quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

No Serro, surpresas...

     Entre as coisas estranhas do ser estão as recordações; como diz minha mãe, se o espiríto não me engana e a verdade não me mente, foi em um poema que li que “os acontecimentos eram como conchinhas na praia a serem recolhidas por uma criança. Ninguém jamais sabe quais serão as escolhidas e guardadas como um tesouro”.

     Hoje acordei lembrando de um menino, cujo breve contato se encrustou em minha memória e que, hoje, insiste em ali brilhar, daí vem o texto que ora escrevo...

      Depois de cairmos no conto da Estrada Real (sobre a qual se dizia haver toda uma infra-estrutura que não encontramos, pelo menos não naquele trecho após Mariana no sentido à Diamantina), resolvemos sair dela, e encaramos a Serra do Cipó, conforme narrei aqui em outra ocasião.*

      Pois bem, quase chegando à cidade do Serro, o pneu do carro estoura em uma estradinha de mão dupla, sem movimento, sem iluminação. A noite já havia caído, sem lua, sem estrelas, apenas com o breu... E lá fui eu cortar galhos para indicar o entrevero, já que o triângulo do carro não me parecia que ia dar conta ali, e antes que o leitor mo pergunte, não, não tínhamos sequer uma lanterna no carro.

     Perdendo-me de vista, Zi, o companheiro de viagem, gritava por mim, onde eu estava, o que estava fazendo, e eu a explicar que estava sinalizando a estrada retornei. Pois bem, com o anjo da guarda de plantão, esse foi o pneu mais rápido que já troquei na vida. Gastei mais tempo em sinalizar a estrada que com ele em si.

      Conseguimos chegar ao Serro, que se mostrou uma surpresa tão boa que acabei gostando mais de lá que de Diamantina. Não pelo melhor doce de leite que já comi, não pelo arroz tropeiro de lamber os beiços com aquele torresminho que só os mineiros sabem fazer, nem pelo queijo saboroso, de que não foi tirada toda a gordura a fim de se fazer outros produtos, mas pela acolhida naquela pousadinha simples, onde havia sim vagas depois de tantas peripécias e onde pudemos tomar banho quente e nos secar com toalhas cheirosas, de gente que estava ali tentando progredir na vida e mais que uma pousada ofereciam, marido e mulher, uma conversa solta e sorrisos acolhedores.

      A chácara do Barão do Serro estava em reforma, mas a casa dos Ottoni, transformada em um pequenino museu foi um encanto. As igrejas também são belas e as pessoas nas recepções desses lugares oferecem histórias e sorrisos sem cobrar nada, diferente de Mariana onde os guias nas igrejas vestem camisas com logotipos da prefeitura mas cobram pelas caras e você só percebe que caiu no conto depois quando no final o preço é dado. Como vínhamos já de Ouro Preto, São João del Rey e Tiradentes, onde o serviço não era cobrado, nos sentimos lesados em Mariana. Felizmente, o Serro nos fez esquecer o engodo.

      Mas lembrei do Serro ao lembrar de um menino. No dia seguinte à chegada, fomos a uma borracharia para fazer a compra de pneu novo e a realização de uma cambagem e alinhamento, já que na saída de São Paulo, na rodovia Fernão Dias, logo no começo da viagem, um pneu estourou e, segundo o mecânico, a roda que raspou no “guard rail” estava a “comer” o estepe de troca, o mesmo que se foi na entrada do Serro. Enfim, peças trocadas, serviços feitos, com o primeiro dia de Serro a passar-se ali na oficina, esperando e de prosa com borracheiros e mecânico, esse último indicou um restaurantezinho um pouco adiante do posto, de propriedade de uma irmã sua, o qual era simples de tudo e com uma comida bem saborosa.

      Quase ali chegando, me vem um menino correndo em minha direção. Nitidamente tinha síndrome de Down. Devia ter uns oito, nove anos, não mais, correu em minha direção e abraçou-me... como se eu fosse um velho conhecido, um parente, amigo, ou o que o valha. Encantou-me, a ponto de anos depois, como agora, eu lembrar-me dele e a partir daí sair esse texto.

      Depois do abraço, a surpresa: ele me pediu para pagar-lhe uma coxinha; ou seja, mesmo Down, mesmo criança, ele já sabia manipular.


* E a vaca não foi pro brejo.

Foto: Internet. Disponível em:


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Ao bibliotecário que diz não gostar de ler


Tinha a sua frente todo os ensinamentos do Buda.
Os do alcorão ao alcance da mão
História da vida privada a poucos metros, mas nada...
E adiante, avalanches de romances

Não o atraíam
Nem as generalidades no 00
Nem a filosofia da classe 100
Tampouco todo o conhecimento da história no final do corredor.

