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sábado, 17 de janeiro de 2015

Ruminando

Opiário
( A Mário de Sá Carneiro)
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos*

Quantos sob a casaca característica
não terão como eu horror à vida? (…)
Se ao menos por fora fosse tão interessante como sou por dentro!”


      Em épocas de redes “sociais, a superficialidade mascarada de felicidade estampada nos out-doors virtuais, onde os sorrisos não são a única coisa inverdadeira, não apenas os dentes, mas até mesmo as almas, passaram por processos de clareamento.

      Odes às liberdades e à democracia, salve a diferença e soltem fogos à diversidade, desde é claro, seja a diferença de quem proclama todas essas glórias.

      O discurso da liberalidade sempre foi muito bonito e fácil, já a prática… Bem o sabemos... nota-se pela quantidade de deputados de extrema direita (à direita de quem? Do demônio?) com posições reacionárias e exacerbando ao mesmo tempo que disseminam preconceitos e ódios, e que assim são eleitos com sufrágios suficientes para catapultá-los às estrelas, ainda que muitos não ousem dizer á luz do dia que foram eles que os elegeram.

      Ah, a prática cotidiana do respeito ao outro, ao pensar diferente, ou, pior dos piores: ao agir diferente, o sair da pasteurização, e ai então tomam forma os piores dos preconceitos, aqueles que vêm disfarçados:
      “_de alma branca”; 
   “_Ah, se pelo menos ela se vestisse um pouquinho melhor...”;
     “_Mas ele devia pintar o cabelo para não parecer tão velho”;
     “_Não tenho nada contra, só não quero na minha família.” E aí, complete-se com seu preconceito preferido, cor, opção sexual, etnia, ou àquela mais próxima: mora em tal bairro, na cidade dormitório, ali ao lado, e que, definitivamente, não é a sua. Também pode ser por origem, país, região, aquela que preferir denegrir pela pobreza, pelas características físicas, ou pelos políticos que servem de embasamento para criticar dinastias enquanto o próprio “critico” vota num mesmo candidato há 10, 15, 20 anos...

      E regurgite-se, e destilem-se outros venenos sob forma de piadas e escárnios. O que interessa é que na foto da rede social você apareça feliz.

      Parece feliz...

      É...

      Será?


* O eu profundo e outros eus. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976 p.195

Foto: Djair - Flor do baile - símbolo da efemeridade da beleza, já que a flor dura apenas uma noite.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Respeito, Conceito, Pré-conceito... Preconceito!



“Deve ser erro meu querer jardim lá onde a natureza só pretende selva.”
Marina Colasanti

            Esta semana, nas redes sociais, duas noticias bombaram e suscitaram diversos comentários de protestos. A primeira, uma reportagem da revista Veja (cuja versão on line trazia um vídeo) sobre um suposto “rei do camarote” (e não, não vou falar de nossa nostalgia de uma monarquia que por aqui não durou tanto – e que se nota nos “reis e rainhas” que nomeiam tudo... O do futebol, o da voz, o da soja, a dos baixinhos, os do carnaval, da noite e por ai vai...). Mas enfim, quem quiser ver o tal vídeo é só acessar o youtube.
            A segunda, o cantor (?) Justin Bieber  que, após ser atingido por uma garrafa plástica no palco em um show, o teria abandonado, xingado fãs e cancelado a turnê que fazia por aqui. Não, ele não deve ter sido informado da tempestade de garrafas plásticas que desabou sobre Carlinhos Brown em uma edição do Rock´n Rio há alguns anos...
            Mas o que mais me chocou foram os comentários idiotas a respeito de ambos os casos, a demonstrar ignorância ainda maior que dos dois e preconceito explicito. Afinal, ao mesmo tempo que se chocavam com comportamentos, mostravam reações primarias de homofobia. O primeiro se refere ao tal rei do camarote, o segundo ao cantor:
Idiota I:          “Nossa que cara chato!!! e é gay ainda !”
Idiota II:    Éh uma Biba Mirim!....naum vale a pena comentar, deixa que a Hemorroida dele estoura sózinha!!!”
Textos transcritos Ipsis litteris (logo erros e dialetos preservados).
E se o assunto fosse um atentado dos “machos” sobre homossexuais como os que houve tempos atrás na Paulista, em Pinheiros e que ocorrem diariamente sem que sejam noticiados? Ora, fosse esse o tema das postagens, provavelmente os comentaristas (esses dois pelo menos) se calariam. É possível também que fizessem coro a vozes que protestaram contra aqueles ataques já citados. Afinal, a diversidade só costuma ser respeitada por quem faz parte daquela diversidade que o inclui. Fora isso, é o mesmo desrespeito por desconhecimento, preconceito, ignorância e xenofobismo ou mesmo muitas vezes negação.
O mesmo preconceito que leva a culpar a mulher pelo seu estupro, o gay por preferências as quais talvez ele mesmo tenha negado e lutado contra durante anos, o negro que nasceu negro por ser filho de negros, o miserável que não teve chances ou forças para sair de seu estado marginalizado, o nordestino que migrou para tentar dar melhores condições aos seus, assim como o fizeram japoneses e italianos, coreanos, árabes e tantos outros. O que faz aceitar um e não outros muitas vezes é a beleza externa ou uma ascendência dita nobre, e aí qual a diferença entre os que têm dinheiro e esbanjam em camarotes? O fato do tal rei do camarote ser gay acaso aumentaria o choque pelo modo como vê a vida, a importância às superficialidades que ele cultua? Se ele fosse mais másculo e fizesse a cara de mau, comum aos rapazes que querem ostentar sua masculinidade, teria diminuído sua boçalidade? Mas o comentário idiota (I) faz parecer que o pior seria ele ser gay. O fato de ser gay para essa pessoa é pior que ser boçal, é pior que quaisquer desvios de comportamento ou de caráter.
Renato Russo, Freddie Mercure, Cazuza, Ney Matogrosso, Elton John, todos gays, e seu comportamento no palco irrepreensível, suas músicas, suas vozes, seu espetáculo. Qual a preocupação com o que eles fazem do seu corpo? O fato de serem gays os diminui enquanto pessoas? Enquanto artistas? Porque então a qualificação de “É GAY” como desqualificador de personalidade ou sinônimo de comportamento histérico ou inadequado? Inveja? Bem, se é isso é só dar também! Mas o caso é que o preconceito está ali latente, e depois quando questionado, desconversa-se: “não era bem assim... eu tenho até amigos gays...” Pois é... Não é preconceito, né?

