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domingo, 22 de junho de 2014

Um dia de Flamengo e Ríver

      E quando moramos em Teresina, naquele longínquo 1979, quiseram o destino e a vontade dela, que minha tia Dacilene, a quem todos chamam até hoje Daça, vir passar uns tempos conosco. Naquele final de década eu cursava a sexta série, em uma escola cuja farda era camisa branca e calça de mescla. À tarde, depois de chegar do colégio, banho tomado, sentávamos à calçada, à sombra, e por vezes colocávamos ali a televisão, abrigando-nos assim daquele calor digno de Macondo, que só García Márquez saberia descrever tão bem. Ali, vez por outra, um passante parava à rua para assistir ali um pedaço do capítulo da novela, ali comprávamos o leite por volta das 18:00hsdo moço que trazia os galões na bicicleta, e os pães e broas, manuês e bolos que outros traziam em bicicletas ou dos que vinham a pé trazendo em cestos bolo de fubá, bolo frito e toda sorte de quitandas. Já era praxe e venda garantida. Na casa ao lado, D. Raimunda fazia o mesmo, embora sua TV não saísse da sala.

      Naquele final de década, o Flamengo do Rio tinha Zico, e o Flamengo do Piauí, tinha... tinha... bem, tinha lá seus jogadores. Fui com tia Daça e Socorrinha, uma de suas amigas, que a mim causava sempre uma impressão... Forte... O olhar lânguido, os cabelos cacheados e a pele muito clara que contrastava com o castanho escuro daqueles cabelos, pequena estatura, voz suave... Bem, fomos a uma das partidas; como diz minha mãe: se o espirito não me mente e a verdade não me falha, o jogo era com o Ríver. E fomos de camisetas, rubro negras, bandeira em punho, enorme, cuja haste era de talo de buriti, leve e firme.

     No Albertão, eu ainda não conhecia Morumbi, nem qualquer outro estádio, a imensidão da torcida, toda empunhada com as bandeiras. No intervalo, refrigerante e coxinha; foi onde vi pela primeira vez os desenhos da genitália humana, que o populacho reproduz pelas paredes e portas, muros e onde mais lhes caiba a mão e o giz, caneta ou pincel, por seu simples desejo ou pelo pouco uso que faz deles, igualzinhos aos que Pedro Nava descreve em seu “Baú de ossos”, com a diferença de que ele as vê, se não me trai a memória, no Maracanã. E surpresa, mas nem tanto, ele ainda menino, eu também, reconhecemos nas tais figuras a tal tesoura mal desenhada, o triângulo com riscos que me lembrava apenas o símbolo que tinha na porta da loja maçônica, não trazendo quaisquer outras considerações ao menino de 12 anos. Lembro que comentei da tesoura e minha tia, como o tio de Nava, confirmava que o objeto cortante era mal desenhado.

      Volta à arquibancada, e que vexame!, não lembro de quanto, só que perdíamos feio, e nem cheguei a ver que ali estava também meu pai, com uma das muitas amantes que teve durante a vida; só soube disto por ouvir conversas depois... Mas antes disso minha tia, a pretexto de que estávamos mesmo perdendo, chamou-me a ir embora, mesmo sem terminar o jogo, afinal, a saída era muito cheia de gente e seria complicado, melhor já ir embora mesmo. E fomos...

      Ao escolher o táxi, já que o jogo ainda não tinha terminado e eles abundavam à saída do estádio, lembro que escolheram o de um rapaz bonito; é, tia Daça e Socorrinha eram moças e à época não consta que tivessem namorados. Além de que, era só pra olhar mesmo. Pegamos o carro do moço, tia Daça bufando pela derrota me mandava enrolar e esconder a bandeira que eu teimava em trazer aberta. Pois bem, bandeira enrolada, entramos no carro e... o tal moço bonito era um anti-flamenguista ferrenho, ou dizia sê-lo a fim de fazer charme, e assim fomos até em casa ouvindo o sarro que ele teimava em mais tirar, quando mais amuadas as moças ficavam.

      Mas que foi um belo passeio, isso foi!


 Foto: Internet - Estádio Governador Alberto Tavares Silva "Albertão"
 http://folhadebatalha.com.br/portal/?pg=noticia&id=3043


Um comentário:

  1. As memórias...estão tão presentes em nós,que configuram um lindo presente cheio de vida,cheio de doçura,cheio de encanto que, nem um dia de 'Flamengo de Zico',nem tão inspirado,conseguiu tirar a ludicidade dessa linda história.

    Beijão,Dja!Dani.

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