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terça-feira, 18 de maio de 2010

Crises

Um dos assuntos preferidos dos jornais nos últimos dias é a crise na economia grega, ou a possibilidade de uma quebra ainda maior na economia dos Piggs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, segundo a sigla em inglês). O macro sempre é lembrado, o que nunca se fala é do micro; o micro-universo não interessa a quase ninguém, apenas às pessoas relacionadas a ele e a um ou outro que se importe a título de interesse emotivo, profissional, antropológico ou, mais comumente, pura e mera curiosidade.
 
Trazendo essa crise para o micro, lembrei de um conhecido, filho de família de classe média, que estudou nas melhores escolas, fez na melhor faculdade um dos cursos mais renomados, foi para exterior a fim de  aprimorar o inglês, conheceu no avião uma moça de iguais valores (adquiridos na revista que é o catecismo da classe média no país).
 
Ambos dando muito valor ao que é de fora, à grife de roupas, carros, imóveis...
 
Ela loura, “of course”, como ele diria, já que costuma usar termos em inglês no meio das frases.
 
Voltou e procurou a moça que também tinha voltado. Namoram, noivam e com a ajuda do pai dele e economias dela, compram um apartamento, e enfim, casam-se.
  
Valores financeiros acima de tudo, tanto que ele se orgulhava sempre em afirmar que “coisa boa” era com a esposa, pois ela só gostava do que era bom, dos eletrodomésticos do último tipo em inox, ao molho de macarrão importado. O sonho de consumo dela é uma jóia, não me lembro de que tipo, da Tiffany. Afinal agora têm duas em São Paulo. Mas, cá entre nós, se têm duas já não é algo tão exclusivo assim, certo?
 
Um dos programas de fim de semana é visitar lançamentos de imóveis de alto padrão. E voltam deslumbrados. A frase comum é: “É outro nível, você não entende, é outro nível!”
 
Troca-se de apartamento para dar lugar aos rebentos que vêm. Troca-se de carro para que o carrinho de bebê da grife Y, possa caber no porta-malas. E, no futuro, se ufanam do fato que os filhos sempre tiveram tudo do bom e do melhor.
 
Nos almoços e reuniões familiares os comentários são do tipo: “Este filé mignon está excelente!”, com o acento no filé mignon soando exagerado, onde cairia bem apenas a carne, ou bife, o filé que fosse, sem sobrenome...  Ou: “Este Prosecco é muito bom!” E você olha e vê pela garrafa  que o vinho servido é um Lambrusco...
 
O “modus vivendi” já demonstra insatisfação com a vida que se leva. Afinal, se a felicidade está apenas em objetos e estilos que tem de ser consumidos com furor a fim de se provar ser feliz, onde está a felicidade realmente? Na posse? A meu olhar, parece muito distante dali...
 
De repente, acorda-se do sonho, e... cansado de jornada mais ou menos longa, porém muito incômoda de trabalho, resolve pedir demissão do emprego a fim de estudar para um concurso...
 
A esposa, bem... concorda e continua a trabalhar. Continua a gastar, continua a querer para si e os seus o “do bom e do melhor”.
 
Os concursos públicos passam, e ele não passa. O que passa, cada vez mais rápido, é o tempo, e nosso pequeno herói continua fora do mercado de trabalho. As contas, essas, continuam a chegar, e a serem quitadas, mas começam a preocupar. O pai dele, que antes tinha uma renda excelente para os padrões, aposenta-se e com isso a renda cai; a mãe, que sempre foi do lar e acostumada a não se preocupar tanto com contas, começa também a preocupar-se com elas e com a situação do filho. Somam-se a isso uma doença aqui e outra ali... Um gasto inesperado acolá... Ou seja, o pai aos poucos começa também a dilapidar as economias feitas no tempo de bonança.
 
Enquanto isso, a irmã de nosso personagem principal soma cada vez mais sucesso profissional e financeiro, deixando o irmão cada vez mais a descoberto quanto às possibilidades de sucesso pessoal e profissional. Ele, por sua vez, começa a negar o curso que fez, e a dizer que nunca gostou daquela profissão, fêz por culpa do pai, mas aquele nunca impôs isto a ele, ficou evidentemente feliz com a escolha, mas daí a impor há uma distância intransponível.
 
Vem a depressão e, com ela, a falta de ânimo absoluta para reagir à situação que se apresenta. Daí para a doença mental se manifestar no físico é um passo, ela vem na forma de dores lancinantes em patologias que me escuso de expor, mas que o impedem fisicamente de agir, se a vontade de agir viesse.
 
Mas, enfim, a Crise Grega ou a dos Piigs, pode ser maior que nossas crises individuais? Profissionais, financeiras, emocionais?
 
A Europa e o resto do mundo preocupam-se com gregos, portugueses e italianos... E conosco? Com os seres viventes de carne e osso, que se apegam em valores empurrados goela abaixo por semanários e jornais, programas de TV, filmes e outras torrentes de invenções midiáticas? O apego a esses produtos consumidos a mão cheia já não é um sinal de adoecimento?
 
