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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Morrer e matar de amor...


            Ontem morreu o cantor Wando, cantor romântico que embalou romances, “pegações” e  outras nuances, fundo musical há décadas de enlaces sexuais, afetivos ou não. Cantando ora em prosa, ora em verso, realidades como em Moça: “Moça, sei que já não és pura, teu passado é tão forte, pode até machucar...”, em uma época que a virgindade ainda era condição sine qua non para que uma moça fosse considerada de respeito. Depois o cantor já não tão romântico passou a colecionar calçolas, calcinhas e tangas atiradas por fãs em seus shows. Estimulando que o fizessem...
            O público romântico é grande, haja visto a imensa quantidade de comentários, lamentos e homenagens nas redes sociais da internet. Também o sol não há como negar. Mas... Vou mais fundo, mais que o romantismo... adoro o “Passional”, aquela passionalidade intermitente que narra o fim dos casos de amor.

            Em Bilhete, de Ivan Lins e Victor Martins, interpretada por Fafá de Belém (não a dos pastéis de Belém, mas a cantora da capital paraense), há alguns dos versos mais fortes, a meu olhar pelo menos, acerca dos fins de relacionamento. “Eu limpei minha vida. Te tirei do meu corpo. Te tirei das entranhas. Fiz um tipo de aborto. E por fim nosso caso acabou, acabou, está morto.”  Difícil uma comparação mais forte... É a imagem de ressentimento e resolução. E para que não restem dúvidas do fim, prossegue: “Jogue a cópia da chave, por debaixo da porta, que é pra não ter motivos de pensar numa volta. Fique junto dos seus, boa sorte. Adeus!”

            De cara me traz a lembrança de falecidos relacionamentos, por exemplo, a de uma amiga cujo marido achou que precisava de um tempo, mesmo depois de um tempo longe, forçado pelo trabalho. Ela não teve dúvidas: “Como a casa é minha, você tem duas alternativas: ou você arruma suas coisas, ou... eu arrumo suas coisas, qual você escolhe?”.

            Muitas músicas como esta evocam imagens, caso de Espumas ao vento, de Accioly Neto, interpretada por Fagner, Ricky Vallen e estupendamente por Elza Soares. Nessa composição o autor pernambucano “chora” as mágoas de um amor que morre, tentando com o pranto e dor oferecidos, como se fosse uma dose de epinefrina, ressuscitar o moribundo amor: “Sei que errei, estou aqui pra te pedir perdão. Cabeça doida, coração na mão. Desejo pegando fogo. Sem saber direito aonde ir e o que fazer.Eu não encontro uma palavra para te dizer. Mas se eu fosse você, eu voltava pra mim de novo.” No filme Lisbela e o prisioneiro, na cena que vai à tela com a música ao fundo, a epinefrina não surte efeito, o amor já está morto, substituído, e foi unilateral. A mulher abandonada chora, limpa lágrimas, retoca pintura e vai em busca de vingança.
            Um casal conhecido, ao separar-se depois de poucos anos de convívio, onde um não queria a separação, no caso o marido, executivo bem posicionado, saiu-se com a vingança de... dividir os presentes de casamento, por pura picuinha, e levou metade das panelas. Deve ter jogado no primeiro lixo à frente, mas vingou-se.
            A Passionalidade, permitida às mulheres com choros e ranger de dentes, ganha aspecto masculino na vingança, agora um pouco mais evoluído, passa pelo financeiro. Outrora era fatal, lavar a honra com sangue era uso corrente, principalmente porque nos idos anos da história adultério era crime. Podia mandar pra cadeia. Mas os senhores de suas esposas não perdoavam, e  apenas para ficar nos casos famosos, Lindomar Castilho (que era cantor de músicas apaixonadas, passionais... Como: Nós somos dois sem vergonhas A vida imita a arte?)  e Van Doca Street foram notórios casos de desfecho funesto. Helena de Grammont e Angela Diniz foram para as covas, mortas supostamente por amor. Vieram campanhas nacionais “Quem ama não mata” e outras por condenações aos assassinos em uma época que Maria da Penha não era lei e a mulher era ainda mais desamparada.
            Mas a passionalidade musical nem sempre é tão perversa, e exceptuando Amado Batista em  Não faça jamais como eu fiz, não me recordo de outro caso acabado em morte. “Se acaso lhe acontecer de amar uma mulher da vida, você nunca deve esconder, não faça jamais como eu fiz. Matar uma pobre infeliz pelo amor que ela foi vender.” Este amor infeliz é mais comum às literaturas e caiu em desuso no cinema.
            Talvez a canção mais clássica sobre separações seja Trocando em Miúdos de Chico Buarque de Hollanda, que aprecio em todas as versões, do próprio Chico à Zezé Mota. Nela o casal faz a partilha dos bens e arremata ao dizer que o outro “Pode guardar as sobras de tudo que chamam lar.” E  no desfecho uma praga: “Aceite uma ajuda do seu futuro amor, pro aluguel.” Afinal, nos rompimentos sempre se deseja que o outro lembre que sua própria vida era melhor com aquele a quem deixa. Mas Chico deixa claro o fim com o verso: “Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer. Aquela aliança você pode empenhar ou derreter.” E... lá me vem a memória mais um “causo”, de uma amiga que após alguns anos do término do relacionamento, já passado luto, foi empenhar a aliança, e ao ouvir da caixa: “Nossa, mas tão bonita, tão diferente, a senhora tem certeza de que quer mesmo empenhar?” respondeu a sábia amiga: “Minha filha, o marido valia muito menos, e eu já larguei. Passa esse dinheiro pra cá!”
              Renato Russo, entre muitos, prova que o coração roqueiro também sofre, em versos como: “Estamos medindo forças desiguais, qualquer um pode ver, só terminou pra você” (Os barcos).   E, aproveitando a deixa do verbo terminar, fico por aqui; se fosse uma tese ou dissertação iria fazer uma análise comparativa e discorrer sobre muitos outros casos e causos de amor e canções, mas como não se trata de... ficamos aqui, quem sabe retome o assunto em outro momento. Outras músicas.