Ah, mas com que dor,
Entrego que esse senhor
que tinha ali tanto conhecimento
Para nosso tormento, enxergava no mundo apenas um aglomerado de letras e números
Uma tabela
P.H.A


Foto: internet -  El bibliotecario:  Giuseppe Archimbaldo - Óleo sobre tela. 97x71 cm.
Skoklosters Sloott - Suécia

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Marias, Matildes, Macabéas

Sempre me senti perturbado com a subserviência. 
 
Diferente daqueles que protestam por perder regalias e que ainda não se conformaram com a abolição da escravatura, me incomoda ver o outro a trabalhar enquanto nada faço. Mas também é lógico: gosto de ter quem faça serviços que não estou a fim de fazer, e para isso contratamos uma doméstica para uma jornada de 06h, três vezes por semana (registro em carteira, salário decente – o dobro do que uma conhecida paga a sua por jornada de 08h, em uma jornada de 5 dias semanais).

E assim livrei-me do fogão; não que não goste de cozinhar, gosto, mas sem o compromisso do “ter” que fazer. E livrei-me também da maior parte das tarefas de limpeza da casa. Posso me dedicar com mais calma às plantas e pude, por exemplo, ir à praia antes de sentar aqui para escrever esse texto sobre algo que me incomoda há dias, com sentimentos antagônicos.

O desejo de agradar àquele que seria o patrão (termo que me perturba), a levou há poucos dias a perguntar-me se poderia lavar meus tênis. 
 
Estupefacto, perguntei: _Como? e ela explica:_Aqueles tênis brancos, posso lavar?
Respondi ainda meio surpreso e constrangido que sim.
_Ah, sim, claro... 
 
Bem, desde o fim da adolescência não sou de lavar os tênis; como sempre disse: eles perdem a personalidade, a história de por onde andaram e as marcas do que pisaram...

Lembro de um namoro distante, que foi pouco mais que um flerte, onde a pessoa ao chegar em casa certa vez, também lavou-me um par de tênis e engraxou-me um coturno que eu adorava. Lógico que fiquei feliz naquela ocasião, e nesta agora também me agrada tê-los tão brancos como quando foram adquiridos, no entanto não me conforta a ideia de alguém fazê-lo por mim. Ainda que paga para isso, não estava combinado que esta seria uma das tarefas da doméstica. 
 
Assim, a cada olhar, enxergo nela minha Macabéa*.
Provavelmente eu não sirva para ser patrão. Nunca me senti bem em olhar para alguém trabalhando enquanto eu apenas existiria, ocupando um lugar onde deveria ter ar. Coisa que a muita gente faz muito bem, inclusive no trabalho, onde deveriam honrar seus salários, mas se fôssemos falar sobre os que só produzem fezes, urina e suor, a crônica seria outra. E os bois teriam outros nomes.
 
A Macabéa fala pouco e baixinho, e eu, que já não ouço muito bem, tenho que por vezes pedir que repita. Senta-se à mesa conosco às refeições; em casa sempre foi assim: lembro de meu pai pedir certa vez à minha mãe que dispensasse uma de nossas contratadas por ela se recusar a comer conosco. Em casa de alguns amigos, elas nunca o fazem. Não são parte da família, não se tornam amigas, são mantidas à distância. - E aqui o ponto é mais longo para uma reflexão maior do que eu teria capacidade de verbalizar.


*Vide A Hora da Estrela, LISPECTOR, Clarice.
Foto: Djair -




terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Em briga de marido e mulher, contam-se os pontos do ibope!

Todos nós, ali da roda mais próxima, sabíamos que o casamento daqueles dois, outrora pombos arrulhadores, não ia bem; as pequenas grosserias cotidianas já se faziam notar a muito fora da alcova. Talvez dentro dela ocorressem carinhos na mesma intensidade, como vai se saber afinal dos mistérios dos laços matrimoniais que insistem alguns em manter, mesmo todos sabendo que dos laços só sobraram nós e emaranhados de difíceis alinhavares.

Nunca se chegou a ouvir como em um outro caso famoso um: “_Cala-te estupor!”, dito em alto brado retumbante, durante as festas e reuniões, mas o fato é que tempos depois chegavam à boca pequena os comentários sobre as pequenas agressões já não apenas verbais que trocavam. Isto, para a estupefação de uns, lágrimas de poucos e alegria de outros, pois tem gente que só é feliz quando sabe que o outro está pior que ele. Mas isso é assunto para outro texto a versar sobre as desgraças humanas. Voltemos ao casal que a essas alturas o marido já deixava nela marcas arroxeadas.


