Levanto
ao meio da noite para não perder o texto.
Quantos
já não os perdi, por preguiça de levantar, por puro cansaço
físico? Já que dormir, isso não faço mesmo.
Fico
na cama inerte, esperando o adormecer, que só vem, quando a luz do
sol brigando com a cortina anuncia que já é dia. E então, é tarde
para dormir.

Mas
vem o dia e seus afazeres, e assim todas elas fogem. Os morceguinhos,
insignificantes, na verdade, desaparecem ao primeiro sinal de
movimento pela casa, pela rua... Vai ver é o café, esse falso amigo
de que tanto necessito para acordar o corpo, que me faz adormecer a
alma. Ou é o movimento, esse inimigo declarado da poesia, que não
permite que ela me visite durante o dia. Ele está em guarda!
Mas
à noite, quando eu, morto de cansaço desperto, ela qual criança
traquina, vai se descobrindo
aos poucos, com raiva ou ternura, desencanto ou magia, tudo depende
conforme correu-me o dia, e desdobra a pontinha de seu cobertor,
descobre a cabeça até abaixo dos olhos, e me olha. Quando percebe
que estou alerta, cobre-se de novo... Daí a pouco, refaz o gesto,
mais uma espiada... E sopra o lampejo de alguma atividade, algum
texto, uma fantasia... Se me agarro a ele, ela também se levanta e
se desnuda, somos noivo e noiva apaixonados, em núpcias.
Já
se persisto ali, desolado, exaurido, buscando o sono, amante
caprichoso que não vem, ela de pirraça sopra-me palavras de amor,
sussurra em mim encantamentos, indignações, iras e paixões tantas
e tais que mais ainda o sono se aparta. E penso: amanhã escreverei
sobre isso.
Vem
o dia e finalmente... Cadê? Onde estão elas? As ideias, as
palavras, as frases bem construídas? O tema?
Simplesmente
não existem mais. O mote morreu!
Minha
musa é ciumenta e odeia o sono, se cedo a ele, ela possessiva me
abandona, faz sua trouxa e leva embora as palavras-criança. E não
adianta chorar jogando catarro nos cantos das paredes, ela vai
demorar a vir de novo.
Foto: Roberto Tadeu Noritomi - A lua, vista em São Paulo em 21 de junho de 2015