domingo, 24 de maio de 2015

Entre o céu e a terra

"Se você vier, pro que der e vier, comigo... Eu lhe prometo o sol, se hoje o sol sair. Ou a chuva, se a chuva cair..."
Geraldo Azevedo

E depois da troca de aeronave no Santos Dumont no Rio, finalmente seguia rumo a Teresina. Já sobre o Piauí, aquela tempestade imensa, onde os relâmpagos vistos de dentro das nuvens assustavam, a trilha sonora dos trovões fazia com que não se ouvisse respiração alguma, todos retesados nos encostos das poltronas, ninguém falava, alguns, provavelmente mais fiéis, talvez rezassem...
Nunca antes na história desse país, ops... Digo, nunca antes na vida eu pegara uma turbulência tão grande. Fora a chuva caía, com os flashes que refletidos nas próprias nuvens pareciam paparazis ao encontrar celebridades; dentro, luzes reduzidas, as comissárias (já que pela faixa etária avançada das tripulações, deixaram de usar o termo aeromoças, mas ao menos tiveram o bom senso de não usar termos anglicistas), sentadas em suas poltronas à porta da cabine – ali, na segunda fila de poltronas, sem vizinhos de assento, eu podia vê-las tão hirtas como as pessoas nas filas ao lado.
O pensamento me veio tranquilo: é agora? Se é esse o momento que a morte vem, estou pronto, pode chegar. Não vi a menininha que anuncia a morte em Guantanamera (filme dos cubanos Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío), nem parente já morto como via tia Belinha pouco antes de partir. Mas imaginei que a hora seria aquela.
Não foi, como bem devem ter observado, já que este texto não está a ser psicografado. Mas realmente eu me senti preparado para o encontro com a moça da foice, e apenas pensei: quero que meu último pensamento seja para Jair, esse companheiro de duas décadas. E então lhe dediquei os pensamentos que ele jamais saberia serem para ele, caso eu tivesse mesmo ido em direção à luz. E assim comecei a relembrar coisas vividas, o dia-a-dia. Afinal segundo algumas correntes hindus, sua alma é transportada para aquele lugar onde você estava a pensar na hora do passamento.
A área da turbulência passou e não foi desta vez que fui assumir meu cargo, de chefia e comissionado, no céu. Pousamos lentamente dando voltas sobre o rio Poti, a chuva caía sobre as suas águas barrentas, os telhados ocres das casas refletiam molhados as luzes dos postes, e eu estava vivo... Até quando não sei, mas sim: continuo pronto.


Foto: Djair - Céu do Brasil, possivelmente Goiás, pela janela do avião, dezembro de 2014.



quinta-feira, 14 de maio de 2015

Na falta de alfarrábios digitais

“Quando se instalou em Antares a primeira usina elétrica, Xisto Vacariano, sentado à cabeceira de sua mesa à hora do jantar, disse aos filhos: “(...) O avô de vocês vivia muito bem se alumiando com lâmpada de óleo de peixe e vela de sebo. A máquina mais complicada que ele conhecia era o monjolo. Para mim, lampião de querosene ou acetilene já é luxo demais. Ninguém me convence de mandar botar na minha casa a tal luz elétrica. Dizem que esse negócio dá choque, pode até matar uma pessoa.”
Érico Veríssimo em: Incidente em Antares.


A despeito da citação acima, de um dos livros que estou a ler por esses dias, este post nasceu a partir do comentário em uma postagem do amigo de “Belzonte”, Luiz Otávio. Na grande rede social da atualidade, postava ele a foto da página de um livro de poemas nacionais, herdado do pai... Não, o tema não é poema, e muito menos os dedicados à pátria, tão amarrotada nesses dias, mas sobre livros. Na contra-mão com Marco, lá na Alemanha, e na janela mais abaixo, onde a conversa flui em tempo real, falávamos, ele sobre sua paixão pela tecnologia, eu pela aversão a celulares e tais. Ele a paixão pelos I-Pad e eu pelos alfarrábios, seu cheiro, seu contato que me parece menos frio e mais romântico...
O comentário na postagem de Luiz Otávio foi este: “Serei sempre dos alfarrábios, são eles que me encantam com sua grafia já há muito adulterada, seus tipos de letra fora de uso, seu amarelado, quebradiços e de pequenos cortes, sua história pessoal além da que as letras contam, essas suas "rugas" sempre a me impressionar... Em que mãos estiveram, quem os folheou sem ler, e os que o leram, o que sentiram, o que acharam, a quem essas jóias pertenceram, em que momento foram deixados de lado...” 
 