Reza a lenda, e quem sou eu para desmentir a lenda, já que todas elas contém fundos de verdade?, que àquela noite, ele que ocupava um posto de liderança no partido político, depois de se acalmar à custa de safonões bem dados naquela que jurou diante de um altar amar na doença e na saúde, na riqueza e na pobreza, veio a ela já arrumado e decretou que ela ficasse lá esperando porque ele ia na reunião do partido para decidir sobre as comemorações do Dia da Mulher.

O tempo passou e com ele veio finalmente a separação que todos achávamos que já tinha passado da hora.

O ápice do comentário geral foi ela tê-lo levado a um programa popular que levava o nome da apresentadora e que foi famoso pelas baixarias familiares que ali eram exibidas em praça pública, via satélite, ao vivo e a cores. O mote do dia, se o espírito não me mente e a verdade não me falha como diz minha mãe, era: Ele me agrediu!

Mas o tempo, ah, o tempo passa, o tempo voa, e a poupança bamerindus faliu! E assim chegamos a mais um ano eleitoral no qual ele concorria sorridente ao cargo de vereador. Ao lado da nova esposa fazia poses sorridentes, discursos de bom mocismo e nunca antes fôra tão cortês, gentil e educado. Ela? A primeira esposa? Bem... Fazia feroz campanha a favor da legislatura do ex-marido.

Afinal concordamos todos: ela queria uma pensão maior!


Foto: Djair - mulheres

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Os Mutilados



Texto de apresentação da exposição os mutilados. Novembro de 2015

Os Mutilados

   A Biblioteca Central da UFES, Campus Goiabeiras, abre ao público em outubro de 2015 a mostra “Os Mutilados”, uma exposição de livros de seu acervo que foram danificados, propositalmente ou não, durante o processo de consulta ou empréstimo, apesar de constituírem um rico patrimônio público que compõe o maior acervo bibliográfico no estado do Espirito Santo.
Embora seja uma biblioteca acadêmica, de uso do corpo docente e discente da Universidade, a Biblioteca Central atende também ao público externo, uma enorme quantidade de pessoas não só da capital, que tem nela o depositário legal de obras de literatura e conhecimento diverso, passando pelas obras raras e iconográficas, além de encontrar um local de refúgio a fim de se dedicar ao estudo e leitura.
Para chegar à estante, cada livro tem um longo caminho a percorrer. Depois de a ideia do autor ter tomado forma impressa, ele passa pelo crivo de especialistas, professores, bibliotecários, pesquisadores, alunos e leitores em geral, que os recomendam à biblioteca, onde se efetua a seleção dessas indicações com base no conjunto já existente. A compra é realizada por meio de pregão eletrônico (licitação) e, após a entrega, o livro passa pela conferência de seu estado físico, pelo processamento técnico (inserção na base de dados, carimbo, etiquetagem) e armazenamento, a partir do qual fica disponibilizado para consulta local ou empréstimo.
Infelizmente todo esse trabalho pode ser perdido num único dia, e não raro no mesmo dia da disponibilização, por um único usuário que o danifica, intencionalmente ou não, por descuido ou omissão.
Em um país onde a imprensa foi estabelecida há apenas dois séculos, e a primeira universidade data de 1912 (enquanto que a Universidade de Coimbra, por exemplo, foi criada em 1° de março de 1290), os livros representam uma riqueza extraordinária e a difusão do conhecimento contido numa biblioteca transcende espaços e convenções.
A exposição “Os Mutilados” busca apreender o olhar do observador de forma a sensibilizá-lo e indigná-lo diante do dano/crime causado a um patrimônio que, mais que público, é impessoal e transferível. Essa transferência se dá na medida em que o conhecimento assimilado em cada obra permanece com seu leitor, que o reelabora e o transmite a outro através dessa fineza que é a cultura adquirida e transformada em expressões, gestos, vocabulário e saber.

Djair Rodrigues de Souza
Curador

Ficha Técnica da Exposição
Reitor: Reinaldo Centoducatte
Vice-Reitora: Ethel Maciel
Diretora da Biblioteca Central: Arlete Franco
Superintendente de Cultura e Comunicação: Edgard Rebouças
Secretário de Cultura: Rogério Borges de Oliveira
Curador: Djair Rodrigues de Souza

Equipe Técnica:
Márcia Mendonça
Vera Lúcia Trancoso
Whashington Loureiro Barbosa
Eric Arantes Ribeiro



 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

"Recebe o afeto que se encerra"

      Nos anos 1980, Henfil (quem não sabe de quem se trata recomendo googlear) tinha uma coluna na revista Isto é (Que tinha uma linha editorial bem diversa do que se tornou hoje), e publicou ali um verso, que, segundo ele, lhe teria sido entregue por um manifestante que fazia parte do movimento pela campanha das diretas já (Google mais uma vez para os desavisados).
O verso , simples, curto, mas que encerrava em sim o sonho que era então o direito a escolha pelos representantes dizia:

Se não houver frutos
Valeu a beleza das flores
Se não houver flores
Valeu a sombra das folhas
Se não houver folhas...
Valeu a intenção da semente.”

