Curta a página no facebook

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sobre amores e atores

Dentre as diversas coisas que leio, vivo, vejo e guardo, está uma poesia que vez li, e que tratava do amor carnal, se é que se pode chamar assim o tesão. O título era “Amor de verdade” que era mais ou menos assim:


Amor de Verdade

Me dê sua mão.
Toque aqui.
Veja como está!
E Então?
Acredita agora?

Bem, googleei no intuito de encontrar o autor da poesia, que acredito ser de Paulo Leminski,  mas em vão, vai ver não postaram na net, vai ver estou um bibliotecário enferrujado que não consegue achar... Pois outro dia em mesa de bar com Maluce e Jair, citei a que considero uma das mais bonitas declarações de amor:

“Se todos me vaiarem e só você me aplaudir, ainda assim eu me sentirei como um Napoleão coroado.”

Essa, quando a recebi,  era atribuída a Michelangelo Buonarroti e seria um trecho de uma carta dele a Tommaso Cavalieri. Tive essa citação por anos guardada entre tesouros que só tem valor a meus olhos e guardo na cabeça. Mas eis que, Jair, como bom conhecedor de história que é, alertou-me de imediato: não pode ser, a frase é linda, mas Michelangelo é muito anterior a Napoleão.

De fato, eu encantado com a frase, nunca conjuminei os fatos. Procurei no Google mais uma vez, e nada. Como diz um conhecido, se não está no Google, não existe... E agora? Bem, continuo a achar a frase preciosa, recebi de uma moça que conheci há mais de década, que mentia muito (e quem mente rouba), portanto pode até ser que a frase seja dela, apesar de mentir muito (ou exatamente por isso) ela escrevia muito bem. Ou roubou-a de alguém e deu a ela outro autor, no sentido de enriquecer, ou, como disse Jair, pode ter trocado César por Napoleão com a intenção de atualizar a bela citação.

Mas sobre o que é essa postagem mesmo? Ah, sobre o amor e algumas de suas formas de expressão...

Vinícius de Moraes, na crônica: “O bom e o mau fã”, descreve uma relação na sala de cinema: “E os casais de namorados, que desgraça! ‘você gosta de mim?’ ‘Gosto!’ ‘Mas gosta mesmo?’ ‘Mesmo!’ ‘Muito?’ ‘Muito!’ ‘Mas jura?’ ‘Juro, juro e pronto, tá satisfeita?’ Depois, dois suspiros (...) E recomeça: ‘Mas você gosta mesmo?...’”

Deuses meus, realmente é o inferno; imagine se Vinícius visse os que hoje teimam em ficar lado a lado nas escadas rolantes, bloqueando a passagem dos apressados no horário de pico, naquela hora em que você está mais que atrasado e vê o trem chegando à plataforma. Ou do casal, com invariavelmente um dos dois gordo, que insiste em querer andar de mãos dadas nas calçadas de São Paulo, estreitas e tomadas por postes, camelôs, lixeiras, carros estacionados e baús de motos...

Lembro que, em Madri, a única moça sentada no colo do namorado no metrô era brasileira, num agarramento vexatório que me fez esquecer automaticamente qualquer palavra lusófona.

E aqueles a quem o amor não convence a eles mesmos e precisam o tempo todo demonstrar ao resto do mundo o quanto amam o parceiro? Confesso que sinto engulhos, até porque geralmente algo soa falso nesses alardes. Principalmente se já convivem juntos, aí o alarido estafante é de tal forma fake que vira uma comédia. Tem gente que até aumenta o tom a fim de quedos possam ouvir suas declarações.

Conheço casais que sentam um em frente ao outro na hora de refeição em casa alheia, e ficam jogando beijinhos um pro outro. Chamam o par: “Môoo...” “Oi...?” e aí vem o biquinho e o pu-pu-pu dos beiços a fazer biquinho e o barulhinho característico do arrufo. Cômico? Nem isso... E os demais a disfarçar pra não correr o risco de tecer nenhum,  nenhum comentário.

E aqueles que dizem amar tão apaixonadamente, que nunca viveram amor assim, mas que, sabendo o outro ciumento, provocam e alimentam esse ciúme. A meu ver, nada mais egoísta e digno de repúdio que alimentar esse sentimento apenas para manter a “pessoa amada” insegura. Afinal, estando insegura, eu estou no controle, eu comando! Deve ser este o pensamento (consciente ou não) que emana de tal ser.

