Curta a página no facebook

domingo, 30 de setembro de 2012

Mercedes Sosa, e a libertação dos povos da América Latina.

        Aquele dia à tarde nos reuníamos na casa de Marco, gim com coca-cola (naquele tempo eu ainda não sabia que era bem melhor com água tônica); o grupo era pequeno mas animado, o papo fluía solto e as risadas podiam ser altas e escancaradas tal como só fazemos quando realmente entre amigos, sem censuras ou controle. E assunto não nos faltava, entre petiscos e goles as narrativas frouxas se sucediam com viço. A varanda permitia que brisa fresca amenizasse o calor, e ali divertíamos nós, embalados por músicas que gostávamos, e uma hora Marco colocou um CD de Mercedes Sosa: àquele tempo era assim, Mercedes Sosa na casa de Marco, já na casa de Anna, ouvíamos Elis à beira da piscina e tomava-se whisky, que aliás nunca aprendi a gostar. Se era na casa de Otaviano, tomávamos vinho e ouvíamos a trilha de Blade Runner, na de Socorro Simone, na de Elizabeth Caetano, em casa era Cazuza, Legião Urbana e Marina, e assim nossa trilha musical era diversificada, e todos gostávamos das referências uns dos outros, bebíamos as bebidas que eram oferecidas, e variávamos comes, bebes e sons.

        Mas àquele dia era a ameríndia quem tocava nas caixas de som colocadas na varanda, onde nos espalhávamos na rede, nas almofadas, nas cadeiras, enfim... A voz forte embalava nossos comentários sobre ela, sobre sua oposição ao presidente da Argentina, seu país, Carlos Menem, que naqueles anos era paparicado por outra estrela, esta não da música, mas dos programas infantis, no Brasil, Xuxa, a quem ele também se derretia em elogios e segundo constava na época chegara a lhe propor casamento, mas enfim...

        
        Ouvíamos já a terceira ou quarta faixa do disco quando entra à varanda, saído de dentro da casa, o irmão de Marco, caçula, já temporão, devia ter seus 9 ou 10 anos e pergunta sobre a música: _Marco, isso aí que vocês estão ouvindo, isso é macumba em inglês, é?
E Marco: _Não, isso aí, é Mercedes Sosa!
_E ela canta assim desse jeito porque?
_Porque ela canta para libertar os povos da América Latina!
_Ah, entendi! E tu vai ser libertado, vai?
_Vou sim! - responde sorrindo!
_E o Zé Roberto, vai? - referindo-se ao irmão mais velho.
 _Ah, o Zé Roberto não vai não, porque ele não gosta das músicas dela...
Um instante de silêncio e o irmão caçula confessa:
_Xi, Marco, acho que eu também não vou ser libertado não...

 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Quem disse que tristeza é um sentimento ruim?


            “Tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu.” 

 

        O Verso é de Chico, o Buarque de Holanda, é bom falar, vá que confundam com o Xavier, o de Assis, o das Chagas ou pior, o Picadinho... Mas voltando ao verso e aproveitando o cinza do dia, que anuncia chuva mais tarde e nem por isso perde o abafado que faz o dia moroso e pesado.  Quem não tem dias que não tem vontade de levantar da cama? Quem não passa mal em alguns dias, e um “passar mal” no sentido de não aguentar a si e aos outros muito menos;  e quer mais curtir a tristeza a depressão, a “percundia” – como diz minha tia Tereza, em casa, sem ninguém perturbando?


            Porque não cultuar a tristeza de forma salutar? Deixar que ela penetre até os ossos, e fria, densa, manifeste-se em lágrimas, em poemas sem nenhum valor literário, mas ricos nas propriedades do ridículo, do desabafo, da terapia e que de quebra podem ser rasgados libertando o coração, queimados se o triste em questão é chegado a um efeito especial (pois que nessas horas os melodramas podem ser vividos sem vergonha), e curtidos exorcizando a tristeza que de outra forma viria em algum momento envenenar o pulmão (já que segundo a medicina oriental é ali que as doenças geradas por tristeza se manifesta)? E porque não com um gim tônica na mão ao som de fados? Já ao terceiro (gim e não o fado) costumo sentir-me melhor. E é hora de trocar os fados de Amália e Mariza pelos tangos-fado de Cristina Branco.

 

            Porque todos têm obrigação de estarem bem e felizes o tempo todo? A ditadura da felicidade é fomentadora da superficialidade e da falsidade; tudo tem a dose certa, óbvio, e a soturnidade também; deixe que escureça, que o chumbo desça sobre os olhos e caia ao vale do rosto em torrentes de salgadas lágrimas. Estamos perdendo a capacidade de chorar, e isto não nos faz mais felizes. É preciso que a tristeza escorra, ou seque, mas em conformidade com a necessidade que sentimos desses momentos, sem sentir vergonha, sem se sentir ainda pior por não “estar bem”.