     Naquele ano, o congresso sob a mão da ditadura não aprovou as eleições diretas para aquele pleito, embora tenha permitido que um civil depois de 20 anos pudesse concorrer (em eleições indiretas, friso) à presidência do país.

      Hoje termina uma greve de 4 meses, onde se reivindicava reposição de perdas salariais, condições de trabalho dignas e sobretudo: respeito!

      Infelizmente, há anos o funcionalismo público, diferente de todas a categorias profissionais, não tem uma data base, e só recebe aumento se e quando entra em greve. Em contrapartida as greves tem sido cada vez menos abrangentes, uma vez que há décadas a política federal (desde o boom do tucanato neoliberal), tem sido de terceirização da mão de obra no serviço público, extinguindo cargos e contratando funcionários terceirizados onde as empresas contratadas a peso de outro estranhamente muitas vezes abrem falência e deixam os contratados a deriva, sobretudo em época de renovação contratual. Assim, esses terceirizados não fazem greve e a maior parte dos serviços se mantém, enquanto o serviço público é desmantelado.

      Enfim, a greve acaba hoje, a luta não.

      E se não houve de fato uma reposição sobre as perdas salariais (já que não somos deputados ou juízes, muito menos banqueiros), se não houve melhorias nos planos de carreira, se não houve um ganho decente na cobertura de planos de saúde ou vale refeição, se o governo que aí está (e que se levantou sob a égide de um partido criado justamente devido às grandes greves dos anos 1970/80) não mostra respeito a categoria e à luta por melhores condições de vida e de trabalho...

      Valeram as caminhadas, valeram as pessoas que conhecemos, valeram os filmes vistos durante o Cine-Greve, valeram as poesias no Saraus!




 Foto: Fábio Massanti - Sarau da greve

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Inspirações pelas madrugadas

Levanto ao meio da noite para não perder o texto. 
 
Quantos já não os perdi, por preguiça de levantar, por puro cansaço físico? Já que dormir, isso não faço mesmo.

Fico na cama inerte, esperando o adormecer, que só vem, quando a luz do sol brigando com a cortina anuncia que já é dia. E então, é tarde para dormir.

O turbilhão de ideias que me atravessa a noite e, pela exaustão ou pelo torpor da falta de sono, tem a pretensão de me parecer brilhante, ou pelo menos, “legalzinho”...

Mas vem o dia e seus afazeres, e assim todas elas fogem. Os morceguinhos, insignificantes, na verdade, desaparecem ao primeiro sinal de movimento pela casa, pela rua... Vai ver é o café, esse falso amigo de que tanto necessito para acordar o corpo, que me faz adormecer a alma. Ou é o movimento, esse inimigo declarado da poesia, que não permite que ela me visite durante o dia. Ele está em guarda!

Mas à noite, quando eu, morto de cansaço desperto, ela qual criança traquina, vai se descobrindo aos poucos, com raiva ou ternura, desencanto ou magia, tudo depende conforme correu-me o dia, e desdobra a pontinha de seu cobertor, descobre a cabeça até abaixo dos olhos, e me olha. Quando percebe que estou alerta, cobre-se de novo... Daí a pouco, refaz o gesto, mais uma espiada... E sopra o lampejo de alguma atividade, algum texto, uma fantasia... Se me agarro a ele, ela também se levanta e se desnuda, somos noivo e noiva apaixonados, em núpcias. 
 
Já se persisto ali, desolado, exaurido, buscando o sono, amante caprichoso que não vem, ela de pirraça sopra-me palavras de amor, sussurra em mim encantamentos, indignações, iras e paixões tantas e tais que mais ainda o sono se aparta. E penso: amanhã escreverei sobre isso.

Vem o dia e finalmente... Cadê? Onde estão elas? As ideias, as palavras, as frases bem construídas? O tema?

Simplesmente não existem mais. O mote morreu!

Minha musa é ciumenta e odeia o sono, se cedo a ele, ela possessiva me abandona, faz sua trouxa e leva embora as palavras-criança. E não adianta chorar jogando catarro nos cantos das paredes, ela vai demorar a vir de novo.

Foto: Roberto Tadeu Noritomi - A lua, vista em São Paulo em 21 de junho de 2015

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Os centro do mundo

São tantos os “centro do mundo”, que não quero ser vento, para não ter que virar redemoinho, girando-lhes ao redor do umbigo.