Sinceramente os casais mais felizes que conheço não fazem (nem precisam) fazer alarido algum, a felicidade está no olhar, nos gestos, nos pequenos comentários que não falam em palavras de amor, pois ela está no carinho e respeito com que se tratam. Até porque a maior demonstração de amor está na cumplicidade e respeito um pelo outro.

E aí vem a velha questão que sempre falo: vale mais o respeito próprio que  o amor próprio. Nesse caso, mais o respeito e dedicação à outra pessoa do que as demonstrações apenas para convencer o outro, ou em muitos casos, os outros. Ou seria para convencer a si mesmo? Afinal, tem por aí pessoas que não se dão em quaisquer tipos de relacionamento, e talvez fosse o que mais gostaria mas simplesmente não conseguem.

Nem levo em conta traições carnais que, como em “Amor de Verdade”, que continuo acreditando ser do Leminski, nada mais é que um instinto animal, apenas físico. Mas o pior é a traição de sentimento, a alvorada altissonante que ressoa em alto brado retumbante, como dezenas de címbalos sonoros a cantar um amor que não existe.

E como comecei com citações diversas, termino com uma que acredito casar perfeitamente com o tema tratado. Afinal, Adélia Prado está sempre a nos dizer coisas absurdamente preciosas da forma mais simples:

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é. 
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo: 
"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo.


*MORAIS, Vinícius de. O cinema de meus olhos. São Paulo : Companhia das Letras, 2001.


PRADO, Adélia. Prosa reunida. São Paulo : Siciliano, 1999.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Crises

Um dos assuntos preferidos dos jornais nos últimos dias é a crise na economia grega, ou a possibilidade de uma quebra ainda maior na economia dos Piggs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, segundo a sigla em inglês). O macro sempre é lembrado, o que nunca se fala é do micro; o micro-universo não interessa a quase ninguém, apenas às pessoas relacionadas a ele e a um ou outro que se importe a título de interesse emotivo, profissional, antropológico ou, mais comumente, pura e mera curiosidade.
 
Trazendo essa crise para o micro, lembrei de um conhecido, filho de família de classe média, que estudou nas melhores escolas, fez na melhor faculdade um dos cursos mais renomados, foi para exterior a fim de  aprimorar o inglês, conheceu no avião uma moça de iguais valores (adquiridos na revista que é o catecismo da classe média no país).
 
Ambos dando muito valor ao que é de fora, à grife de roupas, carros, imóveis...
 
Ela loura, “of course”, como ele diria, já que costuma usar termos em inglês no meio das frases.
 
Voltou e procurou a moça que também tinha voltado. Namoram, noivam e com a ajuda do pai dele e economias dela, compram um apartamento, e enfim, casam-se.
  
Valores financeiros acima de tudo, tanto que ele se orgulhava sempre em afirmar que “coisa boa” era com a esposa, pois ela só gostava do que era bom, dos eletrodomésticos do último tipo em inox, ao molho de macarrão importado. O sonho de consumo dela é uma jóia, não me lembro de que tipo, da Tiffany. Afinal agora têm duas em São Paulo. Mas, cá entre nós, se têm duas já não é algo tão exclusivo assim, certo?
 
Um dos programas de fim de semana é visitar lançamentos de imóveis de alto padrão. E voltam deslumbrados. A frase comum é: “É outro nível, você não entende, é outro nível!”
 
Troca-se de apartamento para dar lugar aos rebentos que vêm. Troca-se de carro para que o carrinho de bebê da grife Y, possa caber no porta-malas. E, no futuro, se ufanam do fato que os filhos sempre tiveram tudo do bom e do melhor.
 
Nos almoços e reuniões familiares os comentários são do tipo: “Este filé mignon está excelente!”, com o acento no filé mignon soando exagerado, onde cairia bem apenas a carne, ou bife, o filé que fosse, sem sobrenome...  Ou: “Este Prosecco é muito bom!” E você olha e vê pela garrafa  que o vinho servido é um Lambrusco...
 
