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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Lisboa


               Diferente de cidades que não amam suas águas, o rio Tejo corre azul, vivo, piscoso, cheio de vida, contrastando com o azul claro do céu que faz da paisagem naturalmente fotogênica uma obra de arte. Você está andando por uma rua qualquer e de repente olha para ocidente... E lá está ele, impávido a correr ao mar...

                Quem olha Lisboa a partir de Cacilhas vê torres de  palácios, castelos e outras edificações, em pedra e mármore, em bronze que tornou-se azul pela ação da maresia (.....); a paisagem nos compele a exercitar a arte da contemplação. Nada mais é preciso fazer em Lisboa... Apenas contemplar. Pois onde quer que se vá, qualquer beco por que se entre, darás de cara com uma igreja secular, um chafariz, uma praça, um parque, um largo, e de repente olhas pra um prédio (eles não passam dos cinco andares a mais das vezes) e ali haverá uma placa: “Nesta casa nasceu Fernando Pessoa – Poeta Português”, ou “Nesta casa viveu Eça de Queiroz”, e aí, lógico, vamos “pagar” uma de turista e tirar uma foto... É claro!


                Um lugar onde se chama trens de comboios, estações de paragens, e vagões de carruagens, é um lugar pleno de poesia; afinal a última flor do Lácio ali brotou, e continua a florescer lá, e em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. A língua está viva, firme, forte... Fora isto, se ouvem pelas ruas de Lisboa todas as línguas do mundo - gente de toda a Europa vem aproveitar o sol Lusitano, e dourar-se em suas praias, e então o melhor horário para visitar os museus de impressionantes acervos, e os monumentos e palácios, castelos e suas mil maravilhas, é logo pela manhã, quando todos estão às praias.

                Na Freguesia do São Vicente, mais exatamente na rua de S. Tomé, o largo/praça tomou o nome de Jardim das Pichas Murchas; “pichas” se o leitor tem dúvida do que se trata, basta excluir o “H” da palavra e terá em português do Brasil o substantivo em linguagem chula, a que nos referimos. Bem humorados, ao contrário da preconceituosa imagem que rezam por cá, o largo tomou esse nome por galhofeiros, dentre eles Carlos Vinagre, por ali juntarem-se os velhotes que se encontravam no largo a fim de jogarem a tradicional ‘sueca’. Ali, descendo a rua, várias senhoras sentadas, viúvas, flores murchas, e quando estamos a atravessar a praça, uma delas, a que na foto tem a sacola aos pés,  assim do nada... abre a garganta em som altissonante e põe-se a entoar um fado. Pode haver coisa mais bucolicamente bela ao ouvidos de um turista desavisado? Aliás, quando as vi, ali sentadas, ingênua e romênticamente acreditei serem as pichas, flores, e uma referência às viúvas (assim acreditei que eram) que descansavam a sombra, e eram flores murchas por serem viúvas... As vezes a imaginação é bem fértil.

 
                Uma das coisas a que se tem que tomar cuidado em Portugal são os doces, tantos e bons que cada região tem a sua especialidade.  E os pastéis de Belém... Bem, quem os comeu por cá naquela esfiharria que os proclama, nunca comeu um pastel de Belém, mesmo porque os de Belém são vendidos em uma casa  próxima do mosteiro dos Jerônimos, a mesma que o José Domingos Costa, português de nascença e autor entre outros livros de "O senhor major" e que sabe fazer pastéis de nata, recusa encarar como autênticos pois segundo ele os melhores são os de Marianita; no entanto, dos que comi, não comi nenhum outro igual ao de Belém. Até porque ali, e apenas ali, pude tê-los comidos quentes. Fora eles, há os Fofos de Belas, os travesseiros de Sintra, as queijadinhas de Évora, as bolas de Berlim, e por aí a fora. Não surpreenda-se dos quilos a mais na volta...

                Os castelos e palácios abundam por Portugal, e algo me deixou pasmado... Seus museus... Não sei porque não são tão divulgados, se o acervo de cada  um deles é  fantástico. No Museu Calouste Gulbenkian, peças do Antigo Egito, marfins medievais, estupenda coleção de cerâmica e tapeçaria do Oriente Médio, móveis franceses, coleção de pinturas com Van Dyck e Monets entre elas, jóias, esculturas e por aí vai... Os imensos jardins do museu (na verdade dois museus, abrangidos pela fundação homônima - um de arte moderna que não visitei por não ser do meu agrado, como digo: parei nos impressionistas., e outro com a coleção do próprio sr. Gulbenkian), seus jardins, seus regatos, fontes e farta arborização, me levam a crer que ali nasceu a idéia de Inhotim, museu fazenda em Minas Gerais. No Museu Nacional de Arte Antiga, coleções de ourivesaria e joalheria portuguesa, vidros portugueses, artes orientais com suas porcelanas e... uma coleção fabulosa de Pintura européia, entre elas, As tentações de Santo Antão, de Bosch... Não precisaria dizer mais nada, mas tenho que citar ainda uma tela de Murillo, meu sevilhano preferido, o pintor barroco está ali também representado, e gosto meu, um dos melhores.


