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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Antes que troquem o carnaval pelo dia da Marmota *

A celebração nos Estados Unidos da América do Haloween ou "noite da bruxas" constitui-se numa transposição que foi feita do culto aos mortos, de tradição pagã, assimilado dos colonos europeus, e que agora os estadunidenses procuram nos enfiar goela abaixo, da mesma forma que nos impingem a coca-cola, sua música e comida de plástico - é a globalização de um acordo com o modo de vida norte americano e que rejeita as diferenças culturais entre os povos.

O que mais surpreende é que, possuindo o nosso povo riquíssimas e profundas tradições entre as quais as que se relacionam com o culto aos mortos, ainda exista quem com aparente formação cultural e acadêmica insista em transmitir nas escolas (além de a seus filhos) aos seus alunos costumes que na realidade não lhes pertencem. Trata-se de uma pedagogia de natureza duvidosa que contraria inclusive o princípio da ligação Escola com o meio que a envolve. São poucas as escolas infantis onde os alunos se caracterizam de índios em 19 de abril, ou que aprendem a cantar o hino pátrio, no entanto vemos cada vez mais brasileiros dedicando-se a comemorar o dia das bruxas, escolas que pedem aos pais que caracterizem seus filhos como bruxinhas ou duendes para o dia de halloween. É um absurdo esse entreguismo cultural brasileiro.


Por que adotar gratuitamente um costume americano quando se sabe que é destruindo a cultura de um povo que se consegue dominál-o? Ainda assim o analfabeto cultural vai assimilando tudo que a mídia passa, inclusive os anglicismos desnecessários.

Ora, se a desculpa é a alegria dada às crianças que hoje circulam por suas vizinhanças a pedir doces, porque não manter a tradição nacional da festa de Cosme e Damião (27/09), que teve sua origem na igreja católica, foi fagocitada pelos cultos Afro-Brasileiros, e que durante anos fez a festa da garotada pelo país a fora? Com o crescimento do protestantismo e das chamadas igrejas evangélicas e pentecostais foi iniciada uma campanha contra o culto a entidades como estes "santos", e tendo a igreja católica se voltado a banir a festividade por achá-la incorporada às religiões ligadas ao espiritismo e bruxaria, foi sendo dizimada e hoje poucos cultuam essa que foi uma das maiores representações religiosas e folclóricas de nossa gente.

É preciso resgatar nossas tradições e orgulho, de outra forma estamos sujeitos a ver nossa memória que já não é algo cultuado, ir minguando a cada dia e dando lugar cada vez maior aos estrangeirismos da moda vigente, trocaremos "Jeca Tatu" por "Esqualidus", assim como deixamos de cultuar "Mazarropi" para louvar "Os trê patetas", deixamos de ouvir "chorinho" para achar "street dance" o supra-sumo do momento, e vermos os filmes nacionais ficar apenas três dias em cartaz pois as salas precisam dar lugar a títulos estadunidenses.

Djair R. Souza

*Publicado originalmente em: Papiro Social. 2002 1(6):2-3

8 comentários:

  1. Entendo como grave o "analfabeto cultural" de sua própria cultura. O triste é que existe um condicionamento deste quandos somos crianças de absorvermos os costumes estadunidenses como fazendo parte ou mesclando-se ao que realmente é nosso. E o que é o "nosso" quando falamos de Brasil, já que somos frutos deste mix de culturas? Muita coisa: cores, sotaques, cheiros, ritmos e assim por diante de várias regiões do planeta. E me pergunto qual estado ou cidade brasileira foi de fato colonizada pelos yankees? Não me recordo de nenhuma. Eles vieram misturar-se? Não. A colonização estunidense se realiza através de importação e não imigração, o que torna esta questão muito mais grave. Seu cinema, suas músicas, expressões, nomes, comida e muito mais são incorporados com naturalidade.
    Para mim, a maior prova do esmagamento cultural deles sobre nós é que no final do ano, populações tropicais, tal qual a nossa, enfeitam vossas casas com a temática natalina glacial. Sol de 40ª graus na rua e o papai-noel na frente da loja com roupa de inverno. Ridículo! O pinheiro como peça central no ritual natalino, sendo que é uma árvore típica do hemisfério norte.
    O que podemos fazer? Como é possível mudar?
    Isto já uma outra conversa.
    Gostei como abordou este tema, dá pano pra manga.