O “modus vivendi” já demonstra insatisfação com a vida que se leva. Afinal, se a felicidade está apenas em objetos e estilos que tem de ser consumidos com furor a fim de se provar ser feliz, onde está a felicidade realmente? Na posse? A meu olhar, parece muito distante dali...
 
De repente, acorda-se do sonho, e... cansado de jornada mais ou menos longa, porém muito incômoda de trabalho, resolve pedir demissão do emprego a fim de estudar para um concurso...
 
A esposa, bem... concorda e continua a trabalhar. Continua a gastar, continua a querer para si e os seus o “do bom e do melhor”.
 
Os concursos públicos passam, e ele não passa. O que passa, cada vez mais rápido, é o tempo, e nosso pequeno herói continua fora do mercado de trabalho. As contas, essas, continuam a chegar, e a serem quitadas, mas começam a preocupar. O pai dele, que antes tinha uma renda excelente para os padrões, aposenta-se e com isso a renda cai; a mãe, que sempre foi do lar e acostumada a não se preocupar tanto com contas, começa também a preocupar-se com elas e com a situação do filho. Somam-se a isso uma doença aqui e outra ali... Um gasto inesperado acolá... Ou seja, o pai aos poucos começa também a dilapidar as economias feitas no tempo de bonança.
 
Enquanto isso, a irmã de nosso personagem principal soma cada vez mais sucesso profissional e financeiro, deixando o irmão cada vez mais a descoberto quanto às possibilidades de sucesso pessoal e profissional. Ele, por sua vez, começa a negar o curso que fez, e a dizer que nunca gostou daquela profissão, fêz por culpa do pai, mas aquele nunca impôs isto a ele, ficou evidentemente feliz com a escolha, mas daí a impor há uma distância intransponível.
 
Vem a depressão e, com ela, a falta de ânimo absoluta para reagir à situação que se apresenta. Daí para a doença mental se manifestar no físico é um passo, ela vem na forma de dores lancinantes em patologias que me escuso de expor, mas que o impedem fisicamente de agir, se a vontade de agir viesse.
 
Mas, enfim, a Crise Grega ou a dos Piigs, pode ser maior que nossas crises individuais? Profissionais, financeiras, emocionais?
 
A Europa e o resto do mundo preocupam-se com gregos, portugueses e italianos... E conosco? Com os seres viventes de carne e osso, que se apegam em valores empurrados goela abaixo por semanários e jornais, programas de TV, filmes e outras torrentes de invenções midiáticas? O apego a esses produtos consumidos a mão cheia já não é um sinal de adoecimento?
 
Um adoecimento como este aqui, exposto em nível individual, representa, somado a outros tantos indivíduos tais e quais, o adoecimento de uma sociedade inteira.
 Mas quem liga para o indivíduo, se a sociedade sobreviver?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Divulgados os semifinalistas da 8ª Edição do Prêmio Portugal telecom de Literatura

Neste último sábado, dia 15 , foram anunciados os 54 semi-finalistas da oitava edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura.

A divulgação da lista dos concorrentes, selecionados a partir dos 408 livros inscritos, para segunda fase da premiação se deu no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. Que foi seguida por um coquetel no Paço das Artes.


O Júri Intermediário elege em 31 de agosto, em votação secreta, os 10 livros finalistas dentre os 54 escolhidos pelo Júri Inicial. Serão escolhidos ai os seis profissionais entre seus membros para, junto com os quatro curadores, formar o Júri Final, responsável pela terceira e última etapa do Prêmio.

Em 8 de novembro, a divulgação dos vencedores será feita pela Portugal Telecom em cerimônia de premiação.

O primeiro colocado ganhará R$ 100 mil, o segundo R$ 35 mil e o terceiro R$ 15 mil. Os vencedores receberão um troféu idealizado pelo artista plástico Paulo Von Poser.

Entre as 54 obras semifinalistas, a maioria são autores e obras brasileiros (48),  seguidos por portugueses (4),  angolanos (2) e um moçambicano.