 São tantos os “centro do mundo”, que não quero ser mar, fazendo ondas para lamber-lhes os pés.

 São tantos os “centro do mundo”, que não serei floresta que pode florescer e frutificar, apenas nas estações que escolhem.

 São tantos os “centro do mundo”, que não desejo ser nuvem, fazendo sombra onde creem ser sol. Deixo que brilhem.

 São tantos os “centro do mundo”, que não quero ser rio, levando mais vaidade onde são um oceano.

São tantos os “centro do mundo”, que eu, centro de meu mundo, cada vez mais, sou um deserto de sal, onde nada prospera. Esquecido, inóspito, e distante.


Foto: Internet - Luís XIV - Auto-proclamado: O Rei Sol Quadro de Hyacinthe Rigaud, 1701. - Luís XIV, absolutista, colocou a França em quatro guerras.

domingo, 24 de maio de 2015

Entre o céu e a terra

"Se você vier, pro que der e vier, comigo... Eu lhe prometo o sol, se hoje o sol sair. Ou a chuva, se a chuva cair..."
Geraldo Azevedo

E depois da troca de aeronave no Santos Dumont no Rio, finalmente seguia rumo a Teresina. Já sobre o Piauí, aquela tempestade imensa, onde os relâmpagos vistos de dentro das nuvens assustavam, a trilha sonora dos trovões fazia com que não se ouvisse respiração alguma, todos retesados nos encostos das poltronas, ninguém falava, alguns, provavelmente mais fiéis, talvez rezassem...
Nunca antes na história desse país, ops... Digo, nunca antes na vida eu pegara uma turbulência tão grande. Fora a chuva caía, com os flashes que refletidos nas próprias nuvens pareciam paparazis ao encontrar celebridades; dentro, luzes reduzidas, as comissárias (já que pela faixa etária avançada das tripulações, deixaram de usar o termo aeromoças, mas ao menos tiveram o bom senso de não usar termos anglicistas), sentadas em suas poltronas à porta da cabine – ali, na segunda fila de poltronas, sem vizinhos de assento, eu podia vê-las tão hirtas como as pessoas nas filas ao lado.
O pensamento me veio tranquilo: é agora? Se é esse o momento que a morte vem, estou pronto, pode chegar. Não vi a menininha que anuncia a morte em Guantanamera (filme dos cubanos Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío), nem parente já morto como via tia Belinha pouco antes de partir. Mas imaginei que a hora seria aquela.
Não foi, como bem devem ter observado, já que este texto não está a ser psicografado. Mas realmente eu me senti preparado para o encontro com a moça da foice, e apenas pensei: quero que meu último pensamento seja para Jair, esse companheiro de duas décadas. E então lhe dediquei os pensamentos que ele jamais saberia serem para ele, caso eu tivesse mesmo ido em direção à luz. E assim comecei a relembrar coisas vividas, o dia-a-dia. Afinal segundo algumas correntes hindus, sua alma é transportada para aquele lugar onde você estava a pensar na hora do passamento.
A área da turbulência passou e não foi desta vez que fui assumir meu cargo, de chefia e comissionado, no céu. Pousamos lentamente dando voltas sobre o rio Poti, a chuva caía sobre as suas águas barrentas, os telhados ocres das casas refletiam molhados as luzes dos postes, e eu estava vivo... Até quando não sei, mas sim: continuo pronto.


Foto: Djair - Céu do Brasil, possivelmente Goiás, pela janela do avião, dezembro de 2014.



quinta-feira, 14 de maio de 2015

Na falta de alfarrábios digitais

“Quando se instalou em Antares a primeira usina elétrica, Xisto Vacariano, sentado à cabeceira de sua mesa à hora do jantar, disse aos filhos: “(...) O avô de vocês vivia muito bem se alumiando com lâmpada de óleo de peixe e vela de sebo. A máquina mais complicada que ele conhecia era o monjolo. Para mim, lampião de querosene ou acetilene já é luxo demais. Ninguém me convence de mandar botar na minha casa a tal luz elétrica. Dizem que esse negócio dá choque, pode até matar uma pessoa.”
Érico Veríssimo em: Incidente em Antares.


