Curta a página no facebook

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Arrastando móveis

Sempre digo que têm coisas que só saem no suor. Mágoas, raivas contidas, desesperanças, cansaço mental...


Fim de ano, tempo feio, vontade de perpetuar feriados, desejo de vida nova. Nem sempre dá pra mudar as coisas, mas os móveis da sala, ou do quarto, cozinha que seja, sempre é possível. Sempre gostei de fazê-lo, já que mudar de casa é mais caro, complicado, trabalhoso.
Lembro que, ao final nos anos 1980, tinha um grupo de amigos, que sempre ia em casa, bebíamos vinho, conversávamos coisas sérias e prajalpas, ouvíamos música. Em uma destas visitas Marco, que fazia parte do pequeno grupo, comentou: “Nossa! É a primeira vez que venho aqui e os móveis não mudaram de lugar.” Ao que retruquei: “Não, é que faz tempo que não vens, os móveis já giraram 360 graus e pararam no lugar onde estavam a última vez!”

E era verdade!

Penúltimo dia do ano, resolvi mudar a sala, seguindo conselho da editora de interiores do Estadão*, Maria Eunice Fernandes. Tirei todos os móveis e quadros e recomecei sem nada na sala. O resultado, se não foi perfeito, chegou emparelhado. Tenho um móvel, herdado do Nato e da Cristina - um bufê, que nem lembro mais porque chamo de bode, em referência à velha história do bode na sala. Pesadíssimo, de madeira maciça, do qual teria sido mais fácil tirar as gavetas antes de percorrer a sala de um extremo ao outro, mas... Tirar e colocar gavetas, quem tem paciência pra isto? E aí, afastem-se sofás, potes de cerâmica, cristaleira, móvel de Cd´s, mesas de centro e canto, vaso disto e daquilo outro, mantenho os enfeites natalinos ou é melhor já bani-los, já que o aniversário do Cristo passou e faltam tão poucos dias pra desmontar? Bem, se a iluminação do jardim fica, os enfeites também, presépio, árvore, enfeites de porta, etc, etc...
Cerâmicas foram retiradas (aos montes) e algumas, depois dos ajustes, foram guardadas. Talvez precise repensar essa fixação por cerâmicas, mas estando em Diamantina, ou São João Del Rey, Bonito ou Teresina e Alcântara, quem haverá de resistir? Eu sei quem não resiste... 

Quadros mudaram de parede, plantas voltaram a postos ocupados anteriormente (como o pacová, ai de mim se o mudar de lugar, porque a adaptação dele à sala é tão perfeita, que temo pela mudança de iluminação), ou não, tapetes foram trocados de lado. Troca-se a cortina e voilá, tudo está como devia estar. Incrivelmente, com toda essa minha delicadeza de hipopótamo bêbado quebrei apenas um pires. Aleluia!

Mas o melhor de tudo é a sensação de casa nova, e as coisas que saem no suor no decorrer da mudança. Casa renovada, espírito renovado.
* O Estado de São Paulo, caderno Casa &, Domigo, 27 de Dezembro de 2009, p.04
Fotos: Djair
Cerâmicas: Vaso - Bonito - MS, Flores - S. João del Rey - MG, Bonecas - Diamantina - MG
Quadro: Óleo sobre tela, Lavadeira - Eduardo Piantino



segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Classe Hospitalar - Um projeto humanizador.

Alguns colegas ao tomar conhecimento de minha participação no Projeto Classe Hospitar, tem perguntado a respeito do mesmo, então narro abaixo um pequeno panorama no qual tento mostrar um pouco deste universo.

No 9º andar do Hospital São Paulo, mais especificamente na Ala Pediátrica, funciona a Classe Hospitalar, que é um dos projetos de humanização da pediatria do Hospital Universitário, da Universidade Federal de São Paulo. O projeto que também é desenvolvido em outros hospitais cidade a fora, país a dentro, faz valer a legislação brasileira que reconhece o direito á continuidade de escolarização para crianças e adolescentes hospitalizados.

Considerada como espaço não-formal de educação*, a Classe Hospitalar é um espaço pedagógico dentro de um hospital, com propostas educativo-escolares para crianças e adolescentes, que objetiva experiências e vivências de aprendizagem; fortalecimento e manutenção de vínculos escolares, para isso procura manter o elo entre o aluno e sua escola de origem; favorecer a reinserção escolar após a hospitalização, o que contribui efetivamente contra a evasão escolar.

* “a educação não-formal abrange qualquer tentativa educacional
organizada e sistemática que se realiza fora dos quadros do
sistema formal (de ensino), para fornecer(...) aprendizagem.”

Fávero

Mais que um espaço lúdico, a classe hospitalar propicia integração social e inclusão sócio-educacional, desenvolvendo projetos pedagógicos nas áreas de linguagem oral e escrita, raciocínio lógico, desenvolvimento cognitivo, apoiando a reintegração escolar, enfatizando a cultura nacional. O projeto conta com pedagogos, professores, médicos, enfermeiros, bibliotecários e outros profissionais em seu núcleo de apoio à saúde fisica, e ao desenvolvimento educacional e cultural. Isso respeitando potencialidades e limitações, adequando-se ao seu ritmo próprio de desenvolvimento da criança e resgatando o fortalecimento do vinculo afetivo, independente do tempo em que esta permaneça hospitalizada.

