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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Histórinhas mal-cheirosas

                Mira era conselheira de uma instituição em que trabalhei, uma senhora séria, por trás de seus grossos óculos de acadêmica; já não dava aulas, mas trabalhava em pesquisas particulares e da tal instituição da qual era membro. Escritora laureada com inúmeros livros publicados recebera vários prêmios de literatura.
                Entre outras citações de sapiência, ficou na memória o ensinamento: “_Ah, eu gosto muito de caminhar logo depois do almoço, a gente fica o dia sentada, e essa hora é ótima pra andar e eliminar os gases.”
                Dia destes fui a uma festa, em uma cidade a cerca de 300km; junto, um amigo que fazia a estrada parecer curta, e íamos rindo, contando e inventando histórias, possíveis, impossíveis, e pelo riso incessante... Risíveis.
                Tudo correu bem e a festa para crianças foi um sucesso, doces, pipocas, brincadeiras, refrigerantes, bolos, sanduiches. De lá fomos ao sítio de outro amigo, que ficava na localidade, vinho, churrasco, queijos, presunto...
                Na volta aquilo tudo começou a pesar, mais que o escuro da Rodovia Raposo Tavares, mais que a chuva que caía...
                Dores lancinantes dos gases pressionando órgãos internos, já nem ria mais das besteiras que eu mesmo falava, dos casos que ouvia.
                Por sorte, o amigo que estava de carona morava uma cidade antes, e assim o deixei quase uma hora antes de chegar em casa, e tão logo ele saiu do carro, os gases puderam ser liberados e as dores passaram.
***
                Claudio trabalhava em um grande centro de documentação. Àquele dia, já final de tarde sente a pressão dos gases originados a partir da feijoada do almoço. Sabe como é, feijão preto, couve, torresmo... A comilança foi boa, tanto que seu abdômen lembrava o do porco que comera... Sentindo-se aperreado, subiu ao depósito superior, onde ficavam apenas revistas antigas e onde portanto dificilmente alguém ia até lá... Passou pelo primeiro corredor de estantes, pelo segundo, pelo terceiro, e no quarto decidiu: estava longe de qualquer ser vivente...
                Aliviou-se, sem estrondos... Uma careta talvez... Mas... Sabem como é, gases costumam ter odores, e esses eram perigosamente fétidos...
                Bem, já estava aliviado e resolveu descer ao setor, quando vem chegando ao final do corredor, ali, na quarta fileira de estantes de acervo histórico, que ninguém solicitava... a Margarida, moça bonita, que trabalhava em outro setor, aliás, chefe de outro setor.
                Ele apenas continua seu caminho, respondendo sério e preocupado ao cumprimento da moça, que se direciona para o fundo da quarta fileira de estantes...

***
                Conheci Zilá quando morava em Santos, ela uma cafuza original, arroxeada, cabelos lisos, baixinha, rosto redondo, com um sorriso constante nos lábios e uma jocosidade em todo seu gestual. Morava em um amplo apartamento já nas imediações de São Vicente, quinhão que lhe coube na separação do marido, estrangeiro que já não me recordo a naturalidade, e que se apaixonara pelos traços nativos e que segundo ela já devia ter voltado à sua terra.
                Segundo a própria, separaram-se por um peido...
                Lembro-me de ter ficado estupefato e quis saber: _Mas como assim?? E ela não se fazendo de rogada disse que um dia, já depois de alguns anos de casada, estava ela na copa arrumando algo, que nem lembro e nem vem ao caso, enquanto o marido assistia televisão na sala.
                Em determinado instante ela solta um “Pum”, que pelo andar da história saiu em alto brado retumbante... Prrrrrrrrrrrrrummmm. E o marido pergunta: _Que foi isso? Ouviu um barulho! Ela responde:_Um pum. E ele parte ao ataque em tom ríspido: Isso é uma falta de respeito, má-educação! E na minha terra o marido larga a mulher se ela faz isso! Ela não tem dúvidas: _Ah, é? Pois então leva essa pra sua mãe: Prrrrrrummmmm!!!! Leva esse pro teu pai: bruuuuuuuum! Leva esse pro teu irmão: Puuuuussssssh!!!!
                E assim ele pediu a separação alegando que a esposa não respeitava o marido. O juiz deu a ela o ganho na ação pelo direito ao imóvel, já que não via ali motivo de separação. Ela prosseguiu a vida, contente e já sem gases.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Reflexões sobre a morte... Sobre quem fica...


