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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Dias de mudança

E aí vem a mudança provar-me o quanto sou apegado; um apego triste e enraizado que me tira o sono ao pensar nos pequenos objetos acumulados, recordações de viagens, as cerâmicas, as porcelanas, o artesanato em madeira e vidro...

Tantas vezes já mudei deixando tudo para trás! Mas também nunca fiquei tanto tempo em um mesmo lugar, e desta vez 18 anos... Quatro casas diferentes, a cada vez praticamente dobrava-se de tamanho, logo com muito mais espaço para acumular coisas; e tomem-lhe vasos e jardineiras que formaram uma mini-selva, com as flores que deram, o molde dos vegetais obedecendo as podas, os vasos ganhados, as cores, os matizes...

Os presentes, as pequenas lembranças, dados com carinho pelos amigos, recordações de uma vida... Uns em lugares de destaque, outros guardados para a próxima troca de móveis nos espaços quando se redescobre o objeto e o olhar sobre ele se renova, e aí então vem ele ao pódio enquanto se guarda outro para que dai a meses, um ano quem sabe, num novo giro da disposição mobiliária ele venha novamente emergindo do armário tomar seu lugar ao centro de uma cristaleira ou sobre o buffet...

As panelas de barro, as sopeiras e copos, todos usados, não são enfeite, são objetos de uso, onde cozinhei ou servi com carinho nos jantares, almoços, reuniões com gente querida. Têm sua própria história as taças que beijaram as bocas que sorviam um vinho, os lábios que lentamente deixavam vir boca a dentro um trago de cerveja, um gole de água... Pratos que testemunharam gulas, quadros que nas paredes, mudos, ouviram risadas e foram testemunhas discretas de inconfidências, inconsistências e claro, porque não?, maledicências.

O galinho de Barcelos que vem de Lisboa, o sino de vento de cerâmica do Piauí, o qual seu Verdou, o artesão de conversa frouxa e agradável já não pode mais fazer igual por ter batido a cacholeta já há tempos. A obra me inspira carinho por ele cada vez que a olho, relembrando-me de Ana, a esposa que a embalara flor por flor, com cuidado e carinho, e me traz preocupação com seu destino, quando na última visita, o marido já tendo partido, ela era a tristeza personificada ao atualizar-me sobre o falecimento.

Foto: Djair - Rodovia Fernão Dias
O banco de madeira feito por 'compadre' Herculano lá nas Minas Gerais, sob encomenda, e que assim como as floreiras de madeira viajou num carro que não tenho mais, também ele presenciou tantos casos e gargalhadas quando o fomos buscar com seu cada entalhe único, segredando os calos na mão do artista.

A namoradeira, assim como as bonecas de cerâmica do Jequitinhonha, tornam a casa mais mineira, uma comprada na primeira de tantas idas a S. João d'el Rey, onde um dia sonhei morar, e que se perpetua assim como a lembrança do pão de queijo recheado com pernil, comido numa padaria que não existe mais, junto com Dásia e o beato Zé Maria. As segundas, adquiridas em Diamantina, rumo à casa de Xica e que contrastam com as porcelanas de Sevilha, tornando única a combinação que traz o mobile de bonecas de pano da Paraíba e bichinhos de cerâmica que trouxe de Bonito – afinal o Mato Grosso, o do Sul, também está representado, e assim cada viagem se tornou tangível, se perpetua nas lembranças, que trouxe daqui, dali e de acolá.

Artefatos de palha dos índios do Pará, lembranças de José Luís, que também já partiu deixando saudades enormes de seu sorriso jocoso, assim como Rafael que me fez chorar o choro mais pungido dos últimos tempos quando se foi, e cujas taças já faz 08 anos que nos deu. Do mesmo modo, a biografia de Carmem Miranda – e aí vem a senda dos livros, os que li e amei, que grifei, e os que ainda não li, os catálogos de museus, de artistas, os livros com dedicatórias de amigos, de autores apreciados... As bonecas e panos de Africa que Tânia nos deu de lá, canecas de porcelanas e de cerâmicas dadas por Ana Bracht, por Claudia, copos de alumínio dados por minha mãe e nos quais Antônio e Elenice fazem questão de tomar água da talha quando vêm cá, a sopeira que foi da avó de Ricardina e tantos suvenires que é melhor parar de citar quem trouxe e de onde, antes que injustice alguém. Então que se sintam já citados e homenageados nas peças que serão sim guardadas com carinho, levadas junto comigo, ainda que por um tempo permaneçam nas caixas.

Como não ter apego se eles são a materialização de sentimentos, de lembranças, de vida? Sim, eu sou realmente uma pessoa apegada. Tanto e quanto que é hora de parar esse texto para não ir citando os Tsurus e outras dobraduras, e coisinhas e trocinhos e miniaturas outras e o texto não tenha fim e se torne ainda mais maçante, afinal a quem podem interessar minhas lembranças? Apenas me deixem dizer por fim que as pedras, tantas que são incontáveis, irão também, trazidas de todo canto, como as que Ana e Fran me trouxeram de Barcelona antes de eu a visitar, as que Jair me trouxe da praça Vermelha com medo de os russos cismarem com isso, como as que catei no Parnaíba, rio abaixo, rio arriba, ou me abaixei em Floripa para catar.

5 comentários:

  1. Que coisa mais linda do mundo seu relato! E que só me deixa mais saudosa,, porém feliz porque vc realizou seu projeto. Um beijo grande e até breve

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  2. Que texto! Me emocionei com os detalhes de suas lembranças, e com o toque saudosista que fala das coisas... Se tivessem sentimento, suas coisas seriam bem felizes por serem tão queridas... rs... Um grande beijo

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  3. já com saudades tua casa é uma delicia. beijos

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  4. Obrigada querido por compartilhar conosco tão íntimas memórias que muito me emocionaram. Obrigada pela agua fresquinha do filtro de barro no copo de alumínio ahh quantas conversas entremeadas de comida boa! Uma preocupação de dona Lourdes "o que sera das bananas do Djair?" as pobres n cabem no caminhão. Um bj e muita sorte em nova morada.

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  5. Pois é o texto realmente é lindo e me faz refletir que com o passar dos anos tenho menos apego a coisas materiais, meu apego são em pessoas. Você será um brilho a menos do meu lado, continuará brilhando só que distante de mim. Pode não acreditar mas, você é mais que amigo, é meu confidente é meu irmão. Ainda bem que temos toda a tecnologia a nosso favor para continuar nos falando, pena que sem cheiro do seu perfume e sem o gosto do seu abraço. bjs Claudia

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