Semifinalistas:

- "A Boca da Verdade", de Mario Sabino
- "A Casa Deles", de Ana Paula Pacheco
- "A Cidade Ilhada", de Milton Hatoum
- "A Minha Alma É Irmã de Deus", de Raimundo Carrero
- "A Passagem Tensa dos Corpos", de Carlos de Brito Mello
- "A Teoria do Jardim", de Dora Ribeiro
- "Aleijão", de Eduardo Sterzi
- "Algum Lugar", de Paloma Vidal
- "Antes de Nascer o Mundo", de Mia Couto
- "AvóDezanove e o Segredo do Soviético", de Ondjaki
- "Barroco Tropical", de José Eduardo Agualusa
- "Bili com Limão Verde na Mão", de Décio Pignatari
- "Boa Noite, Senhor Soares", de Mario Claudio
- "Caim", de José Saramago
- "Céu de Origamis", de Luiz Alfredo Garcia-Roza
- "Cine Privê", de Antonio Carlos Viana
- "Coração Andarilho", de Nélida Piñon
- "Crônicas da Mooca", de Mino Carta
- "Do que Ainda", de Júlio Castañon Guimarães
- "Escarnho", de Paulo Franchetti
- "Estive em Lisboa e Lembrei de Você", de Luiz Ruffato
- "Golpe de Ar", de Fabricio Corsaletti
- "Inverdades", de Andre Sant'Anna
- "Lar,", de Armando Freitas Filho
- "Leite Derramado", de Chico Buarque
- "Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova", de Nei Lopes
- "Matriuska", de Sidney Rocha
- "Meu Amor", de Beatriz Bracher
- "Miguel e os Demônios", de Lourenço Mutarelli
- "Moça com Chapéu de Palha", de Menalton Braff
- "Monodrama", de Carlito Azevedo
- "No Mundo dos Livros", de José Mindlin
- "O Albatroz Azul", de João Ubaldo Ribeiro
- "O Filho da Mãe", de Bernardo Carvalho
- "O Gato Diz Adeus", de Michel Laub
- "O Livro dos Mandarins", de Ricardo Lísias
- "O Meu Nome É Legião", de António Lobo Antunes
- "O Seminarista", de Rubem Fonseca
- "O Sexo Vegetal", de Sérgio Medeiros
- "Olhos Secos", de Bernardo Ajzenberg
- "Os Espiões", de Luis Fernando Veríssimo
- "Outra Vida", de Rodrigo Lacerda
- "Passageira em Trânsito", de Marina Colasanti
- "Perdidos na Toscana", de Afonso Romano Sant'Anna
- "Poemas do Brasil", de Maria Teresa Horta
- "Pornopopéia", de Reinaldo Moraes
- "Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?", de António Lobo Antunes
- "Rei do Cheiro", de João Silvério Trevisan
- "Se Eu Fechar os Olhos Agora", de Edney Silvestre
- "Sob o Céu de Samarcanda", de Ruy Espinheira Filho
- "Tabasco", de Lucila Nogueira
- "Um a Menos", de Heitor Ferraz Mello
- "Violetas e Pavões", de Dalton Trevisan
- "Yuxin", de Ana Miranda

Os onze membros que comporam junto aos curadores o júri intermédiario são:



Alcides VillaçaProfessor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo USP
Allison Marcos LeãoProfessor de Literatura Brasileira da Universidade do Estado do Amazonas UEA
Antonio Carlos SecchinPoeta, ensaísta e crítico literário
Antonio TorresEscritor
Beatriz ResendeTradutora e interprete
Cristovão Tezza Professor e escritor
Jerusa Pires Ferreira Professora de Literatura Brasileira da Universidade Católica de São Paulo
José Castello Escritor e crítico literário 
Lourival Holanda Professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Pernambuco UFPE
Regina Zilberman Escritora e Professora de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS
Sergio de Sá Professor e colunista do Jornal Correio Braziliense Caderno Pensar


Do  júri intermediário saírão os 06 participantes a compor o júri final que definirá os vencedores da edição 2010 a ser divulgada em novembro, aguardemos



Maiores detalhes em: http://www.premioportugaltelecom.com.br/2010



Boa sorte a todos.