O atendimento, após uma primeira abordagem/entrevista com a criança e familiares, é realizado de forma sistemática e individual ou em conjunto a depender do estado fisíco/mental e desenvolvimento escolar ,em uma sala própria ou, quando se faz necessário, no leito. O espaço fisíco conta com mobiliario adequado, livros, tv e vídeo como suporte às atividades, que sempre tem uma temática a ser desenvolvida, sejam desenhos, modelagem ou redações, tomando base em uma atividade anterior, como filmes sobre culturas diversas, ou leitura/narrativa de obra literária.

No Brasil, a primeira Classe Hospitalar surgiu na cidade do Rio de Janeiro, no início da década 1950, no Hospital Municipal Jesus, tornando-se referência nacional no âmbito da educação especial transitória por manter suas atividades em funcionamento ininterruptamente até os dias de hoje.

Maiores informações:

http://www.unifesp.br/spdm/hsp/humaniza/p35.htm

Constituição Federal de 1988 – lei 8060/90 do Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente . Resolução 41/95

Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LBD. nº9.394 de 20 de dezembro de 1996.

http://blogs.abril.com.br/professorabia/2009/02/classe-hospitalar-ha-espaco-para-professor-no-hospital-ao-abrir-porta-enfermaria-ja-foi-possivel-avistar-juliana-9.html

FÁVERO, O. Tipologia da educação extra-escolar. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, Instituto de Estudos Avançados em Educação, 1980. P.23


Foto: Ana Carolina Bracht M. Souza
Exposição de trabalhos feitos por alunos e mães, na biblioteca central da Unifesp.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Jampa


Há oito anos, quando estive em João Pessoa, os ônibus de linha da cidade tocavam MPB, em volume suave, adequado para o relaxamento e apreciação. Comprava-se do cobrador, que tinha um frigobar ao lado, refrigerantes, água e água de côco. Infelizmente isto já não existe, mas a cidade, conhecida como “porta do sol”, devido à Ponta do Seixas, localizada na praia do Seixas, ser o ponto (continental) extremo leste das Américas, opondo-se, mais diretamente na América do Sul, à Punta Gallinas na Colômbia.


O lugar onde o sol primeiro nasce (e também se põe) no continente, continua prazeiroso, barato e cheio de pequenas descobertas, como o monumento à Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, que não estava lá em minha primeira visita. O sol garantido nos dá uma malemolência gostosa e nos remente ao desejo de uma “siesta”, principalmente depois dos pratos típicos ou não, mas servidos fartamente e a preços surpreendentemente baixos se comparados aos de outras capitais nordestinas. E mais ainda se comparados aos do centro-sul do país. Cioba ou pargo, peixes do litoral da região, não podem deixar de ser apreciados tomando uma cerveja, ou mesmo um refrigerante, à beira-mar, em Manaíra ou Tambaú, sentindo o vento marítimo a bater-lhe o rosto.

Entre as lembranças, pacotes de castanhas, bonecas de pano, redes, doces, colchas de fuxico, tudo se encontra para qualquer gosto e bolso.

O Pôr do sol na praia fluvial do Jacaré, em Cabedelo, cidade vizinha onde se pode chegar de ônibus ou trem e depois uma pequena caminhada, é uma atração à parte, e se o famoso “bolero de Ravel” deixa a desejar no play-back, acompanhado do sax, mire mais no por do sol que na música. Infelizmente agora há um barco que insiste em querer aproximar-se mais do ocaso e em aparecer em nossas fotos, mas que se há de fazer? Tive a sorte de pegar uma chuva na hora do por do sol, o que fez com que ele se pusesse a nossa frente e atrás de nós um maravilhoso arco-íris inundava o céu com suas cores.

Fora isso, há os passeios aquáticos como Picãozinho e Praia Vermelha, passeios de buggy a praias próximas, inclusive a litorais de outros estados vizinhos, como os de Pernambuco e Rio Grande do Norte.

As igrejas imponentes mantêm sua beleza de tempos idos e calma dos séculos em que foram construídas, e já que não temos castelos, seria um crime deixar de visitá-las independente da religião que tivermos. Azulejos portugueses, pias batismais e/ou de água benta, fontes e pinturas sacras nos tetos são pequenos tesouros descobertos por quem adentra. O orgulho por Augusto dos Anjos ser filho da terra está presente nos nativos locais, na forma de saraus literários, organizados pela cidade por seus filhos, ou na Academia Paraibana de Letras, onde o poeta se encontra com Ariano Suassuna em um quadro a óleo de belas cores.

Em frente a uma padaria na Av. Senador Ruy Carneiro, ao final da tarde, encontra-se uma senhora a vender pamonhas e canjica (curau) não tenha dúvidas; compre e delicie-se. Não deixe de comer um prato de fava (prato local) na lagoa Solón de Lucena, tomando refresco de acerola (não o suco de polpa, mas o feito com a fruta, deixe claro). E de resto, arrisque-se pela cidade descobrindo um casarão aqui, uma praça acolá, vá de ônibus, misture-se com o povo local sempre atencioso e disposto a parar e informar-nos como fazer para chegar aos mais variados pontos.

Fotos: Djair
Por do sol - praia do Jacaré.
Arco-iris - praia do jacaré.
Igreja do Carmo - Catedral de N.S. das Mercês.
Igreja de São Francisco.