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domingo, 28 de dezembro de 2014

Zés ninguém, e Conceições


E então, numa dessas curvas, que o destino faz ao chegar nas esquinas do tempo e do espaço, você dá de cara – e quase tropeça – com pessoas que chegou a ter algum contato num tempo não tão distante - já que a memória condensa os capítulos da vida e no vale a pena ver de novo mnemônico as cores são nítidas e as vozes não tremulam - , mas que pela variedade de situações vividas já é ancestral, e se dá conta que os playboys do seu tempo de juventude caíram e rolaram na lama de seus próprios atos e escolhas, chafurdaram em obscenidades sociais e tornaram-se sombras tão difusas do que foram um dia, que fazem lembrar a canção... “Quem não os conhece não pode mais ver pra crer, quem jamais os esquece não pode reconhecer.¹”


E assim você se sente agradecido pelo que não teve, por ter sido o forjador de si mesmo, malhado a trabalho, decepções e sonhos, e por ter optado pela retidão, mesmo se o caminho era tortuoso e os atalhos atraíssem com promessas de caminhos sombreados e flores.


¹ – Conceição – Composição de Composição de Dunga e Jair Amorim. Imortalizada na voz de Cauby Peixoto
Foto: Djair - Nuvens, no céu do Brasil

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A exterioridade das experiências

Assim como os répteis trocam de pele e os pássaros de plumagem, trocamos de círculos.

Desde as primeiras amizades rompidas na infância, cujo ritual, simples, exige dedos mínimos entrelaçados para em seguida os puxar simbolizando um elo rompido, ou indicadores unidos que são cortados pela mão - em palma - do outro, vemos a simbologia de um corte.

A exterioridade das experiências trocadas, que compreende jogos sociais ditos civilizatórios, vai ganhando matizes tênues ou berrantes cores almodóvarianas, de acordo com nosso próprio desenvolvimento e paixão.



Os acordos tácitos aceitados de bom grado – ou à custa de interesses (sexuais, sociais, profissionais) ou meras simpatias, num momento de diferente grau de ebulição já não é mais aceitável, muitas das vezes sequer negociável.

Pequenas grosserias, como atrasos que se repetem, canos, bolos ou tocos, de acordo com a gíria vigente, dados em um evento ao qual se programou e muito frequentemente se deixou de aceitar um novo compromisso, mas ao qual o outro – esse demônio cuja existência se deve apenas à necessidade de infernizar nossas vidas - não deu a mesma importância e desistiu sem dar-se ao trabalho de avisar, pode anunciar o rompimento do bem estar.

Convicções políticas radicais, a grosseria nossa de cada dia, seja a da atenção maior a qualquer um que resolva ligar no celular do interlocutor e a quem se dedica mais que alguns poucos minutos protocolares - e ainda assim tenho dúvidas sobre a tolerância a isso – abandonando-se ali o outro às intempéries do tempo e do espaço, é o suficiente para quebrar o diálogo, sobretudo se o, até então, agente da voz ativa, ouve a conversa do outro e verifica que não há mais assunto ali a ser tratado, e que justifique os maus modos do que lhe está a frente (interlocutor???) e tenta esticar a conversa à exaustão pelo simples vício de falar ao telefone. O prazer proporcionado pelo som , muitas vezes, entrecortado e cheio de ruídos é maior que o da conversa ao vivo, se notando sorrisos e esgares, enrugamentos de testa, e todo e qualquer sinal de atenção, ansiedade e interesse pela conversa.

Watszaap então, envia direto ao primeiro vale do sétimo círculo do inferno, o mesmo onde estão as almas dos que foram violentos contra o próximo.* Se as pessoas ao telefone já se tornam extremamente mal educadas, que dizer daqueles que à sua frente, mesmo à mesa, seja de jantar ou de bar, se dedica a trocar, infinitamente, mensagens, piadinhas e a ver vídeos, que em geral só ele e quem mandou vêem graça, o interlocutor a essa altura olha para a cara daquele com quem deveria trocar ideias, ou... palavras, que fossem, já estaria no lucro; e toma mais um gole de vinho, cerveja, água, ou engole a saliva que lhe vem à boca a fim de fazer descer o sapo que engole para não dar um “piti” e romper ali mesmo de forma explosiva o consórcio de convivência em união pacifica a que se chamou “amizade”!

Sapo engolido, ainda se sorri – quem consegue – quando o outro mostra o vídeo que ele achou engraçado... Ah, as diferenças culturais e circunstâncias... Ai de nós, tirando a força do útero ou dos testículos, ainda conseguimos esboçar um trejeito nos lábios e nos despedimos mais ou menos polidamente sabendo que ali jaz alguma coisa, e que o descompasso leva ao rompimento mais aqui, mais acolá, com a recusa a uma nova sessão de masoquismo que seria um novo encontro.


*Divina Comédia – Dante Alighieri
Foto: Djair - flor do "Bastão do imperador" - jardim da casa de Ubatuba