Curta a página no facebook

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Vaidade, acendendo esta fogueira

Ah, a vaidade...
No filme, “O advogado do diabo” – (The Devil's Advocate)* - John Milton, personagem de Al Pacino repete na cena final: “_Ah, a vaidade... Meu pecado favorito!” E porque não o seria? Conheço pouquíssimas pessoas desprovidas de vaidade. Seja ela física, intelectual, profissional, familiar, ela sempre está presente. Seja na roupagem fashion, da beleza fulgás, no estilo clássico do orgulho ou nos andrajos do desprendimento.
A mais comum nos dias de hoje é a da beleza plástica, onde a aparência física leva ao consumo de grifes, suplementos alimentares, e muita, muita tintura de cabelo. Movimenta salões de beleza, academias e lojas de cosméticos, seja na Oscar Freire (rua de comércio fino em SP) seja no recôncavo baiano. Não importa, se o momento é de boom financeiro as pessoas estarão a consumir grifes e produtos que as deixem mais belas e prontas a se exibirem em vitrines fashion (bares, restaurantes da moda, shoppings, cinema e casas de shows) onde vão às vezes mais para serem vistas, do que para consumir cultura, lazer, comida ou ver amigos. Se o momento é de crise, é necessário estar minimamente bem apresentado para conseguir (ou manter) um emprego.
 Sempre digo que o que acaba com uma mulher é dizer: “Você está acabada!” E o que a enterra de vez é a expressão: “fulana está sofrida!”, aí então não há redenção. É como o “boazinha”, que acaba de vez com qualquer possibilidade de se ser interessante. O mesmo que “bichinho de goiaba”.
Em outros a vaidade é intelectual, e pode ser tão chata quanto a beleza metida à cara dos outros. Até porque como já dizia Machado de Assis: “Existe muita besteira muito bem dita, assim como muito idiota muito bonito.” Às vezes se perde a mão e no intuito de mostrar o quanto se sabe, o quanto se conhece a respeito de tal ou qual assunto, o interlocutor fica chato e a conversa vira um monólogo sem fim.
Sábia, Danuza Leão aconselha no seu Na sala com Danuza: “Se alguém fizer uma viagem e falar sobre um restaurantezinho em uma cidadezinha, que você já conhece há séculos, não fale nada, deixe-a brilhar!” Não sei se são estas exatamente as palavras, mas o sentido, sim. Nunca esqueço que uma vez, voltando de Barcelona, uma colega perguntou como tinha sido a viagem e, antes que eu terminasse a primeira frase, uma terceira pessoa já estava contando como tinha sido a sua, feita alguns anos antes. Calei-me e ouvi, apenas isto...
Tenho uma tia, pobre como Jó, que se achava injustiçada pela sorte e usava sempre a frase: “Pobre com muito orgulho!” Deixou-a de usar quando uma vez lhe perguntei se ela não tinha nada mais do que se orgulhar. Orgulho de ser pobre? Isso é condição e não conquista!
Tem aqueles que viram todos os filmes, leram todos os livros, sabem de cor os nomes dos personagens, diretores, trilha... Mas há diferença entre ser fã e ver para arrotar conhecimento. Conheço uma pessoa que tira férias todos os anos para ver a mostra de cinema e já teve problemas oculares pela maratona de no mínimo três filmes por dia. Não consigo ver isso como prazer, mas como obrigação. E a troco de quê? Para falar: "Vi todos os filmes da mostra”? Tô fora! Equivale a quem se endivida em cartões, cheques especiais e crediários para usar grifes. E o diabo, é que nem sempre vestem Prada!
Outros se vangloriam da família. Porque minha família é ótima, minha família é perfeita, os meus filhos isso, o meu marido aquilo... Bem, em geral essas pessoas comentam podres de outras famílias, geralmente da dos cunhados, sobrinhos, primos... E escondem o da sua. Sempre perfeita, como num comercial de margarina. Tenho amigos aos quais cheguei a invejar o tratamento familiar, mas nunca ouvi deles este “orgulho”. Eles vivem isto. Não precisam proclamar em alto brado retumbante.
Conheço uma pessoa, uma só, mas devem haver muitas outras, que tem uma casa linda, decorada por decoradores profissionais, onde tudo é tão asséptico, tão organizado, lindo e limpo que dá a impressão de um espaço montado para fotografar. E ela se orgulha disso, mas não curte a casa que tem. Apenas a exibe aos outros, encaixando no texto o nome do arquiteto. Não valeria mais curtir o espaço mesmo que não combinasse o puff com o sofá, ou que não estivesse em perfeita harmonia o lustre com o biombo chinês?
Ah, a vaidade... A vaidade é o diabo... Eu que o diga... E fico por aqui, pois preciso ir ao cabeleireiro.

