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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Lê pra mim?

A foto é antiga, em um preto e branco desbotado, onde o branco é amarelado e o preto... Claro.

Eu aos 5, 6 anos... Magrinho, e com os olhos tristes, como ainda hoje são. Deus podia ter tido melhor humor e ter alegrado o olhar e ter mantido o corpo magro, mas enfim, quem entende seus desígnios...

Na foto seguro nas mãos um exemplar de: “Lico, o coelhinho”. O pequeno livro tinha a forma estilizada do láparo que lhe intitulara. Não recordo sua história, mas a cara/capa do coelhinho/livro ainda é nítida em minha mente. Um verde claro, embora obviamente não existam coelhos verdes, mas isso não tinha a menor importância. O nariz era vermelho, redondo, de plástico, como fosse uma pequena bola cortada ao meio e colada no meio da cara, cheio de miçangas para que fizessem o barulhinho característico delas quando o livreto era balançado.

Detalhe... Eu não sabia ler.

Àquela época, ler era coisa que só se aprendia no primeiro ano primário, aos sete anos de idade. Era minha mãe, ou meu pai, que sempre o liam para mim. E aos cinco, seis anos, não se cansa de ouvir a mesma história. Uma, duas, dez, dezessete vezes...

Ás sextas-feiras, dia de pagamento, meu pai sempre chegava em casa com uma revista feminina para minha mãe. Uma Capricho ou Claudia, Contigo ou Ilusão, Grande Hotel ou Sétimo Céu. Ou algum especial só de fotonovelas. E para mim sempre vinha com um gibi. O fato de eu ainda não ler era menor. Devorava as figuras, fossem de Disney, ou a turma da Mônica, Brazinha ou Riquinho.

Na capa, invariavelmente a dedicatória, que era a rubrica de meu pai, que forma um coração, e dentro dele, nossos nomes. Ah, as folheava comendo as figuras, fingindo ler. Sei lá se vem desde esta época a mania de folhear revistas de trás para frente que dura até hoje...

Meu tio Raul, à época o mais querido dos tios, era livreiro. Logo, meus primos tinham coleções de livros infantis, tantos e tão ilustrados que eu ficava excitadíssimo quando ia visitá-los, por manusear e encher os olhos com tantos e tão belos desenhos. Como eram mais velhos, e já leitores, meus primos em uma das férias passadas em sua casa, em Santos,  eram quem liam para mim. Pinóquio, Alice no País das Maravilhas, Cinderela, Dumbo, e por aí vai... Pela manhã atravessávamos a rua e íamos a praia, tia Lourdes nos levava pela mão, voltávamos à hora do almoço, e depois de tomar banho na enorme e aconchegante banheira, almoçávamos e fazíamos a siesta.

Acho que foi nesse tempo também, de descobertas e ansiedades, que apaixonei-me por peixes e aquários. Meus primos tinham um lindo aquário de vidro redondo, repleto de conchinhas e com peixinhos dourados. Na entrada do prédio, um arranha-céu como se dizia nos anos 1970, de pastilhas e estilo art-deco, havia também um enorme laguinho com fonte e inúmeros (pelo menos para quem também ainda não sabia contar) peixinhos coloridos. Lembro de um senhor de bigode branco e poucos cabelos sob o chapéu, que colocava sempre uma folha de palmeira na água: “_Para fazer sombra para eles”, explicava-nos.

Foi aí também, acredito hoje, depois de tantas rememorações, que se deu certa aversão... Quando de minha primeira ida ao cinema, fomos Juninho, Gislaine e eu... Naquela época o Gonzaga (bairro onde meus tios moravam) era cheio de cinemas e podíamos ir às matinês sem sustos ou preocupações. Era uma fita estadunidense, de guerra... Falado em inglês, e com legendas, que nada significavam para mim, que ainda não conhecia o alfabeto.

Escuro, cenas de guerra, uma língua estrangeira... – Talvez more aí minha aversão também ao idioma. Pedi que me lessem e eles explicaram que não podiam ficar falando no cinema, insisti que não entendia, convenceram-me quando disseram que se lessem ali não me iam ler os livros de histórias à noite... Resignei-me até dar vontade de ir fazer xixi... Não podia, se saíssem iam perder o filme... Talvez eu tenha chorado...

