quinta-feira, 26 de julho de 2012

Deus salve a gafe nossa de cada dia

Hoje, como volta e meia acontece no meio político, do esporte e qualquer outro, foi dia de gafe. Ao anunciar as atletas da seleção de de futebol feminino da Coreia do Norte, foi exibida no telão do estádio em Glasgow, na Escócia, a bandeira da Coreia do Sul. Provavelmente alguém perdeu o emprego, ou no mínimo levou uma “encarcada” daquelas. Ainda mais em se tratando que a gafe envolve países rivais politicamente e que se estranham amiúde. As jogadoras saíram de campo antes da partida contra a Colômbia e retornaram depois de mais de uma hora. Organizadores emitiram pedido de desculpas e, apesar do constrangimento, o que poderia abalar a equipe da Coreia do Norte, serviu para (ao que me parece) estimular, e ela venceu a Colômbia por 2 a 0.
            Mas... Quem nunca cometeu uma gafe? E tantas, e quantas? E feias? Daquelas que fazem rir e viram causos àquelas que tiram noites de sono e causam remorsos. Eu as coleciono às dúzias, e me puno mentalmente por elas, por minha irreflexão e falta de tato, então deixemos elas lá bem quietinhas e falemos das dos outros, que a nossos olhos condescendentes são sempre menos graves e mais risíveis que as nossas, afinal a vergonha foi do outro.
            Uma que nunca esqueço foi ainda em Cezídia; naquele dia, à noite íamos todos a uma boate, recém-inaugurada e bem afamada por ter bom som, bom DJ, etc, etc, etc. Estávamos todos na casa de Pedro, a quem eu tratava de padrinho, por ter apadrinhado um relacionamento fugaz mas que serviu para dar-lhe tal alcunha.  Enfim, éramos umas 10 pessoas, fizemos as contas e já prontos vimos que precisaríamos de dois táxis, mais a entrada da boate, mais bebida, etc.; sairia uma grana a diversão noturna, mas a noite prometia. Descemos todos e vimos uma faixa na quadra do prédio, haveria uma festa com bingo em uma das casas vizinhas, não sei de quem partiu a ideia, mas... E se fôssemos à festa ao invés da boate, a diversão seria a mesma, dança, bebida, risada, etc, etc... Todos de acordo nos encaminhamos para lá... Ocupamos duas mesas no jardim e lembro que consumimos duas caixas de cerveja e uma de refrigerantes. Conhecemos a Marta e sua irmã, que moravam no mesmo prédio do padrinho, um andar acima e que juntou-se a nós. Ríamos, contávamos causos, um ou outro entrava e dançava por um tempo e depois voltava. O resto do pessoal? Bem... Pouquíssima gente, a festa fora um fiasco, e até por isso e por sermos um grupo que consumia, éramos tratados pelo rapaz que organizara o mico com o maior apreço, afinal prejuízo pouco é bobagem.
            Uma das meninas foi embora, não lhe lembro mais o nome, apenas que era bonita.. E fanha... Fosse eu Machado de Assis, e fosse o blog Dom Casmurro teceria: “Se fanha porque bela, se bela... porque fanha?” Mas enfim o causo era que a essas horas estávamos todos na mesa a cantar e, à saída dela, que era uma das mais cantantes, começamos todos a cantar imitando-lhe a nasalação, e dá-lhe “Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora, e chora, e choooora...” Pode não ter graça aqui, mas a maldade feita em grupo, e depois de várias garrafas de cerveja, era de despertar gargalhadas homéricas, altissonantes, intermináveis. E para quem  está a esperar que ela voltasse e nos pegasse no ato e daí viesse a gafe da história em questão... Pois bem... Isto não aconteceu...
            Bem, voltando à festa, Victória, que não bastasse o pré-nome de glória tinha que ser Régia, era das mais animadas com a dança lá dentro, e vinha à mesa volta e meia contar uma piada ou fazer um comentário jocoso... E lá vinha ela a adentrar de novo o “salão de baile”. Numa dessas ouvimos uma discussão... Quem era? Victória... A própria... Envolvida numa tonitruante discussão com outra menina...
            O namorado da moça tinha se engraçado por Victória, e Victória tinha achado muita graça no rapaz, já a namorada daquele... ficou séria e daí veio a discussão, - aliás porque sempre as moças vão tirar satisfação com as outras e não com os mancebos? – Enfim, a moça queria que fossemos embora, etc, etc... O rapaz dono da festa tomou-nos as dores e mandou que ela sim se retirasse; nossa amiga volta passada à mesa, narrando sua versão do acontecido e pedindo mais cerveja. Para o rapaz dono da festa, ela começa a desabafar: onde já se viu... Ah, mas eu conheço essa menina, ela trabalha lá na *Censurado que eu não sou besta*, não é? E ele: É, é sim... Pois ela vai saber quem é Victória Régia não sei das Quantas, ela me aguarde que vai ter noticias minhas. Isso é uma histérica que tá precisando mesmo de macho, e sobe o morro, e desce barraco, e de tão fina vira uma lavadeira (que segundo reza a lenda tinham um linguajar chulo e vulgar). Desabafo feito, ela pergunta ao rapaz que pacientemente ouvia mas agora queria que a gente fosse embora... Ela é o que aqui? Organizadora? Dona da casa??? E o rapaz: Não... é só minha irmã...
                E você, vai contar a sua?

