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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Aniversário, uma festa pra te lembrar o que te resta

“Aniversário é uma festa pra te lembrar o que te resta.” A frase de Millôr Fernandes publicada na revista Isto É, àqueles anos 1970/80, trazia como ilustração uma pessoa que, enquanto assoprava as velas do bolo, por uma vidraça alcançava com os olhos a paisagem de um cemitério...

Na verdade é isto o que é... Uma música de Moacyr Franco falava em versos: “Só se vive mesmo nove meses, pois o resto da vida a gente morre”. Tem gente que adora fazer aniversário, tem gente que detesta; a mim, a mais das vezes, é um dia como outro qualquer, embora sempre prepare um bolo e alguma comidinha caso apareça alguém: afinal, vai que alguém lembre...

Em tempos de facebook e outras redes, a lembrança vem na forma de aviso em sua própria página, o que facilita a vida de todos. Uma vez, de chiste, coloquei o meu aniversário em outra data, surgiram cumprimentos, e a quem lembrava que a data não era aquela dizia eu que estava carente e por isso tinha feito o gracejo, vai ver era até verdade. Outra feita, coloquei a data em primeiro de abril, recebendo outros tantos cumprimentos.

Além de ser uma festa pra celebrar o que nos resta, celebramos também a falsidade, gente que passa por você o ano todo sem olhar na cara e que nessa data vem cumprimentar. Tem coisa mais falsa do que aquele beijinho dado no ar, sem lhe tocar o rosto? Prefiro os abraços, os apertos de mão, mas recebo também aquele de bom grado, como toda e qualquer manifestação de afetos; afinal sou mal-humorado, não mal-educado. 

Coincidentemente, calhou de ouvindo uma seleção aleatória de músicas me vir aos ouvidos “O tempo não para” de Cazuza. Agenor vai fundo na questão: o envelhecimento, a elasticidade da pele que perde colágeno e enruga, os cabelos grisalhos cada vez mais presentes como prova física e visível de que o tempo não espera que você esteja maduro. E como a música percebo que “dias sim, dias não eu vou sobrevivendo sem um aranhão da caridade de quem me detesta”, enquanto recebo os parabéns de quem veio se certificar de que vim trabalhar no dia seguinte ao Natal. E percebo que me encaixo no exato tamanho da frase seguinte: “Eu não tenho data pra comemorar”. O gênero me cabe pela pouca importância que aprendi dar à data; o número pelo dia da data que concorre com a do Cristo, na qual um dia antes todos já se empanturraram com os quitutes da época e querem mais é um arroz branco e jiló pra compensar a comilança sem fim; o grau, pela ausência natural da maioria dos amigos, colegas e conhecidos que estão fora aproveitando emendas de feriados e não poderiam vir caso eu resolvesse dar uma festa.

Poucos amigos, porém fiéis, vêm abraçar-me, recebo alguns presentes, e assim segue, ano a ano. É o que deve acontecer mais tarde, já que escrevo em hora de almoço, que curti só, na copa, comendo marmita. Afinal, outras vezes em últimos dias de férias ou regresso daquelas, esperava ter companhia para almoçar e tive que ir só aos restaurantes do bairro; então pra que arriscar, trago minha comida, mais saudável e saborosa, e como em paz sem grandes riscos.

O bom é que vai levar mais um ano pra acontecer de novo. E se desta vez esqueci o celular, não achei de todo ruim, quem sabe se torne hábito nesta data querida. Talvez encará-la (a data) assim seja realmente felicidade, sem enganos de vida.

E aí, o Tempo que não para de Cazuza me lembra de outro tempo que não para, o de Roberto Carlos: “O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece”... Envelheço, e me enterneço com algumas das mensagens que recebo: será sinal da idade? O fato é que me alegro com essas manifestações, tanto que estou a escrever sobre o fato, a data, a efeméride tão efêmera. E então só me resta dizer: Obrigado.

Fotos: Marciano Azevedo, que é também o autor dos bolos, verdadeiras obras primas.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Promoção: Vermelho amargo

Para comemorar 20.000 acessos o Prajalpa faz sua primeira promoção, o sorteio do livro Vermelho amargo de Bartolomeu Campos de Queirós, edição da Cosac Naif.


