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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mestres, Gurus e falsos profetas

O que é um mestre senão um guia, um professor, um guru? O termo guru significa "professor" em sânscrito. Muito embora atualmente na maioria das línguas e dialetos falados na Índia atual o termo signifique “pesado”. O termo pesado vem da ideia do “peso” da tarefa que se assume ao aceitar-se um discípulo. Afinal, uma vez aceito, o discípulo é como um filho a quem se deve conduzir e ajudá-lo a moldar seu espírito e caráter de forma que ele seja forte, porém flexível, que seja justo e bom.

Outra interpretação etimológica do termo "guru" se baseia na metafórica representação da escuridão e da luz, no qual o Guru é visto como aquele que dissipa a escuridão. E como dissipa a escuridão? Com a luz de sua sabedoria, afinal em todas as culturas vemos a máxima da luz que espanta as trevas, e isso vem desde o mito da caverna de Platão. É desnecessário dizer que no Hinduísmo, o guru é uma pessoa respeitável, com qualidades de um iluminado, que ilumina a mente do seu discípulo, é ele um guia de quem se recebe um mantra em sinal de ter sido aceito como discípulo.

Existem muitos guias, muitos professores, mas somente aquele que consegue estar em sintonia permanente os com seus conduzidos são dignos de se chamarem gurus. Afinal, quantos pretensos mestres, tais quais falsos profetas em analogia com a crença cristã, recebem de bom grado seus conduzidos e de repente, os abandona a própria sorte, seja por não ter força para continuar a defendê-los, seja por não ter conhecimento para iluminar suas trevas interiores, seja porque as trevas interiores deles sejam maiores que as dos conduzidos. Outros os abandonam por terem que cuidar das próprias carreiras, como disse uma professora doutora a um amigo a quem em 9 meses não teria tido tempo de ler sua monografia, ou como um psicólogo que, na catarse de uma sessão, abandonou uma amiga que era paciente há tempos e a quem disse que não lhe conseguia aguentar, deixando-a pior do que quando a encontrou. E assim muitos pretensos mestres o fazem; é como se pegassem uma criança pela mão e as conduzissem por caminhos tortuosos, e quando a escuridão aperta, as deixassem sob os ciprestes de agudos espinhos e dissesse: Vou buscar ajuda; e aí abandonando-as na noite fria e densa saísse a buscar a própria salvação, sabendo que não vai voltar, sabendo que pode conduzir-se mal a si, e o amparo ao outro já se tornou tedioso e cansativo, empanou-lhe brilhos e honrarias.

É daí a concepção de “pesado”, pois sim; o fardo de conduzir alguém não é fácil, por esse motivo não deve-se aceitar a incumbência se não se tem certeza de sua força e determinação em conduzir até o fim da trilha, se é que ela tem fim. O abandono do conduzido só lhe gera em proporção inversa dor e ressentimento, incertezas e dor. Alguns na verdade nunca superam, e começam inclusive a trilhar rapidamente o caminho da desconfiança, sem acreditar em nada ou ninguém, nem em si próprios.

Então, antes de querer iluminar alguém é necessário que se veja se tem querosene suficiente no seu próprio candeeiro. Afinal, nem sempre a luz vem de onde se acredita, muitas vezes é um tênue facho que não passa de um reflexo de espelhos...


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Hoje eu quero...

Hoje eu quero a simplicidade de um chão de terra batida
Um dia com o frescor de água do pote
Quero uma felicidade que brilhe
como copos de alumínio areados com areia fininha
Quero risos e algazarra como a de galinhas poedeiras

Hoje eu quero sol com brisa soprando devagar,
para no fim da tarde olhar as nuvens e os segundos passando
como quem põe a cadeira na calçada para tomar a fresca:
Hoje eu quero música suave, ouvida no rádio,
na janela, como a namoradeira que assunta o tempo.

Hoje eu quero arroz branquinho com ovo frito na manteiga,
de gema mole, mas de borda queimada
Quero doce de figo da dona Dalma, que era tão boa e dava manga pra nós.