             Só assim depois a alegria terá um apimentado a mais, e os risos não serão tão fúteis, e os momentos de sol terão brilho maior. Não há receita para alegria, para felicidade, mas ainda é um bom remédio deixar que a tristeza venha e depois expulsá-la porta a fora, varrendo todos os seus resquícios, como se limpa a casa, passando pano molhado pra refrescar e tirar pó e sujeiras dos cantos. Até porque não creio em alegrias constantes como naquelas de comerciais de margarina. Afinal, depois daquele lindo café, alguém vai lavar a louça, recolher o cocô do lindo cão que está ali ao lado, e o iogurte pode não cair bem e dar uma cólica daquelas na beirada do umbigo, seguida de aquosa e fétida diarreia.

 

Deixa a tristeza vir e ficar um pouquinho, você aguenta. E depois mãos à obra, expulse-a, ou dê um até breve. Nada de Núbia Lafayete ou Maysa com seu “Bom dia Tristeza”,  vá de Maria Bethania: “levanta, sacode a cabeça e dá a volta por cima”.

E antes que venham conclusões precipitadas, a respeito de eu estar triste, hoje estou bem alegre, apenas resolvi escrever sobre tristeza, pois é um sentimento também salutar, embora já tenha dito o poeta compositor: É melhor ser alegre que ser triste.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Dores, Insetos e flores


     Enquanto a dor dá uma trégua depois de medicamento este, medicamento aquele, aproveito para escrever. Segundo os dois médicos a dor é muscular e pede repouso, como assim? Eu já estava de repouso quando ela surgiu, mas como disse uma amiga, depois dos 40, quando você acorda sem nenhuma dor pensa logo: morri?

      Enfim, passará, em algum momento; assim, sempre se espera que pinceladas de mercúrio cromo ou emplastros de penicilina curem arranhões, como quem espera que leis da Maria da Penha curem caráter, quem espera que tiros no ouvido, cortes nos punhos ou enforcamentos curem almas doentes, corações feridos e doenças do espírito.

       Pela janela observo que as formigas acabaram mais uma vez com as roseiras e fizeram passeio pelas azaleias e nem o manacá escapou de sua voracidade: ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Desde a infância do país elas fazem raiva, e ainda hoje sobrevivem; não sei de onde vêm em seu famélico assalto noturno. Como os que atacam geladeiras à noite, elas aproveitam a escuridão para se fartar, como o hóspede que tive que abriu os dois potes de doce de leite que trouxe do Serro, quando da ida a Diamantina. Comeu ambos, inclusive o que era um presente a uma amiga, tapou, colocou-os de volta ao fundo da prateleira, vazios, deixando à frente um outro, que estava aberto para consumo, intacto, num gesto sombrio que nem as formigas ousam, afinal, elas não disfarçam – apenas devoram.

      Preciso comprar um pacote de “isca” para que se dê cabo delas. Elas perseguem meus jardins, desde Floriano no Piauí ao da casa de Ubatuba; elas tem algo pessoal contra mim, contra os jardins que planto. Ou eu acabo com as saúvas ou elas acabam com o jardim. Não se pensa que elas habitam a maior cidade da América do Sul, em meio a tanto asfalto e sulphur jogado diariamente no ar da urbe pelos escapamentos de milhões de carros, mas as pequenas bestas são como gente... resistem.

      Não tenho pena delas como tenho das lagartas, essas com sua voracidade dirigida às folhas; depois virarão borboletas e sempre penso: se matar todas as lagartas as borboletas acabam, e aí lhes dou saladas de samambaias e outras tantas plantas, e pelo menos algumas delas terão asas coloridas a flutuar como pétalas bailando pelo ar, beijando flores fixas de outro reino (a saber o vegetal). Os caracóis também são poupados, mas só em dias de extrema doçura, como às vezes me ocorrem – sim, até “Ming - o impiedoso” tem seus dias de “Pollyanna”. Mas nada garante que no dia seguinte sejam esmagados sem remorso, mas, naqueles raros momentos, poderão carregar o peso de suas casas às costas, peso que apenas eles sentem, assim como os bibliotecários que carregam o prédio às costas (unica profissão cujo nome do local de trabalho está no nome da profissão: biblioteca+rios).

      Os tatuzinhos, que Júlia tanto ama também são poupados, o máximo que lhes acontecem é passear por instantes nas mãos da pequena que com seus dois anos lhe dirá: abre!, abre! esperando-os desenrolarem para devolvê-los a terra. Aliás, algumas das composteiras devem já ter terminado sua alquimia, pela qual cascas de frutas, ovos e legumes, pó de café, folhas e outros orgânicos se tornam terra nutritiva, que encherá vasos, floreiras e canteiros e que se transformarão em folhas e flores e frutos novamente.