Vermelho Amargo, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2012, traz algumas das mais belas metáforas que li nos últimos tempos, e por essa e outras qualidades foi escolhido para esta primeira promoção no blog.  Denso sem perder a suavidade, o autor narra em primeira pessoa sua infância, marcada pela ausência da mãe, e o cotidiano da convivência com a madrasta alheia à vida dos enteados, os quais vão rareando à medida que crescem e deixam a casa quanto a vida do narrador ainda mais vazias.



"Agora, mas desde sempre, não moro bem dentro do meu corpo. (...) Vivo numa casa geminada. Intruso, pareço inquilino em vias de despejo. Não abro janelas ou destranco portas."


A promoção vai até às 23:59 hs do dia 11/01/2013. O sorteio será realizado através da Loteria Federal, sorteio do dia 12/01/2013, sábado. Sendo consideradas as dezenas finais.

REGRAS:
1 – Ser seguidor (público) do blog - Se ainda não é, clique aqui:  http://migre.me/cwFVW. 
2 – Deixar um comentário abaixo com nome completo e cidade, citando também o país caso acesse do exterior.
3 – Os números para o sorteio seguirão a ordem numérica à medida em que postarem os comentários; não serão aceitas inscrições feitas fora desta postagem.
4 – Cada leitor receberá apenas uma dezena correspondente à ordem da inscrição. Não havendo ganhador no prêmio, automaticamente passará a contar o segundo e assim sucessivamente; não havendo ganhador até o quinto prêmio, um novo sorteio será realizado.
5 – O sorteado terá 3 dias úteis para responder à mensagem que solicitará os dados para a entrega dos livros; não havendo resposta, o prêmio passa ao segundo colocado.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Não estou

E aí tem aqueles dias em que você quer ficar quieto, deitado, com a cabeça coberta e como diria irmã Chiquinha, beata de há muito perdido o contato, e que talvez com o tempo tenha perdido a fé: “Hoje se pudesse não via passar nem uma mosquinha na minha frente...” Mas ledo engano, será nesses dias que mais vão mexer com você, cutucões de toda espécie, farpas verbais, virtuais, e de azagaias, convites a comemorações infundadas, análises sobre você, sobre seus ditos, textos, pensamentos e omissões. Por sua culpa, sua tão grande culpa, sua máxima culpa. E ainda haverá argumentos: “Tu és responsável por aquilo que cativas!” Que Saint-Exupéry arda no inferno por isso.
Mas como tudo passa, um desses cutucões de repente pode ter o poder de tirá-lo deste estado de inércia. “Agir, agir, detesto essa palavra: agir” - uma fala do dentista sádico, Dirceu (personagem de Ari Fontoura) em “Mar de Rosas” filme de Ana Carolina – frase, filme e personagem recorrentes nesse blog. E aí, aproveitando o filme, a imagem de Betinha, personagem de Cristina Pereira no mesmo filme, vem com força. Na cena, em um posto de gasolina, ela pergunta ao frentista se a bomba está cheia, ele diz que sim, ela pergunta: “_Por aqui?”, com a mão na garganta. Ao que o outro confirma e ela em tréplica diz: “Eu tô por aqui”, colocando a mão acima da cabeça.
E pronto, o último cutucão (aquele que lhe tira do estado de inércia, faz brotar uma cascata de sentimentos represados, a custo é bem verdade, e na forma de um suspiro, ou impropérios ditos em alto e bom som, ou em pensamentos) esvazia o que estava “Por aqui”, o saco! Ou como diria uma amiga dos tempos que vivi em Cezídia: o ovário. Aliás era algo que admirava nela, sempre dizia: “Hoje tô de ovário cheio, ou tal coisa é um pé no ovário!” Saco!
E assim, como um cutucão, exorcizo esse “saco cheio” com um texto, bom? Não! Tem valor literário? Não, mas está aí, serviu para desestressar, como o ato de regar plantas com mangueira em dia de chuva, como mandar quem enche o saco ir fornicar, ou melhor, ser fornicado com aqueles adjetivos tão bem conhecidos de todos nós.
Cada um tem sua válvula de escape, escrever, cozinhar, comer, trepar, correr, e tem gente que a válvula (e aí já é patológico) é sair gastando além das posses, para suprir talvez um complexo de inferioridade exacerbado. Qual a sua?

 Foto: Djair - Museu Botânico - RJ

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Os dias


Tem dias que sorrio,
Tem dias que sou dor
Como hoje
Apesar do sol e calor
Pois quando escrevem sobre tristeza e sentimentos duros,
os homens gostam de dizer que lá fora chove.

