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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nobel de Literatura 2010: uma notícia alegre, num dia triste de chuva.

Sem grandes inspirações em dias tristes de chuva, interna e externa, recebo com alegria a notícia da premiação de Mario Vargas Llosa para Nobel de Literatura 2010.
 
O fato de um latino-americano (peruano) ganhar o prêmio não deixa de me ufanar. Sim, afinal, embora sejamos o único país do continente a falar Português, e por isto às vezes visto como não latinos, lembremos que a origem da língua vem sim do latim, o que alcunha os povos da Península Ibérica, Portugal e Espanha...
 
E daí, para a América, a também chamada América Católica, vista como berço de bárbaros, de iletrados, e onde, conforme informação recém divulgada pela imprensa, os estadunidenses fizeram pesquisas médicas infectando centenas de pessoas com vírus da Sífilis e Gonorréia (mais especificamente na Guatemala). É também na América Latina que povos desenvolvidos montam prisões, bordeis e resorts de luxo para seus devaneios e lazer

E porque a notícia do premio me traz alegria? Oras, pela demonstração da capacidade deste povo de produzir literatura de qualidade, da mais alta estirpe, um reconhecimento que vem de fora, divulgando com ele não apenas a literatura, mas costumes, idéias, modo de vida.
 
Atualmente choca-se muito ao saber sobre a extinção de espécimes das faunas e flora mundiais, mas quem se condói com a extinção de línguas, hábitos ancestrais e culturas locais, que cedem lugar  à cultura importada de outras regiões e divulgada através dos grandes meios?
 
            Nos países de língua portuguesa “Última flor do Lácio, inculta e bela”* conforme o conhecido poema de Bilac**, temos na galeria de Nobel como único representante José Saramago, que recebeu o prêmio em 1998. Falecido em 18 de junho último, Saramago é considerado o responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. Mesmo postumamente ele concorre ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, com a obra “Caim”, sua última briga com Deus em forma de livro. Saramago, ateu confesso, nessa obra acusa ao senhor dos fiéis de ser o culpado por tudo de ruim que acontece, porque afinal ele é Deus.
 
            O Prêmio Portugal Telecom de Literatura é uma premiação internacional, que busca difundir obras de autores de países de língua portuguesa, a quinta língua mais falada no mundo, a saber: Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e, desde 13 de julho de 2007, na Guiné Equatorial.

           Mas, voltando à premiação criada pelo inventor da dinamite, seis latino-americanos já ganharam o Oscar, os chilenos  Gabriela Mistral e  Pablo Neruda, o guatemalteco Miguel Angel Asturias, o colombiano Gabriel García Márquez, o mexicano Octavio Paz Losano e, agora, o peruano Mario Vargas Llosa. Saudações!!

* A expressão "Última flor do Lácio, inculta e bela" primeiro verso do poema “Língua Portuguesa”.

** Olavo Bilac, poeta parnasiano, brasileiro 1865-1918. Esse verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado e aí haja gerundismo!!!), mas que continua a ser bela.


LÍNGUA PORTUGUESA
 
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho
!

5 comentários:

  1. Imagina se o poeta ressucita-se e visse como se escreve e se fala hoje... Teria uma segunda morte instantânea.

    Parabéns a Mário Vargas Llosa, parabéns ao povo peruano, parabéns a quem escreve, parabés a nós que lemos.

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  2. O link que eu prometi passar para publicações de textos é este:
    http://www.artigonal.com/
    Divirta-se!!!

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  3. Parabéns ao Mário Vargas Llosa e aos outros cinco latino-americanos que já ganharam o Nobel da Literatura! O Prêmio Portugal Telecom de Literatura também nos emociona com a participação dos países que falam a nossa língua. Maravilhoso o poema "Língua Portuguesa". Imagina eu, como professora de Português, o que acho quando vejo esses gerundismos... Delicioso foi ler seu blog, Djair. Muita informação cultural. Adorei !!!

