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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Saúde!!!

Em “A queda para o alto” no poema a um pai adotivo, Anderson Herzer (Sandra Mara Herzer), poeta brasileiro, com auto-identificação lésbico-transexual, diz: “Quando você morrer, eu vou tomar um porre! Pra compensar todas as vezes que você me aporrinhou.”...
Às vezes dá mesmo vontade de tomar um porre para curar os aporrinhamentos do dia-a-dia, das forças contrárias, dos pensamentos retrógrados, das aporrinhações repetitivas, maçantes, cansativas, extenuantes... Mas... fizesse isso e já estaria na fila do transplante de fígado. O mais próximo que aguento são uma ou duas ou cinco taças de vinho, ou um copo ou outro de gim-tônica, sobre o qual aliás, uma conhecida que cansou de tomar em casa agora torce o nariz dizendo não gostar de bebidas perfumadas; ah, esse povo influenciado pelas bichas  finas e semanários da editora abril... tsc, tsc...
Mas o fato é que, em medida moderada, acompanhado por bate-papo com comentários risíveis, ainda que profundos, faz um bem danado, e se o álcool ataca o fígado, a risada o desopila, já que não dá pra evitar o amargor que vem de fora: uma dose de campari amargando por dentro faz milagres. Aliás campari só tem um problema, se é que isto é um problema: dá tesão. Lembro que, ainda no fim do colegial, comentávamos sobre isso e a Alda falou que não, pois tinha tomado uma garrafa de testa, com o Francisco, e ele nem tinha sentido nada, ao que ele rebateu olhando fixamente para ela: “E você por acaso encostou em mim? Pra ver como eu tava?” Foram ótimas gargalhadas; Alda aquela noite estava linda, de vestido vermelho, um belo colo torneado pelas alças finas, cabelos à altura dos cotovelos. Ela sentava-se imediatamente em frente a mim, teríamos prova, mas tendo faltado o professor da primeira aula fomos a um bar em frente ao colégio... Beber o quê? Lembrei-me da propaganda do Conhaque de Alcatrão São João da Barra, que no reclame parecia delicioso; pedi um, Alda outro, aquilo desceu queimando, um horror, um pavor, um terror... Só lembro que durante a prova Alda ria a cada vez que eu cochichava: Alda, tu estás bêbada?
Com Myrna, La Gioconda dançante, uma vez fomos à Casa do Norte em Higienópolis, antes que mudasse de dono e este trocado os garçons, fazendo com que não fosse mais nosso boteco predileto, mas àquela noite ainda era e não fosse pelo metrô encerrar-se à meia-noite, ainda hoje estaríamos ali, tanta cerveja, tanto papo, tantos segredos trocados, e tanta, mas tanta risada, que a felicidade foi buscar conosco um pouco de alegria para distribuir aqui e ali a quem merecesse.
Em outra época, meu bar preferido era na Canuto do Val, o Espetinho Cerveja e companhia, da Lilian Gonçalves, que volta e meia sentava conosco e contava algum causo. Nossa!, tomei não jarras, mas baldes de sangria ali, tinha o melhor frango a passarinho de Sampa, Márcia era gerente de lá e sempre, sempre, nos conseguia mesa na calçada, independente de tão cheio estivesse. Frequentei até pouco depois de Márcia sair de lá e eu perder o status vip que tinha com ela. Levava tribos diversas, pessoal da pós, pessoal do trabalho, pessoal de dois empregos anteriores, amigos diversos. E em uma destas vezes, Ivone bebeu tanto, que indo pegar o metrô deu de cara com um mendigo a pedir um trocado, com o dinheiro a mão foi explicar-lhe que não podia dar pois era o trocado do metrô e o mendigo olhando pra ela apenas disse: Tú tá é bêbada... Fez um gesto de desprezo com o braço e foi embora.
Outros bares vão passando e tornando-se preferidos ou caindo em desgraça, visto  minha aversão a lugares onde tem que se esperar horas por um lugar. As estatísticas mostram que a frequência a bares e restaurantes tem caído na cidade de São Paulo depois da moda de arrastões, embora o senhor governador afirme semanalmente queda na criminalidade e investimento na polícia – deve ser a que lhe faz às vezes de guarda-costas “of course”, mas isso tem um lado bom, pode levar ao retorno daquilo que eu, Wânia, e outros amigos mais gostamos: reuniões em casa, com qualidade garantida na comida, na bebida, no som, no papo. E assim confraternizamos de fato, sem aporrinhamentos. Hoje é sexta: Saúde!