Tem dias que sou pleno
Tem dias que sou oco
E esse oco dentro de mim é a mais das vezes inabitável de sentimento,
não como ocos de troncos de árvores, onde corujas fazem ninhos,
e meninos guardam tesouros,
mas o mais profundo e escuro oco.

Tem dias que me sinto só
Tem dias que mais do que me sentir, tenho a certeza de que o sou.
Não nasci pra ter vida fácil,
e embora o riso se estampe muitas vezes em minha face feia,
ele é uma máscara que esconde esgares.

Tem dias que quero ir embora
Tem dias que me passam ideias e vontades de ser andarilho, louco e mendigo.
Tem dias que as poltronas de veludo que me aconchegam me irritam
e quero rasgá-las à faca, à força, despejando municipal raiva.

Tem dias que o sol brilha, mas é noite.

 
 Foto: Djair - Relógio do apartamento 101,  rua dos correeiros 171. Lisboa - Portugal

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A morbidez do viver


Alguns nascem fazendeiros, donos de muitas terras. Outros nascem para ser enterrados em covas rasas, de terra seca, onde não brotará uma flor. Onde mal apodrecem são despejados para dar lugar a outro miserável, defunto de mais fresca data. Já os primeiros, habitarão mausoléus em mármore e granito, com vasos e anjos de bronze, e por fim... Apodrecerão do mesmo jeito.
Uns viajam o mundo, relaxando nos confortos da primeira classe, enquanto tantos vivem em sarjetas e marquises disputadas os  palmos, a tapas...
Uns fumam havanas e cachimbos esculpidos em madeiras nobres, outros catam bitucas de cigarro às beiras das calçadas e fumam crack em latas de alumínio idem.
Uns sonham com grifes finas e enormes brilhantes, luxos que enchem os olhos, outros com um bom bife e um refrigerante, luxos que enchem barriga.
Perdulários e pedintes, Pin-ups e Piriguetes, o podre de rico e o que apodrece. Sem sonhos, sem justiça, sem chance.


Foto - Djair - Ruínas de templo romano em Évora - Portugal.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Siamesas

Siamesas, andam juntas... Um mesmo corpo, os membros inferiores diversos as conduzem com as diferentes vontades. A cada instante é uma delas que avança, no passo seguinte é a outra que está à frente.

São como uma cobra de duas cabeças, onde uma devora a outra até que, sem a poder engolir por completo, exaurida, a vomita, e vencida pelo cansaço, pela dor, pelo incômodo do regurgitamento, é ela então a devorada, lentamente sendo tragada, até que o ciclo se reinicie.

Antagônicos os sentimentos se sobrepõem, se entrelaçam, se entrançam, se cruzam em um voltear promíscuo onde já não se sabe quem domina e quem é dominado, onde o côncavo se torna convexo e se amolda à forma do outro para ceder-lhe a vez. O círculo continua como a terra, redonda em seu movimento de rotação, por onde o sol ilumina a cada canto em um momento, enquanto ao outro obscurece, a aguardar o outro momento em que estará a receber a luz e calor em gozos espasmódicos, para depois de novo cair em trevas e frio, sem deixar vestígios do lume de um instante de distância.

Assim siamesas, a vitória e a derrota, andam juntas...

Foto: Djair - Por de sol - Quebra Cangalha - Oliveira - MG

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Saberes simples

            “Algumas pessoas não tem nada a dizer, mas você precisa ouvir muito tempo para descobrir.”

Desconheço, a autoria da frase, mas concordo plenamente; a cada vez que vou a palestras, seminários, congressos e afins, me recordo dela.

A síndrome do palco, assim como a síndrome do microfone, estão cada vez mais disseminadas, uma verdadeira epidemia, e seus atores, estes, são cada vez mais canastrões. O que torna um verdadeiro prazer quando vemos e/ou ouvimos alguém a falar com conhecimento de fato, que respeita o tempo do outro e não se perde em citações exageradas a fim de mostrar conhecimento. Aliás, aqui já falei sobre os repetidores de citações e suas referências sem fim, que se prestam a demonstrar erudição; então gostaria de pular este capítulo e deixar estes a arrebanharem fãs entre os incautos (incultos?) e fazerem seguidores às dúzias em suas redes sociais a cada nome de vulto repetido após uma frase atribuída a eles. Mas com uma densidade rasa em deus discursos.