E assim de fato é, a mesma paixão que Baratta, amigo de Sampa, tem pelos discos em vinil, o gosto talvez por uma época que não existe mais. Se o livro é meu, o grifo, faço anotações, e no caso de um de poesias do Leminski, chegava a escrever algumas ali também, e mesmo numa ousadia petulante, a completar e continuar versos... Se o livro é de biblioteca ou de amigos, as vezes me dá pena que não seja meu para poder grifar-lhe o que aqui e ali me agradou.
Até gosto quando o livro vem de um sebo e tem uma ou outra anotação ou grifo, mas no caso das bibliotecas abomino o procedimento. Como as pessoas podem confundir assim o público com o privado? Se o livro não é seu, não grife, não escreva, não dobre, não use a orelha como marca páginas.
Um dos que leio atualmente, a pessoa que o leu antes grifou as palavras que não conhecia; fico a imaginar quem seria, um estudante ginasial? Alguém que pouco leu? Afinal, palavras como “inveterado, impingiram, hirto e correligionários (sim, estou com o livro ao lado), entre outras, não são assim tão desconhecidas, acredito.
Um dos arrependimentos que trago comigo é ter me desfeito de um exemplar de 1952, em papel jornal do “Os miseráveis” de Victor Hugo. Ter a última edição, em dois volumes, da Cosac&Naif em nada me alivia. Aquele já não tinha capa, o papel amarelado, as folhas grossas; e a introdução e tradução de Afonso Schmidt ainda me vêm à lembrança a cada vez que falo nessa obra. Alguns cadernos já se soltando, agarrando-se bravamente à linha tão amarelada quanto suas páginas. Fui, dentro dessa argumentação, “convencido” a jogá-lo fora. É, fui covarde...
E as dedicatórias? Ah, já escrevi sobre elas aqui mesmo no blog, e continuo a adorá-las; um livro, um disco, ficam a meus olhos muito mais saborosos com elas. E isso não dá para transferir para formatos mais frios, muito embora já tenham existido “depoimentos” no finado e bem enterrado orkut. Nesses formatos novos, também não dá para colocar uma flor que se ganhou entre as páginas, para anos depois a redescobrir ali, seca e ainda com algum aroma, é, sei que se corre o risco de estragar a página, mas de qualquer maneira esse costume também já saiu de uso.
E é por isso que mesmo escrevendo aqui com carinho, e sentir cada comentário como um carinho recebido de volta, ainda assim são as letras impressas no papel as minha preferidas, por isso que apesar da demora na fila quando lancei o primeiro livro, fiz questão de escrever para cada um uma dedicatória diferente. E aos que foram ao lançamento, também um desenho, como uma forma de agradecer o carinho e atenção que tiveram.
E como o texto já se adianta, fico por aqui. Paradoxo: obrigado por ler, seja no micro, no celular ou em qualquer outro suporte!

Foto: Luiz Otávio Pereira




quarta-feira, 15 de abril de 2015

Algumas palavras sobre transplantes de órgãos.



Atualmente, pelo menos dois amigos esperam por transplantes.
Foi neles que acordei pensando nessa madrugada. Rins, fígado...
Pedaços de outros corpos que podem proporcionar uma qualidade de vida melhor, que podem salvar-lhes as suas.
Todos os dias, esses mesmos pedaços, são enterrados e queimados aos montes, por aí... Acompanham corpos que apodreceram sem servir a ninguém, os que serão queimados sequer servirão de comida aos vermes.
Esses amigos sofrem, física e nem sei dimensionar (e quem poderia?) o quanto, mentalmente, por não recebê-los, por sabê-los deteriorando naturalmente, por sabê-los virarem cinzas, por saber que em processos de embalsamamento, muitos vão simplesmente para latas de lixo, e sequer serão utilizados para pesquisas médicas que salvariam vidas. Vidas como aquelas que se acabaram de ir, deixando inanimados os corpos dos quais faziam parte; vidas dos que agora se julgam donos desses corpos já sem vida, que podendo doá-los e salvarem a outros (e a si), optam por perdê-los, optam pela podridão, condenando assim ao sofrimento e à morte os que poderiam sobreviver com os nacos de carne perdidos.
A culpa é da dor que sentem? A dor que sentem é maior do que a dos que esperam? O dilema da escolha é psicologicamente mais brutal do que a quem sabe que para viver precisa de um pedaço do outro, e que para recebê -lo a forma mais comum é que “esse outro”, esse “doador”, precise morrer?
E se você, ao morrer, preferirá que esse seu pedaço apodreça junto com o resto, que seja queimado, tornando-se apenas cheiro de carne queimada e pó, ou que salve a vida de alguém?

Foto: internet - Uso de acesso livre. Disponível em:

quinta-feira, 12 de março de 2015

Noite de São João


Dão-dão-dão
Bate o sino
É noite de São João
Pula a fogueira o menino
Solta fogos o velho bonachão
Solta balão um traquino
Toca o sino o sacristão

Dão-dão-dão
Faz o badalo
Os fogos fazem chuva
Formam halos
Ilumina o céu o balão
E o sino sem parar
Dão-dão-dão a repicar

Crepita a lenha à fogueira ardente
O sanfoneiro faz repente
Se toma quentão, vinho aguardente...
Ignorar a quermesse? Há quem tente?
Não, não tem não
Pra sorrir basta o badalo
Que em noite de S. João
Repica a noite inteirinha
Dão-dão-dão,
dão-dão-dão.



quinta-feira, 5 de março de 2015

Alamandas


Essa semana me deparei com uma bela foto de alamandas na página da Carol Mazzeo. Dizia ela:

“Alamandas. Leva o segundo lugar nas flores preferidas na minha vida. E acabei de me dar conta do porquê: assim como Hibiscos, elas não precisam ser mortas pra trazer beleza. Vasos e canteiros: o cultivo com zelo. (...)”

A imagem remeteu-me direto à Zuleica; eram também as preferidas dela e foram plantadas na casa de Ubatuba. Através das flores amarelas, ela queria resgatar um pouco daquilo que se perdera, quando as mesmas flores existiram na casa de vovó Lili, na distante Passos de tempos inocentes. Era ali, no Parque Vivamar, que as flores plantadas junto ao muro da frente, numa tentativa de fazê-las cair para o lado de dentro, ou de fora conforme o plantio, tentavam esse resgate.