 Foto:Tatiana Yoko Oliveira - Corrigido após alerta da Carol Bracht.  - Galerinha relaxando após as aporrinhações de um dia de trabalho.

14 comentários:

  1. Agora sim meu caro, com todo sabor de seu blog no estilo sempre verdadeiro e autêntico que você tem de escrever que pega emprestado da sua personalidade transparente como água! Às vezes seco e ácido, outras tantas engraçado que nos faz rir a valer, e, ainda um jeito Pantaleônico de ser com sua ranzinzisse que lhe é peculiar.
    Por essas razões Djair é que te admiro e digo que acertei as 06 da megasena ao ter a tua amizade! És como poucos, sincero, carinhoso, verdadeiramente fraternal...

    Bom falando do texto já dizia o Mestre "O vinho é bom e reconforta a alma"... o porre tem mesmo a capacidade de nos limpar afinal quando vomitamos ficamos mais leves e limpos de toda porcaria e sentimentos ruins que temos dentro de nós! há quem diga que quem não bebe não tem história pra contar, é por isso que eu bebo quando posso e quando a companhia é agradável!

    Abraços do Rafinha!

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  2. Legal, gostei bastante. Seu forte mesmo são as recordações pessoais... misturadas às reflexões sobre um assunto.

    JLP

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  3. Djair, gostei da história e das histórias de conversas ao redor da mesa...você tem razão, eu adoro poder reunir pessoas queridas à volta de uma mesa repleta de comidinhas feitas com carinho e cuidado, com bebidas que alegram as conversas e o aconchego de um espaço que arrumamos com flores, música...prá que tudo acolha com um abraço forte e fraterno aquel@s que gostamos de ter por perto...por isso digo mais uma vez: minha casa está sempre aberta prá esses encontros e espero que possamos repeti-los sempre e sempre!!! bjs e bom final de semana! Wânia

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  4. Delicioso relato!! Mas, se estivesse em vossa companhia, com a mesma alegria estaria com meu suco de laranja ou melância, acompanhado dos petiscos e a água mineral com gelo e limão. (rsrs) Parabéns, muito gostosa esta leitura. *Yara Maria*

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  5. Que noite deliciosa foi aquela! A conversa rendeu muuuito e fomos embora da Casa do Norte aos risos incessantes e quase andando em ziguezague (só um pouquinho..rs)
    Mas em conversa de bar o que importa é a companhia, digo isso porque hoje em dia me divirto com você da mesma maneira, mesmo que a conversa seja regada a Tônica e Líber.
    Beijos!

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  6. Tríplice Saúde! Lindas e fortes definições! Esse bateu no coração!

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  7. E viva la vida!

    Gina Guimaraes

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  8. Já estava bêbado mesmo... rs... a foto quem tirou foi a Tati! kkkkk
    Tenho que dizer, normalmente nos divertimos nesses momentos, em casa ou no buteco! E como disse a Myrna, o que importa é a companhia! Nós é que temos que fazer cada momento especial! Bjoka primo.

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  9. Opa, atribuição a Tati já foi corrigida.

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  10. Mais um delicioso relato Dja! Mas, putz tô com a Yara Maria, sou fraca com as bebidas, mas sou chegada em comidinhas de boteco, em boa companhia! bj

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  11. Hehehe, antes eu bebia e bem, agora bateu a ice, a idade e fico tonta e no outro dia não sou nnguém. Fui jantar sabado na casa de minha amiga e foi bom musicas portuguesas, vinhos queijinhos e uma sopa chic,rsrsrs e eu tomei agua de coco, o bom foram companias e a dança no final da noite. Belo texto e Saúde beijos
    Carminha

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  12. Este comentário foi removido pelo autor.

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  13. Acabei de sugerir à Carol Bracht um Happy Hour como confraternização de fim de ano. Adoraria tomar uns drinks.

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  14. Impressionante como você foi se soltando e soltando o verbo cada vez mais emocionado e emocionante! Me lembrou as noitadas regulares debaixo de chuva ou debaixo de lua, sempre às segundas com meu amigo JLP que começavam com um filme brasileiro e depois um chop no bar alemão e as nossas longas conversas sobre o filme e sobre o extra filme... doces e queridas lembranças...obrigada De seu post me aqueceu o coração e a memória.

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