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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Missivas



O comentário da Rosane, no: “Palavras a rede...*” trazem recordações de outros tempos, bem antes do “Central do Brasil”, Fernanda Montenegro escrevia as cartas de anônimos na estação de trem que dá nome ao filme.

Quando tinha uns 16 ou 17 anos, era eu o encarregado de escrever as cartas de Arlindo, um jovem vindo de Alagoas que morava próximo de casa e não sabia escrever, para os pais e para Erucinda, sua namorada, que ficou na terra natal. E ainda do irmão de Erucinda, Nivaldo, que tinha vindo com o amigo tentar a sorte no Sul-maravilha. Na época, morávamos em Cubatão, já divisa com São Vicente, no “Caminho dos Pilões.*” Com o tempo, Erucinda arrumou outro e deu-se fim à correspondência de Arlindo. Nivaldo desencantou-se e voltou pro Nordeste onde era feliz e não cria.

Tempos mais tarde, já no Piauí, fui convocado a escrever as cartas de d. Antônia e sua irmã, Alice. Ambas trabalhavam no mercado de Floriano, vendendo comida, café, bolos, que eram muito saborosos. Escreviam a filhos de criação, já que não tiveram os delas, e que estavam tentando a sorte em Brasília... Sempre se vai buscar a sorte em algum lugar... Ou para amigos que estavam longe... Uma vez viajei em férias e, ao regressar encontrei D. Antonia desencantada, pois como eu não estava, pediu a outra pessoa para fazer uma carta e a carta feita só lhe causou confusão, pois tinha saído totalmente diferente do que ela ditava ou queria. Então só confiava em mim...

Durante anos também troquei correspondência com diversas pessoas, Augusto, Olacyr, Núbia, e outros que nem lembro o nome, falando de impressões da vida, poesia, música, desencanto, literatura, ou simplesmente narrando o cotidiano. Pessoas que conhecia, pessoas que vim a conhecer depois de trocar cartas e pessoas que jamais vi ou senti. Participei até dos Famigerados FB´s. - Friendship for Book (Ah, a maldita mania que as pessoas tem de dar nome em inglês para tudo. Me faz até lembrar do caso narrado por Roberto Santos – Cineasta de “A hora e vez de Augusto Matraga - que atendendo ao pedido de sugestão da empregada para o nome do salão de cabeleireira da filha, sugeriu: “Maria Bonita”, e eis que dias depois ela inaugura o “Mary Beautiful”! Ai de nós...) Mas isso é tema pra outra postagem. De volta aos FB´s: consistiam de um bloquinho feito por quem quisesse, com o nome e endereço de quem o lançava e vários espaços para que os outros preenchessem; mandava-se a um correspondente que enviava a outro, e este a outro... No fim, deveria ser enviado a quem o criou e as pessoas, por quem circulou, que escrevessem a quem lhes interessasse. Comigo nunca deu muito certo no sentido de novas amizades. E tinha gente que estava sempre em todos e nunca escrevia, depois soube que tinha gente que os colecionava!!!

Ainda hoje, vez em quando, escrevo uma carta ou outra... Maricildes, Madalena... Mas já sem o furor dos tempos em que também esperava ansioso por respostas... Quando mantinha controle de cartas enviadas e recebidas, para quem, onde e quando... Hoje ainda adoro recebê-las, no entanto já quase não as escrevo, ocorre-me a mesma malemolência dos e-mails longos... Ou respondo de cara, de uma vez, ou ficam arrastando-se por dias e dias até que me surjam as respostas...



Foto: Djair - cartas, cartões, bilhetes, selos, envelopes...
* http://prajalpa.blogspot.com.br/2010/02/palavras-rede.html
 

11 comentários:

  1. Adorei, Cartas, me fez lembrar o filmeo carteiro e o poeta, ainda para muitas pessoas as cartas são importantes, grande abraço

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  2. Agora fiquei na dúvida... fato ou ficção?! Se levar em conta sua versatilidade e capacidade intelectual, diria... pode ser fato ou ficção! rs... sei lá! Vou encomendar uma carta... bjoka!

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  3. Verdade verdadeira, Ypsis Litereis, poderia falar mais, e mais... Sobre as coleções de postais, e cartões telefônicos (antes de a telefônica se instalar em São Paulo e detonar com a cartofilia); as poesias de Katya, ou as fitas cassete recebidas do Augusto, tudo via cartas, acho que foi a assiduidade com a qual as escrevia que me ajudaram na redação do vestibular...

    Ou seja: Fato!!! rs.

    "Recebo crack colante, dinheiro farto embrulhado
    Em papel carbono e barbante
    E até cabelo cortado, retrato de 3x4
    Pra batizado distante
    Mas, isso aqui, meu senhor,
    É uma carta de amor..."

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  4. Escritor, escriba, correspondente, como disse Freud "a escrita é a presença do ausente".
    beijos de uma também ex-correspondente assídua.

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  5. Q saudade da minha adolescencia qdo trocava cartas e mais cartas c/ um amigo q depois virou mais q um amigo...isso não é justo! Vc me deixou c/ saudade...rsrsrsrsrs Agora é só email p/ lá e p/ cá... Será q ganhamos ou perdemos?

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  6. Levo o mundo e não vou lá. Levo o mundo e não vou lá... Adorei! Vc colecionava cartões telefônicos, não? Sabe que nunca mandei uma carta de amor pra ninguém? Já que email não conta... rs. Bjs

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  7. Fiquei também cismado. Ficção ou realidade? Djair, sempre pensei que escreveria lindas cartas para os meus pais, que agora moram em Floriano. Mas o fato é que nunca senti-me à vontade ou, talvez, coragem de escrever uma. Talvez a velocidade do dia a dia dos e-mails, do celular e de toda a parafernália tenha matado a minha vontade. Talvez a tecnologia seja o meu álibi. Mas depois de ler o seu texto, aquela lombriguinha apareceu novamente.
    Viva as cartas!!

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  8. Hummm, que bom espero que a lombriguinha cresça e com isso logo seus pais recebam lindas cartas...
    Floriano??? Agora deixaste-me intrigado!

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  9. É, foi-se o tempo das cartas escritas e enviadas por correio. Lembro-me que escrevia em papel fininho, de seda, para não pesar muito. Ah! escreva logo sobre essa mania que as pessoas têm de dar nome em inglês para tudo. Também acho ridículo. Estamos no Brasil !!!

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  10. Olá querido amigo...tambem escrevi muitas e muitas cartas...eu era o elo de comunicaçao da família da Espanha e a familía que estava no Brasil...tudo era curiosidade...naquela época e lá de vao anos...chegaram a me perguntar se os índios conviviam conosco...depois foram indo para outro plano e as cartas foram rareando até que meus filhos vieram pra Espanha...começou tudo de novo...por telefone ficava muito caro entao recorríamos as cartas...postais...nelas conselhos...preocupaçoes e com o passar dos anos acabamos aqui tambem...agora com a net fica mais fácil a comunicaçao com a família...os amigos...com o skipe podemos vê-los e parece que nao estamos tao longe das pessoas que amamos...pois sim escrevi muitas e muitas cartas...gostei do tema que vc postou me fez recordar muitas coisas.
    Beijao com muito carinho...Soni@

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  11. Bela crônica, Djair! Li agora, após sua indicação num comentário em sua página no FacebooK!
    Luiz Otávio de Lima Pereira

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