A despeito da citação acima, de um dos livros que estou a ler por esses dias, este post nasceu a partir do comentário em uma postagem do amigo de “Belzonte”, Luiz Otávio. Na grande rede social da atualidade, postava ele a foto da página de um livro de poemas nacionais, herdado do pai... Não, o tema não é poema, e muito menos os dedicados à pátria, tão amarrotada nesses dias, mas sobre livros. Na contra-mão com Marco, lá na Alemanha, e na janela mais abaixo, onde a conversa flui em tempo real, falávamos, ele sobre sua paixão pela tecnologia, eu pela aversão a celulares e tais. Ele a paixão pelos I-Pad e eu pelos alfarrábios, seu cheiro, seu contato que me parece menos frio e mais romântico...
O comentário na postagem de Luiz Otávio foi este: “Serei sempre dos alfarrábios, são eles que me encantam com sua grafia já há muito adulterada, seus tipos de letra fora de uso, seu amarelado, quebradiços e de pequenos cortes, sua história pessoal além da que as letras contam, essas suas "rugas" sempre a me impressionar... Em que mãos estiveram, quem os folheou sem ler, e os que o leram, o que sentiram, o que acharam, a quem essas jóias pertenceram, em que momento foram deixados de lado...” 
 
E assim de fato é, a mesma paixão que Baratta, amigo de Sampa, tem pelos discos em vinil, o gosto talvez por uma época que não existe mais. Se o livro é meu, o grifo, faço anotações, e no caso de um de poesias do Leminski, chegava a escrever algumas ali também, e mesmo numa ousadia petulante, a completar e continuar versos... Se o livro é de biblioteca ou de amigos, as vezes me dá pena que não seja meu para poder grifar-lhe o que aqui e ali me agradou.
Até gosto quando o livro vem de um sebo e tem uma ou outra anotação ou grifo, mas no caso das bibliotecas abomino o procedimento. Como as pessoas podem confundir assim o público com o privado? Se o livro não é seu, não grife, não escreva, não dobre, não use a orelha como marca páginas.
Um dos que leio atualmente, a pessoa que o leu antes grifou as palavras que não conhecia; fico a imaginar quem seria, um estudante ginasial? Alguém que pouco leu? Afinal, palavras como “inveterado, impingiram, hirto e correligionários (sim, estou com o livro ao lado), entre outras, não são assim tão desconhecidas, acredito.
Um dos arrependimentos que trago comigo é ter me desfeito de um exemplar de 1952, em papel jornal do “Os miseráveis” de Victor Hugo. Ter a última edição, em dois volumes, da Cosac&Naif em nada me alivia. Aquele já não tinha capa, o papel amarelado, as folhas grossas; e a introdução e tradução de Afonso Schmidt ainda me vêm à lembrança a cada vez que falo nessa obra. Alguns cadernos já se soltando, agarrando-se bravamente à linha tão amarelada quanto suas páginas. Fui, dentro dessa argumentação, “convencido” a jogá-lo fora. É, fui covarde...
E as dedicatórias? Ah, já escrevi sobre elas aqui mesmo no blog, e continuo a adorá-las; um livro, um disco, ficam a meus olhos muito mais saborosos com elas. E isso não dá para transferir para formatos mais frios, muito embora já tenham existido “depoimentos” no finado e bem enterrado orkut. Nesses formatos novos, também não dá para colocar uma flor que se ganhou entre as páginas, para anos depois a redescobrir ali, seca e ainda com algum aroma, é, sei que se corre o risco de estragar a página, mas de qualquer maneira esse costume também já saiu de uso.
E é por isso que mesmo escrevendo aqui com carinho, e sentir cada comentário como um carinho recebido de volta, ainda assim são as letras impressas no papel as minha preferidas, por isso que apesar da demora na fila quando lancei o primeiro livro, fiz questão de escrever para cada um uma dedicatória diferente. E aos que foram ao lançamento, também um desenho, como uma forma de agradecer o carinho e atenção que tiveram.
E como o texto já se adianta, fico por aqui. Paradoxo: obrigado por ler, seja no micro, no celular ou em qualquer outro suporte!

Foto: Luiz Otávio Pereira




quarta-feira, 15 de abril de 2015

Algumas palavras sobre transplantes de órgãos.



Atualmente, pelo menos dois amigos esperam por transplantes.
Foi neles que acordei pensando nessa madrugada. Rins, fígado...
Pedaços de outros corpos que podem proporcionar uma qualidade de vida melhor, que podem salvar-lhes as suas.
Todos os dias, esses mesmos pedaços, são enterrados e queimados aos montes, por aí... Acompanham corpos que apodreceram sem servir a ninguém, os que serão queimados sequer servirão de comida aos vermes.
Esses amigos sofrem, física e nem sei dimensionar (e quem poderia?) o quanto, mentalmente, por não recebê-los, por sabê-los deteriorando naturalmente, por sabê-los virarem cinzas, por saber que em processos de embalsamamento, muitos vão simplesmente para latas de lixo, e sequer serão utilizados para pesquisas médicas que salvariam vidas. Vidas como aquelas que se acabaram de ir, deixando inanimados os corpos dos quais faziam parte; vidas dos que agora se julgam donos desses corpos já sem vida, que podendo doá-los e salvarem a outros (e a si), optam por perdê-los, optam pela podridão, condenando assim ao sofrimento e à morte os que poderiam sobreviver com os nacos de carne perdidos.
A culpa é da dor que sentem? A dor que sentem é maior do que a dos que esperam? O dilema da escolha é psicologicamente mais brutal do que a quem sabe que para viver precisa de um pedaço do outro, e que para recebê -lo a forma mais comum é que “esse outro”, esse “doador”, precise morrer?
E se você, ao morrer, preferirá que esse seu pedaço apodreça junto com o resto, que seja queimado, tornando-se apenas cheiro de carne queimada e pó, ou que salve a vida de alguém?