Hoje eu quero dormir cedo pra sonhar que tenho tudo isso
e que tudo isso... nunca vai acabar.



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Irmão, amigo, colega, conhecido.

          Várias expressões religiosas, sociedades, enfim, vários aglomerados de gente têm por hábito chamar seus seguidores, afiliados, partícipes, o que seja, de “irmãos”, independente da religião expressada, ou seus movimentos (renovações, reavivados, etc, etc.). As mais tradicionais são as “irmãs” de caridade, designação das freiras católicas. Já as novas religiões autodenominadas “evangélicas” são mais acintosas no uso do termo. E dá-lhe irmão pra cá, irmã pra lá, aquele irmãozinho, a irmãzinha fulana... E por ai vai... 
 Em facções criminosas também é utilizada a mesma alcunha - “irmão”; sabemos pela imprensa que as mulheres dos presos do PCC (Primeiro Comando da Capital), por exemplo, são tratadas pelos demais membros do grupo de “cunhadas”.
Irmão”... Também utilizam o termo agremiações desportivas e outros tantos tipos de associações. E até mesmo algumas classes profissionais, caminhoneiros, motoboys a utilizam frequentemente.
 Mas o que é ser “irmão”? Diferente do substantivo que qualifica pessoas nascidas de um mesmo pai e mãe, nesse caso a denominação sugere pessoas imbuídas de um mesmo espírito, dos mesmos valores, dos mesmos gostos, da mesma forma de pensar e de agir. Praticante de uma mesma ética, de um mesmo modus operandi quanto à forma de proceder frente à vida.
Porém, até onde vai realmente essa união de princípios, essa ligação tão forte que justifica entre seus membros o uso do termo? Afinal, nestes casos, o outro é um irmão, então o outro em principio o conhece. Mais do que isso, deveria reconhecer-se nele, no irmão. E se é um irmão, o outro não estaria interessado nele? Interessado enquanto pessoa, interessado em uma aproximação maior, uma interação realmente próxima? Saber sobre seus interesses, sobre seus gostos pessoais, suas crenças, medos, dúvidas. Seus valores familiares, civis, espirituais...?
É um irmão com quem se importa e por quem se tem interesse, ou é apenas alguém para se ver em cerimônias religiosas e festas de confraternização, dando um abraço frouxo ou um tapinha nas costas, desejando, muitas vezes, apenas verbalmente, a paz do Cristo, de Buda, Krshna, Geia ou Oxalá? Se assim é, organizações criminosas cujos membros em liberdade cuidam das esposas e filhos dos que estão presos levam a termo um grau mais intenso do que daquele irmão superficial, do qual muitas vezes não se conhece mais do que o pré-nome. Às vezes nem isso, pois muitos, por ter um nome em desuso ou que acham feio, o escondem atrás de alcunhas concebidas por si próprios e não lhe sabemos o verdadeiro nome.
Se é dessa forma, o termo está bem abaixo de “amigo”, que é alguém com quem se divide dores e alegrias, ideias e interesses, alguém com quem se convive e com quem nos preocupamos sem interesses outros que o bem- estar dele... simplesmente por ser alguém de quem gostamos.
E então, o que vale mais, ser amigo ou ser irmão?
É vero que mesmo entre os nascidos dos mesmos pais e que utilizam o termo com maior propriedade, já que foi criado para designá-los, muitas vezes não tem essa interação de amor, respeito, amizade, mas não deixam de sê-lo já que o termo é significante de uma mesma origem.
Agora...
Se você utiliza o termo “irmão”, é bom pensar o por quê. E saber se o usa com propriedade; afinal: hierarquicamente, o conhecido está abaixo do colega, que é inferior ao amigo, que deveria estar aquém do irmão. Porque, ao usar o termo, significa que realmente você o tem em tal conta, ou apenas o banaliza permanecendo bem distante do outro?