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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Édipo, complexo...

    Dei-me por gente tendo minha mãe como a mulher mais bonita que conhecia. Pelo menos a meus olhos infantis, era com certeza a mais bonita. Nas reuniões do colégio, nas pequenas festas na rua que morávamos, num tempo que os aniversários eram comemorados em casa e não em bares... Eu pequeno tinha consciência de sua beleza e disso e muito me orgulhava. Lembro de que  D. Lita, mãe do Celso, até pediu-lhe certa feita um vestido emprestado, era um modelo longuete, com aberturas laterais, manga em alça franzida, de um tecido mole e fresco, estampado, muito bonito mesmo. Mas... Não ficou a mesma coisa nela.
   
    Minha mãe, até hoje muito bonita de corpo, com cintura fina bem marcada, fruto, segundo ela, de uma cinta que moldava a cintura e que usou durante anos. Foi moda nos anos 1950/60 usar por cima dos vestidos e, quando a moda caiu, ela continuava a usar por baixo. Rememoro seu tempo de vaidades, quando ia todos os sábado ao salão arrumar o cabelo, e D. Lucinda, a cabeleireira, caprichava. No início dos anos 1970 chegou mesmo a confeccionar-lhe uma peruca, a partir dos próprios cabelos de minha mãe que foram cortados à altura dos ombros, quando antes atingiam cumprimento abaixo da cintura. Lembro que minha mãe tinha um sorriso lindo, que inclusive era invejado pelas irmãs, pois os dentes eram alvos e de belo formato em um tempo em que ainda não se usavam aparelhos ortodônticos. 
 
    A festa mais bonita que tivemos em casa, acho que foi a de 40 anos de minha mãe. Morávamos em MG, em Coronel Fabriciano. Matamos dois cabritos, que eu e meu pai fomos comprar em uma fazendola nos arredores de Ipatinga, matamos frangos que criávamos em casa, coelhos idem e encomendamos o bolo a D. Ritinha. Era um enorme bolo com glacê colorido. Àquele tempo, os glacês eram feitos de açúcar e manteiga e coloridos a base de Q-suco. Meu pai fez vários litros de batida de limão, colocamos a mesa no quintal, debaixo do abacateiro, repleta de porcos-espinho, que nada mais eram que repolhos com palitinhos de queijo e presunto, queijo e mortadela ou queijo e azeitona espetados. Àquele tempo, pelo menos em casa, não se usavam os salgadinhos que hoje fazem sucesso às festas. Minha mãe vestia um vestido rabo-de-peixe, justo, de Jérsei prata e preto, com mangas até os cotovelos e meio bufante nos ombros. Passou a tarde na cabeleireira, estava linda. Acho que foi a única vez que usou esse vestido desse jeito. Depois ele virou “longuete” e perdeu as mangas... E deve por fim ter virado pano de chão.


   Quando meu pai começou a apresentar os primeiros sinais de alcoolismo, ela foi perdendo o gosto. Deixou de ir ao salão, de se arrumar, e até alguns dentes perdeu... O jardim de casa que era o mais bonito da rua feneceu. Tenho a impressão que minha mãe era como aquelas flores, que sem atenção se deixaram murchar.
 
Foto: Desconhecido - Maria Cezídia Rodrigues de Lima e Souza - Minha mãe. 1966.

8 comentários:

  1. É, o alcoolismo masculino destroi as "flores" e os jardins de nossa casa.

    "As flores do jardim da nossa casa
    Morreram todas de saudade de você
    E as rosas que cobriam nossa estrada
    Perderam a vontade de viver" (roberto Carlos)

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  2. Que o texto é lindo e único, nem preciso dizer, mas comentar além disso não me é possível devido ao lado emocional dele (meu, dele, dele ou meu? Sei lá! Nem sei se sou eu ou se é ele).

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  3. Q lindo!!!!!! Quando os homens vão entender a delicadeza das mulheres? Como todas as flores que não recebem água e carinho, sua mãe perdeu o brilho do olhar q só uma mulher sabe ter... e qdo a gente perde esse brilho, meu amigo, o mundo perde o colorido...

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  4. Belo texto, Djair. Não consegui evitar, lembrei-me de minha mãe, que também era bonita.

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  5. Lembranças de criança, festas de aniversário inesquecíveis, bolo, etc. Vestido longuete, tubinho ou rabo de peixe, moldando a cintura ou sem manga, não importa. O mais bonito é quem estava usando: sua mãe. No fundo, a beleza está nela e nos seus olhos, Djair.

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  6. A nossa mãe sempre é e sempre será a mais bonita de todas, mesmo depois das intempéries (ou também por causa delas...).

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  7. É muito difícl encarar a decadência, seja física, mental ou emocional de nossos pais. Aqueles que eram nossos heróis, lindos e invencíveis, que deveriam nos proteger, de repente apresentam sua face mais humana: envelhecem, tornam-se ranzizas e muitas vezes nem nos reconhecem mais. Ficamos procurando naqueles rostos encanecidos os deuses de outrora. Seja por doença, senilidade ou sofrimento, eles vão como que se desligando da vida, acho que para tornar menos dolorida a despedida. E o Édipo que era rei, agora é Édipo em Colona, velho, cego e cuidado por suas filhas Antígona e Ismene. Assim o ciclo da vida se completa.

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  8. Graciliano Costa5 de julho de 2011 10:37

    Ainda que eu refletisse por anos demoraria milênios para entender a natureza humana...

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