Curta a página no facebook

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Leopardos, ou gatos pardos?

Hoje pela manhã, jogava um partida de buraco enquanto lá fora o sol tímido em conluio com o vento frio não convidava a fazer nada além disto. Sobre a mesa, coisinhas gostosas para beliscar e nas mãos uma boa jogada.

Assino o jornal apenas de sexta-feira a domingo, pois mais que isso não consigo dar conta no decorrer da semana, de tempo já escasso. Foi, quando de repente, ouço no rádio a notícia do ataque de um grupo de jovens classe média alta a um casal de rapazes que passeavam pela Av. Paulista.

Noticias assim sempre me chocam. Sejam elas sobre universitários (?) do interior perseguindo alunas acima do peso, machos no cio a perseguir moças de vestido curto em universidades, filhos de gente abastada ateando fogo em índios para se divertirem, idiotas a bradar morte a nordestinos, gentinha em altos postos a humilhar funcionários negros ou presidentes de democracias a expulsar ciganos. Ou ainda campos de concentração onde se exterminam pessoas de etnias, religião ou pensamento diferente da que o status quo da sociedade dominante permite.

Em São Paulo, maior cidade da América do Sul, não é a primeira vez que tal fato chega aos jornais. Há alguns anos, um outro rapaz, domador de cães, foi morto em plena praça da República, no centro da cidade. O domador de cães não se livrou das feras bípedes e somou-se às estatísticas policiais. O mesmo ódio, o mesmo tipo de perseguição, vários contra um ou dois.

Lembro que há uma década, quando eu fazia faculdade, um colega, de outra turma, mas com quem mantenho contato até hoje, voltava de uma festa com o namorado e foram também agredidos por uma dessas hordas, em um vagão de metrô da linha verde (ramal que percorre a Av. Paulista). Quando as portas se abriram na estação seguinte à que foram abordados correram e procuraram os guardas da estação, que falaram que isso acontecia mesmo, etc..., sem o menor interesse em apurar nada. Não seria apenas passar um rádio e parar o trem na estação seguinte, para se averiguar? Mas para quê? Afinal, tratavam-se de homossexuais.

E assim a coisa vai, de seguranças que acham que gays devem apanhar, a juízes que julgam que leis de proteção a mulheres perseguidas, seviciadas, humilhadas e espancadas são descalabros...

Esta semana ainda fez-se estardalhaço sobre o caso de um rapaz de 18 anos que foi preso por beijar um garoto de 13. E tome críticas, acusações de estupro, etc... E se fosse um rapaz e uma garota de 13? Não os vemos aos beijos o tempo todo?

Assim como os padres gays, na nova caça às bruxas, são chantageados e expostos em praça pública por crianças de 17 anos... Ora, e os padres héteros? A questão primordial para igreja não deveria ser a quebra do celibato? Porque, para a lei comum, só é pedofilia se o caso é homossexual? Vende mais jornal?

Um jogador de futebol, que morou em frente a uma amiga, tinha uma postura homofóbica que disseminava para filhos e esposa, e esta última, sempre com comentários travestidos de piadinhas jocosas, falava ai, ainda bem que meu marido não gosta dessas coisas. Deus me livre. Entretanto, grande parte de nós (minha amiga que morava em frente e sua família, mais um grupo extenso de amigos) sabíamos de seus relacionamentos com pelos menos dois outros homens.

Um primo, em primeiro grau, que sempre se valeu  todo tipo de discriminação possível, e fazia questão de bradar aos quatro ventos sua posição, não nos surpreendeu quando soubemos de um “casinho”, com outro rapaz, inclusive, bem folclórico e conhecido na cidade.

Não consigo acreditar que quem realmente está bem resolvido com sua sexualidade vá perder tanto tempo e energia se preocupando com a opção sexual do outro. Mas parece que para resolver esses problema íntimos, os acometidos por essa forma de insegurança pessoal que leva ao ódio ao outro, ao invés do diálogo ou terapia, vão da verborragia estúpida aos ataque físicos chegando a causar mortes. O ódio está onde? De onde vem? De dentro, óbvio, mas porque se manifesta? Porque o outro faz aquilo que se tem vontade? O outro representa sua frustração em não conseguir aceitar-se? Ou em ver que o outro, apesar de diferente da maioria, consegue ser mais feliz?