Foto - Djair - Serpentes. René Lalique, 1898-1899. - Fundação Calouste Gulbenkian - Lisboa,  Portugal

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Papo de comadres


Com a perna quebrada há alguns dias, devido a um escorregão lavando o banheiro, a mãe de Julio passava a maior parte do tempo na sala, a ver televisão, matinais,  jornais, novelas da tarde, e o que as seguisse... Quando não, folheava revistas, fazia crochê e ali já estava pronta a receber a visita de amigas, comadres e vizinhas.
Julio auxiliava a mãe no que podia, e ajudava a receber as visitas, pois embora fosse de poucas saídas, a mãe tinha muitas amigas e conhecidas, a maioria angariada nas missas que a mãe frequentava domingo após domingo. Sabendo do acidente da amiga, várias “comadres” lhe iam visitar.
E Julio, que nesses dias estava em casa a auxiliar a mãe, foi abrir a porta, recebê-la, sem saber de quem se tratava, afinal eram muitas as amigas da mãe que ele sequer conhecia...
Pode entrar, ela tá aqui no sofá, pode ficar à vontade. E voltou à cozinha onde preparava almoço enquanto lavava o restante das louças do café. Da cozinha, cômodo contíguo à sala, podia monitorar a mãe. Para ser gentil levou café à visita, depois buscou a bandeja com as xícaras, gentil, alegre, sorridente.
Enquanto lavava a louça ouviu o diálogo:
_Pois é, comadre... Eu aaaaadoro esse povo! Porque é ‘um povo’ dedicado, ‘um povo’ limpo. É ‘um povo’ que quando tem amizade é pra tudo! Por isso que eu gosto deles, é um 'povo' que quando dá pra prestar é uma maravilha. Mas onde foi que a senhora arrumou esse mesmo, comadre?
 _Arrumou o que, comadre?
  _ Esse gay, que a senhora colocou pra trabalhar aí, em sua cozinha...
_Comadre... Aí não é gay não! Aí é Julio, filho meu, ele tá assim de avental só porque tá me ajudando por estar com a perna quebrada...
_Ah, tá comadre! Me desculpe...
Hum-hum...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mãe aceita e compreende tudo!

Júnior levou um baita susto, quando logo pela manhã a mãe, de sopetão,  entra em seu quarto; era sábado e ela o acorda às 09:00hs abrindo a janela e erguendo cortinas. Ele ajeita-se na cama e olha para mãe que com ar preocupado e olhar condescendente diz: 
_ Júnior, eu sou sua mãe, sempre lhe apoiei, te amo, e compreendo. Eu quero ouvir de você meu filho: Você é?
_Que é isso mãe? Tá louca? Que história é essa?
_Júnior, eu sou sua mãe, lhe aceito do jeito que você for, já encontrei evidências, já me contaram e foi pessoa séria quem falou. Eu vou continuar te amando, te apoiando, te respeitando do mesmo jeito. Eu só quero que você me diga meu filho. É verdade?
_Mãe, tão enchendo a cabeça da senhora, isso não tem fundamento não. Agora a senhora vai ficar acreditando nesse povo? 
 
A tensão era grande, Júnior já com taquicardia e o sono tinha passado de vez!
 