Felizmente não perdi o gosto pelo cinema, mas não precisam me convidar para ver filmes de guerra.

10 comentários:

  1. Ei, amigo lindo! Quantas descobertas feitas e quanta ansiedade você demonstrava desde cedo pela leitura!!Agora...se fosse catatauzinho, eu nunca iria te levar prá assistir um filme de guerra e ainda mais sem dublagem...imagino sua agonia...ai, que fiquei com dó aqui...fiquei até tristinha...com bico e tudo...

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  2. "Deus é um cara gozador, adora brincadeira. Pois prá me botar no mundo tinha o mundo inteiro, mas achou muito engraçado me botar cebreiro. Na barriga da miséria nasci brasileiro!"
    Sempre grandes texteos. Acho que sua ansiedade em ler, quando o fez, reverteu em escrever!
    Ah! Sim! Eu também gosto de folhear revistas de trás para frente.

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  3. Meu querido amigo Djair...como vc sempre vc me emociona com teu "contos" aos quais nos vemos refletidos...bons tempos aqueles em íamos à matinê sem medo nem preocupaçoes...nossos pais estavam tranquilos...nao havia a violência que há hoje.Vc nos faz voltar no tempo e relembras momentos de uma infância que foi de pé no chao...nadando no rio...correndo atrás de baloes com um bambú enorme...gosto muito do que vc escreve...tem sentimento...verdades...vc é muito bom amigo e fico feliz de por uns momentos voltar ao passado que já vai muito longe...muito obrigada por ser essa pessoa maravilhosa que vc é...te gosto muito...bjao nesse coraçao que abriga tantas coisas boas...

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  4. Meniniho
    Que voce tenha se traumatizado não saber ler quando pequeno mas so sei dizer que se tornou uma
    pessoa culta e um grande escritor que por sinal precisa escrever um livro!!!
    bjs
    Meniniho

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  5. Demorei a ler, mas depois que comecei não parei mais, tive que correr atrás do prejuízo e até hoje estou correndo...
    Tanto a ler, a saber...

    Adorei o texto

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  6. quem ama os livros acho q já nasce c/ esse amor né? eu tbém folheava gibis e livros s/ ainda saber ler...não tenho a veia de escritor q vc tem mas tenho tbém esse amor pela leitura de um bom livro, um bom texto...
    vc me fez lembrar de mim, sentada no sofá da sala dos meus avós (sofá q hoje está aqui em casa)ao lado do meu avô...eu apontava os quadrinhos do gibi e perguntava: "e aqui vô?" e ele inventava uma história em cima de cada quadrinho, vc acredita? rsrsrs
    obrigada pela lembrança!!! bjss

    Sil

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  7. Não vi a foto. Fiquei curosa... Amigo, em primeiro lugar quero te dizer que mais uma vez me emocionei lendo seu texto. Hoje chorei! Talvez por me identificar com sua estória, e também, por estar nesse momento, muito emotiva. Segundo, seus olhos "tristes" podem refletir a luz que irradia de sua alma. Procure ser feliz e seus olhos serão "alegres". A felicidade depende somente de nós mesmos. Meu sentimento por você é muito bom. Sinto um carinho um tanto quanto fraterno por sua pessoa (sinto-me feliz em saber que você existe) e, acima de tudo, você é especial e único aos olhos de Deus. Beijos. Ana Angélica.

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  8. "Adoro ler o que escreve. Me fez lembrar de João Ubaldo Ribeiro. Memórias de livro.
    Não sei bem dizer como aprendi a ler. A circulação entre os livros era livre (tinha que ser, pensando bem, porque eles estavam pela casa toda, inclusive na cozinha e no banheiro), de maneira que eu convivia com eles todas as horas do dia, a ponto de passar tempos enormes com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e, na verdade, se não me trai a vã memória, de certa forma lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias."João Ubaldo Ribeiro.
    Obrigada Djair pelas lembranças Carminha

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  9. bonito isso... embora diferente, lembrou-me a poesia do roteiro de Cinema Paradiso...
    Asael

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  10. Grandes lembranças, grandes riquezas! me recordo com carinho das abóboras de pescoço...e nunca me importei tanto por não ter tido bonecas na infância...assim, cada abóbora- boneca tinha uma carinha diferente pra mim, com chupeta feita de bergamotinha e tudo mai... rsrs Mary Santos

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