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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Recordar para esquecer



            E desde quando recordar é viver? Quem o disse, foi apenas porque aquilo que recordava era saudade, era saúde, era saída, era o sal.
E se o que recordava fosse apenas uma pulsão de morte, de desagrado, de desamparo, de desgraças cotidianas de ressentimento? E de desagrado em desagrado torna-se profano o que outrora foi sagrado e nisso não há saudade.
A lembrança da maldade, a maldade que se faz, ou aquela que se recebe, aquela gafe cometida mil vezes relembrada. A escolha pela via da direita ou quiçá da esquerda quando o caminho bifurcou e que foi a escolha mais errada entre todas as que se tomou... Mas quem há de saber o desenrolar da própria história se o caminho escolhido tivesse sido outro? Mas a lembrança doura ou escurece, descasca ou colore os fatos. E quanto mais nefasta ela se torna e mais presente ela é, quanto mais se quer esquecer.
Recordar também é morrer... Talvez por isso os velhos vivam tanto de lembranças. Porque morrem... E por isso tantas e tantas orações, repetidas com fé, com fervor, e como quem não quer dizer nada... nos terços, nas rezas, nas velas.  Nas que iluminam, nas que são acesas sobre bolos, como ampulhetas que se emprestam o papel de contar o tempo, o que passou e o que lhes resta.
Um grão de lembranças, outro de saudades, saudades do tempo em que não esqueciam rostos, nomes, talhes... Saudades de lembrar os fatos não saudosos, mas os de agora, que se perdem enquanto a memória só traz  com nitidez lembranças antigas.
Não, recordar não é viver. Sobretudo quando se quer esquecer.


Foto: Djair - Colunas - adorno - Igreja matriz da cidade de Goiás (Goiás Velho) - GO 

8 comentários:

  1. Teus textos, como esses, estão bem pesados - como a vida! É bonito, é bom dizer o que não se quer ouvir, é bom bater na mesma tecla descobrindo outros sons. Gostei muito!

    Jair

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  2. Patrícia Carla Santos: ah... lindo texto!
    e que veio de encontro ao q estive pensando nisso hj enquanto andava pela USP e todas as coisas q vivi lá. e comentei q estava feliz pq as coisas boas não me machucavam mais.
    tb pensei no qto o tempo nos deixa nostálgicos. e é bem isso que vc coloca no texto.
    por outro lado, acredito (e exercito) o lembrar de algumas coisas ruins, de coisas q me machucaram. preciso q elas fiquem por um tempo em todas as paredes da casa p q fique bem vivo na memória pq algumas coisas/pessoas devem estar fora da minha vida.

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  3. Que lindeza de texto ! Você sempre traduzindo aquilo que vai na alma e que não consigo nem mesmo traduzir em lágrimas. Obrigada querido! De volta a ler o blog e já começo com grandes emoções!

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  4. Fato. Por isso é sempre bom buscar boas experiências, viver bem, viver com honestidade e fraternidade, para poder ter mais boas lembranças do que ruins, pois que está claro, nem sempre a vida é doce. E se as experiências foram muito azedas, tristes mesmo, melhor é ir pro bar pra dar risada com os amigos, ler um bom livro, apreciar um belo pôr de sol, e criar novas lembranças, mais alegres! Amei o texto, me identifiquei muito. Agradecida!

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  5. Que bela reflexão Dja!!! Mas acho sim, que recordar é viver, ou reviver uma situação que já se foi, mas que pela força do pensamento vc consegue trazer ao presente, quase que aqueles mesmos sentimentos, sensações e até o mesmo sabor... mas recordar tb é morrer, no sentido de deixar de sentir o que se sentiu com a mesma intensidade, do que foi bom ou ruim... É transmutar as recordações ruins em outros sentimentos, qdo podemos enxergar como lições, aprendizados, e até em boas risadas... e as boas recordações em saudades, guardadas com carinho em nossos corações. Beijinho com carinho!!!

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  6. Bom texto como sempre para refletir. gosto de reviver momentos interessantes. beijos

    Carminha

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  7. Importante também lembrar das coisas ruins... pelo menos, creio que me ajuda sempre a digerir... Se eu puder enxergar o problema sob outros pontos de vista, melhor ainda. Ótimo texto, Djair. Abraço, Gizelton.

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  8. 'E o esforço pra lembrar
    É a vontade de esquecer..'

    Recordar é viver a vida que se vive cada dia a menos.

    Beijão,Dja!Dani.

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