Foto: Anjinhos barrocos, safadinhos - São João del Rey

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Fiado só amanhã!

Engraçado, nos propomos às vezes a escrever sobre uma coisa, e o texto como que ganhando vida própria vai serpenteando aqui e ali nas lembranças e aquela que nos despertou para aquele assunto se recolhe a seu quarto, entre outras, se aconchega e adormece, sabe-se lá até quando. Foi assim no texto da última semana; sem querer tratar de assuntos mais pesados, uma vez que estou doce, como campari, por esses dias, fui falar das navegações pelos bares da vida, daqui, dali, de além. E... o que me despertou para o tema foi a lembrança de Parco. Porém, no fim, o texto tomou outro rumo, a prosa cresceu e ele ficou comportadamente quieto em seus aposentos, no fundo da memória, e como arguto e gaiato que era, saiu daí a pouco, tão logo o texto já estava publicado e comentado por alguns queridos amigos que honram-me seguindo este blog, comentando, participando, do blog, dos textos, de minha vida. Mas para que o fantasma de Parco não venha assombrar-me, volto aos bares com ele.
Parco era um colega dos tempos em que eu andava com o pessoal do teatro, no interior; depois de ensaios era comum encontrarmo-nos todos e ir para algum boteco, tomar uma cerveja, ou duas, ou doze. Saíamos todos juntos, cada um rumo a sua própria casa e era um acordo tácito e silencioso que, antes de chegar à avenida onde nos desvencilharíamos,  cada qual pegaria uma rua diferente, pararíamos em algum bar. Afinal era verão, lá sempre era verão, mesmo quando o frio forte fazia os termômetros chegarem à marca dos 23 graus. Brrrrr...
Mas enfim, logo alguém dizia, à primeira vista de um boteco agradável: vamos tomar uma cerveja? Todos assentiam... Menos... Parco. Parco logo falava: Eu não vou, vão vocês que eu tô devendo naquele bar.  Bem, estávamos juntos, ninguém ia sem ele e seguíamos o caminho. No próximo alguém lembrava: vamos ali então? E Parco: Ah, ali não dá. É que tô devendo lá. Como ainda faltava bom trecho, passando em frente a padaria, alguém falava: e aqui? Ah, não rola porque tô devendo, dizia Parco. E assim íamos até achar um bar que ele não devesse. Nunca soube, se era pura blague, apenas para fazer gênero ou por não curtir o visual, música, ou o que quer que fosse, o fato é que ele dizia dever na maioria dos bares de  Cézidia. 
Com o tempo passamos a beber sempre no Arco da Velha, um boteco estiloso que tocava MPB e tinha mesas na calçada. Parco sempre pagava, e já fazia uns dois, talvez três meses, que bebíamos ali pelo menos duas vezes por semana; era certo nos encontrarmos lá. Até que um dia passávamos, Parco se adiantou e falou a Marco, o dono, que àquela altura já nos conhecia: “_Marco, hoje eu tô sem grana, será que você pode fazer um fiado até amanhã?” “Claro, fiquem à vontade, pode chegar!” - respondeu ele com enorme sorriso prestativo. Sentamos e... mal Marco trouxe a cerveja e afastou-se rumo ao balcão, ouvimos Parco em tom de confabulação: “_Ah, gente, vou sentir tanta falta! Eu gostava tanto desse bar!...