            A morte de mais uma amiga, esta semana, me fez novamente pensar na morte. Já comentada em postagem anterior*.
            Recentemente, em viagem a Portugal, conheci em Évora a capela dos ossos, que se localiza em anexo da Igreja de S. Francisco. Suas paredes e pilares são revestidos com ossos e crânios, ligados por cimento pardo. As abóbadas de tijolo, pintadas com motivos alegóricos à morte. Foi calculado o número de ossos em torno de 5.000, provenientes dos cemitérios anteriormente situados em igrejas e conventos da cidade. À entrada, a frase: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos"., que nos lembra a transitoriedade da vida.
            Este ano, perdi algumas pessoas próximas, pela mesma causa, o câncer... Mas voltando à morte em si, para mim, em minha visão pessoal é o término de um ciclo e o inicio de uma nova jornada. 
            Geralmente vamos aos enterros pelos que ficam, para de alguma forma tentar consolá-los e reconfortar, e não exatamente por quem partiu. Nesse último, fui exatamente por quem partiu. Apesar de saber não estar mais habitando aquele corpo inanimado, quis render-lhe minhas últimas homenagens em forma de preces e recomendações, a que costumamos às vezes chamar interseções. Penso muitas vezes no dia em que perderei meus pais, coisa que cedo ou tarde há de acontecer se o curso natural (os mais velhos na frente) for seguido. E penso que será uma tremenda dor e estarei ainda mais sozinho... E logo busco afastar o pensamento, como se diz, para não “agourar”.
            Ainda este ano, a esposa de um amigo nos deixou. Por serem ateus, só soube depois do enterro; não houve velório, não houve missa, não houve portanto modo de render-lhe homenagem alguma... Que é também como encaro o rito. Cada qual segue o rito conforme sua crença, ou falta dela. Eu, pessoalmente, faço minhas preces e não gosto de ficar - como alguns - o tempo todo falando sobre como o finado vai fazer falta, que isso e aquilo. Rendo minhas preces e que ele siga em paz.
            Em alguns velórios, conta-se piada, já fiz isso inclusive, e fato,  me agradaria se fizessem no meu, relembrando passagens alegres com os que viveram comigo. Mais do que lágrimas, que me deixariam mais triste, isso me faria feliz. Então, se estiver no meu, lembre-se do texto da Francinete** e dê boas risadas. Aliás, no meu funeral ,gostaria que só fossem mesmo pessoas que realmente tem apreço por mim. Nada de chefes que vão só para cumprir obrigações sociais, nada de gente que não me gosta ou aceita. Vão ao bar, ao cinema... Por que perder tempo com defunto que nem gostam?
            Em um velório que estive, uma das donas do defunto, em prantos, foi acalmada, consolada, e mal enxugava as lágrimas, lhe veio a chefe que tinha ido bater ponto  e lhe pedir que, assim que chegasse em casa, lhe mandasse um e-mail com tal e qual trabalho...
            Outros vão a velório como evento social, procurando se mostrar íntimos do defunto, com o qual muitas vezes sequer tinham afinidade. Creiam, já vi isso. E acham que ninguém percebe... A falta de naturalidade é tão flagrante que a coisa toma ares de ridículo, e a ópera bufa continua., com falsos abraços em pessoas que sequer conhecem, enquanto o defunto fresco ao lado vai lentamente se decompondo.
            O puxa-saquismo também está presente na hora da morte, ou algo justifica o recebimento de 162 coroas de flores ao velório da ex-primeira dama Ruth Cardoso?
            A mãe de uma amiga que queria ir morar no interior, onde aquela dava aulas, porque com o pai, que era divorciado da mãe há alguns anos, agonizante, levou-o para junto dela, e, vindo a falecer, o velório foi imenso, os  amigos da filha compareceram em peso. A mãe encantada queria um velório igual.
            Diz minha mãe: Quem tiver que fazer algo por mim, faça agora, depois que eu morrer pode jogar no monturo ou enterrar dentro da rede, que tanto faz. Mas muitos que ficam, erguem enormes jazigos, em mármore como era uso outrora, ou os enterram em cemitérios modernos que mais lembram jardins e parques. A cremação ainda não é tão usada no país, e sempre lembro-me de que Cazuza, o cantor, meu herói da adolescência que morreu de overdose, queria ser cremado, e que suas cinzas fossem jogadas no Arpoador... Não lhe respeitaram o desejo.
            O único fato é que todos vamos... E enquanto não vamos, em Évora, os ossos que lá estão, pelos nossos esperam.