11 comentários:

  1. e vc me fez lembrar do tempo em que eu ouvia Trocando em miúdos e queria cortar os pulsos... do outro... em miúdos... com faca de serrinha... bem devagar...

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  2. e por falar em vingança, não esqueçamos Lupicínio Rodriugues:

    Mas, enquanto houver força em meu peito
    Eu nao quero mais nada
    Só vingança, vingança, vingança
    Aos santos clamar
    Ela há de rolar como as pedras
    Que rolam na estrada
    Sem ter nunca um cantinho de seu
    Pra poder descansar

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  3. Acrescentando à lista:

    Atras da porta (Chico Buarque)

    Quando olhaste bem nos olhos meus / E o teu olhar era de adeus /
    Juro não acreditei Eu te estranhei me debrucei, sobre o teu corpo e duvidei/ E me arrastei de te arranhei / E me agarrei nos teus cabelos
    Nos teus pêlos, no teu pijama / Nos teus pés, ao pé da cama. /
    Sem carinho sem coberta / No tapete atrás da porta / Reclamei baixinho / Dei pra maldizer o nosso lar / Para sujar teu nome te humilhar / E me vingar a qualquer preço / Te adorando pelo avesso /
    Pra mostrar que ainda sou tua / Só para mostrar que ainda sou tua...


    Aiiiiii, uiii, tá doendo......
    E a Adele falou que só compõe quando está sofrendo...

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  4. Remendos
    Zezé Motta
    Se quiser que eu vá
    Não precisa ensinar o caminho da rua
    Deixou de amar
    Não precisa enganar que eu ainda sou tua
    O que fazer quando o sono não chega
    E a cama fica apertada pros dois
    O que dizer se te pego abatido
    Com o olhar esquecido
    Me deixando sempre pra depois
    O que fazer se já não conseguimos
    Costurar os remendos
    O que dizer
    Se o silêncio é o vício
    Desses nossos momentos
    Desesperar é loucura, é loucura
    Remediar, nosso mal não tem cura
    Se quiser que eu vá
    Não precisa enganar que ainda sou tua

    Mais uma música passional. Beijos amigo. Ana Angélica.

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  5. Pois é, a cada dia estou mais convencida de que amar não é para os fracos...mas, como disse, ainda acho que a melhor vingança é o desprezo. É elegante, tem requinte, não suja, não deixa cheiro nem provas do homicídio passional. beijo e obrigada por mais este texto para os momentos de pausa...Wânia

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  6. Menininho
    Por isso que sou a favor do casal morar separado, cada um numa casa
    Acho que assim o relacionamento dura mais
    BJS
    menininha.

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  7. Seu texto é muito bom, Djair. A propósito, ontem o STF decidiu que qualquer pessoa pode denunciar à polícia agressões físicas ou morais sofridas por uma mulher. Abraço, Luiz Otávio

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  8. O amor,esse sentimento eloquente que mexe com a gente.Há quem diz que amar é brega,está fora de moda.Não acredito,pois todos amam;alguns não admitem estarem sentindo esse sentimento;e aqueles não correspondidos?Dói!
    Cada um tem seu amor guardado no fundo do peito.Tem sempre aquela pessoa que faz seu coração disparar,bater na boca e nos ouvidos.
    Como em um trecho de uma música de Hebert Viana:"Todo amor..todo amor dorme;numa caixa,numa gaveta,numa sala escura que às vezes visito como hoje num sonho.."
    O amor:arrepio da alma.
    O amor é lindo de viver!
    Beijão,Djair!Um lindo domingo para ti.Dani.

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  9. Amor....Ai, amor...Nos meus 33 anos, esta é a 1a vez q sofro por ele e não é fácil....Lindo o texto Dja!!! Bjsssssssss

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  10. Como você mesmo me ensinou um dia, nos términos: Deus os abençoe, que a felicidade seja proporcional à distância, quanto mais longe mais felizes!
    A melhor coisa da vida é quando a gente, um dia após vários meses (ou anos..), exuma o passado e vê que não sente mais NADA. Como a libertação é linda!!!
    Livre para o novo, novas oportunidades, novo amor com suas respectivas alegrias e tristezas.
    Que do passado fiquem apenas os bons momentos e o aprendizado.
    Que venha o futuro!

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  11. Adorei!!! Vc fez do passional, um peso na vida de qquer um, uma coisa leve...antes fosse assim...mas infelizmente não é...rsrsr

    bjss

    Sil

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