Com o tempo, ficus plantado à frente da casa – pela associação de moradores do bairro que queria padronizar, além das calçadas de grama, a árvore às portas – o ficus enorme ensombreava toda a frente, e a partir daí o emaranhado de galhos verdes das alamandas tinha cada vez menos flores. Ainda assim trançávamos ramos, amárravamos arames, tentando conduzi-los, e os que subiam acima do telhado do portão, conseguindo raios do astro luminoso, nos brindavam finalmente com as flores que na infância tinha ouvido chamar-se “peido de velha”.

Num daqueles dias, em férias, aproveitando a raridade dos dias sem chuva naquela Ubatuba ainda bucólica e horizontal, resolvi comprar um caminhão de pedras roladas. Quando elas chegaram, Zuleica assustou-se, assim como Jair e eu mesmo, tal a quantidade e tamanho, e lá fui eu, seguido por Jair, e depois por Zuzu, a transportar todas as pedras. Cercamos, fazendo contorno e desenhos, todo o jardim; o canteiro lateral esquerdo que ia dos fundos até o muro da frente, pleno de hibiscos e uma outra arvorezinha de folhas verde-amarelas, a qual não sei o nome, mas era a festa dos beija-flores; depois um círculo, formando um novo canteiro a fazer o contorno da castanheira, chapéu de sol, mariola, sete copas, ou como queiram chamá-la. O canteiro do lado direito, onde os bastões do imperador viriam a florir tanto quanto as marias-sem-vergonha e as alpínias, ou para quem gosta de sobrenome: as Alpinia purpurata Red Ginger Lily.

Na frente, outros dois canteiros, um para a buganvília, que depois de morrer vítima de uma ventania em que foi arrancada deu lugar a um círculo de margaridas, o outro desse arbusto dos beija-flores e umas samambaias, além das onipresentes sem-vergonhas, as Marias. Como pedra não faltava, surgiu mais um e ali plantei um coqueiro anão.

Ainda restavam pedras, e assim as alamandas da frente ganharam também seu “guarda-corpo”, pois tudo precisa de contorno nessa vida. Depois de tudo colocado em seus devidos lugares, os canteiros ao meio do gramado ficaram mais belos, mas... faltava alguma coisa, pois estavam baixos, fundos, e assim, comprei um caminhão de terra de jardim... Mas dessa vez contratei dois rapazotes, que a terra era muita e a chuva viria a qualquer instante. E deu tempo, ficou tudo belo, florido, vívido.

A imagem da Zuleica carregando algumas pedras, dentro de sua força feminina e frágil, jamais me saiu da cabeça. E as alamandas se tornaram a sua lembrança mais física, agora que ela nos deixou; e assim toda vez que as vejo floridas, lembro dela, e penso poder plasmá-las e que ela as receberá onde quer que esteja.

Foto: Internet.

domingo, 1 de março de 2015

Miss Daisy

Como diz minha mãe, “se o espiríto não me mente e a verdade não me falha”, seu nome era Daisy, miss Daisy. A professora de inglês da oitava série. Lá mesmo na velha “Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau...” Àquele ano, sabe-se lá por que cargas d'àgua, a porta da classe tinha sido cortada ao meio, tornando-se uma cancela, para onde corriamos às horas de toque da campainha que anunciava a troca de matérias, consequentemente dos professores. E por isso éramos apelidados de meninos da porteira.
Miss Daisy foi nossa professora de inglês naquele ano, depois de anos da professora Isamar, a velhinha jocosa, alegre e querida, agora tínhamos ali uma jovem bonita, agradável e de grandes atributos como se verá. Já era quase final do primeiro semestre e, ao contrário do que se pudesse pensar, vivíamos àquela semana, pelo menos, dias quentes.
À “cancela” esperamos a jovem que já povoava imaginários pueris em seus primeiros mênstruos. Morena, magra, estatura mediana, cabelos lisos, olhos grandes e de cintura acentuada, o que na moda da magreza cada vez maior já não se encontra. A voz era gostosa de se ouvir e a simpatia fazia meninos pensar que eram homens e suspirar em seus delírios púberes. Mais eis que ela não tarda, vem pelo corredor sorrindo, com andar sinuoso, e adentra com seu delicioso “good morning darlings!”
O brinde àquele dia à rapaziada boquiaberta; aliás, as bocas além de abertas estavam também a salivar, ou... completamente secas.
Miss Daisy se nos apresentava com uma blusinha de alcinhas, de tecido leve, vaporoso, fresco e completamente transparente. Sem sutiã; em meio a uma horda de barbáros, digo, de alunos adolescentes e em ebulição hormonal. Mas o presente à classe não era apenas a blusa, mas ao fato de ela não usar sutiã naquela ocasião, pelo menos.
Quis o destino que para tomar o ponto ela viesse se sentar em uma carteira à frente, na fileira à minha direita, de onde volta e meia fazia algum pequeno comentário comigo, o mais próximo dela. O exercício no quadro a que colegas iam responder não chamava atenção, mas as duas tenras peras envoltas em seda negra prendia o olhar atento da população masculina. A aula durou pouco, aqueles cinquenta minutos se passaram em não mais que dez.
Nova correria à porteira, mesmo antes dela sair, todos a querer vislumbrar a arte esculpida em carne. E a responder o bye bye com a alegria eufórica de quem tirou um bilhete premiado. Após sua saída, os comentários, em que até as meninas comentavam, atiçando-nos a exacerbarmos o laudo da vistoria.
A alegria estava instalada, ah, a juventude... D. Lenir, a professora de português na aula seguinte, sacou do seu famoso bordão: “Meus filhinhos, ô meus filhinhos, vão se acalmando, vão bebendo água.” Sem entender o que se passava e sem deixar o gerúndio de lado.
Na semana seguinte, na quarta, quinta, ou sexta-feira que o valha, que minha memória não é tão precisa, mas enfim, no dia da nova aula de inglês, todos a postos, olhares atentos, sentidos mais que aguçados, com a disputa pelo lugar à porta já ocorrendo no corredor mesmo, e eis que ela surge. Linda, cabelos soltos, sorrindo abundantes dentes, os lindos olhos famosos pelo tamanho a brilhar e... uma gola cacharel que ia até o pescoço. Não se divisava sequer o formato de seus ombros ou a cor amadeirada de seus braços, as mangas compridas. Havia esfriado. O clima, os ânimos, a paixão.
Logo depois entramos de férias; na volta Miss Daisy havia sido substituída por D. Marisa. Bahiana classuda, morena, cabelos negros, rosto bonito, elegante, cintura finissíma como se desafiasse os glúteos de proporções épicas e formato afrontador, como uma musa de Goya. Sempre de vestido, tailleur, saia comprida... Tínhamos agora, depois da Maga desnuda, a Maga vestida!


