
No cais de Floriano (Piauí), que nada mais é que um pequeno pedaço da beira-rio coberto por cimento, de onde saem as canoas motorizadas com destino à vizinha Barão de Grajaú (Maranhão), os moradores daquela cidade, à noite, ao se demorarem nos bares, namoreos e outros "que fazeres", gritavam a altos brados: Canoeeeeeeiro!!!, até que este viesse ao lado piauiense para atravessá-los.
Na época já era maltratado, cheio de anúncios e quase sem as lavadeiras que bordavam-lhes as margens ao estenderem ali colchas, toalhas e roupas coloridas e que, aos pés do Parnaíba, se prostravam em culto corriqueiro, conforme anunciava Katya Carnib em seu delicioso poema*.
Entraram e saíram governos e este espaço onde, quando cheguei àquela cidade, ficavam os bares e se ouvia Belchior (na palhoça da tia Chica) e Caetano (no Luar), foi ficando cada vez menos atrativo. Metade foi reformada há cerca de 15 anos e a outra metade esquecida para sempre após reeleição do prefeito da época.
Era o ponto de encontro nas férias, de manhã banho de sol, banho de rio, que às vezes acompanhava pescaria no deck do flutuante, à tarde sempre o pôr-do-sol (os mais belos)... Quando caía a noite, cerveja certa com os amigos no Acauã.
O cais fervilhava, sempre cheio de amigos e amigos destes, de fora, pois àquele tempo, vinha muita gente de fora conhecer a Princesa do Sul - Floriano.
A princesa foi destronada, o cais onde pixávamos poesia cedo foi tomado pelas propagandas... Algumas enormes como a precursora Itapemirim e outras que as seguiram. Agora vendo a foto, para o bem, observo que nem elas existem mais.
É... Como disse um poeta: nostalgia é saudade de um lugar que não existe.
* Rio Parnaíba
Katya Carnib
Rio Parnaíba, terapia dos pescadores suplicantes e das rústicas lavadeiras, que a seus pés se prostram num culto corriqueiro, afrodisíaco do vento que beija as pernas das mulheres que visitam o cais. Venero-te Parnaíba, Parna-Nilo do Piauí.
Foto: Djair - Cais de Floriano, visto a partir do ponto de desembarque de canoas, em Barão de Grajaú - MA