“Algumas pessoas não
tem nada a dizer, mas você precisa ouvir muito tempo para
descobrir.”
Desconheço,
a autoria da frase, mas concordo plenamente; a cada vez que vou a
palestras, seminários, congressos e afins, me recordo dela.
A
síndrome do palco, assim como a síndrome do microfone, estão cada
vez mais disseminadas, uma verdadeira epidemia, e seus atores, estes,
são cada vez mais canastrões. O que torna um verdadeiro prazer
quando vemos e/ou ouvimos alguém a falar com conhecimento de fato,
que respeita o tempo do outro e não se perde em citações
exageradas a fim de mostrar conhecimento. Aliás, aqui já falei
sobre os repetidores de citações e suas referências sem fim, que
se prestam a demonstrar erudição; então gostaria de pular este
capítulo e deixar estes a arrebanharem fãs entre os incautos
(incultos?) e fazerem seguidores às dúzias em suas redes sociais a
cada nome de vulto repetido após uma frase atribuída a eles. Mas
com uma densidade rasa em deus discursos.
Por
isso mesmo, o texto foi aberto com uma frase anônima, pois quantos
“anônimos” não têm uma sabedoria pura, clara e uma capacidade
de lógica e raciocínio desenvolvidos por si próprios, pela arte da
observação, o que permite que lampejos luminosos lhe invadam o
pensamento? Eles o fazem sem termos científicos, não se preocupam
se a oração é coordenada sindética ou assindética, não colocam
palavras ou termos como “paradigma”, “baseado em evidências”,
e etc. Aliás, o grande ganho de já estarmos na segunda década do
século é que agora caducou o “às portas do terceiro milênio”
dos discursos travestidos de novidades.

Esses
anônimos iluminados nunca usaram esses termos, mas trazem em seus
discursos simples e objetivos, em suas metáforas diretas e bem
acertadas, um conteúdo maior que o usual “#fato”
com que hoje, muita gente acha que está a comentar, a dar uma
opinião, a tecer um pensamento, e na verdade não diz nada, não
quer dizer porra nenhuma. Mas aqueles primeiros, esses sim
tecem comentários certeiros a respeito da vida, da alma humana, da
sociedade, e assim homens singelos tornam-se filósofos, como tio
Onofre, vaqueiro de tia Maída, a falar sobre fazendeiros para quem
serviu e cujos filhos perderam toda a riqueza acumulada pelos pais,
por orgulho e gastança para ostentar, trazendo hoje a infelicidade
na alma ao constatar que os amigos o abandonaram junto com a fortuna
que se ia.
Ele
não cita filósofos, não cita escritores laureados, cita a vida.
Foto: Djair - Tio Onofre, vaqueiro, agricultor, rezador e sábio.