_Júnior, meu filho, eu vou perguntar pela terceira e última vez. Se eu tiver que saber, prefiro que seja dito por você, e a hora é agora. Se você não me contar agora, e eu souber depois vou ficar muito desapontada. Você é meu filho e ninguém te ama mais do que eu. Eu vou te dar todo apoio e te entender. Você sabe que o que eu puder fazer por você eu faço, então é última vez que eu pergunto: Meu filho, você é?
 
Pausa que parecia ser eterna, Júnior cabisbaixo, ergue os olhos, encara a mãe e dispara:
 
_Tá bom mãe, já que um dia a senhora ia saber mesmo, então tá: eu sou, eu sou gay sim!
 
Se Júnior tinha se assustado ao acordar, quase cai da cama com o alto brado retumbante da mãe:
_O quêê???? Que história é essa? Que eu tava sabendo é que você era maconheiro, mas filho gay, eu não aceito nãããão!!!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Leopardos, ou gatos pardos?

Hoje pela manhã, jogava um partida de buraco enquanto lá fora o sol tímido em conluio com o vento frio não convidava a fazer nada além disto. Sobre a mesa, coisinhas gostosas para beliscar e nas mãos uma boa jogada.

Assino o jornal apenas de sexta-feira a domingo, pois mais que isso não consigo dar conta no decorrer da semana, de tempo já escasso. Foi, quando de repente, ouço no rádio a notícia do ataque de um grupo de jovens classe média alta a um casal de rapazes que passeavam pela Av. Paulista.

Noticias assim sempre me chocam. Sejam elas sobre universitários (?) do interior perseguindo alunas acima do peso, machos no cio a perseguir moças de vestido curto em universidades, filhos de gente abastada ateando fogo em índios para se divertirem, idiotas a bradar morte a nordestinos, gentinha em altos postos a humilhar funcionários negros ou presidentes de democracias a expulsar ciganos. Ou ainda campos de concentração onde se exterminam pessoas de etnias, religião ou pensamento diferente da que o status quo da sociedade dominante permite.

Em São Paulo, maior cidade da América do Sul, não é a primeira vez que tal fato chega aos jornais. Há alguns anos, um outro rapaz, domador de cães, foi morto em plena praça da República, no centro da cidade. O domador de cães não se livrou das feras bípedes e somou-se às estatísticas policiais. O mesmo ódio, o mesmo tipo de perseguição, vários contra um ou dois.

Lembro que há uma década, quando eu fazia faculdade, um colega, de outra turma, mas com quem mantenho contato até hoje, voltava de uma festa com o namorado e foram também agredidos por uma dessas hordas, em um vagão de metrô da linha verde (ramal que percorre a Av. Paulista). Quando as portas se abriram na estação seguinte à que foram abordados correram e procuraram os guardas da estação, que falaram que isso acontecia mesmo, etc..., sem o menor interesse em apurar nada. Não seria apenas passar um rádio e parar o trem na estação seguinte, para se averiguar? Mas para quê? Afinal, tratavam-se de homossexuais.

E assim a coisa vai, de seguranças que acham que gays devem apanhar, a juízes que julgam que leis de proteção a mulheres perseguidas, seviciadas, humilhadas e espancadas são descalabros...

Esta semana ainda fez-se estardalhaço sobre o caso de um rapaz de 18 anos que foi preso por beijar um garoto de 13. E tome críticas, acusações de estupro, etc... E se fosse um rapaz e uma garota de 13? Não os vemos aos beijos o tempo todo?

Assim como os padres gays, na nova caça às bruxas, são chantageados e expostos em praça pública por crianças de 17 anos... Ora, e os padres héteros? A questão primordial para igreja não deveria ser a quebra do celibato? Porque, para a lei comum, só é pedofilia se o caso é homossexual? Vende mais jornal?

Um jogador de futebol, que morou em frente a uma amiga, tinha uma postura homofóbica que disseminava para filhos e esposa, e esta última, sempre com comentários travestidos de piadinhas jocosas, falava ai, ainda bem que meu marido não gosta dessas coisas. Deus me livre. Entretanto, grande parte de nós (minha amiga que morava em frente e sua família, mais um grupo extenso de amigos) sabíamos de seus relacionamentos com pelos menos dois outros homens.

Um primo, em primeiro grau, que sempre se valeu  todo tipo de discriminação possível, e fazia questão de bradar aos quatro ventos sua posição, não nos surpreendeu quando soubemos de um “casinho”, com outro rapaz, inclusive, bem folclórico e conhecido na cidade.

Não consigo acreditar que quem realmente está bem resolvido com sua sexualidade vá perder tanto tempo e energia se preocupando com a opção sexual do outro. Mas parece que para resolver esses problema íntimos, os acometidos por essa forma de insegurança pessoal que leva ao ódio ao outro, ao invés do diálogo ou terapia, vão da verborragia estúpida aos ataque físicos chegando a causar mortes. O ódio está onde? De onde vem? De dentro, óbvio, mas porque se manifesta? Porque o outro faz aquilo que se tem vontade? O outro representa sua frustração em não conseguir aceitar-se? Ou em ver que o outro, apesar de diferente da maioria, consegue ser mais feliz?