Foto: internet - Uso de acesso livre. Disponível em:

quinta-feira, 12 de março de 2015

Noite de São João


Dão-dão-dão
Bate o sino
É noite de São João
Pula a fogueira o menino
Solta fogos o velho bonachão
Solta balão um traquino
Toca o sino o sacristão

Dão-dão-dão
Faz o badalo
Os fogos fazem chuva
Formam halos
Ilumina o céu o balão
E o sino sem parar
Dão-dão-dão a repicar

Crepita a lenha à fogueira ardente
O sanfoneiro faz repente
Se toma quentão, vinho aguardente...
Ignorar a quermesse? Há quem tente?
Não, não tem não
Pra sorrir basta o badalo
Que em noite de S. João
Repica a noite inteirinha
Dão-dão-dão,
dão-dão-dão.



quinta-feira, 5 de março de 2015

Alamandas


Essa semana me deparei com uma bela foto de alamandas na página da Carol Mazzeo. Dizia ela:

“Alamandas. Leva o segundo lugar nas flores preferidas na minha vida. E acabei de me dar conta do porquê: assim como Hibiscos, elas não precisam ser mortas pra trazer beleza. Vasos e canteiros: o cultivo com zelo. (...)”

A imagem remeteu-me direto à Zuleica; eram também as preferidas dela e foram plantadas na casa de Ubatuba. Através das flores amarelas, ela queria resgatar um pouco daquilo que se perdera, quando as mesmas flores existiram na casa de vovó Lili, na distante Passos de tempos inocentes. Era ali, no Parque Vivamar, que as flores plantadas junto ao muro da frente, numa tentativa de fazê-las cair para o lado de dentro, ou de fora conforme o plantio, tentavam esse resgate.

Com o tempo, ficus plantado à frente da casa – pela associação de moradores do bairro que queria padronizar, além das calçadas de grama, a árvore às portas – o ficus enorme ensombreava toda a frente, e a partir daí o emaranhado de galhos verdes das alamandas tinha cada vez menos flores. Ainda assim trançávamos ramos, amárravamos arames, tentando conduzi-los, e os que subiam acima do telhado do portão, conseguindo raios do astro luminoso, nos brindavam finalmente com as flores que na infância tinha ouvido chamar-se “peido de velha”.

Num daqueles dias, em férias, aproveitando a raridade dos dias sem chuva naquela Ubatuba ainda bucólica e horizontal, resolvi comprar um caminhão de pedras roladas. Quando elas chegaram, Zuleica assustou-se, assim como Jair e eu mesmo, tal a quantidade e tamanho, e lá fui eu, seguido por Jair, e depois por Zuzu, a transportar todas as pedras. Cercamos, fazendo contorno e desenhos, todo o jardim; o canteiro lateral esquerdo que ia dos fundos até o muro da frente, pleno de hibiscos e uma outra arvorezinha de folhas verde-amarelas, a qual não sei o nome, mas era a festa dos beija-flores; depois um círculo, formando um novo canteiro a fazer o contorno da castanheira, chapéu de sol, mariola, sete copas, ou como queiram chamá-la. O canteiro do lado direito, onde os bastões do imperador viriam a florir tanto quanto as marias-sem-vergonha e as alpínias, ou para quem gosta de sobrenome: as Alpinia purpurata Red Ginger Lily.

Na frente, outros dois canteiros, um para a buganvília, que depois de morrer vítima de uma ventania em que foi arrancada deu lugar a um círculo de margaridas, o outro desse arbusto dos beija-flores e umas samambaias, além das onipresentes sem-vergonhas, as Marias. Como pedra não faltava, surgiu mais um e ali plantei um coqueiro anão.

Ainda restavam pedras, e assim as alamandas da frente ganharam também seu “guarda-corpo”, pois tudo precisa de contorno nessa vida. Depois de tudo colocado em seus devidos lugares, os canteiros ao meio do gramado ficaram mais belos, mas... faltava alguma coisa, pois estavam baixos, fundos, e assim, comprei um caminhão de terra de jardim... Mas dessa vez contratei dois rapazotes, que a terra era muita e a chuva viria a qualquer instante. E deu tempo, ficou tudo belo, florido, vívido.