Foto: Djair - Confeitaria Nacional - R. dos Correeiros - Lisboa Portugal.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Saúde!!!

Em “A queda para o alto” no poema a um pai adotivo, Anderson Herzer (Sandra Mara Herzer), poeta brasileiro, com auto-identificação lésbico-transexual, diz: “Quando você morrer, eu vou tomar um porre! Pra compensar todas as vezes que você me aporrinhou.”...
Às vezes dá mesmo vontade de tomar um porre para curar os aporrinhamentos do dia-a-dia, das forças contrárias, dos pensamentos retrógrados, das aporrinhações repetitivas, maçantes, cansativas, extenuantes... Mas... fizesse isso e já estaria na fila do transplante de fígado. O mais próximo que aguento são uma ou duas ou cinco taças de vinho, ou um copo ou outro de gim-tônica, sobre o qual aliás, uma conhecida que cansou de tomar em casa agora torce o nariz dizendo não gostar de bebidas perfumadas; ah, esse povo influenciado pelas bichas  finas e semanários da editora abril... tsc, tsc...
Mas o fato é que, em medida moderada, acompanhado por bate-papo com comentários risíveis, ainda que profundos, faz um bem danado, e se o álcool ataca o fígado, a risada o desopila, já que não dá pra evitar o amargor que vem de fora: uma dose de campari amargando por dentro faz milagres. Aliás campari só tem um problema, se é que isto é um problema: dá tesão. Lembro que, ainda no fim do colegial, comentávamos sobre isso e a Alda falou que não, pois tinha tomado uma garrafa de testa, com o Francisco, e ele nem tinha sentido nada, ao que ele rebateu olhando fixamente para ela: “E você por acaso encostou em mim? Pra ver como eu tava?” Foram ótimas gargalhadas; Alda aquela noite estava linda, de vestido vermelho, um belo colo torneado pelas alças finas, cabelos à altura dos cotovelos. Ela sentava-se imediatamente em frente a mim, teríamos prova, mas tendo faltado o professor da primeira aula fomos a um bar em frente ao colégio... Beber o quê? Lembrei-me da propaganda do Conhaque de Alcatrão São João da Barra, que no reclame parecia delicioso; pedi um, Alda outro, aquilo desceu queimando, um horror, um pavor, um terror... Só lembro que durante a prova Alda ria a cada vez que eu cochichava: Alda, tu estás bêbada?
Com Myrna, La Gioconda dançante, uma vez fomos à Casa do Norte em Higienópolis, antes que mudasse de dono e este trocado os garçons, fazendo com que não fosse mais nosso boteco predileto, mas àquela noite ainda era e não fosse pelo metrô encerrar-se à meia-noite, ainda hoje estaríamos ali, tanta cerveja, tanto papo, tantos segredos trocados, e tanta, mas tanta risada, que a felicidade foi buscar conosco um pouco de alegria para distribuir aqui e ali a quem merecesse.
Em outra época, meu bar preferido era na Canuto do Val, o Espetinho Cerveja e companhia, da Lilian Gonçalves, que volta e meia sentava conosco e contava algum causo. Nossa!, tomei não jarras, mas baldes de sangria ali, tinha o melhor frango a passarinho de Sampa, Márcia era gerente de lá e sempre, sempre, nos conseguia mesa na calçada, independente de tão cheio estivesse. Frequentei até pouco depois de Márcia sair de lá e eu perder o status vip que tinha com ela. Levava tribos diversas, pessoal da pós, pessoal do trabalho, pessoal de dois empregos anteriores, amigos diversos. E em uma destas vezes, Ivone bebeu tanto, que indo pegar o metrô deu de cara com um mendigo a pedir um trocado, com o dinheiro a mão foi explicar-lhe que não podia dar pois era o trocado do metrô e o mendigo olhando pra ela apenas disse: Tú tá é bêbada... Fez um gesto de desprezo com o braço e foi embora.
Outros bares vão passando e tornando-se preferidos ou caindo em desgraça, visto  minha aversão a lugares onde tem que se esperar horas por um lugar. As estatísticas mostram que a frequência a bares e restaurantes tem caído na cidade de São Paulo depois da moda de arrastões, embora o senhor governador afirme semanalmente queda na criminalidade e investimento na polícia – deve ser a que lhe faz às vezes de guarda-costas “of course”, mas isso tem um lado bom, pode levar ao retorno daquilo que eu, Wânia, e outros amigos mais gostamos: reuniões em casa, com qualidade garantida na comida, na bebida, no som, no papo. E assim confraternizamos de fato, sem aporrinhamentos. Hoje é sexta: Saúde!