Um adoecimento como este aqui, exposto em nível individual, representa, somado a outros tantos indivíduos tais e quais, o adoecimento de uma sociedade inteira.
 Mas quem liga para o indivíduo, se a sociedade sobreviver?

11 comentários:

  1. Djair querido, muito sensíveis suas observações e a sincronicidade com o texto de Maria Rita Khel e o que escrevi. Penso que nem é o caso da sobrevivência da sociedade já que testemunhamos o seu fim, o esgarçamento da rede de relações humanas que constituem o tecido social. A preocupação, infelizmente é com os lucros das bolsas de valores. Se o pobre e assalariado tem que pagar para que os capitalistas internacionais sobrevivam, é o preço e será cobrado. Um grande beijo e continue sempre escrevendo seus "micro-contos" maravilhosos.

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  2. Só tomamos conhecimento destas micro-tragédias quando elas surgem em nossas telas noticiando algum suicídio ou assassinato.
    Estes dramas individuais, quando não chegam ao extremo, são percebidos somente por pessoas sensíveis, observadoras e realistas.
    Infelizmente não são poucas as pessoas que fogem da realidade e buscam no imaginário aquilo que sustenta as ilusões do mundo perfeito, sem crise, sem doenças e sem sofrimentos. Através do escapismo se recusam a enxergar o que existe além das aparências tornando-se vitimas da própria inércia.

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  3. Que Deus nos livre da cilada que você descreveu tão bem!
    Que nossos "do bom e do melhor" sejam escolhidos com a alma, porque esta nunca erra: somos nós quem nos fazemos de surdos e não queremos ouvi-la, por conivência com a gritaria massificante e histérica à nossa volta.
    Que Deus nos livre de transformar este "modus vivendi" em "modus moriendi"! Nos matar aos poucos em uma vidinha cinza, medíocre, pra inglês ver.
    Mais uma vez, texto afiadíssimo.
    Um grande beijo
    Myrna

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  4. Lendo seu post não pude deixar de lembrar de um passeio por Nova Bassano/RS, aonde comi um prato chamado a La Minuta (algo assim), que é o paulista Comercial (mas neste caso com bife, ovo e batata frita) que apesar de simples era maravilhosamente delicioso, ou em outra cidade, no Paraná, aonde provei uma comida deliciosa em um clima familiar ( http://antonioguilherme.blogspot.com/2008/09/prudentpolispr.html ), mas, acima de tudo, fico feliz pois meus pais sempre me deram uma educação aonde "o bom e do melhor" é a família e o amor. Já o valor material é nada, pois ele vem e VAI! Pode ser piegas, mas é real e verdadeiro. Quanto as crises, elas sempre vêm (e vão). Desde que me entendo por gente é isso. Serve de "seleção natural". Apenas os bons atravessam.

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  5. Doído isso...
    Infelizmente também conheço montes de pseudo-abastados.
    É uma felicidade ilusória que só se compraz em compras (trocadilho infame, não?) em marcas, e só alimenta a própria insatisfação.

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  6. Adorei o que escreveu como sempre.Quantas famílias são assim? Primeiro marcas , roupas e o outro onde estão? Bela reflexão. abraços

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  7. Desse texto eu destacaria o "Status social": embeleza e/ou escraviza. Pessoas que gostam de aparentar o que não são, de ter o que não podem. Hipocrisia. Outra coisa que eu não suporto ver nas pessoas é dizerem que se preocupam com os mais necessitados e depois desprezam os mais pobres. Falsidade. Pessoas que são "povo" e se acham "elite". Discriminam pela aparência, pela cor, pela classe social. Como é difícil conhecermos pessoas com a verdadeira Beleza: a interior!

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  8. Por que será que o final dessas historias é sempre o mesmo? Por que será que ninguém acorda no meio do caminho e dá um basta em tanta superficialidade? Conheço uma familia inteira que passou por isso e que agora, além da falta de recursos, começa a enfrentar a doença e as perdas que a acompanham. E não falo de perdas que o dinheiro substitui.

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  9. Sou teu fã, cara!!! Infelizmente é isso o que acontece (em maior ou menor grau) na grande maioria das famílias...

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  10. Esse texto é uma obra prima!

    Senti náuseas ao ler os costumes da classe média, eu que passei a última hora rolando no chão praticando Yoga e que tento ao máximo viver com coisas sem marcas quase tive um ataque de desgosto com o cotidiano que você relatou.

    Lembrei daquelas pessoas que andam de peito estufado porque tem um jacaré bordado na camiseta, como o ser humano é um bicho besta!

    Esse mereceu publicação na minha timeline do Facebook!

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  11. vc sempre atualíssimo e realista ao extremo Dja, adorei o seu texto! E sendo piegas mesmo e espírita... rsrs... diria que precisamos viver com a alma e o coração, desfocando um pouco o nosso lado materialista e de nos perguntarmos sempre os "por ques" da vida, pois se perguntarmos, quase que fatalmente iremos atrás das respostas, e assim sendo, teremos maior compreensão das nossas dores. Dores, pq as alegrias nos acomodam e nos paralisam... E que venha o 2º livro!!! rsrs... bjs

    Laura Nagamachi

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