Por isso mesmo, o texto foi aberto com uma frase anônima, pois quantos “anônimos” não têm uma sabedoria pura, clara e uma capacidade de lógica e raciocínio desenvolvidos por si próprios, pela arte da observação, o que permite que lampejos luminosos lhe invadam o pensamento? Eles o fazem sem termos científicos, não se preocupam se a oração é coordenada sindética ou assindética, não colocam palavras ou termos como “paradigma”, “baseado em evidências”, e etc. Aliás, o grande ganho de já estarmos na segunda década do século é que agora caducou o “às portas do terceiro milênio” dos discursos travestidos de novidades.

Esses anônimos iluminados nunca usaram esses termos, mas trazem em seus discursos simples e objetivos, em suas metáforas diretas e bem acertadas, um conteúdo maior que o usual “#fato” com que hoje, muita gente acha que está a comentar, a dar uma opinião, a tecer um pensamento, e na verdade não diz nada, não quer dizer porra nenhuma. Mas aqueles primeiros, esses sim tecem comentários certeiros a respeito da vida, da alma humana, da sociedade, e assim homens singelos tornam-se filósofos, como tio Onofre, vaqueiro de tia Maída, a falar sobre fazendeiros para quem serviu e cujos filhos perderam toda a riqueza acumulada pelos pais, por orgulho e gastança para ostentar, trazendo hoje a infelicidade na alma ao constatar que os amigos o abandonaram junto com a fortuna que se ia.

Ele não cita filósofos, não cita escritores laureados, cita a vida.


Foto: Djair -  Tio Onofre, vaqueiro, agricultor, rezador e sábio.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Oração de Djair Rodrigues de Souza


           São Francisco de Assis tinha sua oração, repetida até hoje por seus fiéis, Jesus nos ensinou o Pai Nosso, que repetido com fervor espalha-se por todos os continentes, isto passados dois milênios.

          Não tenho essa pretensão... Hoje faço minha prece, quem sabe, eu venha a ser atendido. Podem achar estranho num blog, mas como disse várias vezes, cada semana escrevo aquilo que vem à hora, e hoje, foi ela veio.
Assim seja.


        
Oração de Djair Rodrigues de Souza

 Senhor,  fazei-me alcançar a vossa paz
para que nunca fomente ódio, desesperança ou rancor;
Que em nada veja ofensa, e perdoe a ignorância
seja em mim mesmo ou em meu irmão;
Que as minhas dúvidas não abalem a fé, tão pouca, que tenho;
Que esta cresça e floresça, pois no coração do homem, também em se plantando, tudo dá;
Que no meu seja plantada a capacidade de renunciar, de perdoar, e então saberei o verdadeiro significado de amar;
Que a alegria dos meus próximos esteja sempre presente
e que ela baste para aquietar-me o espírito.
E assim seja eu uma ilha de paz, e possa exercitar a compreensão, o carinho e a gratidão;
Mas se nada disso puder ser assim,
que eu possa compreender que não estou pronto, e é por isso que preciso lapidar-me
para encarar as coisas como são e não como acho que devam ser. 
 


sábado, 3 de novembro de 2012

Pereirão

          No cais ela ainda expõe seu corpo ao vento, lava roupa... Sua e dos outros. Como quem lava da alma pecados e manchas... Como quem tira do corpo grudes, suores, cicatrizes, nódoas e nós... Outro tipo de aborto. A prostituta velha que já não serve a função, que ninguém mais quer. Os homens consumiram-lhe as carnes, os anos o viço. Esfrega os panos com sabão caseiro, comprado a quilo no mercado. Esfrega o corpo com a mesma espuma, a alma com a mesma água do rio que corre lambendo-lhe as pernas. E lava-lhe o corpo como ela enxágua lençóis, fronhas, blusas e cuecas.
          Um novo batismo, feito da água do rio e do sal do suor que escorre no rosto cansado, marcado, envelhecido e triste. O mesmo sol que abençoa a penitência, a remissão dos pecados, e impõe seu castigo aumentando a pena, seca a roupa estendida no cimento do cais onde, refletido no concreto, turva-lhe a vista, doura-lhe o corpo cansado, disforme, ressecado. Testemunha solitária do lava-torce-esfrega não crê nos segredos que a lua lhe contara sobre ele, notícias doutro tempo, tempos de sua glórias que longe vão. Onde aquela indiscreta (a lua) testemunhava o mesmo corpo, que tinha formas arredondadas, curvas suaves, carnes firmes, dos mesmos olhos, que tinham brilho, sonhos, sedução. Da mesma boca, que tinha cor, dentes, sabores, sorrisos, que prometia prazeres indescritíveis, que matava tantas sedes e com alguma graça soltava baforadas de cigarros na cara dos homens que viam nela Marlenes e Gretas... Das mesmas mãos que naquele tempo não tinham calos, frieiras, feridas, unheiros, artrites, mas tinham esmaltes, recebiam beijos e dinheiros, anéis e pulseiras, e em vez do sabão marrom de cheiro forte empunhavam taças, copos, e eram hábeis em carícias.

