sendo lembrados por muito tempo. É esse conhecimento que ficará e será transmitido, pois é vivo.



Imagem: Sócrates e seus discípulos - Imagem da internet - disponível em: http://www.duniverso.com.br/wp-content/uploads/2016/02/socrates-filosofando-com-seus-discipulos.jpg 


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Molequinhos...

Estão a espreita… O riso é contido. Fazendo uns gestos de silêncio uns aos outros com o dedo em riste em frente a boca.

Esticam o estilingue! E quebrando o silêncio o grito ecoa: “_Quebra o cu dele com uma pedra!” “_Enche o coco dele de mamona” grita o outro. “_Pega, pega, não deixa fugir não! Não deixa fugir, Não deixa...”


E o pequeno alvo, pernas pra que te quero, o mais ladino, e que vinha distraído sai correndo, põe as mãos na cabeça para protejer-se das sementes de mamona. Corre e ri, ri e corre… Grita impropérios contra o grupo armado; puxa para cima o calção largo que está a cair. O elástico já não é novo, o corpo franzino ajuda a gravidade. Ri, e corre… corre e ri…

Riem e atiram, esquecem dos bodoques e já atiram as mamonas com as mãos. Correm atrás. Os gritos, as risadas, pega, pega… Pega!


Suam, sua o que corre na frente, suam os da malta que persegue. Tanto suam como riem, como correm, como arfam já de cansaço mas não desistem, sabem que na sua vez de correr a fuga não terão trégua, então põem-se no encalço a todo fôlego. Até o alcance já não ser possível, as freadas são bruscas, com gestos de desalento, risos e palavras divertidas. Não há bulling, só brincadeira, é diversão, na próxima será um deles a fugir. E depois vão ainda correr juntos atrás de bola, de pipa, de balão, no pique-esconde, no salve latinha, ou a levar muros no garrafão.

Até que chegue enfim a derradeira corrida do dia, correrem todos ao mesmo tempo, como um enxame de abelhas, cada qual numa direção, cada qual pra seu abrigo, afinal a ordem inquestionável ecoou lá de dentro: Corre menino, que é hora do banho!


Foto: Djair - André Luis Colorido, cansado de correr.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Olhos felizes

Tem gente que ri com os olhos
Há quem ilumine os outros com um sorriso
Às vezes O olhar é vago
Outras vezes, certeiro, preciso
Às vezes os olhos estão nos olhos
Às vezes o olhar está na nuca
Às vezes o olhar alegra
Às, o olhar machuca
Às vezes se nota o olhar
Às vezes passa batido
Às vezes o olhar se perde
Às vezes se perde o sorriso
Às vezes o olho ri
Outras tantas o olho chora
Se rís quero abraçar
Se não ris quero ir embora








Foto: Djair - Pintura rupestre - Serra da Capivara - Piauí. 
Cerca de 10.000 anos

sábado, 21 de outubro de 2017

Posers, Fakes e outras personas...

Nas redes, os posers são ainda mais inconsistentes que os fakes.

Esses últimos assumem uma personagem, uma personalidade ficticía, a qual copiam e adéquam seus reais sentimentos, cultura, ou estereótipos próximos àquilo que eles mesmos desenvolvem em si. Mas em grande parte das vezes sem assumir um papel realista, e aí falo daqueles que, óbvio, deixam claro ser um “fake”. O nome, a foto ou desenho usado como avatar já deixa isso legendado em seu personagem. Criam um perfil e ali já se declaram ser uma personagem. Muitas vezes, para dizer aquilo que desejariam falar às claras mas por fatores socioculturais não se permitem.

Os posers por sua vez, postam fotos em poses estudadas, junto a carrões que não lhes pertence, postando guitarras e violões sem saber tocá-los, o que não é crime algum, mas não seria legal se deixassem claro ser isso apenas uma curtição? Não! Se levam a sério, se dão grande importância. Com suas filosofias de almanaque acham-se Platões. Não leem notícias, apenas as manchetes e a partir daí tiram conclusões e opiniões que defenderão irracionalmente. Não é apenas um ego inflamado ou um id condescendente. É mais que isso. Condenam ao sétimo círculo do inferno – aquele que Dante destina aos hereges e aos que pecaram contra a castidade - . Afinal, questionar-lhes, quem tem esse direito?

