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sábado, 3 de novembro de 2012

Pereirão

          No cais ela ainda expõe seu corpo ao vento, lava roupa... Sua e dos outros. Como quem lava da alma pecados e manchas... Como quem tira do corpo grudes, suores, cicatrizes, nódoas e nós... Outro tipo de aborto. A prostituta velha que já não serve a função, que ninguém mais quer. Os homens consumiram-lhe as carnes, os anos o viço. Esfrega os panos com sabão caseiro, comprado a quilo no mercado. Esfrega o corpo com a mesma espuma, a alma com a mesma água do rio que corre lambendo-lhe as pernas. E lava-lhe o corpo como ela enxágua lençóis, fronhas, blusas e cuecas.
          Um novo batismo, feito da água do rio e do sal do suor que escorre no rosto cansado, marcado, envelhecido e triste. O mesmo sol que abençoa a penitência, a remissão dos pecados, e impõe seu castigo aumentando a pena, seca a roupa estendida no cimento do cais onde, refletido no concreto, turva-lhe a vista, doura-lhe o corpo cansado, disforme, ressecado. Testemunha solitária do lava-torce-esfrega não crê nos segredos que a lua lhe contara sobre ele, notícias doutro tempo, tempos de sua glórias que longe vão. Onde aquela indiscreta (a lua) testemunhava o mesmo corpo, que tinha formas arredondadas, curvas suaves, carnes firmes, dos mesmos olhos, que tinham brilho, sonhos, sedução. Da mesma boca, que tinha cor, dentes, sabores, sorrisos, que prometia prazeres indescritíveis, que matava tantas sedes e com alguma graça soltava baforadas de cigarros na cara dos homens que viam nela Marlenes e Gretas... Das mesmas mãos que naquele tempo não tinham calos, frieiras, feridas, unheiros, artrites, mas tinham esmaltes, recebiam beijos e dinheiros, anéis e pulseiras, e em vez do sabão marrom de cheiro forte empunhavam taças, copos, e eram hábeis em carícias.

           Hoje só tem o rio, onde lava roupa, onde à noite vem pescar para ajudar no sustento, onde toma banho e distraída brinca com as águas esquecendo da vida, ou lembrando de outra vida e de repente volta a si, a cada piau ou mandi que o anzol lhe traz sob o brilho da lua que não a reconhece sem o ruge, sem o riso, sem dentes.

11 comentários:

  1. Que texto emocionante, Djair! Esse tema é antigo e já foi objeto de inúmeros escritores em crônicas, contos, romances, enredos policiais, peças teatrais e tramas de suspense. Também pudera,pois a prostituição é uma profisão antiquíssima. É um tema muito explorado, tal como a prostituição é uma profissão muito explorada. A prostituição sempre existirá, infelizmente. Sempre aparecerá alguém com talento, como você, para escrever sobre isso, felizmente.
    Abraço, Luiz Otávio de Lima Pereira

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  2. Meu querido Djair...senti emoçao...imagino a vida dessas mulheres que acabam e se acabam assim. Gostaria de saber o que se passa pela cabeça dessas mulheres quando a idade chega e as atira em qualquer canto como um trapo velho...triste mas infelizmente verdadeiro.
    Vc pra mim continua sendo um gênio manejando as idéias e palavras como só vc sabe fazer.
    Beijo grande...amo vc...Soni@

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  3. Este texto é uma de suas obras primas, como vc entende a alma da mulher!
    Sou sua tiete incondicional, quando eu crescer quero escrever como vc.
    Beijo grande
    Myrna

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  4. Parabéns, Djair!!!! Texto de uma profundidade sem tamanho...quantas vezes vivemos presentes no passado? e quantas vezes queremos ele de volta no futuro?

    Hoje,
    Sonho com você
    No amanhã.
    Passado,
    se fazendo presente
    no meu futuro.


    Alex.'.Araújo

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  5. Tocante, poético e triste como só Pereirão saberia!! muito bom caro autor, enxuto e agudo cokmo deve ser. Abraços Le

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  6. Não fui aluno dela, não! Muitos, sim.

    Luis Paulo Lopes Lopes

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  7. "prostituta velha que já não serve a função, que ninguém mais quer."
    Seráquesó as prostitutas? Vejo por ai afora muitos trapos, um dia foram pano hoje? Nada..... Menino Djair que texto profundo......o que aquela agua leva e lava os segredos e sonhos que foram.
    Fico a pensar quem as procurou como estão hoje? Talvez também se banhando em algum lugar?

    Mais um texto para refletir. E com sua licença levar na reunião das Mulheres que fazemos. Muito obrigada.

    Carminha

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  8. A velhice é o preço que pagamos por não morrermos cedo. è uma pena que quanto mais anos vivemos, nossas vidas se tornam menos valiosas e queridas.

    PS: Adorei o novo visual do Prajalpa, ficou clean e elegante.

    Beijos, Ra

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  9. É a vida que segue inexorávelmente a sua senda, independente de atos, pensamentos ou arrependimentos....
    Poético e belo, apesar da melancolia.
    Muito lindo!
    bjs

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  10. Somos todos Peireirões nessa vida insana,que voa mais que velocidade da luz;ao olharmos o espelho,estamos nós, despidos,velhos,esquecidos..O implacável Senhor Tempo,entardece os nossos olhos..sei que morrerei entardecendo nos olhos de alguém.

    Beijão,Djair!Lindo texto!
    Dani

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