           Hoje só tem o rio, onde lava roupa, onde à noite vem pescar para ajudar no sustento, onde toma banho e distraída brinca com as águas esquecendo da vida, ou lembrando de outra vida e de repente volta a si, a cada piau ou mandi que o anzol lhe traz sob o brilho da lua que não a reconhece sem o ruge, sem o riso, sem dentes.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mestres, Gurus e falsos profetas

O que é um mestre senão um guia, um professor, um guru? O termo guru significa "professor" em sânscrito. Muito embora atualmente na maioria das línguas e dialetos falados na Índia atual o termo signifique “pesado”. O termo pesado vem da ideia do “peso” da tarefa que se assume ao aceitar-se um discípulo. Afinal, uma vez aceito, o discípulo é como um filho a quem se deve conduzir e ajudá-lo a moldar seu espírito e caráter de forma que ele seja forte, porém flexível, que seja justo e bom.

Outra interpretação etimológica do termo "guru" se baseia na metafórica representação da escuridão e da luz, no qual o Guru é visto como aquele que dissipa a escuridão. E como dissipa a escuridão? Com a luz de sua sabedoria, afinal em todas as culturas vemos a máxima da luz que espanta as trevas, e isso vem desde o mito da caverna de Platão. É desnecessário dizer que no Hinduísmo, o guru é uma pessoa respeitável, com qualidades de um iluminado, que ilumina a mente do seu discípulo, é ele um guia de quem se recebe um mantra em sinal de ter sido aceito como discípulo.

Existem muitos guias, muitos professores, mas somente aquele que consegue estar em sintonia permanente os com seus conduzidos são dignos de se chamarem gurus. Afinal, quantos pretensos mestres, tais quais falsos profetas em analogia com a crença cristã, recebem de bom grado seus conduzidos e de repente, os abandona a própria sorte, seja por não ter força para continuar a defendê-los, seja por não ter conhecimento para iluminar suas trevas interiores, seja porque as trevas interiores deles sejam maiores que as dos conduzidos. Outros os abandonam por terem que cuidar das próprias carreiras, como disse uma professora doutora a um amigo a quem em 9 meses não teria tido tempo de ler sua monografia, ou como um psicólogo que, na catarse de uma sessão, abandonou uma amiga que era paciente há tempos e a quem disse que não lhe conseguia aguentar, deixando-a pior do que quando a encontrou. E assim muitos pretensos mestres o fazem; é como se pegassem uma criança pela mão e as conduzissem por caminhos tortuosos, e quando a escuridão aperta, as deixassem sob os ciprestes de agudos espinhos e dissesse: Vou buscar ajuda; e aí abandonando-as na noite fria e densa saísse a buscar a própria salvação, sabendo que não vai voltar, sabendo que pode conduzir-se mal a si, e o amparo ao outro já se tornou tedioso e cansativo, empanou-lhe brilhos e honrarias.

É daí a concepção de “pesado”, pois sim; o fardo de conduzir alguém não é fácil, por esse motivo não deve-se aceitar a incumbência se não se tem certeza de sua força e determinação em conduzir até o fim da trilha, se é que ela tem fim. O abandono do conduzido só lhe gera em proporção inversa dor e ressentimento, incertezas e dor. Alguns na verdade nunca superam, e começam inclusive a trilhar rapidamente o caminho da desconfiança, sem acreditar em nada ou ninguém, nem em si próprios.

Então, antes de querer iluminar alguém é necessário que se veja se tem querosene suficiente no seu próprio candeeiro. Afinal, nem sempre a luz vem de onde se acredita, muitas vezes é um tênue facho que não passa de um reflexo de espelhos...


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Hoje eu quero...

