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segunda-feira, 1 de março de 2010

Sobre medos e filmes


    Esta semana ia escrever sobre a má educação das pessoas, mas ao assistir um filme na véspera, senti vontade de falar sobre ele e as impressões que me passou. Filme antigo, desses que em um filme cabe toda uma vida, com fotografia bela, figurino impecável e uma história que faz com que, dois dias depois, ainda se pegue a pensar sobre o que se viu...


    O filme? “Clamor do Sexo” – Splendor in the Grass, que narra a história de Bud (Warren Beatty) e Deanie (Natalie Wood), jovens do Kansas – E.U.A.

    Dirigido por Elia Kazan, de 1962, tendo o romance dos protagonistas como pano de fundo, é uma ode aos medos da juventude de uma época (anos de 1920), o das mulheres de se perderem na condição de vadias, o dos rapazes de fugirem aos planos paternos traçados para eles, o das famílias de classe média de verem suas filhas desgarradas e transformadas em motivo de comentários da vizinhança, ou do não cumprimento de seus planos, os filhos nascem para serem alguém e manterem ou multiplicarem seus recursos e ideologias. Afinal, se se tem medo de mudanças, o melhor meio para evitá-las é fazer com que se perpetue o que existe.

    No entanto, onde colocar o desejo que, por princípio, é mudança?

    E como tratar esse desejo, ceder a ele e correr o risco de perder-se em um universo desconhecido? A irmã de Bud, Ginny Stampe (Barbara) desafia esses conceitos e, ao enfrentar pais e sociedade, é uma moça que se entrega a todos os tipos de prazeres mundanos, e como não poderia deixar de ser, perante o público/sociedade da época, se autodestrói.

    O próprio Elia Kazan, nascido grego e desenvolvendo carreira nos “United States”, perseguido pelo comitê de investigações de atividade antiamericanas que caçava pretensos comunistas, entrega colegas, manchando para sempre sua carreira... por... Medo... Nunca filmou sobre o ocorrido. Em 1999, quando recebeu um Oscar honorário, pelo conjunto da obra, causou divisão na platéia que aplaudia ou vaiava ruidosamente.

    Mas e quando presenciamos atitudes com as quais não concordamos, que fazemos? Delatamos ou calamos? Afinal a delação passa a ser a fofoca, o falar mal de, e logo vem o “mas o que é que eu tenho com isso?” E então, a delação seria um ato de coragem ou covardia?

    Voltando ao filme, há ainda os personagens secundários, as mães, a que super-protege (de Deanie), com medo da perda da virgindade da filha, seu maior medo, e a que é passiva diante de filhos, marido, tudo e torna-se apenas um pastiche de si (a de Bud). E quantas mães não conhecemos em que as reconheceríamos?

    Lembro-me de um caso, ocorrido há cerca de uns 15 anos, ocorrido com conhecidos, onde uma avó, que criava a neta e, quando essa foi desvirginada pelo namorado, comentou: “_Ele inutilizou a menina.” Bem, pelo meu ponto de vista, ele deu-lhe uma utilidade a mais...

    Já um antigo colega de trabalho de outros tempos, Amilton, dizia: “_O problema não é dar, é alguém ficar sabendo!” Uma grande verdade dita de forma jocosa, afinal a vida sexual do outro sempre é atraente a certos círculos.

    Não temos esse medo o tempo todo? O medo de magoar a quem se gosta. O medo infundido na infância pela igreja que nos traz a culpa Judaico-Cristã do pecado original, Mea culpa, me culpa...

    Medo de frustração profissional, de não aceitação em um grupo, de se frustrar com o outro, ou de não corresponder às expectativas daquele. Não há para onde correr: os medos nos cercam por todos os lados, desde o primal medo do escuro até o medo final na hora da morte... Para onde estou indo, devem temer os agonizantes, e por isso se agarram ao corpo debilitado com suas últimas e combalidas forças. O medo que se transforma em pavor e nos faz orar com fervor.

    O receio sempre presente de se estar a fazer o que realmente é certo...

    O medo do ridículo... Como diz Oswaldo Montenegro: no  “nosso ridículo eterno, nós temos a impressão pela igreja católica que temos o pecado original, mas temos mais, temos o ridículo original (...)”

    Lembro que, ao concluir uma etapa do curso de homeopatia, tínhamos que apresentar o trabalho sobre o simillimum, que é o medicamento mais próximo possível das características do paciente, e eu deveria apresentar o Sulphur. Apresentei apenas o trabalho escrito, com a alegação que: “Sulphur não fala por timidez e medo do papelão”.*

    Sim, deve ter pessoas felizes sem quaisquer sentimentos de culpa, sem o medo presente dentro de si, e que livres disso, nunca metem os pés pelas mãos... Deve haver as centenas de milhões, mas não entre esta cadeira e este teclado.


* J. A. Lathoud. Matéria Médica Homeopática. São Paulo: Robe. 2002. 1291p

Foto: Djair - Boneco em Cerâmica do Vale do jequitinhonha.

5 comentários:

  1. Cara quem nunca passou por um momento desse, porém essa matéria é maravilhosa, estou pasmo ainda aqui e vou pensar sobre isso por dias...

    Abraços

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  2. Realmente, deve haver centenas de milhões mas não faço parte dessa estatística... Provavelmente faça parte das que estejam prestes a meter os pés pelas mãos... com medo sim, mas com esperança!

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  3. Se um dia vc encontrar alguém q não tenha medo de absolutamete nada, me avise...Vou querer conhecer essa raridade...Temos medo até qdo nos sentimos corajosos, prontos pro que der e vier...E por que temos medo? Porque precisamos sobreviver, como os personagens do filme q vc viu...Enqto tivermos necessidade de sobrevivencia, teremos medo...

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  4. Esta grande culpa que nos assola e o medo de decepcionar, de ser apontado, de não atender as expectativas alheias são ótimos vilões para fazer as pessoas infelizes e inertes. Vigiar-se para que isto não aconteça tem que ser uma atitude constante.

    Não vi este filme ainda, mas vou procura-lo.

    Abraços.

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  5. Eu diria que para as mulheres "O problema não é dar, é alguém ficar sabendo!” e para os homens "O importante não é dar, é alguém ficar sabendo" rsrsrs

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