      Todas essas lembranças e reflexões vindas de um instante à janela roubado ao repouso que se supõe restaurador, enquanto a dor esquece-se de mim por um momento, e se os analgésicos foram eficazes em fazê-la adormecer, esses pensamentos emanados da vista do jardim, que está descuidado desde a primeira leva de repouso há alguns dias, são mais eficazes em acalmar o pensamento.

      Hora de voltar à cama e a mais uma leitura, enquanto o tempo passa e o corpo cura.

Fotos: Djair - Flores do jardim  de casa.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Quem tem olhos, sem catarata, que veja!

A cirurgia foi ótima, repetiu hoje pela terceira vez desde que a fiz, o oculista simpático, novinho de tudo e cortês, falava como um pintor satisfeito com a própria tela. Agora já vendo, lendo perfeitamente, ainda que com a ajuda de um óculos que tinha abandonado há anos por tão fraco que tinha se tornado, volto a escrever no blog, e porque não falar disto? Afinal, a cirurgia de catarata dava-me medo. Embora todos falassem ser simples e a conhecessem a mão-cheia quem já fez e se deu bem, o medo estava instalado. Nunca havia feito uma cirurgia, a tratar-me há 17 anos com homeopatias e acupunturas nas vezes em que foi necessário um acompanhamento que ultrapassasse a barreira dos chás.

Provado está, cientificamente e pela sabedoria popular, que o estado de ânimo influencia em muito nas recuperações, nos tratamentos, etc, etc... e o meu era de medo, agora enxergando de verdade, vendo as nuances nas faces com as quais converso, as quais já tinham perdido os contornos ante o manto branco da catarata, percebo que encontrava-me bem deprimido. Mas como seria diferente se para ler tinha que fechar o olho acometido pela luminosidade excessiva, se cores se faziam manchões ante um fragmento de seus matizes que não tinham contorno algum?

 E eis que no dia seguinte à cirurgia, na retirada do tampão, já conseguia enxergar sem os halos, sem os borrões, sem que a luminosidade do dia, das lâmpadas ou da teleVISÃO ofuscasse tudo.

E aí, na rede social, coloco a foto com o tampão que suscita logo 35 comentários e 26 “curtidas”. Agradeço de uma só piscada, logo depois da cirurgia:

“Queridos, segundo o médico a cirurgia foi muito boa, amanhã tiro o tampão do olho e se Deus quiser enxergarei tudo! Muito obrigado pelas vibrações, pelas mensagens, telefonemas, etc... Isso fez toda diferença, podem ter certeza.
Grande abraço a todos.”


Foi o auge da fama. E vejo surpreso as 55 “curtidas” e 44 comentários, seguidos por telefonemas, interurbanos inclusive, 11 publicações espontâneas na minha página na mesma rede social, visitas que vêm me ver, torpedos que são enviados com votos de saúde, torcendo por mim, o suficiente para me fazer sorrir, sentir-me querido. Não há como a cirurgia não ser mesmo um sucesso – como diz o cirurgião simpático e envaidecido de sua obra.

Fora isso, o período que antecedeu: amigos de várias nuances espirituais, católicos, protestantes, umbandistas, kardecistas, evangélicos a fazerem preces, orações, vibrações, pontos e novenas... eita, que é para sentir-me querido mesmo. Ainda ranzinza, com a língua afiada, exagerado em sentimentos de simpatias e antipatias, ainda consigo me fazer querido por tanta gente.

Um boçal a fazer piadinhas pelas costas teria sido: “operação de hemorroidas, afinal tudo é olho”. Esse palavrório chulo, não merece maiores comentários; afinal têm pessoas que por onde passam trazem o sal que não deixam que no rastro brote sequer capim. Mas deixemos pra lá essa gente feita de escuras sombras, sabe-se lá que tipos de cirurgia elas andaram a fazer por aí...

Afinal o texto de hoje é para agradecer aos que torceram por mim, aos que se preocuparam comigo, aos que se ofereceram para acompanhar-me na cirurgia, a Maluce que foi buscar-me, ao Félix que me levou à consulta seguinte, aos que pediram por mim em suas crenças! A Henriqueta, que me preparou com carinho e afeição verdadeiros manjares nesses dias de recuperação onde deveria ficar longe do fogão. Ao Jair que me auxiliou em tudo, sentirei falta dos cafés na cama. A Deus! Obrigado!

Foto: Jair Leal Piantino :  Djair - O autor do texto