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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Pentes, Polícia, Christianes...

E a volta de Christiane F. à feira do livro de Frankfurt por esses dias me trouxe de volta à memória, várias cenas...

 A Universidade Federal Rural de Pernambuco tinha, naqueles útlimo anos do milênio passado, um bar chamado "Eco Lógico".

Era costume àquela época uma brincadeira comum das moças que apertavam nádegas de rapazes (dos rapazes mais bonitos, e dos derrières mais polpudos e durinhos) e assim jocosamente perguntavam: “_Tem pente?”, fazendo uma referência ao antigo costume masculino, hoje em desuso, de se carregar um pente no bolso traseiro da calça. Dependendo de quem fazia a brincadeira, a resposta poderia ser: “_Não, tenho escova.” Mas, a mais das vezes, tudo terminava na interrogação sempre seguida de sorrisos, tanto do alvo, quanto da gaiata. Pois bem, o pessoal da Biologia frequentava o “Ecológico” e naquela tarde, entre a turma, estava também Luciano, o mais bonitinho e também o mais bundudinho do grupo. Todos bebiam e riam, quando “de repente, não mais que de repente...” um carro da polícia para e começa a revistar todos o membros masculinos do grupo – e olhe que ali ninguém fumava sequer uma maconhazinha, mas enfim... A coisa começa a ficar tensa quando percebemos que um dos policiais apalpava com vontade os flancos do Luciano, e aí, Geo não se aguenta e taca um: “Moço, pergunta pra ele se ele tem pente!” Ninguém riu até o “camburão” se afastar, mas que foi hilário, isso foi, e as gargalhadas em profusão se deram logo depois.

Aí se deu o sinal para a entrada e todos ali pagaram suas comandas para ir assistir às primeiras aulas do ano. Mal a professora, uma senhora já bastante ‘entrada’ em anos, óculos grossos, cara séria, entra na classe e, como se falasse a uma turma do primário, começa a desfiar o rosário de normas que o cargo lhe permitia: “meu nome é Christiane Fonseca, sou professora de... (enfim, disse lá o nome da matéria), eu não gosto de gracinhas na minha sala, não gosto de piadinhas, conversinhas paralelas enquanto dou a aula, não gosto disso, nem daquilo, e muito menos daquilo outro...” e por aí vai que o rosário era extenso e um terço só já é por vezes cansativo.
Explicações dadas, “modus operandi” explicitado, e Luciano levanta a mão: _Dona Christiane F., por favor D. Cristiane F. ... 
Ao que ela atende: _Pois não? Mas antes que estória é esta de Christiane F.? 
E ele: _Ué, a senhora não é Cristiane Fonseca? Pode muito bem ser Cristiane F.
_É, tem razão, só que eu não sou drogada e nem prostituída - diz ela em nova referência ao livro.

Sem se dar por vencido, Luciano emenda: _É, e pela cara... nem tem treze anos.

A risada foi geral, dela inclusive, que acabou aceitando gracinhas e jocosidades dali em diante, para a felicidade geral de todos.


Foto:  internet - Capa do livro: "Eu Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída."  O livro surge a partir do depoimento de Christiane F. em 1978, já com 15 anos,ela depunha como testemunha num tribunal de Berlim.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

De baixo os caracóis pelos canteiros...

