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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Cabelo, pra que te quero?

Quando criança, colecionava figurinhas nos álbuns, sem jamais ter completado um. Vieram selos, postais, cartões telefônicos, mas ali, pela sétima série comecei uma bizarra coleção de... cabelos.

Sim, fios de cabelos. Colocava-os em um caderno, com um durex, adicionando data e a quem pertenciam, fios pequenos, longos, louros, escuros, naturais em sua maioria já que, àquele tempo a tintura, não era algo tão difundido, entre a mulherada. A grande maioria dos fios provinha das colegas de colégio, mas também de vizinhas, primas, e mesmo professoras, Marisa, Bartira, etc. Tinha de várias, às vezes colhidos nas costas, fios que caíam, às vezes pedidos e dados gentilmente; outras vezes um puxãozinho inusitado me propiciava o troféu...

Naqueles dias, eu justificava a coleção como sendo um pedacinho da pessoa que ficava comigo. Obviamente, ideia colhida de uma música muito difundida em rádios e programas televisivos da época:  “Fio de cabelo”, de João Mineiro e Marciano, onde o verso do refrão diz:
 
 "E hoje, o que eu encontrei
Me deixou mais triste 
Um pedacinho dela que exite
Um fio de cabelo no meu paletó..."

Não sei com quantos fios contava, aliás com quantas amostras, já que de algumas tinha vários fios, formando uma pequenina mecha de três, cinco cilindros de espessura fina, como diz outra música “Cabelo”, de Arnaldo Antunes e Jorge Ben. O fato é que já ia longe no caderno de 200 páginas, e àquele dia, pedi o fio a uma colega, com quem tinha já uma aproximação e que estudava na sala em frente à minha. Não lhe lembro o nome, nem o diria se lembrasse; era lourinha, branquinha, bonitinha, como diz uma conhecida: tudo “inha”. E obtendo o consentimento, tirei-lhe o fio, da parte de cima da cabeça; foi dali, daquela região logo acima da testa, que me veio o fio finíssimo e dourado, acompanhado de um pequeno, pequeníssimo anopluro. A caminhar sobre aquele fio amarelo, o pediculus capitis me causou tal desconforto que agradeci, desconversei, e não sei muito bem como saí dali, provavelmente tendo deixado o fio cair no corredor.

Foi o que bastou; todos os pedacinhos das pessoas foram jogados fora e assim acabou-se a coleção. Como diria uma colega, deu-me um “nojinho”... Sem revelar o santo, cheguei a contar o milagre a alguns que me perguntaram pela coleção. Não sei se era crível, uma vez que eu mesmo a acho inusitada, mas como diria Chicó*: “Só sei que foi assim”.



* Personagem de Ariano Suassuna presente em “O auto da compadecida.”

Foto: Internet - "Natasha Moraes de Andrade " disponível aqui.
Clicando nas palavrinhas azuis você pode ouvir as músicas citadas.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Nem medusa, nem sansão, muito menos Rapunzel.

Todo tipo de doido tem por essas terras, ou como dizia D. Antônia, lá em Cezídia, àqueles tempos mais tranquilos e frescos, inocentes e sem tanta maldade: “Deus deixou cada agregado nesse mundo véio dele...”
Enfim...

Naquele primeiro ano de faculdade, acabei por fazer amizade com o pessoal da turma que me antecedia, e ali, no decorrer dos quatro longuíssimos anos do curso, acabei por saber algumas histórias que naquela estranha classe se passava. Se na minha turma haviam grupos distintos e antagônicos como as bibas subservientes, as patricinhas, a bancada evangélica, os da terceira idade e lá no fundão, nós, os normais, naquela outra turma anterior haviam figuras de igual calibre, sem contar outros ainda mais raros.

A distância de um ano, assim como a física, não me permitiu saber-lhes os apelidos. Enquanto que em minha sala haviam algumas identificatórias ditas a alto som como o “bagaceira” e a “vírgula”, também haviam aqueles ditos entredentes, como o “homem primata” e a “Carrie”. Sim, ela era estranha...