Foto: PatCarla - Carol Mazzeo (e seu belo par de seios).

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Minha Pasárgada, que lá sou filho da rainha.

Na casa de minha mãe sou visita ilustre, capricha-se na faxina e se estendem toalhas, lençóis, fronhas e tapetes que em outras ocasiões permanecem com ramos de alecrim ao fundo de um baú que foi de minha avó.
Talheres escondidos surgem à mesa, quitandas não são feitas, mas compradas aqui e ali, ao contrário do cardápio de sal. Neste, banquetes revolvem tripas puritanas de gente nojentinha, mas que a mim fazem salivar só de lembrá-los.
Tem o dia da panelada que como fervendo, com umas gotas de malagueta, ainda que faça calor. O suor me vem à testa, nem derrame, nem congestão, mas bons quilos dos quais custo a me livrar. Tem o dia da buchada, e ah, como é esperada... Não, não vem com arroz dentro, só miúdos e a tripaiada. Quente também, que nunca fui boia fria. E tem baião de dois com pequi dentro, e para arrematar, nesse dia tem ovo frito na manteiga de garrafa, ovo de galinha caipira claro, como as claras. Se é para cevar, vamos engordar. Um pouquinho de pimenta de macaco, do pé lá do fundo do quintal. Vixe! Come-se até quase passar mal.
Três dias antes de eu chegar, o leite já lá está, pra virar coalhada, grossa, de comer em pedaços, com mel, açúcar, raspas de rapadura, ou mesmo adoçante, só pra disfarçar. Não me nego ao bocado branco, gelado, tenro.
Hummm, salada de frutas, feita com os mamões do quintal, redondos, bem amarelos, de um doce que só os de lá... E pensar que fui eu mesmo que comecei a semeá-los por lá. E sempre, a cada ida, semeio mais, que é pra fruta não acabar.
Já por aqui ao descrever salivei como um cão do Pavlov. Nem vou falar de cuscuz, beiju e pão, nem das atas, dos sucos de acerola, cajá e limão. Melhor parar por aqui, antes de perder a mão.

Foto: Djair - Batatas doce e mandioca

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Escrevendo...



Às vezes saem bonitas
outras tantas, esquisitas
as palavras que arranho no papel.

Não tenho controle sobre elas,
simplesmente vêm e a tinta dá forma ao que era pensamento,
ou como muitas vezes, nem isso o era.

Às vezes um primor, às vezes um tormento,
por vezes me orgulho de um ou outro momento rico,
em outros me acho um asno, mesmo assim escrevo,
só pra espantar o marasmo.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

O equilibrista

Olho à direita:
Privatiza, elitiza, estigmatiza
Polícia, porrada, porrete, pelegos, pedintes


Mais à direita:
Taxa, carimba e exclui, martiriza
É pecado, pouca-vergonha, coisa do demo
Tá amarrado, exorcizado
E tudo em nome d´Ele, pobre coitado

Olho à esquerda:
Mas como assim?
Se alinharam à direita
Alguns mais que outros
Originais? Marginais!
Excludentes, prepotentes, canibais

Para onde ir?
Fecho os olhos e sigo em frente
Na corda bamba…
“Tu num bambeia caboclo, tu não bambeia…”




Foto: Djair - As próprias pegadas, praia de Camburi - Vitória - ES;

sábado, 17 de janeiro de 2015

Ruminando

Opiário
( A Mário de Sá Carneiro)
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos*

Quantos sob a casaca característica
não terão como eu horror à vida? (…)
Se ao menos por fora fosse tão interessante como sou por dentro!”


      Em épocas de redes “sociais, a superficialidade mascarada de felicidade estampada nos out-doors virtuais, onde os sorrisos não são a única coisa inverdadeira, não apenas os dentes, mas até mesmo as almas, passaram por processos de clareamento.