Volta e meia aparecem lesmas e caracóis em meu pequenino jardim, nos vasos de samambaias e flores; pelo quintal também é comum seu surgimento, sobretudo nas estações chuvosas, afinal, quanto mais úmido for o jardim, mais as pequenas criaturas aparecerão. Infelizmente, os sabiás que ciscam vãos e canteiros não as comem, e aí... tenho de matá-los.
E lá vou eu, com enorme dor na consciência, pois os pequenos seres não têm culpa de ser o que são, assim como não a tenho de ser o quê e como sou. E também ajudam na compostagem de cascas de frutas, restos de verduras, folhas e tal... Mas, se os deixasse viver, em pouco tempo acabariam também com o verde cultivado.
E lá vem a dor maior: como exterminá-los...
Em geral, as pessoas jogam sal, e eles morrem desidratados. Não consigo imaginar uma morte mais terrível do que ter toda água do corpo puxada para fora em uma lenta e dolorosa agonia. Por um tempo os recolhia com um saco plástico e, amarrando-o, jogava-os direto no lixo, mas a ideia de uma morte também lenta por asfixia e fome me pareceu tão aterradora quanto, e o fato de não assisti-la não amenizava isso. Resta esmagá-los ou cortá-los com a pá de jardinagem, doloroso mas rápido...
Moscas, baratas, pernilongos, jamais me despertarão tal dúvida ou doloridas reflexões sobre suas mortes, talvez pela comprovada e divulgada ação nociva de transmissão de doenças, mas matar um pequeno ser, mais por ele ser feio, asqueroso que seja, do que pelo mal que fazem... esse sim me dói. As lagartas permito viverem o quanto possível, afinal, tornar-se-ão borboletas, e aí está a justificativa que não encontro para evitar a morte de gastrópodes. Sim, pensando melhor, chego a achá-los bonitos. Uma beleza diferente da convencionada e dirigida a lepidópteros e outros coloridos insetos.
As minhocas não as perco; coloco-as nos vasos de compostagem ou as deixo nos canteiros, cobrindo-as com um pouco de terra, seu edredom favorito, com a ordem de que cresçam e multipliquem-se. Algumas, e ao julgar pelo insistente ciscado, servem de alimento aos sábias, mas e as lesmas e caracóis? Bem, os jogo no lixo, e torço para que a morte não seja dolorosa. É o que posso fazer.

Foto: Djair - Detalhe da floreira de  Estrela do Egito

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Enquanto alguns falam, outros escrevem...



É nas palestras desinteressantes que mais escrevo, nos workshops maçantes e em reuniões improdutivas, desde claro possa ter à mão papel e caneta, ou um computador com Word, para dali fugir, muito embora ‘de corpo presente’.
E assim, nasce grande parte dos textos postados no blog – por pura fuga ou desinteresse naquela palestra de título tão pomposo e que não passa de tatibitate e autopromoção, que é o que mais se veem em encontros e seminários. Este aqui, por exemplo, começa assim. Enquanto o “presidente da mesa” mostra que, apesar da coleção de títulos, ele não tem noções básicas de educação (deixando isto claro para os palestrantes estrangeiros que a compõe e para todo o público que os assiste), escrevo – melhor que assistir à vergonhosa (mas com títulos) situação.
Mas é assim que a coisa vai... Os arautos do “fiz isso, fiz aquilo, e fiz também aquilo outro...” jamais dizem o principal: como tudo foi feito e como chegaram ali; reina sempre o pronome pessoal, na primeira pessoa do singular, em discursos que prosseguem com o pê, pê, pé, caixa de fósforo, barra de sabão e toda a eloquência. Dicas para resoluções de problemas similares? Nem quando forem abertas as perguntas... , quando só dão: “Veja bem...”, “Hã-ham...” e... The books on the tablet”, que não estão nem aí. Você não arranca nada, afinal, se você conseguir fazer igual, como ele poderá vender seus cursos, palestras, consultoria – é o que deve pensar...
E não se engane, não te dirão jamais: “consegui porque tenho um contato em tal órgão”, “porque fulano de tal é meu cunhado, primo, amante, irmão do dono do cachorro da prima da minha vizinha”... ou um reles: “consegui por sorte!” Logo não adianta você apresentar mil projetos bem fundamentados e estruturados sem o fundamento e a estrutura para tal.
Mas esses encontros têm uma serventia fundamental, que não está dita em seus cartazes nem faz parte do programa oficial: encontrar amigos e colegas de profissão que de outra forma, rara e dificilmente encontraríamos. E aí sim, vale a pena, trocamos informações e dicas preciosas, sobre trabalhos, projetos, problemas compartilhados que um resolveu de tal forma e o outro conseguiu contornar de um jeito tal que jamais lhe ocorreria. Partilhamos informações preciosas, telefones, e-mails e juras e promessas de contatos que não se realizarão pois o corre-corre do dia a dia fará com que nos esqueçamos delas, antes mesmo de deixarmos o prédio do evento na correria para pegar ônibus, metrô ou tirar o carro do estacionamento sem pegar o horário do rodízio.
Ou então é o sinal de que a próxima palestra vai começar e, como estamos em lugares diferentes e às vezes distantes, nos despedimos à pressa. E aí recomeça tudo... e então... Escrevo.

Foto de domínio público na internet.