Naquele dia, no início da tarde, ela pegou o ônibus com destino à
capital, levava o filho pela mão, tinha seis ou sete anos, não mais
que oito. Apenas uma valise, voltaria no dia seguinte, ia apenas para
a festa de casamento da prima, levava a roupa do filho e a dela, o
vestido de festa e a lingerie nova, que tinha custado um rim, já que
o vestido era decotado e deixava transparecer alcinhas e rendas da
peça superior.
A
festa deve ter sido boa afinal, deve ter comido à beça, e assim no
dia seguinte lá rumava ela de volta à cidade onde morava, não
chegavam a 400 quilômetros, mas o ônibus fazia um pinga-pinga por
outras cidades antes de chegar ao destino, e assim, ai de quem
precisasse fazer o tal translado em coletivos. Amargava-se umas 06
horas de estrada.
Mal
o veículo partia e ela sentiu o primeiro sinal de que algo não ia
bem, a pontada fina da cólica logo acima do umbigo a fazendo suar
frio. Não, não havia banheiro no ônibus...
Para
sua sorte, ela pensou, logo na saída da capital o ônibus parava num
posto de combustível para pegar uma carga que levaria, e alguns
passageiros. Aproveitando a pausa, deixou o filho ali, já que
ocupavam os primeiros bancos, desceu pedindo ao motorista só um
instante, e correu ao toillete. Chegando lá, a porta fechada...
Alguém informou que precisava pegar a chave no caixa, correu pra lá,
pediu, pegou e correu de novo ao reservado. Mal enfiou a chave na
porta sentiu que era tarde, escorriam-lhe pelas pernas o que tinha
comido na festa...

Mal
o ônibus deu partida, janelas abertas, lá atrás alguém grita:
_Motorista, estão peidando aí na frente!
Outro responde gaiato: _Peidando nada, tão é cagando mesmo!
Ela afunda-se na poltrona, sente o calor que acompanha o rubor nas
faces, e continuando a máxima de que sempre se pode piorar, ouve do
filho: _Nossa mãe, é você. Você tá fedendo...Eu não tô
aguentando não, vou sentar lá atrás.
_Vai não, que aí é que todo mundo vai saber, pode ficar aqui
comigo!
_Não mãe, eu não tô aguentando não, deixa eu ir lá pra trás.
_De jeito nenhum, pode ficar aqui.
E assim a pobre criança teve que ficar resguardada sob os eflúvios
do que tinha sido um jantar elegante numa festa chique. Lá atrás,
volta e meio, um manifesto em alto brado retumbante contra a emanação
mal cheirosa, que era prontamente respondido por um e outro
comentário em tom de chacota.
Duas horas depois, o ônibus faz sua parada para um café. Vencida,
mas não derrotada, sentindo um certo alívio apesar de todo o
desconforto, ela desce, pede ao filho que vá comer algo,
entregando-lhe o dinheiro, e corre ao caixa, compra um sabonete,
daqueles verdes, baratinhos, que era o que havia na parada simples da
cidadezinha que pouco mais era que um povoado. Compra de uma vez três
litros de água, sem gás, sem gelo, e no banheiro, lava as pernas
como pode, mãos, braços, uma, duas, três vezes... Enfim termina,
quando todos já estão subindo de volta ao ônibus. Pergunta se o
filho comeu, esse diz que sim, para ela já não há tempo para
sequer um café, compra mais uma água, dessa vez uma garrafinha,
gelada, mas assim sem gás, pois o burburinho em seu interior ainda
grande, não vai arriscar.
Sobe ao ônibus com a criança, num suspiro aliviado encosta as
costas na poltrona, vira de lado e tenta sorrir para a criança que a
olha e responde ao sorriso da mãe com um comentário: _Hummmm mãe,
não adiantou nada, você ainda tá fedendo!
Foto: Djair