Foto: Djair - Umbral da capela dos Ossos - Évora - Portugal

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Para não passar em brancas nuvens, já que o dia está nublado...

            Bem, como já estão fartos de ouvir-me e ler-me a falar de Lisboa, vamos a outro assunto, que os seguidores são poucos, e os leitores menos ainda; e não posso dar-me ao luxo de perdê-los.

            Hoje é um daqueles dias nublados, onde além do céu, os pensamentos estão cinza e difícil extrair alguma coisa decente desta cabeça grisalha. Então, como o leitor atento já percebeu, comecei meio que enrolando, enrolando pra ver se surge um mote, que seja digno de desenvolvimento, ou que como por encanto a musa do lusco-fusco pisque e me sorria fazendo brotar do cinza um ramalhete multicor. Mas a massa cinzenta está de greve, como os correios, como os bancos, e não se move, como uma grevista que adere à greve do outro por simpatia.

            Imagino como seja para os grandes escritores, e para os cronistas diários, que têm de sacar um texto pelo bem ou pelo mal, a cada exigência das editoras, do anunciante... Redação foi uma das minhas matérias preferidas no ginásio e no colegial, tanto que várias vezes fazia as minhas e as dos outros, chegando a trocar tarefas com a Horteny, morena lustrosa, sempre preocupada se o cabelo estava armado. Eu fazia suas redações, ela meus trabalhos de física. Aliás, física era um saco, se Renato Russo odiava química, eu abominava física, quase tanto como sua comparsa... Educação física. Lembro do Igor, professor do Schmidt, um rapaz bonito, simpático, por quem as moçoilas se encantavam, bela estampa, belo bigode... Mas... professor de física... E de uma didática que seguia um movimento um tanto retrógrado... Ou talvez, nós é que nos esforçávamos de menos... Enfim tornou-se em pouco tempo o mais odiado do colégio e durou apenas um ano letivo por lá...

            Bem, até hoje não fiz uso, consciente pelo menos, da física aprendida e esquecida naquelas cadeiras verdinhas das mesas novas, presenteadas ao velho colégio àquele ano... Gostava bem mais de redação e história. Acho que por isso divago tanto... Bastam cinco minutos de conversa enfadonha, de palestra chata, de apresentação de slides repetitiva para eu me dispersar... Como diz uma música do Balão Mágico, antigo conjunto infantil da década de 1980: “Eu vivo sempre no mundo da lua...” Aliás, falando em Balão Mágico, a cantora mirim virou apresentadora de programa infantil, cresceu, virou pelada da Playboy, caiu no esquecimento, virou “evangélica”, casou com presidiário, freqüentou programas que exploram imagens de celebridades e sumiu de novo, quem sabe surgindo daqui a um tempo como astronauta... Nunca se sabe... Afinal como a protagonista de Oswaldo Montenegro, em “A dama do sucesso”, que morre ao pular de um prédio, em um incêndio famoso, ela em close, e voando pra morte a gritar: “Ah, como o sucesso é gostoso!!!”


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Lisboa


               Diferente de cidades que não amam suas águas, o rio Tejo corre azul, vivo, piscoso, cheio de vida, contrastando com o azul claro do céu que faz da paisagem naturalmente fotogênica uma obra de arte. Você está andando por uma rua qualquer e de repente olha para ocidente... E lá está ele, impávido a correr ao mar...

                Quem olha Lisboa a partir de Cacilhas vê torres de  palácios, castelos e outras edificações, em pedra e mármore, em bronze que tornou-se azul pela ação da maresia (.....); a paisagem nos compele a exercitar a arte da contemplação. Nada mais é preciso fazer em Lisboa... Apenas contemplar. Pois onde quer que se vá, qualquer beco por que se entre, darás de cara com uma igreja secular, um chafariz, uma praça, um parque, um largo, e de repente olhas pra um prédio (eles não passam dos cinco andares a mais das vezes) e ali haverá uma placa: “Nesta casa nasceu Fernando Pessoa – Poeta Português”, ou “Nesta casa viveu Eça de Queiroz”, e aí, lógico, vamos “pagar” uma de turista e tirar uma foto... É claro!