Pergunto-me muitas vezes se na calda da noite repensam seus dias, seus dizeres, seus prazeres… Ou se ao contrário, dormem tranquilos e ronronam com suavidade, felizes com seus fazeres.

Há também o poser ingênuo, ele na verdade não tem defeito grave, apenas lhe falta um toque de personalidade – menos valia?, deficit educacional - , e então embarca em uma série de atitudes, gestos e gostos que não lhe pertencem, e nem sequer lhe caem bem. É o fiel mais devotado e conhecedor de uma religião que abandonará daí a 6 meses, e aí alardeará com o mesmo entusiasmo contra aquela, é o sujeito que nunca tinha ouvido falar de tal banda que entrou na moda, mas torna-se seu maior fã, conhecedor, e quiça o descobridor. Até que um novo ritmo entre em moda, e assim um determinado autor, ator ou diretor. Sucedem-se estilos musicais e o próximo verão será de riscos para seus gostos.

Ninguém é tão bom quanto ele, e a necessidade de mostrar isso o faz monopolizar os diálogos. Adler quando fala do complexo de inferioridade e sua exacerbação deixa claro o porque.

Mas não o temos todos nós, em maior ou menor grau?
Não há conclusões, são apenas impressões.


Foto: Djair - Imagem de uma amiga com quem conversava sobre estas questões, e que a cedeu para ilustração do texto.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Ser, Não ser, Tornar-se.

Já não sou quem eu era. 
 
Sim, pois mudamos a cada minuto, não apenas com rugas novas ou mais um fio de cabelo branco, mas o modo de ver as coisas; não no que se refere à perda de visão, cataratas, miopias e outras que se acentuam com a velhice, mas o modo de perceber as coisas, pessoas, sentimentos, ações…

Também não sou o que eu queria ser. E ser metamorfose não é questão de preferir ou escolher, é de viver, lutar, perceber, perceber-se, sobreviver… Além do “estar”, “ser”. Sem essa de “to be”, que ser é muito mais profundo que estar, pois independentemente de onde e como se “está” o que se é, é ainda maior. E embora o fato de “estar” interfira metamorfoseando o ser, ele é.

A vontade de ser outro o torna uma pessoa que não aquela que gostaria de ser, e ainda uma diferente daquela que é. Como que comunga-se de ambos e se torna aí uma terceira pessoa. Não, deixemos Freud e a teoria dos recalques fora disso, afinal, “um charuto é as vezes apenas um charuto” não disse ele mesmo?

As expectativas, correspondidas ou não, os lugares, as pessoas, os signos redescobertos, redefinidos, redesenhados, alinham pareceres claros e obscuros num jogo de luz e sombras, encerram visões açucaradas e freios controladores, a lagarta entra na solitária repressora do casulo para metamorfosear, e dali sai, tanto faz se mariposa ou borboleta; se liberta, completa, já não é lagarta.

E a barata de Kafka? E a mosca de Cronenberg?

E se a mosca pousa na sua sopa? Você a espanta ou se espanta? O que lhe causa espanto? A mosca ou o medo de ser a mosca?




Foto: Djair - Espantalho - Parque D. Carlos I - Caldas da Rainha, Portugal - 05/10/2017 - Evento: Tradições da Vila.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ocasos e Alvoradas

"De repente a gente vê que perdeu 
Ou está perdendo alguma cois
 Morna e ingênua 
Que vai ficando no caminho  
Que é escuro e frio, mas também bonito 
Porque é iluminado 
Pela beleza do que aconteceu 
Há minutos atrás"




Foto: Djair - Pôr do sol visto do Parque D. Carlos I, Caldas da Rainha.

