
Lembrei-me
de Sr. Turiba, que era dono de metade das casas da rua onde morei dos
oito aos doze anos. Usava um aparelho para surdez, àquele tempo
enorme e indiscreto, possivelmente não tão eficaz quanto os de
hoje; pelo aparelho sua fama, que não era apenas fama, mas fato: era
surdo. Os meninos da rua chamavam-no de “seu Turiba – muchiba”.
Lá
pelos 14 anos, uma vez em que brincava com meus primos, juntando
munição para atirar uns contra os outros, lançávamos caroços de
feijões soprados por talos de folhas de mamoeiro e, não sei
porque, tive a “brilhante” ideia de colocar um dos feijões
dentro do ouvido... E ele ali, bem aconchegado, foi entrando duto
adentro... Resumo da ópera infantil: minha mãe teve que levar-me ao
pronto socorro para que o retirassem. A operação não durou mais
que dois ou três minutos, nada como experiência e equipamentos nas
mãos certas. Não olvido o comentário dos atendentes sobre aquele
que seria o terceiro caso envolvendo ouvido só naquele dia... Não,
não sei detalhes sobre os outros dois, mas foi o suficiente para
fazer crer que ouvidos geram se não contusões, pelo menos
confusões...
E pra
não esquecer Van Gogh, depois da cirurgia, as talas aplicadas em
volta do meu ouvido tomaram a cabeça toda, encobrindo a orelha e me
fazendo lembrá-lo. Pronto! Citado Van Gogh, deixemo-lo em paz e
passemos ao Cazuza com sua “A orelha de Eurídice”. A música que
tem um incrível solo de violinos traz o seguinte trecho: “Traz uma
orelha envolta num pano vermelho. É a prova: meu amor me espera sem
uma orelha.” Na época em que eu assinava a “Bizz”, revista de
música, uma delas trazia uma reportagem sobre o cantor, na qual ele
dizia ter praticamente psicografado a letra depois de um sonho: fazer
letras eram coisas difíceis para ele, pois levava mais de uma semana
em uma composição. Tendo dado essa letra a outro músico para
musicá-la, a recebeu de volta... Era Renato Russo o músico em
questão, que a devolvia dizendo não ter conseguido, que era
complicada... Salvo erro, foi assim a história; afinal a li há mais
de 20 anos. Mas continuando, Cazuza disse que saiu berrando pela
casa: “_Orelha, orelha, orelha... orelha rima com o quê? Com
pentelho!!!” E aí foi ele mesmo fazer a música... Dizia que a
ideia da orelha era referência a antigos modus operandi de
sequestradores que enviavam à família a orelha de suas vítimas...
Bem,
quem quiser e puder, consulte nas Bizz dos anos 1980/90 e vá ler a
reportagem completa.
Sem
orelhas os narizes não seriam tão eficientes em segurar os óculos.
E a indústria de jóias perderia toda a clientela dos brincos. E,
claro, já teríamos nos acostumado a nossas estranhas caras sem os
apêndices laterais, mas imaginar isso tendo-os é um tanto estranho.
Orelha,
orelha..
A
maioria das informações que recebemos entra-nos por elas... Talvez
por isso as abas dos livros, que nos trazem informações sobre as
obras e sobre seus autores, também optamos por chamá-las: orelhas.
Nunca
ouvi ninguém dizer a mim ou a outrem: “_Você tem as mais belas
orelhas que já vi!” E se ninguém disse, ninguém escutou... mesmo
tendo ouvidos.
E antes
que eu ouça um pito, vou voltar ao repouso, que é o recomendado a
meu ouvido!
Foto: Djair - A própria orelha, enquanto o texto era escrito.
Áudio:YouTube - A Orelha de Eurídice - Cazuza
Foto: Djair - A própria orelha, enquanto o texto era escrito.
Áudio:YouTube - A Orelha de Eurídice - Cazuza