segunda-feira, 10 de maio de 2010

Três Marias dolorosas


Maria, embora fosse de uma família de classe média em uma cidade onde isso é uma das cartas de referência para toda comunidade, era independente, como a mãe que na cidade pequena, sempre fêz escola em atitudes que por vezes podiam causar escândalos e comentários maldosos.
Maria foi miss da cidade, foi estudar fora, foi cuidar da vida...
Conheceu um rapaz, que era da mesma cidade, mas que assim como ela foi fazer faculdade fora, e embora morando em cidades diferentes, ela viajava até ele, ele viajava até ela, ambos viajavam até a cidade natal.
Foram anos nesse vai-e-vem, amor crescente, desejo ardente, passeios, cerveja em barzinho, retórica e discussões filosóficas...
A mãe de Maria, que há muito vinha doente, morreu, e ela como filha amantíssima, abatida, sofrida, carente... Ele estava na cidade, foi até ela, e levou-a a um canto para conversarem, e assim, antes do cortejo fúnebre sair, terminou o relacionamento.
***
Maria Amália, prima de meu pai, porém, um tanto mais velha que ele... Naquele tempo, anos 1950/60, interior de cidade nordestina, família séria, onde moça tinha que ter recato, Amália arrumou um namorado...
Flertaram, namoraram, noivaram, casaram...
Maria Amália de branco, como devia ser e grinalda de flor de laranjeira, representando sua pureza...
Depois da festa, Amália e o noivo foram para a casa que haviam mobiliado com carinho, os brocados, paninhos bordados e crochês feitos com capricho, por ela mesma
Lua de mel, ele a penetra com volúpia e prazer, desvirginando-a, perde-se o hímen, perde-se a pureza, torna-se mulher.
Ele saciado levanta, a manda tomar banho, e ele diz quando ela retorna entre envergonhada e suponho feliz: “_Agora volte pra casa do teu pai e diga que te mandei de volta porque você não era mais virgem e me enganou. Se você não confirmar essa história e seu pai e seus irmãos vierem tirar satisfação comigo eu mato seus irmãos, mato seu pai, e depois mato sua mãe e mato você também.
Só se soube da história muitos anos depois, quando o sujeito já não mais existia por ali; ela casada com outro homem que a respeitava e com quem viveu com até a morte.
***
Maria da Graça era nordestina, negra e analfabeta, oriunda de quilombolas de Oeiras – PI. Trabalhava na Granja, pelava frangos desde que ainda não havia peladeira elétrica e tudo era feito a mão. Para isso, acordava às quatro da matina nos dias de semana e às duas da madrugada aos sábados,  domingos e feriados. Além de não saber ler, também desconhecia as diferenças cédulas de dinheiro. Tanto fazia dar-lhe uma nota de cem, como de um. Para ela não havia diferença. Imaginem o tanto que não deve ter sido ludibriada.
Lavava e engomava roupa pra fora, sempre utilizando um daqueles ferros de ferro, o qual se aquece colocando-se carvão em brasa em seu interior, não se entendia bem com ferro elétrico. Vai ver quer que era como tia Alice (tia de um amigo), que usou fogão a lenha até morrer, pois não acreditava que comida em fogão a gás prestasse.
Gostava de usar um lenço na cabeça, e ficava uma graça com uma sainha branca e rendada em três babados que tinha, mas nunca acreditava quando dizia a ela que lhe caia bem, achava sempre que eu estava a caçoar.
Tinha uma casinha pitoresca, com um pé de caju à frente, que frutificava ano a ano, ignorando o terreno pedregoso que ela varria com vassoura feita com pés de velame ou outro mato similar que não sei o nome.
Casou-se com João, que um dia foi embora atrás de trabalho e ligava sempre aos domingos à casa de minha tia para falar com ela. O tempo passou e os telefonemas pararam abruptamente. João cansou, ou casou, ou morreu, quem há de saber?
Tempos depois, Graça arrumou um outro homem. Mais moço, mais branco, mais esperto, mais sem-vergonha. Bebia de vez em quando, e até por isso entre sabe-se lá quantos outros motivos, vez ou outra se separavam, mas logo ele ia atrás dela novamente e reatavam.
Um dia ele bebeu, eles discutiram e... Com um pedaço de pau, ele bateu nela até matar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Observações esparsas sobre uma cidade sem eixo narrativo.