              Poderia ficar horas a descrever os palácios, a gente, a comida, a música,  seus azulejos, as ruas com suas calçadas de pedra (portuguesa), que espalharam a cultura lusa por cantos do mundo - quem não as  reconhece no calçadão de Copacabana, por exemplo? Mas o espaço é pequeno, o leitor pode já estar entediado, então uma última coisa sobre Lisboa: Vá!

Fotos: Djair - Lisboa vista a partir de Cacilhas.
                   Monumento a Fernando Pessoa em frente a casa onde este nasceu.
                      Jardim das Pichas Murchas.
                      Detalhe de um dos muitos desenhos das calçadas

16 comentários:

  1. Tirando um certo ar de pedantismo (mas que não faz mal na altura do deslumbramento), gostei bastante.

    J

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  2. Menininho fico aqui viajando com seus texto e pensando que um dia poderia conhecer esse pais e imaginando as delicias da cozinha portuguesa
    que maldade
    que fome!!!
    BJs
    Menininha

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  3. Não há porque se entediar com o texto, ora pois! rs. Quem sabe, um dia, também irei pra lá. bjs

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  4. Deu ate vontade de conhecer ...hummmm as comidas engordei sode pensar kkkk lindo texto Bjus

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  5. Já que vivo nesse lindo país descrito no texto, apenas necessito de sair e empanturrar-me com esses belíssimos doces, ao mesmo tempo que vou visitando todos esses Monumentos. Parabéns pela descrição que está autêntica. Uma maravilha de texto.
    Vitor e Zuleide

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  6. Lindos lugares..mais lindo ainda é a forma poética com que descreve-os.Melhor cartão de visita,não há.
    Não há nada de entedioso,mas sim,belo!
    Obrigada por compartilhar conosco esses memoráveis momentos na terrinha.

    Beijão,Djair!Um lindo sábado para ti.Dani.

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  7. Viajei nas tuas palavras, nos teus textos e até nos teus sentimentos.... Me deslumbrei com os lugares, pude sentir as cores e os sabores e quase, ouvir os fados da senhorinha....
    Maravilha, Djair!
    Bom domingo!
    bjsss

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  8. Djair, eu li, mas não consegui postar o comentário....fui "apagada" quando mandei postar :( De qualquer forma, fica aqui o registro de que gostei muito do texto e com uma enorme vontade de voltar a Lisboa e conhecer mais sobre o lugar, suas cores, sons e sabores...

    By Wânia Pasinato

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  9. ADOREI O TEXTO. fICO LENDO E RELENDO E IMAGINO O LUGAR A CASA ONDE VIVEU FERNANDO PESSOA. oBRIGADA POR COMPARTILHAR. CARMINHA

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  10. Não me admira nada ter gostado, assim. Sou Portuguesa, morei vários anos em Lisboa, namorei nos sitios lindos de Lisboa, conheço todinho que é praça, jardim, rua, beco, bairro. Percorri pé (penantes) ou de electrico, o longe e perto. Agora não moro lá, mas vou com frequencia e sempre, mas sempre e cada vez mais eu fico deslumbrada e vejo de novo,com outro olhar, como quando se lê e relê o nosso livro preferido.

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  11. Adorei o teu texto sobre Lisboa. BONITO!!!!!!!
    Até fiquei com vontade de saborear um pastel de Belém, apesar de gostar mais dos da pastelaria Marianita. rs:) Hummmmmmm, são uma delícia. Quando voltares cá levamos-te a Queluz, fica combinado.

    Verónica Castro

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  12. É sempre uma satisfação ler seus textos. São palavras carregadas de sensibilidade e paixão. Aprecio cada detalhe, cada respiração sua ao descrever o que seus olhos percebem, aliás como captam, até as cores mais distintas, os objetos mais obscuros... enfim, amigo, admiro-te mais e mais em cada parada em que viajo contigo, através das ricas letras que se transformam em sua mente e repousam depois placidamente no papel como alma vivente. Beijos. Ana Angélica.

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  13. E eu fui e me encantou muito encontrar lá as ladeiras do pelourinho, um certo ar de Salvador... estranho mas foi essa a sensação. Cada vez que vou ao Pelourinho para comer no Maria Mata-Mouros tenho a mesma sensação e é muito muito egradavel. Uma outra sensalção notável aos ouvidos é a total ausência de gerundios... ahh que maravilha! Quanto a sua crônica? Ahh um primor claro.

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  14. Entendi sua paixão por Lisboa! Eu quero ir, eu vou.

    Adriana Cruz

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  15. Logo menos serei eu a vislumbrar essa maravilha!! Ansiosa!!!

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  16. Boa descrição.
    Francisco Santos

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