9 comentários:

  1. Fico com a sua última frase...as pessoas não se preocupam umas c/ as outras e isso seria necessário p/ as frases anteriores...É inveja da felicidade alheia...Ninguém pode ver o outro feliz, então bate, queima, xinga e assim por diante...
    O número de pessoas infelizes q fingem ser felizes é imenso e é isso q está gerando essa violência gratuita...

    ResponderExcluir
  2. Olha Djair como sempre muito bom o que escreveu. Fico a pensar das varias preocupações das pessoas com o dia 20 de novembro. Não é somente o negro que sofre preconceitos, a homofobia em outras questões estão bem evidentes. Tenho dó dessas pessoas. Abraços

    ResponderExcluir
  3. Tudo isso, antes de mais nada, me lembra mais o Adolf Hitler que qualquer outra coisa. Mas de fato, vários psicólogos já afirmaram: Essa averção ao homossexual é, na verdade, as questões da própria pessoa, como você tão bem relata. Já as questões raciais e sociais não são culturais. É exatamente a FALTA dela, do conhecimento.

    ResponderExcluir
  4. Acredito que essas pessoas ainda não se definiram completamente em sua identidade sexual, o que gera dúvidas, angústias e revolta, que são transferidas para os que já resolveram suas preferências. Muitas vezes, a homofobia parte do próprio homossexual, como um processo de negação de sua sexualidade. No fundo é isso que você disse: tem gente que não pode ver o outro feliz.

    ResponderExcluir
  5. O ser humano não aprende mesmo, tudo volta, tantas vezes já vimos toda essa demência na história! Tudo originado da ignorância de não compreender o próximo e da ganância de querer o que é do próximo, principalmente a felicidade. Nós, amantes do sagrado direito de viver em paz, temos de fazer vigília redobrada e oposição ferrenha a toda e qualquer manifestação de preconceito. Escreva mesmo muitos textos como este. Tempos difíceis estão por vir, Harry...

    ResponderExcluir
  6. Bem, eu sou casado, tenho filhos, curto homens e não assumo minha condição, acabo agindo de forma preconceituosa muitas vezes, não assumo, nunca vou assumir, mas abomino fatos como estes, assim como todo e qualquer ato de violência.

    Fui criado para ser assim, para reprimir desejos e não vou mudar. Infelizmente estou no meio desta sociedade que exige isso, e estar mudando a esta altura da vida seria um desastre. Mas acho que hoje em dia a intolerância é muito maior. E pouco estamos fazendo para que seja diferente.

    Deus tenha piedade de nós.

    ResponderExcluir
  7. Querido, seu texto maravilhoso me trouxe a memória o livro de Hannah Arendt "Homens em tempos sombrios", cujo belo título ela tirou do célebre poema de Brecht. Nesta obra ela fala sobre a vida de algumas pessoas como Walter Benjamin, Karl Jaspers, Rosa de Luxemburgo e o próprio Brecht, e como, cada um a sua maneira, tiveram suas vidas dramaticamente tocadas pelo tempo histórico que viveram: a primeira metade do século XX, que trouxe tantas belezas como as vanguardas artísticas , porém ao mesmo tempo arrastou o mundo a duas grandes guerras e viu nascer o fascismo e o nazismo. No poema que serve de título, Brecht fala da desordem social e da indiferença que desembocaram nos horrores dos campos de extermínio. Tudo real, mas ao mesmo tempo dissimulado. Muito parecido com nosso tempo, também sombrio e na nossa indiferença, que pode resultar em renovados horrores.

    ResponderExcluir
  8. Uma coisa é fato...

    A medida que os 'entendidos' vão detendo mais poder aquisitivo mais a tolerância a eles tenderá a crescer. Alguém já viu bicha rica ser mal-falada e mal-tratada? Não só bichas mas qlqr minoria dentro da sociedade...

    E ai daqueles que são pobres e não instruídos pois esses sendo 'entendidos' ou 'straights' com certeza serão arrebentados!

    ps. tem outro 'anônimo' aqui?

    Dangoh

    ResponderExcluir
  9. É preciso dizer um basta contra os preconceitos na sociedade global. Esses crimes sociais precisam acabar através de ações conjuntas internacionais. Tais posturas inconcebíveis devem ser combatidas, ouso dizer que da mesma forma que o terrorismo é caçado, no mundo inteiro, através de penas longas e multas altas. Só isso mudará essa triste realidade deshumana que entristece a vida de tantas pessoas de bem.

    Grande "cineabraço" a todos, @marcpbb

    ResponderExcluir