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  4. Li seu post sobre Vargas Llosa, escrevi um comentário (até longo), mas perdi na hora de enviar! Não sei o que aconteceu e depois me deu uma preguiça de escrever de novo (risos).
    Também admiro Vargas Llosa, em sua vitalidade e produtividade! Gosto principalmente de seus primeiros livros como "La ciudad y los perros", que conheci aqui no Memo, já que ainda não havia sido traduzido. Mas não posso deixar de observar que preferiria que o preferiria que o prêmio tivesse ido para nosso poeta maior Ferreira Gullar. É incrível como a Academia sueca ignora essa riqueza que é a literatura brasileira... imperdoável! Eles erram demais!!!

    Marina

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  5. Queridos amigos

    Admiro Vargas Llosa (apesar de achar que o prêmio deveria ter sido dado a Ferreira Gullar). Sempre acho bom que "nuestra américa" seja lembrada, ainda mais por questões culturais e não as de sempre como miséria, violência etc.
    Mas infelizmente não estamos tão bem representados assim, em vista do conservadorismo das opiniões do Nobel de literatura...

    Em palestra em Princeton, Mario Vargas Llosa despeja ira contra Michel Foucault e os ideais da geração de 1968

    PEDRO MEIRA MONTEIRO
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    Uma virtude do pensamento conservador é lembrar que o discurso é guiado por espectros. Ao falar, tentamos materializar fantasmas.
    Há poucas semanas, o Nobel Mario Vargas Llosa proferiu em Princeton (EUA) a palestra "Breve Discurso sobre la Cultura". Seu fantasma era Michel Foucault (1926-1984).
    Ao peruano incomoda que a autoridade tenha sido profanada pela geração de 68, que, iludida, teria feito tábula rasa da "cultura" (que ele usa no singular).
    O surpreendente não é sua postura conservadora, mas sim a utilização de um velho módulo do pensamento antirrevolucionário.
    Ouvindo-o, lembrei-me do Visconde de Cairu (1756-1835), para quem a soltura dos corpos era a própria loucura da massa torpe e ignara.
    Delicioso paradoxo: Cairu, que reage aos indivíduos que se deixam tomar pelas paixões, deixa-se tomar pela paixão do discurso, lançando-se a golpes poéticos, comparando as revoltas provinciais no Brasil imperial a uma "explosão" de vontades mal concertadas, mais perdidas e enfurecidas que "os átomos de Epicuro" soltos no espaço.
    O velho ranzinza deixava-se tomar pelas mesmas paixões que pretendia controlar, e era pela soltura de sua imaginação que vinham à página seus melhores momentos como escritor. O problema é que Cairu nunca foi um bom escritor.
    Guardadas as proporções (Vargas Llosa é um bom escritor), o Nobel deste ano tem também o seu dragão.
    Sua ira, derramada contra Foucault, chegou a momentos ousados, como quando o espírito do filósofo francês foi lembrado em paralelo à degradação de seu corpo.

    MASTURBAÇÃO
    Foi com apreensão que ouvi Vargas Llosa evocar as excursões do filósofo pelos antros gay de San Francisco, para em seguida referir sua morte. Seria a AIDS, então, a justiça poética e maldita a recair sobre aquele que tragicamente negou a dissolução de sua vida moral?
    Houve outros momentos de pasmo, como quando suas baterias se voltaram contra toda uma tradição do pensamento crítico no pós-68, até que dissesse que tal pensamento não produziu muitas vezes mais que uma inútil "masturbação" (sic).
    Respeito os conservadores, especialmente aqueles que, como Vargas Llosa, têm a dignidade de sustentar publicamente sua voz.
    Houve, contudo, pelo menos um grande equívoco em sua fala: ele não se poupou à já usada e cansada gracinha de que, diante de um texto de Jacques Derrida (1930-2004), pouco ou nada se entende. Mas não é verdade que ele nada tenha compreendido.
    Ele compreendeu que o gesto de desconfiança em relação ao sentido, que está no coração da aventura desconstrucionista, é o mais perigoso de todos os gestos, porque comporta a aposta no desejo e na possibilidade mesma do desvio.
    Mas desvio de quê? Da cultura? Estaríamos todos fugindo dela? Mas cultura de quem? Para quem? Vargas Llosa não crê que, transviados, cheguemos à cultura. Por isso, o seu é o discurso da retenção, da contenção e do recalque em relação aos poderes dissolventes do corpo ou do Corpo, em sua dimensão política.
    Como no caso de outros conservadores, talvez o mais importante não seja o que ele propõe, mas sim aquilo de que foge.

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