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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Reflexões sobre a morte... Sobre quem fica...


            A morte de mais uma amiga, esta semana, me fez novamente pensar na morte. Já comentada em postagem anterior*.
            Recentemente, em viagem a Portugal, conheci em Évora a capela dos ossos, que se localiza em anexo da Igreja de S. Francisco. Suas paredes e pilares são revestidos com ossos e crânios, ligados por cimento pardo. As abóbadas de tijolo, pintadas com motivos alegóricos à morte. Foi calculado o número de ossos em torno de 5.000, provenientes dos cemitérios anteriormente situados em igrejas e conventos da cidade. À entrada, a frase: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos"., que nos lembra a transitoriedade da vida.
            Este ano, perdi algumas pessoas próximas, pela mesma causa, o câncer... Mas voltando à morte em si, para mim, em minha visão pessoal é o término de um ciclo e o inicio de uma nova jornada. 
            Geralmente vamos aos enterros pelos que ficam, para de alguma forma tentar consolá-los e reconfortar, e não exatamente por quem partiu. Nesse último, fui exatamente por quem partiu. Apesar de saber não estar mais habitando aquele corpo inanimado, quis render-lhe minhas últimas homenagens em forma de preces e recomendações, a que costumamos às vezes chamar interseções. Penso muitas vezes no dia em que perderei meus pais, coisa que cedo ou tarde há de acontecer se o curso natural (os mais velhos na frente) for seguido. E penso que será uma tremenda dor e estarei ainda mais sozinho... E logo busco afastar o pensamento, como se diz, para não “agourar”.
            Ainda este ano, a esposa de um amigo nos deixou. Por serem ateus, só soube depois do enterro; não houve velório, não houve missa, não houve portanto modo de render-lhe homenagem alguma... Que é também como encaro o rito. Cada qual segue o rito conforme sua crença, ou falta dela. Eu, pessoalmente, faço minhas preces e não gosto de ficar - como alguns - o tempo todo falando sobre como o finado vai fazer falta, que isso e aquilo. Rendo minhas preces e que ele siga em paz.
            Em alguns velórios, conta-se piada, já fiz isso inclusive, e fato,  me agradaria se fizessem no meu, relembrando passagens alegres com os que viveram comigo. Mais do que lágrimas, que me deixariam mais triste, isso me faria feliz. Então, se estiver no meu, lembre-se do texto da Francinete** e dê boas risadas. Aliás, no meu funeral ,gostaria que só fossem mesmo pessoas que realmente tem apreço por mim. Nada de chefes que vão só para cumprir obrigações sociais, nada de gente que não me gosta ou aceita. Vão ao bar, ao cinema... Por que perder tempo com defunto que nem gostam?
            Em um velório que estive, uma das donas do defunto, em prantos, foi acalmada, consolada, e mal enxugava as lágrimas, lhe veio a chefe que tinha ido bater ponto  e lhe pedir que, assim que chegasse em casa, lhe mandasse um e-mail com tal e qual trabalho...
            Outros vão a velório como evento social, procurando se mostrar íntimos do defunto, com o qual muitas vezes sequer tinham afinidade. Creiam, já vi isso. E acham que ninguém percebe... A falta de naturalidade é tão flagrante que a coisa toma ares de ridículo, e a ópera bufa continua., com falsos abraços em pessoas que sequer conhecem, enquanto o defunto fresco ao lado vai lentamente se decompondo.
            O puxa-saquismo também está presente na hora da morte, ou algo justifica o recebimento de 162 coroas de flores ao velório da ex-primeira dama Ruth Cardoso?
            A mãe de uma amiga que queria ir morar no interior, onde aquela dava aulas, porque com o pai, que era divorciado da mãe há alguns anos, agonizante, levou-o para junto dela, e, vindo a falecer, o velório foi imenso, os  amigos da filha compareceram em peso. A mãe encantada queria um velório igual.
            Diz minha mãe: Quem tiver que fazer algo por mim, faça agora, depois que eu morrer pode jogar no monturo ou enterrar dentro da rede, que tanto faz. Mas muitos que ficam, erguem enormes jazigos, em mármore como era uso outrora, ou os enterram em cemitérios modernos que mais lembram jardins e parques. A cremação ainda não é tão usada no país, e sempre lembro-me de que Cazuza, o cantor, meu herói da adolescência que morreu de overdose, queria ser cremado, e que suas cinzas fossem jogadas no Arpoador... Não lhe respeitaram o desejo.
            O único fato é que todos vamos... E enquanto não vamos, em Évora, os ossos que lá estão, pelos nossos esperam.