    * O advogado do diabo” – (The Devil's Advocate) 1997 Dir. Taylor Hackford, EUA,  Drama 143min 
    Foto:  Cristiane Camisão - Detalhe da bancada de penteadeira da Casa de Laura Alvin - Casa de Cultura Laura Alvim - Ipanema - RJ

11 comentários:

  1. Ao falar da vaidade intelectual, lembrei de um professor de ecologia da faculdade. Não tinha um que não dormia. Já as pessoas que falam de peito cheio: meu filho é isso, meu marido é aquilo, minha esposa é mais isso é por uma questão simples. Ela mesmo não é nada. E, enfim, os que clamam aos quatro ventos sua virtudes, inteligência e o que o valha, apenas estão tentando convenser-se a si mesmos.
    Parabéns! Admiro seus textos! (sem vaidades) ;-)

    ResponderExcluir
  2. Gostei bastante do texto. Fiquei só imaginando quem seriam as pessoas que você dá como exemplo de vaidade...
    Abração,
    Tania

    ResponderExcluir
  3. Vi a foto e, não sei por quais leituras, li que de todas as mulheres que vão fazer as unhas no salão de beleza, 70% pedem o vermelho fatal.

    Como já é de se esperar, ótimo texto.

    ResponderExcluir
  4. Hoje passei novamente no espaço cultural Laura Alvim e lembrei do seu texto: lindo!! bk CrisCamizão

    ResponderExcluir
  5. Ah, a vaidade... Já foi qualidade, vira defeito quando tora-se obssessivo, mas quem nã a tem?
    Gostei da cor dos esmaltes da foto... rs

    Acho a vaidade intelectual salutar, nos leva a buscar mais conhecimento, acho que a profissional pode virar obsessão e nos deixar fora do resto do mundo, portanto mais perigosa se não for bem dosada.

    Mas a vida sem vaidades não seria menos rica de conquistas?

    É um assunto vasto... Gostei do texto.

    ResponderExcluir
  6. Uma delícia de texto do começo ao fim. Quem seria a pessoa que tira férias pra ver TODOS os filmes da Mostra? Quem acerta ganha o quê? :D Um beijo, seu lindo. GRACIELE

    ResponderExcluir
  7. Por que algumas pessoas estão "emburrecendo"? Esquecem-se do PRIMORDIAL: a autoestima verdadeira, a auto aceitação e a beleza interior. Se a pessoa não tiver autoestima, não tem plástica que corrija isso. O resultado estético poderá ser maravilhoso, mas se a sua mente não estiver sadia, pouco usufruirá da sua nova aparência. Já a vaidade do saber não é autoestima. Aquele que se gosta não precisa mostrar que sabe. Eu acho muito indelicado quando a pessoa força uma situação mostrando que sabe tudo e de tudo! “Eu fui, eu fiz, eu sei, eu conheço, eu tenho um amigo isso e aquilo...” Fica até antipático.

    ResponderExcluir
  8. Ai, a fogueira da vaidade: acabei de avisar pra amiga Conceição, profunda conhecedora da cultura afrobrasileira, que meu filho é apreciador e produtor de música jamaicana. E ainda ressaltei que ele trouxe ao Brasil os...Skatalites. Serei devorada, só ficam as cinzas. rsrsr Verdade!

    Marfisía

    ResponderExcluir
  9. "Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade." (Eclesiastes 1:2).

    Tudo é passageiro e as pessoas se apegam às coisas como se fossem a mais importante de toda a humanidade. O texto não proíbe o apego mas nos lembra que tudo é passageiro... E será que vale a pena perder MUITO tempo com o que vai passar e que ninguém mais irá se importar nem se lembrar nas gerações futuras?

    Nós não somos eternos. E reconhecer isso já é um grande passo para a humildade.

    A sua beleza física passará assim como o seu poder um dia passará para quem não lutou por isso. O seu conhecimento cairá no esquecimento. A mágoa que você guardou (insistiu em guardar) a vida toda se tornará insignificante depois que você morrer...

    Vaidade de vaidades...

    ResponderExcluir
  10. Nossa!Já fui vaidosa ao extremo,agora estou mais relax.Continuo vaidosa,mas sem aquela exacerbação.É difícil lidarmos com nossas vaidades de cada dia,hora,minuto.E no instante que você consegue domá-la antes que ela te domine,as coisas ficam mais simples,quando começa-se a viver pra si,não para os outros.

    Beijão,Djair!Dani.

    ResponderExcluir