    Abraços.

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  2. Obrigado Adriano.
    Bem, como citastes també "Papai Noel", vou pegar carona pra comentar, e nisso pego carona no texto do blog: http://www.uniblog.com.br/coquetelmolotov/29571/pequena-carta-de-aversao-natalina-papai-noel-bebe-coca-cola.html

    que elucida...

    Antes de 1930 a representação do papai Noel era feita de diversas formas diferentes: como um duende de barba branca, um elfo ou um gnomo que se vestia ora de azul, ora de amarelo. Não havia qualquer semelhança com o nosso bom velhinho. Até sua padronização comercial...ops!! Padronização?????

    "E isso mesmo cara leitor, papai Noel como conhecemos hoje e fruto de uma campanha publicitária(publicitários+dinheiro=mais dinheiro+garfo do capeta)na tentativa de conquistar um público mais jovem, a Coca-Cola contrata Haddon Sundblon para recriar o Papai Noel, dando-lhe uma feição mais humana. Inspirado em seu amigo Lou Prentice, Sundblon cria, então, o nosso Papai Noel: o Papai Noel da Coca-Cola. Agora, temos um velhinho gorducho, nórdico, com um sorriso amigável, e o mais importante: vestido com as cores da Coca."

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  3. Achei seu post um must. Tá tudo americanizado, não é "mermo"? E eu já não sei mais dizer I love you em português. Minha pátria é minha língua? Então eu sou americana?? Não!! " SE eu eu fosse americana, minha vida não seria assim".Quem canta isso? Ah.. é o Ed. Pois é, antes a gente escrevia nos diários, agora fazemos "BLOG" , everybody knows, blog é o bicho da goiaba. SE não pode contra eles... alie-se a eles. Eles USAm, nós, rsrs.

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  4. Vejam vocês que a "cultura brasileira" também não é nossa, só se você considerar as regras de usocapião para riqueza cultural. Tudo o que temos é uma mistura de cultura indigena, africana, européia, asiática e etc etc. As crianças dos séculos passado foram vítimas por terem que engolir garganta adentro toda a cultura invasora de outros povos? Não, é claro que não. Tudo vem de algum lugar, e se você pesquisar a fundo vai parar em alguma civilização mediterrânea ou em algum culto pagão como o druidismo.
    Haloween está ligada à antiga celebração de Samahain, celebração celta que marcava a passagem do ano. Celebração esta que também influenciou o Dia-de-Todos-os-Santos, e que TAMBÉM chegou ao Brasil. O Brasil é colônia meus queridos, e essa receptividade ( ou falta de personalidade)remonta de séculos passados. Não sou a favor da invasão cultural dos Estados Unidos, tampouco contra. Aliás, acho que os Estados Unidos não merecem entrar nessa discussão. Tradições culturais vem e vão, isso se chama Sincretismo Cultural.O que me incomoda é a transformação de um patrimônio cultural (seja nosso seja de outrem) em uma atividade desprovida de qualquer tradição e transformada em ferramenta capitalista para gerar lucros. Isso causa emburrecimento e é um desrespeito com o passado. Isso sim me incomoda!
    Infelizmente a globalização efemerizou as culturas particulares, e eu não sei o que fazer, nem se algo precisa ser feito.

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  5. Valeu! Este dia me faz lembrar meus tempos de criança que saia com um saco pelas ruas para ganhar doces. Acho que sim lembra o haloween.

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  6. Vc já percebeu a gama q de analfabetismo q possuímos? É o cultural, o funcional e por aí vai... Desprezar o q temos p/ aplaudir o q não temos faz parte da nossa cultura...è só passar para o dia a dia: qdo o vizinho "ama" o carro do outro e acha o dele um "lixo".

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  7. E não é só o Haloween.
    Tem a "moda Country". Que levou nosso caipira e sua moda de viola.
    Concordo parcialmente com o Vitor, porém, nossas tradições incorporadas dos índios, europeus e africanos são muito mais legítima que a estadunidense (todos somos americanos - moramos no continente Americano). Sou muito mais a Curupira e o Saci que bruxas e duendes. Sou muito mais a moda de viola que a música Country que não me traduz nada!

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  8. Atemporal...Parabéns!!!!Djair!!!!!!





    Alex.'.Araujo

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