Foto: Djair - Umbral da capela dos Ossos - Évora - Portugal

7 comentários:

  1. OLá
    Menininho
    Concordo plenament pois acho que quando alguem morre acho que quem realmente tinha afinidade coma pesssoa é que deve prestar as homenagens e não usar um momento desse para querer aparecer!!!
    Iria acabar atrapapalhando o descanso da pessoa!!
    Ja diria Renato Russo:
    É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã e na verdade não há
    Portanto quando se perde algum ente querido devemos homenagea-lo se realmente se tinha amizade com a pessoa e quem se for so para aparecer melhor ficar em casa!!!
    bjs
    Menininha

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  2. Mais um texto para refletir. Perdi minha mãe a exatamente 5 anos, éuma dor que não tem como descrever.Aos que tem aproveite cada momento.Quanto ao que escreveu sobre a morte é isso, me fez lembrar da minha tia chegando com uma orquidea lindissima e disse: Minha filha é para sua mãe....Eu pensei quando ela estava viva nem ia em casa....agorachega com esta flor? Grande hipocresia ao comentar com a "família", credo carminha você é tão estranha e por ai vai.Por isso não precisa pegar cópia do meu atestado do óbito para levar como declaração, faça-me uma prece.....pois a vida continua. Belo texto Carminha

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  3. Deus permita que não me falte a memória no futuro distante, para que eu possa contar piadas e causos no seu velório. E já que temos o mesmo desejo, vamos combinar que você fará o mesmo, caso eu parta primeiro. De minha parte, vou pedir à família:avisem o Djair. De sua parte, me mantenha atualizada sobre seu endereço. kkkkk

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  4. Djair, realmente é sempre um prazer ler os seus textos, seja qual for o assunto, deixa-nos com uma sensação voraz do que vem a seguir. Este último tema, que será sempre um assunto muito sério, de reflexão, respeito e dor, ao lê-lo, até parece ser a coisa mais banal. Você tem o condão de conseguir transformar um assunto muito sério, numa coisa agradável de ler, sempre utilizando uma linguagem muito pessoal, mas ao mesmo tempo, precisa e concisa. Simplesmente fabuloso. Adorei. Só tem de continuar e já agora escreve mais um pouco sobre Portugal. Desta vez apenas Vitor, porque a Zuleide nem sabe que estou escrevendo. Abraços

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  5. "A mesma morte Severina".
    Por isso procuro não deixar mágoas ou mal-entendidos.
    Por isso procuro fazer tudo que posso por aqueles que amo. De uma forma ou de outra, seja no fazer, seja no amar.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Djair, querido
    Nada me impressionou mais na vida, de uma maneira negativa, quanto essa capela em Évora. Saí tão desconfortável de lá que jamais faria este tipo de reflexão. E não é por medo de morrer, posso lhe garantir.
    A morte é apenas mais uma das inúmeras passagens da vida, talvez a definitiva, e o segundo evento que nos iguala a todos como seres humanos. Concordo com você, mais cedo ou mais tarde, todos iremos: do pó viemos e a ele retornaremos e os que lá estão por nós a esperar.
    Por falar em ritos, quando chegar a minha vez, por favor, nada de coroas ou flores naturais dentro do caixão - estas podem ser substituídas por uma chita bem florida. Quero ser cremada e espero que no meu velório as pessoas estejam rindo, lembrando de cenas e histórias engraçadas que viveram comigo.
    Um beijo e fique em paz.

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