      Odes às liberdades e à democracia, salve a diferença e soltem fogos à diversidade, desde é claro, seja a diferença de quem proclama todas essas glórias.

      O discurso da liberalidade sempre foi muito bonito e fácil, já a prática… Bem o sabemos... nota-se pela quantidade de deputados de extrema direita (à direita de quem? Do demônio?) com posições reacionárias e exacerbando ao mesmo tempo que disseminam preconceitos e ódios, e que assim são eleitos com sufrágios suficientes para catapultá-los às estrelas, ainda que muitos não ousem dizer á luz do dia que foram eles que os elegeram.

      Ah, a prática cotidiana do respeito ao outro, ao pensar diferente, ou, pior dos piores: ao agir diferente, o sair da pasteurização, e ai então tomam forma os piores dos preconceitos, aqueles que vêm disfarçados:
      “_de alma branca”; 
   “_Ah, se pelo menos ela se vestisse um pouquinho melhor...”;
     “_Mas ele devia pintar o cabelo para não parecer tão velho”;
     “_Não tenho nada contra, só não quero na minha família.” E aí, complete-se com seu preconceito preferido, cor, opção sexual, etnia, ou àquela mais próxima: mora em tal bairro, na cidade dormitório, ali ao lado, e que, definitivamente, não é a sua. Também pode ser por origem, país, região, aquela que preferir denegrir pela pobreza, pelas características físicas, ou pelos políticos que servem de embasamento para criticar dinastias enquanto o próprio “critico” vota num mesmo candidato há 10, 15, 20 anos...

      E regurgite-se, e destilem-se outros venenos sob forma de piadas e escárnios. O que interessa é que na foto da rede social você apareça feliz.

      Parece feliz...

      É...

      Será?


* O eu profundo e outros eus. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976 p.195

Foto: Djair - Flor do baile - símbolo da efemeridade da beleza, já que a flor dura apenas uma noite.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Retorno


E aí, deu-se a mudança, não apenas de casa, não só da cidade ou de estado, o estado geográfico pelo qual se nomeia uma região composta de terra e água, conglomerados de construções a que chamam urbes e campos… Mas de estado de espírito, mudança de emprego, que se ainda continua público, muda na forma de prestar serviço, na forma de tratamento dispensado e recebido, do chefe para o público, ambos mais humanos e estimuladores.

Novos conhecimentos, novos círculos que se interseccionam e formam outros, alguns mais ou menos duradouros e firmes, outros como bolhas de sabão lançadas ao ar, vazios e por isso mesmo de pouca duração. Introdução em círculos literários onde egos, mais densos que seus escritos, brigam por brilhar, enquanto suas frases, nem sempre coordenadas, não sofrem desbastes, ajustes, burilamento. O ego que empunha a caneta, o teclado, o giz, não o permite. Tudo aquilo que lhes brotou, não se lapida, não há poda. O ego afirma: É bom, fui eu que o escrevi, o outro que se esforce por me entender e se curve a meu gênio. Se é meu, é bom – parecem gritar.

E aí, eu que tenho severidade com meu ridículo original, me retraio e não consigo produzir mais nada.

Me afasto, me castro, travo!

Eis que vem a nova viagem, férias obrigatórias que não tenho como adiar, e então vou às origens, ao que sou, ao que sempre serei, independente da camiseta surrada e manchada ou do terninho de grife.

Vem salvar-me minhas próprias pegadas, a gente simples, o papo livre, sem se precisar cuidar do que me sai à boca. Sem precisar parecer inteligente.

É o pedaço de madeira que vem salvar o náufrago. A ele me agarro, boiamos, e ao chegar ao que penso ser terra firme esse mesmo tronco se faz fogueira, que seca, que aquece, que ilumina.

Prajalpa... estou de volta.


Foto: Djair - Estrela do Mar - Praia de Camburi
Jardim Camburi - Vitória - ES

sábado, 3 de janeiro de 2015

Magalis

E naqueles tempos, em dias de calor, com aquele mormaço de que só são dignas Cezídia, Macondo, Teresina e Cuiabá, nos sentávamos à calçada, à beira da calçada dos fundos, já quintal, ali, entre meio passo a passo e meio da porta da cozinha, onde o calor do forno a dourar quitandas dava ao inferno um estatus de paradisíaco oásis refrigerado. Lá fora, tentando captar a mais leve brisa, sentíamos o cheiro das roscas, biscoitos, bolos, o que fosse a quitanda do dia...

E o alarido que fazíamos com as tias e primos fazia calar periquitos e enrubescia maritacas em bando a brincar em dias de chuva. Enquanto eram dadas para uma nova rodada de pif-paf, um jogo antigo como dizia Rosângela, as cartas se distribuíam.

Minha mãe, que não jogava, desaparecia para olhar a fornada e, de repente, surgia à porta com uma enorme e redonda, reluzente e apetitosa melancia. Partia-a ali mesmo, sobre uma tábua de carne que pousava em um dos bancos, cadeira, ou mesmo à beira da calçada, nossos olhos atentos à lâmina de aço que brilhava e terminava em um cabo branco, contrastando com as mãos morenas e firmes, de unhas grossas tingidas pelo esmalte rosa bem clarinho, que ainda mais empalidecia diante da vermelhidão que o fruto tenro, aquoso, doce e escarlate mostrava a cada fatia separada pelo punho decidido.