Mas a história bizarra naquela turma se passava com Alexandra, uma senhora já entrada em anos que tardiamente fazia sua primeira faculdade, uma dessas mulheres de quem se diz: “Ela não leva desaforo pra casa.” Era uma negra alta, esguia, gostava de usar um lenço à cabeça, de palavreado fácil, em tom que se categorizaria por allegro ma non troppo, nunca a rotular como moderado, no que se refere à altura. A antagonista dessa pequenina passagem era Rose, que vos apresento como uma bela moça de seus vinte e poucos anos, de porte esguio sem deixar que a magreza lhe tolhesse curvas e sinuosidades, muito bem distribuídas em sua pele “morena arroxeada” como se dizia de minha avó materna em sua juventude – o que valeu-lhe, até a morte, o apelido de “roxa”. Mas, voltando à beldade que descrevia, tinha cabelos lisos, o que em tempos onde já existia a tal escova progressiva seria de difícil afirmação a naturalidade de tais madeixas.
Segundo reza a lenda e os relatos contados por seus colegas, Rose teria cismado com Alexandra já nos primeiros dias de aula. E então lhe inventava histórias contundentes, como que estava grávida mas que ia tirar o filho pois o pai era casado, chocando a colega mais pelo aborto que pelo casamento do suposto genitor, ou que, noutras horas, o dito cujo era bandido, traficante, pederasta, ou que lhe tinha tomado o corpo à força. Por aí corria a correnteza de diversidade substanciosa e a imaginação fertilíssima fazia escorrer o Nilo das mais bizarras características.

Alexandra, sempre chocada, manifestava-se baixinho, acreditando ser confidente dos segredos inenarráveis de Rose. Pois bem, chegou o dia que soube-se que ela não estava grávida, que como lhe afirmava Rose, tinha sido rebate falso, como se diz. Só que agora ela estaria gostando de mulher. Alexandra, como já o dissemos, era uma senhora entrada em anos, e ouvia a colega, tentando aconselhar sem preconceitos, até que Rose lhe declarou que ela era a mulher por quem estaria apaixonada. Deu para Alexandra, que barra ali mesmo quaisquer tentativas sentimentais de um contato, digamos, mais carnal.

A partir dali, Rose tendo achado o ponto, falava, durante as aulas, baixinho, sobre seu desejo pela colega, que, no tom sempre alto, algo indignada, no seu exagero verbal, ao ser questionada pelos colegas ou professores, afirmava: “Ela é louca, eu não falei nada disso, tô aqui acompanhando a matéria...” E por aí, ia...

Passado esse surto, aconselhada a mudar de lugar, afasta-se do lado da colega e pula para a cadeira imediatamente à frente dela. E aí era o jogar de cabelos que irritava a já indignada senhora que reclamava em brados cada vez mais retumbantes, e a outra a se divertir jogando-lhe as madeixas sobre a carteira.

Pois bem, Alexandra decide calar-se; cala um dia, dois, no terceiro, quando a outra provocante lhe joga a cabeleira sobre os cadernos, ela não tem dúvida, assim como também os colegas que já não a tinham sobre as provocações de Rose. A mão é rápida e certeira ao manejar a tesoura e a mecha enorme, à guisa do escalpo, vira troféu nas mãos de Alexandra.

Rose? Bem, teve que cortar o cabelo à altura da nuca, e desde então cessaram as brincadeiras, pois que a outra não estava pra isso.


***


Allegro ma non troppo (italiano para "rápido, mas não muito") é o nome de um andamento utilizado para indicar ao músico que a execução deve ser moderadamente rápida. Em geral o movimento allegro é executado com pulsação rápida e expressão leve e alegre. Fonte: Wikipédia



Foto: Djair - Minhas próprias madeixas, a serem doadas ao Outubro Rosa