    Chegando para viver em Portugal, passeio por parques, monumentos, museus, igrejas, antigos casarios, deslumbrantes em seus detalhes de acabamentos suntuosos ou singelos, mas que buscam acima de tudo tornar bela a paisagem; azulejos, jardins bem cuidados, e as pereiras - com seus últimos frutos a brilhar sob a luz do sol de outono - a mais bela - tornando seus variados tons amarelos em ouro 16, aquele mais pálido, cujas frutas vão despedindo-se e, caindo à terra, vão de novo fertilizá-la para tornarem doces os frutos do ano vindouro. Em seus lugares começam a aparecer, nos jardins e pomares, as maçãs, a avermelhar-se e então, em breve, o pomo de ouro em breve rivalizará com o brilho do sol, justamente por receber dele os raios que na casca lustrosa se refletirá.

    Nos parques, as amarílis numa mescla de branco e rosa reinam absolutas, rainhas postas sobre um rei morto, o que existia nos tons lilases e brancos de agapantos, dos quais só vejo que floresceram e que agora estão cheios de sementes. Não os alcancei no esplendor, mas não há problemas, esperarei um ano e eles tornarão ao trono.

    Vindo de período um tanto agridoce,  - no que tange a muitas coisas, mas a maioria delas de particular envolvimento emocional, e mesmo romântico, já que tenho como sina esse modo de achar que as coisas darão certo, que a arte vai nos levar a um lugar melhor, que fazer o mundo mais belo envolverá a todos - tenho ido a museus, ouvido concertos, e pasmem, até a uma missa assisti... Se vissem a igreja de Nossa Senhora do Pópulo, em Caldas da Rainha, entenderiam o que me levou a fazê-lo; não que a cerimônia em si tenha a mim dito qualquer coisa…

    Tenho conversado com pessoas interessantes, e todo mundo o é, cada um é uma experiência, e a cada um desperta uma sensação. Mas alguns mais que outros nos fazem os achar assim.

    E, é assim que tenho passado os dias, inebriado por coisas que queria que houvessem do outro lado do Atlântico e não sei porque é que não acontecem, porque não vingam. Secretários de cultura, prefeitos, governadores, todos viajam, mas porque não cuidam também dessa coisa, que é fazer belo e agradável o lugar onde se vive, e para todos? Não, vou conter-me, e não vou falar de edis que preferem cinza nos muros, e muros... e cinza… Não, não é um texto panfletário.

    Esse, é um texto sobre esse meu momento de deglutição, um texto sobre o processo de percepção de um monte de coisas mal digeridas, e também por um outro lado sobre esse momento de nutrição, pois a nutrição ora se faz presente. Mas o fato de estar a ser nutrido faz também com que eu queira que todos também o sejam. Com a segurança que nos permita andar nas sombras, no escuro, e ver seu contraste com a luz. Com a beleza que torna leve tudo o que engolimos de feio no cotidiano, e venha essa beleza de onde vier, seja como for percebida, pela visão, pela audição, pelo paladar, pelo olfato, pelo tato, quer seja pelo etéreo, pois que só sentimos, e é aquele sentimento de estar bem, alegre, satisfeito e sem saber o porque, sem sequer perceber, apenas a sentir. Às vezes, é essa mesma beleza que traz uma pequena tristeza, fruto de saudades e reflexões diversas, e é mesmo para isso que ela serve, para despertar as emoções. Como digo a respeito dos filmes, um filme é bom se desperta algum sentimento, assim é a arte, assim é a beleza, seja ela manipulada pelo homem, um desenho, um jardim, uma pintura ou um poema, quer seja pela natureza que retorceu um galho, ou pelo sol que fez com que a sombra desse mesmo ramo se projetasse de tal ou qual forma. Que as possamos perceber todas.


"Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saíba, 
e, que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer." 
Oswaldo Montenegro

domingo, 17 de setembro de 2017

Segurança

Parque Dom Carlos I
Cá em Caldas da Rainha, Portugal, percebo o quanto nos faltam diversas coisas no Brasil, tolerância, dignidade, respeito, autoestima, segurança. Não que passassem despercebidos antes, ao contrário, sempre foram percebidos, mas o contraste quando se vê é ainda maior, das duas vezes anteriores que vim a Europa foram viagens de turismo e o olhar turístico também nos faz perceber muitas coisas, lembro que a primeira vez na Espanha, em Sevilha, as três da madrugada caminhávamos voltando de uma apresentação de flamenco onde o jantar ainda mais se estendeu, era uma rua semi-deserta, um tanto escura, onde haviam trechos em obras, e me surpreendi com um casal a sacar dinheiro em um caixa eletrônico sem sequer olharem para os lados, vês essa cena aí no Brasil? Outrossim, os caixas eletrônicos aqui são apenas máquinas encaixadas em uma parede qualquer, sem qualquer aparato de vidro ou paredes a cercá-lo, uma máquina na parede á beira da calçada e pronto. Enquanto que no Brasil custam mais caro, ao mais das vezes ergue-se um cômodo de vidro… É como as estações de metrô com pisos de mármore, redomas de vidro, enquanto cá são apenas também acessos, com piso de cimento, entra-se e pega-se o trem. Nada contra as estações da Paulista onde vemos obras de arte, painéis de Tomie Ohtake, reproduções de obras do Masp. Isso é outra coisa, é arte, já tão em falta e vilipendiada. Mas pisos de mármore redomas de vidro na entrada quando se tem uma linha pífia parece um tanto desnecessário.


Uma vez, comentando com um amigo sobre essas coisas, disse-me ele que Anne-Aymone Sauvage de Brantes, esposa do presidente francês (Valéry René Marie Georges) Giscard d'Estaing em sua visita ao Brasil (1978) teria perguntado como um país tão pobre como o Brasil podia usar tanto mármore simplesmente revestindo paredes de prédios. Até já citei isso no texto “Observações esparsas sobre uma cidade sem eixo narrativo”. Aqui no blog, quando falava sobre os prédios (feios) de Macéio, que não tem praticamente recuo (pelo menos em trechos que visitei), mas são revestidos com essa pedra. Bem, quem quiser clique acima e leia o texto, esse é sobre outras coisas…

Mas o que me despertou para esse texto foi um acontecido, por estar a residir próximo ao Parque D. Carlos I, Bem, ontem a noite já começava a escurecer, deviam ser entre 20 h a 20h30, pois bem, muitas pessoas cruzam o parque como um atalho, e eu descia por sua lateral, e fazer o mesmo, por uma das trilhas de terra, ladeada pelos ciprestes, pois bem, segundos antes de entrar por esse portão, entra lá também uma moça com algumas sacolas de compras, em seguida entro eu, vendo-a descer uma rústica escada feita pelas raízes das árvores de ali, pensei: Ela irá se assustar com uma figura masculina a seguir-lhe os passos a essa hora, com o escurecer do crepúsculo, e o deserto com que se torna o parque a essa hora devido ao vento frio que corria. Lembrei-me da insegurança das mulheres nos campus universitários do Brasil, dos ataques e violências de toda espécie. Pois muito bem, a moça continuou seu caminho, e embora eu tenha atrasado o passo em atenção a ela e sua sensação de segurança, a mesma sequer olhou para trás, manteve seu caminhar a mesma velocidade e atravessou o parque num sentido ainda menos movimentado do que o que eu segui.

Vitrine de loja de Cerâmica em Caldas da Rainha - Foto: Djair
Há também aqui as famosas cerâmicas que tradicionalmente trazem a forma de falos, de tamanhos variados, desde a miniatura até os Hercúleos de proporções assombrosas, de todas as cores possíveis, dos mais diversos formatos, inclusive o famoso caralho de asa. Estão às vitrines de todas as lojas, sem que ninguém se choque, sem que nenhum “cidadão de bem” ou fanático religiosos que não fez terapia para tratar seus recalques vá a um juiz igualmente tosco para proibir-lhes a exibição e comércio, ou que lhes quebrem as vitrines… E em seu sossego, sem censura, dizem cá os artesãos que o fazem, após encerrarem seu turno de trabalho: “Hoje já não faço mais caralho nenhum!”