Um filete de suco escorria e pingava na terra, pois não seguíamos a moda de cimentar os quintais, e então agradecida a mesma terra logo o sorvia.

Depois de fatiada em tamanhos mais ou menos iguais, os nacos eram oferecidos com prazer e generosidade, a algazarra não sendo interrompida sequer quando a gulodice das dentadas satisfeitas, esganadas, trucidava a polpa que nos matava a sede e refrescava corpo e espírito. Uns só comiam a polpa vermelha, outros, a molecada que queria mostrar o quanto apreciava o regalo, o faziam até a parte branca, numa disputa de quem mais aproveitava e assim muito pouco sobrava às galinhas que por ali esperavam seu quinhão.

Uma tia sempre pegava a faca e fazia bonecos com a casca – pernas, braços, corpo e cabeça... E dalí a pouco logo começava o aperreio vespertino que sempre se impunha depois do sacrifício do fruto vermelho: a vontade de fazer xixi.

Segundo minha mãe, e ali estavam minhas tias que não a deixavam mentir e não perdiam a diversão de nos ver em apuros, o primeiro a fazer xixi o faria por todos os que comeram a melancia, não de uma vez, mas indo de instante a instante, um pouquinho por vez.

Todos ríamos e passávamos a lenda adiante, nos segurando, até que um não aguentasse mais e entrasse para ir ao banheiro. A gargalhada era geral e, vitoriosos por não sermos os primeiros, tirávamos nossa lasquinha de sarro, livres para ir cada qual a seu tempo verter a água.

Era então que começava a escurecer, aquele momento mágico onde os biscoitos e bolos finalmente ficavam prontos. Era a hora de entrar para o banho antes da janta e continuar a ser feliz!


Foto: Djair - Melancia na casa de mamãe, nessas últimas férias, ainda a mesma faca, o mesmo sabor.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Zés ninguém, e Conceições


E então, numa dessas curvas, que o destino faz ao chegar nas esquinas do tempo e do espaço, você dá de cara – e quase tropeça – com pessoas que chegou a ter algum contato num tempo não tão distante - já que a memória condensa os capítulos da vida e no vale a pena ver de novo mnemônico as cores são nítidas e as vozes não tremulam - , mas que pela variedade de situações vividas já é ancestral, e se dá conta que os playboys do seu tempo de juventude caíram e rolaram na lama de seus próprios atos e escolhas, chafurdaram em obscenidades sociais e tornaram-se sombras tão difusas do que foram um dia, que fazem lembrar a canção... “Quem não os conhece não pode mais ver pra crer, quem jamais os esquece não pode reconhecer.¹”


E assim você se sente agradecido pelo que não teve, por ter sido o forjador de si mesmo, malhado a trabalho, decepções e sonhos, e por ter optado pela retidão, mesmo se o caminho era tortuoso e os atalhos atraíssem com promessas de caminhos sombreados e flores.


¹ – Conceição – Composição de Composição de Dunga e Jair Amorim. Imortalizada na voz de Cauby Peixoto
Foto: Djair - Nuvens, no céu do Brasil

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A exterioridade das experiências

Assim como os répteis trocam de pele e os pássaros de plumagem, trocamos de círculos.

Desde as primeiras amizades rompidas na infância, cujo ritual, simples, exige dedos mínimos entrelaçados para em seguida os puxar simbolizando um elo rompido, ou indicadores unidos que são cortados pela mão - em palma - do outro, vemos a simbologia de um corte.

A exterioridade das experiências trocadas, que compreende jogos sociais ditos civilizatórios, vai ganhando matizes tênues ou berrantes cores almodóvarianas, de acordo com nosso próprio desenvolvimento e paixão.



Os acordos tácitos aceitados de bom grado – ou à custa de interesses (sexuais, sociais, profissionais) ou meras simpatias, num momento de diferente grau de ebulição já não é mais aceitável, muitas das vezes sequer negociável.

Pequenas grosserias, como atrasos que se repetem, canos, bolos ou tocos, de acordo com a gíria vigente, dados em um evento ao qual se programou e muito frequentemente se deixou de aceitar um novo compromisso, mas ao qual o outro – esse demônio cuja existência se deve apenas à necessidade de infernizar nossas vidas - não deu a mesma importância e desistiu sem dar-se ao trabalho de avisar, pode anunciar o rompimento do bem estar.

Convicções políticas radicais, a grosseria nossa de cada dia, seja a da atenção maior a qualquer um que resolva ligar no celular do interlocutor e a quem se dedica mais que alguns poucos minutos protocolares - e ainda assim tenho dúvidas sobre a tolerância a isso – abandonando-se ali o outro às intempéries do tempo e do espaço, é o suficiente para quebrar o diálogo, sobretudo se o, até então, agente da voz ativa, ouve a conversa do outro e verifica que não há mais assunto ali a ser tratado, e que justifique os maus modos do que lhe está a frente (interlocutor???) e tenta esticar a conversa à exaustão pelo simples vício de falar ao telefone. O prazer proporcionado pelo som , muitas vezes, entrecortado e cheio de ruídos é maior que o da conversa ao vivo, se notando sorrisos e esgares, enrugamentos de testa, e todo e qualquer sinal de atenção, ansiedade e interesse pela conversa.