Ao chegar a Maceió, o assédio de taxistas no aeroporto é enorme, mas o ônibus que vai para Ponta Verde passando pelo centro e por Pajuçara sai da frente dele, e por apenas R$2,00 pode levá-lo até às duas das principais praias da cidade.

No trajeto, logo você vai assustar-se com um córrego fétido que toma grande parte do caminho e divide uma das principais avenidas de acesso à orla. Infelizmente, este esgoto a céu aberto, escuro e de odor extremamente desagradável, vai desembocar em uma praia, obviamente imprópria, onde talvez pelo cheiro acre constante, não se instalaram ali as quadras de esporte que se encontram sucessivas em praias vizinhas como Sete Coqueiros e Pajuçara.

De Sete Coqueiros à Ponta verde e de lá à Jatiúca, pode-se observar que a orla ostenta prédios sofisticados, embora muitos deles em terrenos mínimos, com pouco ou quase nenhum recuo. Em Pajuçara, o tom escuro predomina nos prédios, sabe-se lá por quê. O mármore é onipresente nos revestimentos, mas não quer dizer que embeleze, pelo menos não a meus olhos. Ao contrário, lembrou-me o comentário atribuído a esposa de Giscard D'Estaing (então presidente francês, quando da visita o Brasil, em outubro de 1978): “O Brasil um país tão pobre e utiliza tanto mármore...”

Aliás, a diferença entre as classes é aviltante, tanto que pode-se encontrar pessoas utilizando-se de um cano de água a vazar na rua para lavar roupas (foto), enquanto a grande maioria dos carros tem ar-condicionado, imperando os de grande porte.

Na orla ficam ótimos restaurantes e o atendimento é muito bom, assim como a comida farta e barata.

A variação de preços na pousadas é grande, então vale a pena pesquisar. Infelizmente não consegui achar uma sequer que tivesse ventilador ao invés de ar condicionado. Aliás, atendentes de pousadas e garçons são simpaticíssimos por lá.

O calçadão é fartamente arborizado por coqueiros, dando um astral agradável em tons e cores característicos. Uma extensa ciclovia se estende por toda essa orla, mas os moradores não a utilizam: os ciclistas preferem andar pela pista destinada à caminhada e, então, as pessoas transitam pela ciclovia. Em todo caso, a existência da ciclovia por si, mostra uma preocupação com uma estética que possa ser utilitária e ao mesmo tempo bonita. 

Infelizmente as igrejas no Centro Histórico não abrem aos domingos, o que é uma pena; por sinal, o local fica completamente deserto. E, apesar de um ou outro prédio, o histórico do Centro é incipiente.

O enorme monumento a Teotônio Vilela, mantêm o ar condicionado ligado constantemente, no calçadão de sete coqueiros, e quem sai do calor para aquele ar gélido corre o risco de um choque térmico! O monumento de Niemeyer tem ao alto uma escultura em concreto, que pretende lembrar uma foice e um martelo, mas recordou-me mais uma cabeça de “Alien, o oitavo passageiro”. Mas afinal, aquele arquiteto também faz monumentos... E este, por incrível que possa parecer,apesar da autoria, ainda tem grama e coqueiros; menos mal. Pretende-se ali cultuar a memória do “estadista”, que pretendem transformar em arauto do socialismo, por sua luta em favor das liberdades políticas e da redemocratização do país. Mas ele não foi membro da UDN e posteriormente da ARENA, braço de sustentação da ditadura militar?

O Mercado Central é um tanto sujo e desorganizado, com produtos expostos na linha do trem, sem o glamour mostrado em recentes programas de TV. Encontrei algo que procurava há algum tempo, sem sucesso em outros estados; deve ter caído em desuso, mas em época de dengue pode ser um acessório bastante útil: um mosqueteiro! Sim, lá eles ainda são vendidos e depois tornei a encontrá-los em Penedo, Neópolis, Aracaju... Mas, enfim, tem coisas que é melhor comprar de cara; já perdi inúmeros itens por deixar para comprar na próxima cidade, e nunca mais vê-los.

O artesanato local não empolgou, nem mesmo indo atrás dele, no Pontal da Barra, onde supostamente viveriam as rendeiras de Maceió. Pode ser que empolgue o leitor se este nunca tiver ido a Fortaleza, Teresina ou João Pessoa. 

Fotos: Djair