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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Três Marias dolorosas


Maria, embora fosse de uma família de classe média em uma cidade onde isso é uma das cartas de referência para toda comunidade, era independente, como a mãe que na cidade pequena, sempre fêz escola em atitudes que por vezes podiam causar escândalos e comentários maldosos.
Maria foi miss da cidade, foi estudar fora, foi cuidar da vida...
Conheceu um rapaz, que era da mesma cidade, mas que assim como ela foi fazer faculdade fora, e embora morando em cidades diferentes, ela viajava até ele, ele viajava até ela, ambos viajavam até a cidade natal.
Foram anos nesse vai-e-vem, amor crescente, desejo ardente, passeios, cerveja em barzinho, retórica e discussões filosóficas...
A mãe de Maria, que há muito vinha doente, morreu, e ela como filha amantíssima, abatida, sofrida, carente... Ele estava na cidade, foi até ela, e levou-a a um canto para conversarem, e assim, antes do cortejo fúnebre sair, terminou o relacionamento.
***
Maria Amália, prima de meu pai, porém, um tanto mais velha que ele... Naquele tempo, anos 1950/60, interior de cidade nordestina, família séria, onde moça tinha que ter recato, Amália arrumou um namorado...
Flertaram, namoraram, noivaram, casaram...
Maria Amália de branco, como devia ser e grinalda de flor de laranjeira, representando sua pureza...
Depois da festa, Amália e o noivo foram para a casa que haviam mobiliado com carinho, os brocados, paninhos bordados e crochês feitos com capricho, por ela mesma
Lua de mel, ele a penetra com volúpia e prazer, desvirginando-a, perde-se o hímen, perde-se a pureza, torna-se mulher.
Ele saciado levanta, a manda tomar banho, e ele diz quando ela retorna entre envergonhada e suponho feliz: “_Agora volte pra casa do teu pai e diga que te mandei de volta porque você não era mais virgem e me enganou. Se você não confirmar essa história e seu pai e seus irmãos vierem tirar satisfação comigo eu mato seus irmãos, mato seu pai, e depois mato sua mãe e mato você também.
Só se soube da história muitos anos depois, quando o sujeito já não mais existia por ali; ela casada com outro homem que a respeitava e com quem viveu com até a morte.
***
Maria da Graça era nordestina, negra e analfabeta, oriunda de quilombolas de Oeiras – PI. Trabalhava na Granja, pelava frangos desde que ainda não havia peladeira elétrica e tudo era feito a mão. Para isso, acordava às quatro da matina nos dias de semana e às duas da madrugada aos sábados,  domingos e feriados. Além de não saber ler, também desconhecia as diferenças cédulas de dinheiro. Tanto fazia dar-lhe uma nota de cem, como de um. Para ela não havia diferença. Imaginem o tanto que não deve ter sido ludibriada.
Lavava e engomava roupa pra fora, sempre utilizando um daqueles ferros de ferro, o qual se aquece colocando-se carvão em brasa em seu interior, não se entendia bem com ferro elétrico. Vai ver quer que era como tia Alice (tia de um amigo), que usou fogão a lenha até morrer, pois não acreditava que comida em fogão a gás prestasse.
Gostava de usar um lenço na cabeça, e ficava uma graça com uma sainha branca e rendada em três babados que tinha, mas nunca acreditava quando dizia a ela que lhe caia bem, achava sempre que eu estava a caçoar.
Tinha uma casinha pitoresca, com um pé de caju à frente, que frutificava ano a ano, ignorando o terreno pedregoso que ela varria com vassoura feita com pés de velame ou outro mato similar que não sei o nome.
Casou-se com João, que um dia foi embora atrás de trabalho e ligava sempre aos domingos à casa de minha tia para falar com ela. O tempo passou e os telefonemas pararam abruptamente. João cansou, ou casou, ou morreu, quem há de saber?
Tempos depois, Graça arrumou um outro homem. Mais moço, mais branco, mais esperto, mais sem-vergonha. Bebia de vez em quando, e até por isso entre sabe-se lá quantos outros motivos, vez ou outra se separavam, mas logo ele ia atrás dela novamente e reatavam.
Um dia ele bebeu, eles discutiram e... Com um pedaço de pau, ele bateu nela até matar.

14 comentários:

  1. castroel@gmail.com10 de maio de 2010 11:36

    Gostei da economia, do corte seco da falta de dó! Salve Marias.

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  2. Nossa! Quanto calvário! A prosa é leve e elegante, mas as histórias pesadas...
    Abração,
    Tania

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  3. É...Isso que é vida real!

    Ainda tem gentinha por ai que se imagina num mar de rosas...
    Lua de mel que nada! "Lua de Fel"!
    Deus abençôe estas Marias!

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  4. 3 Marias, devem ser as da constelação...Almas boas, mulheres fortes,por aguentar caladas e serem capazes de seguir em frente, sem choro, LUTADORAS, e q no nosso dia a dia ainda estão presentes ao nosso redor...

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Nooossa!!! Agora vc vai ficar devendo a historia de tres Marias felizes ou, pelo menos, não tão sofridas...

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  7. Bem presente!
    Existem dezenas de mulheres ao nosso redor, bonitas e inteligentes, mas "carentes".
    A carência é tanta que fantasiam o homem ideal, o principe encantado que não existe e se recusam a exergar os defeitos do sujeito. Então, são facilmente exploradas de forma física, econômica e emocionalmente.
    Às vezes o desempenho do dito cujo nem é tão bom assim, mas como essas coitadas não encontram coisa melhor para lhes fazer companhia, se apegam ao traste como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
    Só se dão conta do tempo perdido ao envelhecer, quando o sujeito as troca por duas de 20 ou continua com elas, lhes presenteando com um par de chifres porque sabem, que se abandoná-las, não encontrarão outra trouxa para lavar as suas cuecas.

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  8. Nossa, muito lindo! Você escreve tão bem,sempre atento aos detalhes. Infelizmente essa é a verdade nua e crua de algumas Marias.

    Bjos,
    Brisa

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  9. Histórias dignas dos contos macabros de Edgar Allan Poe, só são mais terríveis porque são reais.
    Um bjo, Myrna

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  10. Realidades é o que não faltam nesse mundo. A minha, a sua, a da maria...

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  11. Obrigado pelos comentários no blog da Marta Anderson. Legal saber que tem mais pessoas interessadas. valeu - Danilo

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  12. Djair querido Tragédias rodriguianas, daquela gente pequena, triste, sem muita esperança, pobre. A crueldade sempre presente na violência e opressão. A diferença é que seu olhar é carinhoso, quase cúmplice dessas pequenas (grandes) mulheres. Viva(m) as Marias desse mundo, encarnadas nas palestinas, africanas, latino-americanas, brasileiras. Beijos

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