Watszaap então, envia direto ao primeiro vale do sétimo círculo do inferno, o mesmo onde estão as almas dos que foram violentos contra o próximo.* Se as pessoas ao telefone já se tornam extremamente mal educadas, que dizer daqueles que à sua frente, mesmo à mesa, seja de jantar ou de bar, se dedica a trocar, infinitamente, mensagens, piadinhas e a ver vídeos, que em geral só ele e quem mandou vêem graça, o interlocutor a essa altura olha para a cara daquele com quem deveria trocar ideias, ou... palavras, que fossem, já estaria no lucro; e toma mais um gole de vinho, cerveja, água, ou engole a saliva que lhe vem à boca a fim de fazer descer o sapo que engole para não dar um “piti” e romper ali mesmo de forma explosiva o consórcio de convivência em união pacifica a que se chamou “amizade”!

Sapo engolido, ainda se sorri – quem consegue – quando o outro mostra o vídeo que ele achou engraçado... Ah, as diferenças culturais e circunstâncias... Ai de nós, tirando a força do útero ou dos testículos, ainda conseguimos esboçar um trejeito nos lábios e nos despedimos mais ou menos polidamente sabendo que ali jaz alguma coisa, e que o descompasso leva ao rompimento mais aqui, mais acolá, com a recusa a uma nova sessão de masoquismo que seria um novo encontro.


*Divina Comédia – Dante Alighieri
Foto: Djair - flor do "Bastão do imperador" - jardim da casa de Ubatuba

sábado, 18 de outubro de 2014

Sociedades


Somos sócios
Socialistas, socialites assexuados, assoberbados

Assoreados pelo aço, pelo minério de ferro que nos ferra a todos

Associados, escaneados, escanhoados pela lâmina de aço

a nos raspar o rosto, as axilas, a pélvis,

a tirar pelos e cortar peles, pulsos, impulsos.



Somos sócios, somos símios, somos sonsos,

Somos somados, postos em fila e ferrados se não com ferro em brasa com crachá,

com Registros Gerais – RGs para os íntimos. Somos gado:

Socialistas, socialites os que leem, os que latem, os que apanham, os que batem,

os que manipulam, os que mentem, os que manuseiam...

vidas, carreiras, ferros, documentos, pedaços de carne em busca de um prazer fugaz.



Somos só isso, tudo isso, isso ou aquilo.

A quilo? Ou por peça? Dúzia, por dó ou por dor?

Os que rezam ou que prezam, ou que negam, renegam, desprezam, desejam



Somos pó, de minério de ferro, de rapé, de mico...

Ao pó voltaremos, ao pó preto que vem pelo vento, ao pó branco de giz que ensina o b-a-bá

Ou ao outro que promete brilhos e nos tira dos trilhos:

somos sócios, nesse ócio cansativo que é viver,

que por si só violenta, a si, ao outro, aos ideais e crenças

Somos sós,

e por isso nos refugiamos em poesias, músicas, saraus, caldos quentes, cervejas frias, mingaus.

Somos sócios...

Só isso, e nem por isso brincamos em serviço.


Foto: Djair - Muro pixado à rua Borges Lagoa - V. Clementino - SP

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O frio dos infernos

Quando Balôla faliu, naqueles dias de miserê, naquele calor moroso e sem avexação de Cezídia, onde só em Macondo, Cuiabá e Teresina se é capaz de sentir igual, ela vendeu seu aparelho de ar condicionado, luxo para poucos naqueles idos anos 1980, para Helena, que então passou a viver na frescura.

A traquitana é viciante para alguns, já comigo nunca fez sucesso – irreconciliáveis, não nos damos bem. Se está em um ônibus interestadual, por exemplo, sempre tem algum acalorado em dias de andropausa a pedir para deixar mais frio; aprendi daí, a das poucas vezes que utilizo o meio, a levar comigo uma cobertinha, uma manta, um lençol, ou o que o valha. Pois valei-me Deus, sou calorento, mas o frio daquilo me entra pelos ossos, irrita, incomoda...

Por vezes, em cinemas, já passei frio por aquilo estar num mínimo do termostato, e me enfureço então não só com os falantes do escuro que teimam em narrar o filme – embora ele seja sonoro e ainda por cima dublado.

Em Maceió, Alagoas, certa vez, foi um inferno em vida as três noites de pousada na praia de Pajussara, que no seu chiquê, acreditado pelos donos e pelos que acham o artefato sinônimo de comodidade e conforto, só dispunha de quartos com o tal ar-condicionado... E eu insone acordava para desligá-lo e dali a pouco, num calor dos diabos, acordava para ligar novamente sem conseguir regular a artimanha do rabudo que deveria também apenas ventilar... Só que não... Talvez por isso parti antes da data prevista e em Penedo, nesse mesmo estado, vibrei não só pelo bolo de aipim que a auxiliar da dona da pousada disse estar a fazer para o café da manhã do dia seguinte, mas principalmente por ter quartos com ventilador, um aparelho se também não sou fã, que aceito a brisa de bom grado quando se faz necessário. Dispensei sem titubear, para o espanto do hospedeiro, os quartos mais chiques do segundo andar, com seu luxo friorento. Sabe-se lá se não me consideraram miserável, que isso pouco me importa, mas acomodei-me no primeiro dos quartos do térreo – sem o dito cujo. Que dias maravilhosos, que noites agradáveis, que cidade fantástica!

