O que é que determina nossa
tolerância?
O que determina nossa
tolerância em termos de amizade?
O que nos leva a romper
laços?
Talvez o fato desses laços
não serem fundamentados em um nó sólido… Talvez por serem laços
não de atar, mas puro enfeite… Laços coloridos, multifacetados…
Como são certas convivências, que as vezes são longas mas não
enraizadas.
O que nos faz perdoar os
achaques de um e não de outro? A dimensão das coisas vividas? As
intimidades? Os favores devidos? A carência, nossa, ou a dependência
e admiração em relação ao outro?
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Foto: Djair -Estátua da Virgem de Fátima - Fátima - Portugal |
Eu que sou de tomar partidos,
e sim, sei que isto é mal, já rompi laços com alguns por amar a um
terceiro e vê-lo maltratado por quem até então era também amigo.
Por ser amizade mais antiga, por ser mais verdadeira, por não
tolerar grosserias, ou seja lá qual for o motivo da minha simpatia
pelo outro naquele momento.
Já perdoei coisas que não
sei porque perdoei. Já levei a ferro e fogo muita bobagem e me
arrependi em seguida, e lógico, óbvio, que não tive humildade ou
coragem para reconhecer meu ego inflamado e pedir desculpas. Claro
que não.
Já deixei pra lá o fato de
ter amigos trabalhando ao lado e nunca ter partido deles um convite
para um almoço no restaurante ao lado da “firma”, embora o mesmo
convite já tivesse partido de mim. Já execrei outros por terem
faltado a um convite e dado uma desculpa rota para justificar a falta
de interesse. A uns perdoei serem mais amigos de outros, a outros não
perdoo serem mais amigos de uns.
Difícil determinar onde
somos, eu pelo menos, simpáticos e onde não gastamos tempo com
isso. O que nos liga, em geral é a convivência, e a consciência de
um certo destino comum. Talvez aí esteja a razão de uma afinidade
eletiva, a consciência de um destino, um sofrimento comum. E quanto
mais comum, mais partido tomamos a favor deste, afinal é o mesmo
trajeto, ainda que por poucos passos, ainda que o caminhar se afaste
ali adiante, mas a forma com que caminhamos juntos pode ser tão
intensa, que fará falta no que resta da caminhada. Outros ansiamos
por nos distanciar ou sentimos aquela “saudade aliviada” quando
se afasta. De outras carregaremos sempre uma pequena mágoa,
sobretudo quando nos sentimos usados, ou quando não sabemos o porque
do rompimento.
Uma parte das vezes ansiamos
retomar a amizade, noutras não queremos aproximação. O que muda? O
sofrimento que o rompimento causou? De que perspectiva observamos
esse distanciamento? O que foi maior? O prazer de estar junto, a dor
do rompimento? O medo de se repetirem ações e gestos? De quem se
sente saudade? De quem estranhamente esquecemos o nome? E pior, de
quem sentimos raiva a mera menção, ou vaga lembrança quando como
um espectro nos surge a mente e nos faz inconscientemente fechar a
face, franzir o senho travestindo a face numa incômoda máscara de
gárgula? E o que faz com que toleres aquele amigo do teu amigo? Por
não ferir ao primeiro? Por medo que ele escolha o outro?
São questões sem respostas,
mas que muitas vezes faz bem colocar para tentar nos entender.
Afinal, quantos matamos dentro de nós? Quantos lembramos sem
saudades, e de quantos outros sentimos muita falta, sem saber onde
estão ou o que se tornaram? Quantas lembranças apenas você e uma
outra pessoa tem? Afinal apenas vocês dois podem tê-la, por serem
os únicos a viverem aquilo, mas você nunca mais vai encontrá-la, e
nem sabe que fim levou.
Saudades que gritam, nós na
garganta, silêncios constrangedores, abraços que não querem mais
de desfazer… A nossa humanidade, nossas afinidades, nossas
simpatias… Para onde nos levam, com quem nos levam?
Toda a gentarada que nos
cerca… Um oceano, ondas… em quais mergulhas, e de quais foges, só
quando mergulharmos ou fugirmos saberemos, mas o porque, isso nunca.