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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Monga, a mulher gorila

      Os anos 1970 já iam pela metade naquele Melo Viana, bairro de Coronel Fabriciano. Tínhamos uma Minas pacata, à exceção dos dias de jogos de Atlético e Cruzeiro, aí então era dia de algazarra de buzinas e carreatas que se revezavam ora com bandeiras listrada de preto e branco, as minhas preferidas, ora de bandeiras azuis com suas estrelas brancas... Pois bem, estava no segundo ou terceiro ano primário, lá no Padre Deolindo Coelho, e já tinha então um certo cangote grosso, conforme dizia meu pai, o que me permitiu ver o entretenimento que por aqueles dias se dava ali, na esquina mesmo da Dr. Euzébio de Brito com a avenida cujo nome se apagou da memória e cuja preguiça me impede de abrir o google (a panaceia para esquecimentos e falta de conhecimentos), a bem de que não irá alterar o curso da prosa.

      Neste citado terreno da esquina, onde não existiam muros e os pés de mamona floresciam ao lado do riacho ainda não canalizado, e onde depois se construiu o Escritório de Contabilidade de D. Aparecida e o consultório odontológico de seu marido, Joaquim Gomes Alvernaz, por aquela época vereador, tendo se candidato também a prefeito logo em seguida. Mas essas são outras estórias, portanto, voltemos ao terreno ainda semivirgem... Foi nele que veio instalar-se a tenda da Monga, a mulher gorila.

      Em polvorosa, toda a gurizada ficou louca para ver, saber, sentir a experiência; o tempo já me tirou os sons e as cores referentes ao que comentávamos e as impressões dos mais velhos que já tinham ido ver. Ora, molecotes como nós, os pequenos, só podíamos ir acompanhados de um adulto, e assim manhosos implorávamos aos pais para nos levarem.

      À noite, a brincar de esconde-esconde e outros piques, na rua, praticamente sem carros, onde éramos livres, espreitávamos querendo achar frestas e botando reparo na cara das pessoas que entravam e nas das que saíam.

      E meu pai, a me fazer gosto, levou-me lá em uma dessas noites. Não lembro de ter outro menino da aula, nem colega de colégio, lembro apenas dele, meu pai, de camisa branca, de manga comprida, calça preta, os cabelos com seus pega-moças, como ele chamava masculinizando o nome dos cachos que lhe formavam pontos de interrogações, de ponta cabeça, à testa.

      Chegada a hora, uma loura, não podia ser diferente, cabelo preso num rabo de cavalo, encorpada, num tempo em que curvas eram sinônimo de beleza (e não a magreza anoréxica destes dias), biquíni de vários tons de brilho onde o verde se destacava, e eis que de repente, como diria o poeta, não mais que de repente, salão escuro, todos em pé, pois o espetáculo era curto e não carecia de sentar, as únicas luzes voltadas para a moça, que começa a ter o corpo coberto por pelos escuros, lentamente, mas não tanto que se perceba os truques de espelho, até se transformar em... Monga, a mulher macaco!

      A bela transformada em fera, um gorila, enorme, para meus olhos infantis. Lembro que encostei-me mais a meu pai, juntando o corpo a suas pernas; ele colocou a mão em meu ombro, dando-me segurança, afastando o medo. Ele estava ali, logo, eu estava protegido, e depois do susto, um sustinho.

      A Monga, balançando as grades, tenta fugir ao cativeiro. O apresentador pede calma, “atenção, não emitam sons para que ela não fique nervosa! Calma Monga, calma, lembre do que aconteceu em tal cidade – já não lembro qual era – onde você feriu 3 pessoas, calma....”. E aos poucos a Monga se tranquiliza, poderia dizer que lhe foi dada uma banana, mas isso já não sei se ocorreu ou sou eu que invento...

      E assim, diante da plateia, Monga, a mulher gorila, já serena, volta aos poucos a ser a blonde girl, de formas torneadas, dentro de seu biquíni de pedrarias.

      Em casa, a mãe esperava, que aquela programação não era para senhoras. Quer saber como foi e conto de olhos esbugalhados a experiência. Pergunta-me se fiquei com medo: “_Só um pouquinho, o pai tava lá!”


Foto: internet: http://www.mamajuana.com.br/monga-ganha-versao-inovadora-no-parque-guanabara/


6 comentários:

  1. que final fofo!!!!
    Sil

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  2. Delicia! A mulher gorila da minha infancia era programa obrigatorio no parque q aparecia na cidade. Ahhh boas memorias. Lindo. Bj

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    1. Ah, acho que ela percorriam o Brasil inteiro tal a caravana Holliday anônimo... Bjs

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  3. Nunca vi um espetáculo da 'Monga,a mulher gorila'...Mas,hoje em dia tem tantas 'mongas' à solta por aí...Nem precisa-se pagar ingressos pra ver.rsrsrs

    Beijão,Dja!Dani.

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    1. kkkkkkkkkkkkkkkkk E dão muito mais medo, né Dani?? rsrs bjs

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