Uma época tive um imbecil na sala em que eu trabalhava na qual, graças aos deuses, todos eles, não tinha ar-condicionado. Já o tal sujeito vinha praticamente todos os dias com seu perfume doce e um casaco grosso, pois acalorado que se sentia, tinha que ligar o ventilador, colocando-o fixo, direcionado a ele e ligado no máximo. À hora do almoço, tirava o tal casaco e colocava-o no encosto da cadeira e... não, não desligava o ventilador, saía deixando-o ali, ligado... Era eu então quem o desligava, já que não fazia sentido algum ele ali a girar indefinidamente – afinal, o moço também sempre se atrasava para voltar do almoço. Quando chegava... colocava o casaco e de pronto punha aquelas três hélices em funcionamento.

Zizi, que também não é chegado no bicho, indo ao Rio por missão de trabalho, ficou num hotel cujos quartos todos tinham o tal danado. À noite, sem dormir com um barulho de goteira –
impossível de acontecer naquele meio do prédio com vários andares acima e abaixo – depois de olhar o chuveiro e as torneiras, abre a janela e verifica... Os tais aparelhinhos, um em cima do outro, simetricamente, a formar uma fila indiana, desciam por toda a extensão lateral do edifício... Só então entendeu o recado na porta: “É proibido colocar toalha em cima do ar-condicionado.” Bem, para resolver o caso, pegou um copo no frigobar e o pôs sobre o seu artefato congelante, aparando as gotas que a caixinha de metal barulhenta de cima teimava em mijar em cima da sua, logo abaixo.

Já no Riazor, um hotelzinho modesto no Catete, também no Rio, eu achei bem simpático que o ar fosse ligado da portaria no momento em que se pegava as chaves, já no quarto bem fresquinho, desligava-o para me deliciar com a água farta e quente da ducha abençoada pelo aquecimento central.

Indo há pouco fazer um eletrocardiograma e exame de esteira encontrei a sala geladíssima. Ao comentar com duas auxiliares de enfermagem que conduziriam o exame que elas deviam sair dali doentes com tanto frio, elas de imediato começaram também a amaldiçoar a invenção. , por ser sistema central, nem tinham jeito de reduzir a friagem. Como eu também não gostasse, fizeram uma sabotagem: abriram duas vidraças que pareciam lacradas e fizeram entrar um pouco do abençoado calor que vinha de fora. Agradeci a cumplicidade e lamentaram que tão logo eu saísse teriam que fechar novamente.

É como diz o Jair: se as igrejas vendessem o inferno como um lugar gelado, com certeza convenceriam os fiéis muito mais que com as chamas e os caldeirõezinhos a ferver!

Foto: Internet - Uso livre  - disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/ce/Air_Condition_Unit_Interior_View_USA.jpg

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Uma música na cabeça

E aí, que é uma daquelas madrugadas em que você acorda insone, e com uma música na cabeça, daquelas renitentes, e que não consegue tirar, vai ao banheiro, volta à cama, levanta e vai fazer um chá, e ela ali, a voz da cantora, o mesmo refrão que persiste, insiste, resiste num looping progressivo, repetitivo, exaustivo... Ainda bem, que desta vez, pelo menos a voz e a música são boas: Vanessa da Mata.

“Ainda bem” é o nome da música, “Ainda bem. Que você vive comigo. Porque senão. Como seria esta vida? Sei lá, sei lá..” Pronto, passei o vírus pra você não foi? Um grande amigo sempre que falo que estou com uma música na cabeça se apressa sempre em dizer: “_Então não canta, senão passa pra minha cabeça.” Às vezes não dá pra resistir...

Mas o grande problema é quando a música é ruim, daquelas que você nem gosta, nem da música, do cantor ou do estilo, mas acaba por ouvir como trilha de um filme, seriado, novela, ou porque insistem em tocar na rádio ou algum boçal passa tocando em toda altura no carro, e pronto, você está contaminado.

Com o tempo percebi que só há uma solução: cantarolar uma música boa, a fim de ir matando, substituindo lentamente o vírus auditivo da outra; em geral, quando percebo estar assim infectado, e graças aos céus tem sido cada dia menos vezes, começo a cantarolar “Gota d'água” do Chico. “E qualquer desatenção, faça não...”

Dia desses, um conhecido me falava que está sempre com uma música na cabeça mas que isso era normal uma vez que várias pessoas comentavam com ele que também a tinham, não falei do meu caso, visto que é normal também (risos). E elas realmente estão sempre ali, me acompanham, como se uma trilha sonora estivesse a tocar por meus caminhos. Se for ao Rio de Janeiro, por exemplo, a trilha será sempre Marina, que antes de ser Lima era sempre a trilha sonora da cidade e está impregnada por toda a paisagem da zona daquele (bem) amarrotado, mas ainda belo, cartão postal.

E assim como ela, músicas que falam sobre lugares, cidades, praias, estradas, rios, vão fazendo fundo ao passar por eles, à sua simples menção, e assim se perpetuam, sendo muitas nas vozes de meu pai, que cantava, de minha mãe, tias e amigos que as cantarolavam.

Se Glauber tinha sempre uma ideia na cabeça, eu que não as tenho assim tão geniais, estou sempre com algum pensamento e não entendo quando uma pessoa diz que não estava pensando em nada. É possível? Bem, se não estou a pensar em nada, estou com uma música na cabeça, e então... estava sim a pensar. A cantar mentalmente, canto, logo sinto.