                Um lugar onde se chama trens de comboios, estações de paragens, e vagões de carruagens, é um lugar pleno de poesia; afinal a última flor do Lácio ali brotou, e continua a florescer lá, e em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. A língua está viva, firme, forte... Fora isto, se ouvem pelas ruas de Lisboa todas as línguas do mundo - gente de toda a Europa vem aproveitar o sol Lusitano, e dourar-se em suas praias, e então o melhor horário para visitar os museus de impressionantes acervos, e os monumentos e palácios, castelos e suas mil maravilhas, é logo pela manhã, quando todos estão às praias.

                Na Freguesia do São Vicente, mais exatamente na rua de S. Tomé, o largo/praça tomou o nome de Jardim das Pichas Murchas; “pichas” se o leitor tem dúvida do que se trata, basta excluir o “H” da palavra e terá em português do Brasil o substantivo em linguagem chula, a que nos referimos. Bem humorados, ao contrário da preconceituosa imagem que rezam por cá, o largo tomou esse nome por galhofeiros, dentre eles Carlos Vinagre, por ali juntarem-se os velhotes que se encontravam no largo a fim de jogarem a tradicional ‘sueca’. Ali, descendo a rua, várias senhoras sentadas, viúvas, flores murchas, e quando estamos a atravessar a praça, uma delas, a que na foto tem a sacola aos pés,  assim do nada... abre a garganta em som altissonante e põe-se a entoar um fado. Pode haver coisa mais bucolicamente bela ao ouvidos de um turista desavisado? Aliás, quando as vi, ali sentadas, ingênua e romênticamente acreditei serem as pichas, flores, e uma referência às viúvas (assim acreditei que eram) que descansavam a sombra, e eram flores murchas por serem viúvas... As vezes a imaginação é bem fértil.

 
                Uma das coisas a que se tem que tomar cuidado em Portugal são os doces, tantos e bons que cada região tem a sua especialidade.  E os pastéis de Belém... Bem, quem os comeu por cá naquela esfiharria que os proclama, nunca comeu um pastel de Belém, mesmo porque os de Belém são vendidos em uma casa  próxima do mosteiro dos Jerônimos, a mesma que o José Domingos Costa, português de nascença e autor entre outros livros de "O senhor major" e que sabe fazer pastéis de nata, recusa encarar como autênticos pois segundo ele os melhores são os de Marianita; no entanto, dos que comi, não comi nenhum outro igual ao de Belém. Até porque ali, e apenas ali, pude tê-los comidos quentes. Fora eles, há os Fofos de Belas, os travesseiros de Sintra, as queijadinhas de Évora, as bolas de Berlim, e por aí a fora. Não surpreenda-se dos quilos a mais na volta...

                Os castelos e palácios abundam por Portugal, e algo me deixou pasmado... Seus museus... Não sei porque não são tão divulgados, se o acervo de cada  um deles é  fantástico. No Museu Calouste Gulbenkian, peças do Antigo Egito, marfins medievais, estupenda coleção de cerâmica e tapeçaria do Oriente Médio, móveis franceses, coleção de pinturas com Van Dyck e Monets entre elas, jóias, esculturas e por aí vai... Os imensos jardins do museu (na verdade dois museus, abrangidos pela fundação homônima - um de arte moderna que não visitei por não ser do meu agrado, como digo: parei nos impressionistas., e outro com a coleção do próprio sr. Gulbenkian), seus jardins, seus regatos, fontes e farta arborização, me levam a crer que ali nasceu a idéia de Inhotim, museu fazenda em Minas Gerais. No Museu Nacional de Arte Antiga, coleções de ourivesaria e joalheria portuguesa, vidros portugueses, artes orientais com suas porcelanas e... uma coleção fabulosa de Pintura européia, entre elas, As tentações de Santo Antão, de Bosch... Não precisaria dizer mais nada, mas tenho que citar ainda uma tela de Murillo, meu sevilhano preferido, o pintor barroco está ali também representado, e gosto meu, um dos melhores.


              Poderia ficar horas a descrever os palácios, a gente, a comida, a música,  seus azulejos, as ruas com suas calçadas de pedra (portuguesa), que espalharam a cultura lusa por cantos do mundo - quem não as  reconhece no calçadão de Copacabana, por exemplo? Mas o espaço é pequeno, o leitor pode já estar entediado, então uma última coisa sobre Lisboa: Vá!

Fotos: Djair - Lisboa vista a partir de Cacilhas.
                   Monumento a Fernando Pessoa em frente a casa onde este nasceu.
                      Jardim das Pichas Murchas.
                      Detalhe de um dos muitos desenhos das calçadas