Difícil terminar o texto sem emitir mais algum juízo de valor, então termina aqui, como começou, com reflexões e sentimentos variados. Que possamos todos sentir-nos seguros.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Até breve



Bem, pediram-me para discursar na festa de despedida que tão gentilmente me prepararam, com tanto carinho que até convidaram a ela, meu companheiro. Como disse ali, constrangido por falar em público, ainda que cercado de pessoas queridas, não sou bom com palavras verbalizadas oralmente, ainda mais quando de improviso. Não que seja melhor com elas escritas, mas me saem muito mais fácil. Diante disto…

            Quero agradecer a todos os envolvidos, direta ou indiretamente nesse gesto de carinho e respeito, “quase” surpresa. E ainda agradecer a convivência, a atenção e respeito dos colegas (servidores e bolsistas) que ali não puderam estar, por diferença de horário de trabalho, - coisa que volta e meia gera descontentamentos e bochichos, mas que não é senão contingência de um trabalho feito em turnos -, e/ou tantos outros motivos.

            Dois anos passam rápido, tanto que já estou no Espírito Santo há três… Mas todo afastamento traz em si o ensejo de despedidas e emoções que advém de tal condição. Assim, não é apenas pela alegre despedida que me prepararam, mas pela convivência salpicada aqui e ali de momentos de carinho. Acredito que cada um procura dar o melhor de si em tudo que faça, sim é claro existem exceções flagrantes, mas no geral é o que fazemos, e muitas vezes o melhor de um  não o parece para o outro, e geram-se interstícios de desencantos. Assim, aproveito para pedir desculpas a todos pelos momentos em que o cansaço, correria, pressa e pressão tenham feito com que agisse de forma desagradável ou ríspida.

            Aproveito ainda para agradecer a confiança, camaradagem e respeito da direção que me permitiu levar à biblioteca tantas exposições e atividades culturais em tão pouco tempo, o que me possibilitou o mestrado que ora inicio, e também pelo período que estive à frente da Divisão de Assistência ao Usuário, coisa que não queria, mas que foi necessária. E aí a cooperação de todos vocês foi mais que nunca imprescindível por tornar mais leve o fardo do “administrativo”.

            Agradeço a todos a participação nas palestras, saraus, encontros literários, que permitem tornar a biblioteca viva, atuante e não apenas um depósito de livros, fazendo assim com que se gere cultura e conhecimento, e não apenas guarde os suportes que levam a isso.

            Agradeço sorrisos, palavras de incentivo, olhares cúmplices, happy hours, arrastar de mobiliário, as festas a que fui convidado, as caminhadas em períodos de greve, os tantos cafés (e muitos sabem o quanto um café é necessário na vida de alguém. Rsrsrs)

            Agradeço aos bolsistas que facilitam tanto nosso trabalho e por vezes assumem tarefas de linha de frente. E que quando eu voltar, a maioria já estará formada, e, desejo, terão se tornado profissionais de sucesso em suas áreas.

            Poderia continuar a discorrer e a agradecer a tanta coisa vivida com vocês, mas antes de que essa se torne uma carta testamento e ainda mais enfadonha, termino por aqui. Sintam-se queridos e abraçados, cada um vocês. Mais uma vez… Obrigado por tudo. E até breve.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Fora Livros, fora!

Fora tu, livro.
Vai esfregar-te nos olhos de outros,
Não nos meus, que já te leram.
Faz com que sofram como eu sofri, com a sina de teus personagens, e a vil personalidade dessa gente bandida que descreves.
Fá-los sorrir com as tiradas de tuas páginas, como me fizeste gargalhar.
Encanta-os com a sutileza de tuas metáforas,
E tu outro, de capa dura, vai e ajuda o professor a enraizar em solos áridos, a raiz do aprendizado,
Para que ali floresça o conhecimento.

Saiam, saiam das estantes e ide por aí a ganhar o mundo.

Que vos pintem em cores fortes as personagens, as paisagens e, na falta de palavras para traduzir, todo o abstrato. E se me faltam, que as sorvam em ti, onde profusas proporcionam salutares benesses.
Despertai noutros seres, outras palavras tantas,
Para que assim eles produzam outros livros
Começando novo ciclo de escrita, leitura, descoberta e prazer.