Hoje eu quero a simplicidade de um chão de terra batida
Um dia com o frescor de água do pote
Quero uma felicidade que brilhe
como copos de alumínio areados com areia fininha
Quero risos e algazarra como a de galinhas poedeiras

Hoje eu quero sol com brisa soprando devagar,
para no fim da tarde olhar as nuvens e os segundos passando
como quem põe a cadeira na calçada para tomar a fresca:
Hoje eu quero música suave, ouvida no rádio,
na janela, como a namoradeira que assunta o tempo.

Hoje eu quero arroz branquinho com ovo frito na manteiga,
de gema mole, mas de borda queimada
Quero doce de figo da dona Dalma, que era tão boa e dava manga pra nós.

Hoje eu quero dormir cedo pra sonhar que tenho tudo isso
e que tudo isso... nunca vai acabar.



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Irmão, amigo, colega, conhecido.

          Várias expressões religiosas, sociedades, enfim, vários aglomerados de gente têm por hábito chamar seus seguidores, afiliados, partícipes, o que seja, de “irmãos”, independente da religião expressada, ou seus movimentos (renovações, reavivados, etc, etc.). As mais tradicionais são as “irmãs” de caridade, designação das freiras católicas. Já as novas religiões autodenominadas “evangélicas” são mais acintosas no uso do termo. E dá-lhe irmão pra cá, irmã pra lá, aquele irmãozinho, a irmãzinha fulana... E por ai vai... 
 Em facções criminosas também é utilizada a mesma alcunha - “irmão”; sabemos pela imprensa que as mulheres dos presos do PCC (Primeiro Comando da Capital), por exemplo, são tratadas pelos demais membros do grupo de “cunhadas”.
Irmão”... Também utilizam o termo agremiações desportivas e outros tantos tipos de associações. E até mesmo algumas classes profissionais, caminhoneiros, motoboys a utilizam frequentemente.
 Mas o que é ser “irmão”? Diferente do substantivo que qualifica pessoas nascidas de um mesmo pai e mãe, nesse caso a denominação sugere pessoas imbuídas de um mesmo espírito, dos mesmos valores, dos mesmos gostos, da mesma forma de pensar e de agir. Praticante de uma mesma ética, de um mesmo modus operandi quanto à forma de proceder frente à vida.
Porém, até onde vai realmente essa união de princípios, essa ligação tão forte que justifica entre seus membros o uso do termo? Afinal, nestes casos, o outro é um irmão, então o outro em principio o conhece. Mais do que isso, deveria reconhecer-se nele, no irmão. E se é um irmão, o outro não estaria interessado nele? Interessado enquanto pessoa, interessado em uma aproximação maior, uma interação realmente próxima? Saber sobre seus interesses, sobre seus gostos pessoais, suas crenças, medos, dúvidas. Seus valores familiares, civis, espirituais...?
É um irmão com quem se importa e por quem se tem interesse, ou é apenas alguém para se ver em cerimônias religiosas e festas de confraternização, dando um abraço frouxo ou um tapinha nas costas, desejando, muitas vezes, apenas verbalmente, a paz do Cristo, de Buda, Krshna, Geia ou Oxalá? Se assim é, organizações criminosas cujos membros em liberdade cuidam das esposas e filhos dos que estão presos levam a termo um grau mais intenso do que daquele irmão superficial, do qual muitas vezes não se conhece mais do que o pré-nome. Às vezes nem isso, pois muitos, por ter um nome em desuso ou que acham feio, o escondem atrás de alcunhas concebidas por si próprios e não lhe sabemos o verdadeiro nome.
Se é dessa forma, o termo está bem abaixo de “amigo”, que é alguém com quem se divide dores e alegrias, ideias e interesses, alguém com quem se convive e com quem nos preocupamos sem interesses outros que o bem- estar dele... simplesmente por ser alguém de quem gostamos.
E então, o que vale mais, ser amigo ou ser irmão?
É vero que mesmo entre os nascidos dos mesmos pais e que utilizam o termo com maior propriedade, já que foi criado para designá-los, muitas vezes não tem essa interação de amor, respeito, amizade, mas não deixam de sê-lo já que o termo é significante de uma mesma origem.
Agora...
Se você utiliza o termo “irmão”, é bom pensar o por quê. E saber se o usa com propriedade; afinal: hierarquicamente, o conhecido está abaixo do colega, que é inferior ao amigo, que deveria estar aquém do irmão. Porque, ao usar o termo, significa que realmente você o tem em tal conta, ou apenas o banaliza permanecendo bem distante do outro?