Vou seguindo
O que,
Pra onde,
Não sei
Um chamado
Um caminho
Atrás de um achado
Um carinho
Sigo rindo
Mesmo se amei,
Odiei
O mundo é lindo
Sigo em frente
Atrás de tanta coisa
De tanta gente
Estou seguindo
Vou na corrente
Ela que me leve
Que me carregue
Deixo-me ir
Sigo a sorrir
Sem discutir.
Foto: Djair
Por do Sol em Oliveira - MG. Maio de 2009
Tinha hortênsias no jardim, laranjeira no quintal dos fundos, além da cerca de madeira nova havia uma pequenina cascata que fornecia água ao bairro. Da varanda avistávamos ao longe a Serra do Mar, era um horizonte pleno. Brincávamos na rua, e eu, que sempre gostei do do fogo, acendia fogueiras em tempos juninos e em outros quaisquer. As galinhas de casa eram poedeiras, assim como as marrecas. Poucas casas havia nessa época e só um ônibus servia o bairro. A alguns quilômetros uma fábrica de sardinha em lata, antes da curva que dava acesso ao rio, que nos proporcionava tardes prazeirosas sob o sol. Na mata do morro “catávamos” coquinho a valer por entre manacás e a flora 'multimilionária'. Depois de termo ido embora dali, a fábrica foi desativada. Dois anos depois havia sido invadida por sem tetos. Pouco mais de uma década passou até que eu retornasse ao lugar... Uma favela instalou-se a partir da antiga fábrica de sardinha. As casas antigas do bairro, poucas restaram. E estas, em lugar dos amplos quintais, abrigavam puxadinhos e cortiços. Não há mais jardim na que residi. Hoje é uma igreja evangélica com casa do pastor ao fundo e outra depois desta. Não tem mais acesso à cachoeira, mais sei que ainda existe e resistente, abastece o bairro. Mesmo o rio virou pequeno córrego e a enorme ponte de ferro que atravessávamos temerosos com receio de cair, enferrujada e decadente, quase não tem água a receber sua sombra. Acredito que mesmo os bagres, cascudos e carás tenham sumido, assim como os amigos do tempo pré-adolescente. Das casas mais belas, as que não foram demolidas, quase nada resta do original. Porque voltar?
Apesar de optar por fazer um blog de autoria exclusiva, em setembro publiquei um post com o título "junções", frase de Vitor Fasano na Novela de Glória Peres com uma outra de João Guimarães Rosa. Aqui segue, no que talvez se torne uma série, outra junção de duas frases, que a meu olhar harmonizam-se em casamento perfeito. A primeira, costuma ser atribuida a Henfil, após a publicação, na Revista Isto é, nos anos 1980, em plena campanha pelas Diretas. Quando da publicação ele mesmo informa te-lo recebido de outrem. ("Um dia em Jundiaí um puro, ao ouvir meu OPTEI pela organização do povo, me deu os seguintes versos, que passo adiante amanhã. Para ser lido dia 22 de novembro de 1982.") A segunda, de Elza Morante em "A História" "Se não houver frutos, valeu a beleza das flores... se não houver flores, valeu a sombra das folhas... se não houver folhas, valeu a intenção da semente" "Todas as sementes falharam, exceto uma, que não sei exatamente o que seja, mas que provavelmente é uma flor e não uma erva-daninha."
Foto: Djair - Florzinha rasteira no acostamento no "Caminho da Guia" em Floriano - Piauí. Desta vez a data está correta.
O que é mais excitante:
A viagem
Ou o arrumar da bagagem?
Quem está a esperar
Ou em quem se pode tropeçar?
Foto: Djair - Pescador no encontro dos rios Parnaíba e Poty em Teresina - PI, tirada a partir do restaurante flutuante..
Prajalpa – Em sânscrito quer dizer: conversa fútil e mundana, inútil para todos. Aqui leitor encontrará textos meus que refletem sentimentos e pensamentos com os quais me ocupei em algum momento. Alguns já publicados em outros veículos, outros escritos de chofre no momento da inserção, somando experiências e impressões muitas vezes contraditórias. O resultado tende a ser uma série de textos, ora apaixonados, ora irados, ora preguiçosos e malemolentes, outras vezes elaborados num "acerta aqui, conserta ali" caprichoso. Impressões e reflexões acerca do mundo que nos cerca, informações sobre o que vi ou li, reflexos de anseios, inspirações e decepções minhas... "Maior que o impulso sexual é o impulso de mexer no texto alheio". A frase do Jornalista Claudius Ceccon é de uma profundidade incontestável para quem escreve, e mesmo para muitos que apenas leem, seja prosa, poesia, crônica, o que for... Quem não sentiu vontade de dar final diferente a um romance ou novela, quem nunca achou que sua rima casaria melhor que a do outro ao final de um poema, ou ainda, pensou em um verso novo para um soneto? Caso sintas o impulso do qual fala Ceccon, use o espaço de comentários para interagir, sugerir, criticar, enfim, o que lhe apetecer. Boa viagem.
Esta semana, uma leitora, que acessou meu perfil, perguntou-me:
"_Você parou nos anos 90?"
E eu: "_como assim?" Ao que ela replicou:
"_Os filmes, você não gostou de nenhum dos anos 2000?"
Expliquei que gostei de todos os Almódovar, do último Woody Allen, dos dois do Claúdio Assis, especialmente: baixio das bestas. Mas nenhum tanto quanto os que cito no perfil, no entanto, senti vontade de falar sobre um que mexeu bastante comigo nos últimos tempos:
Bem-vindo
O drama dirigido por Philippe Lioret é “um tapa na cara”. Diferente dos filmes do gênero que trata o problema da migração humana como pano de fundo para romances, esse trata da (in)dignidade humana, da sordidez dos que se aproveitam dos miseráveis para em cima deles ganhar um pouco mais, e tem o romance como pano de fundo.
Bilal (Firat Ayverdi), o jovem refugiado curdo (iraquiano) que cruza o continente a pé a fim de chegar a Inglaterra onde espera jogar no “Manchester” ao lado de Bekman e Ronaldo é o personagem que dá voz aos imigrantes, que poderiam ser Fabiano e sua trupe (Vida Secas – Graciliano Ramos). E Simon (Vincent Lindon), o francês, ex-campeão olímpico, professor de natação, se compadece de Bilal, em princípio para mostrar a ex-esposa que distribui sopa aos “refugiados” como voluntária. São os personagens centrais num filme cru, que não tem pudor de mostrar as dificuldades criadas oficialmente como forma de manter longe os indesejados cidadãos “estrangeiros”.
Talvez ganhem mais forças os versos de Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawai): “Eu me sinto um estrangeiro, passageiro de algum trem que não passa por aqui, que não passa de ilusão.” Após observar o tratamento dado a humanos, por outros humanos. A ver a tecnologia criada para manter o outro longe, e mais não digo pois só o filme pode levar ao estado de indignação em mim despertada.
Quando canso Me calo Se entristeço Não falo Palavras são nada Sentimentos pelo ralo É constante a vontade de ir embora Irritante Essa história de que homem não chora Sou misantropo Homem-elefante.