A imagem da Zuleica carregando algumas pedras, dentro de sua força feminina e frágil, jamais me saiu da cabeça. E as alamandas se tornaram a sua lembrança mais física, agora que ela nos deixou; e assim toda vez que as vejo floridas, lembro dela, e penso poder plasmá-las e que ela as receberá onde quer que esteja.

Foto: Internet.

domingo, 1 de março de 2015

Miss Daisy

Como diz minha mãe, “se o espiríto não me mente e a verdade não me falha”, seu nome era Daisy, miss Daisy. A professora de inglês da oitava série. Lá mesmo na velha “Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau...” Àquele ano, sabe-se lá por que cargas d'àgua, a porta da classe tinha sido cortada ao meio, tornando-se uma cancela, para onde corriamos às horas de toque da campainha que anunciava a troca de matérias, consequentemente dos professores. E por isso éramos apelidados de meninos da porteira.
Miss Daisy foi nossa professora de inglês naquele ano, depois de anos da professora Isamar, a velhinha jocosa, alegre e querida, agora tínhamos ali uma jovem bonita, agradável e de grandes atributos como se verá. Já era quase final do primeiro semestre e, ao contrário do que se pudesse pensar, vivíamos àquela semana, pelo menos, dias quentes.
À “cancela” esperamos a jovem que já povoava imaginários pueris em seus primeiros mênstruos. Morena, magra, estatura mediana, cabelos lisos, olhos grandes e de cintura acentuada, o que na moda da magreza cada vez maior já não se encontra. A voz era gostosa de se ouvir e a simpatia fazia meninos pensar que eram homens e suspirar em seus delírios púberes. Mais eis que ela não tarda, vem pelo corredor sorrindo, com andar sinuoso, e adentra com seu delicioso “good morning darlings!”
O brinde àquele dia à rapaziada boquiaberta; aliás, as bocas além de abertas estavam também a salivar, ou... completamente secas.
Miss Daisy se nos apresentava com uma blusinha de alcinhas, de tecido leve, vaporoso, fresco e completamente transparente. Sem sutiã; em meio a uma horda de barbáros, digo, de alunos adolescentes e em ebulição hormonal. Mas o presente à classe não era apenas a blusa, mas ao fato de ela não usar sutiã naquela ocasião, pelo menos.
Quis o destino que para tomar o ponto ela viesse se sentar em uma carteira à frente, na fileira à minha direita, de onde volta e meia fazia algum pequeno comentário comigo, o mais próximo dela. O exercício no quadro a que colegas iam responder não chamava atenção, mas as duas tenras peras envoltas em seda negra prendia o olhar atento da população masculina. A aula durou pouco, aqueles cinquenta minutos se passaram em não mais que dez.
Nova correria à porteira, mesmo antes dela sair, todos a querer vislumbrar a arte esculpida em carne. E a responder o bye bye com a alegria eufórica de quem tirou um bilhete premiado. Após sua saída, os comentários, em que até as meninas comentavam, atiçando-nos a exacerbarmos o laudo da vistoria.
A alegria estava instalada, ah, a juventude... D. Lenir, a professora de português na aula seguinte, sacou do seu famoso bordão: “Meus filhinhos, ô meus filhinhos, vão se acalmando, vão bebendo água.” Sem entender o que se passava e sem deixar o gerúndio de lado.
Na semana seguinte, na quarta, quinta, ou sexta-feira que o valha, que minha memória não é tão precisa, mas enfim, no dia da nova aula de inglês, todos a postos, olhares atentos, sentidos mais que aguçados, com a disputa pelo lugar à porta já ocorrendo no corredor mesmo, e eis que ela surge. Linda, cabelos soltos, sorrindo abundantes dentes, os lindos olhos famosos pelo tamanho a brilhar e... uma gola cacharel que ia até o pescoço. Não se divisava sequer o formato de seus ombros ou a cor amadeirada de seus braços, as mangas compridas. Havia esfriado. O clima, os ânimos, a paixão.
Logo depois entramos de férias; na volta Miss Daisy havia sido substituída por D. Marisa. Bahiana classuda, morena, cabelos negros, rosto bonito, elegante, cintura finissíma como se desafiasse os glúteos de proporções épicas e formato afrontador, como uma musa de Goya. Sempre de vestido, tailleur, saia comprida... Tínhamos agora, depois da Maga desnuda, a Maga vestida!


Foto: PatCarla - Carol Mazzeo (e seu belo par de seios).