 Foto:Tatiana Yoko Oliveira - Corrigido após alerta da Carol Bracht.  - Galerinha relaxando após as aporrinhações de um dia de trabalho.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ritos



Ritos servem para preservar tradições, unindo grupos, preservar e fortificar relações, propagar conceitos, e mesmo preconceitos. Mostrar tradições de antepassados, para que alguns se exibam, para que outros invejem aqueles detentores do status ali representado e queiram ocupar o lugar de destaque que é mostrado, e assim lhes rendam homenagens, rapapés, de forma a afagarem-se egos e perpetuarem sua cultura.

Muitos ritos estão em ruínas, em plena decadência, falta-lhes modernidade no ritmo e poder agregador, mas como modernizar algo que busca justamente preservar tradições?

Os bailes de debutantes, por exemplo, eram uma cerimônia onde a moça era apresentada à sociedade, pela primeira vez usava maquiagem, salto alto, entrava-se uma menina e saía uma moça. Hoje, muitas meninas pulam a etapa moça, tornam-se mulheres, tanto física e mentalmente como sexualmente. Oras, muitas hoje perdem a virgindade antes de sequer menstruarem, namoros são permitidos por pais permissivos cada vez mais cedo, e os rapazes dormem em suas casas...

Um dos grandes ritos católicos, a missa do galo, ritual celebrado por séculos à meia noite, hoje sob argumento da segurança é realizado insipidamente às 20:00hs, se muito, a mais das vezes para que os fiéis (e sacerdotes) possam estar em suas festas à hora da virada para o dia do natal, para que possam comer e rir, sem lembrar o que se celebra ali. Mas já que falamos destes, vamos aos valores outros representados no espetáculo dominical. O rito por belo que seja deveria realmente mostrar um congraçamento, e calhou de vir aqui a analogia com o rito apostólico romano, mas é apenas uma analogia que identifica mil outros ritos, religiosos ou não, basta um trocar uma nomenclatura de cargos ou expressão identificadora do ato teatral. Quem tiver olhos que veja, e quem tiver ouvidos que ouça, já diz o livro da lei da cristandade.

Bem, existe um momento no rito onde todos se “saúdam como irmãos” desejando as mais nobres e belas benesses; o cumprimento é dado com sorrisos e afagos: “A paz de Cristo” e... logo depois, na melhor hora da missa segundo um conhecido: “Vamos em paz e que o Senhor nos acompanhe!” Ainda na praça, ou mesmo no corredor do templo, já não se olha nos olhos daquele que se abraçou com fluídos salutares. Não se cumprimenta, ele já não faz parte do seu mundo. Mesmo autoridades leigas, Ministros de eucaristia, Sanyasis, Diáconos, Grãos-mestres, a mais das vezes buscam o quê? Uma projeção social dentro daquele ambiente, onde em gestos compungidos e serenos entregam “o corpo de Cristo” a seus irmãos, dão passes, passam em belas filas com ornamentos, paramentos, taças de vinho a serem distribuídas, pembas e pós, incensos e flores, e mil apetrechos dependendo de cada rito, crença ou que os valha... E depois dali? Postam-se ao mais das vezes no trono de orgulho, do Eu Sou, do estou acima de você. Não seria mais prudente e lógico quanto mais elevado espiritualmente, quanto mais próximo de Deus, que fosse mais humilde, que buscasse maior contato com seus irmãos ao invés de impostar-se como mestre e conhecedor de seus ritos e dogmas? Mas infelizmente, assim como títulos de doutorado não conferem bons modos a quem se dedica apenas à educação formal, gestos e palavras decoradas não os dão a quem não foi educado dantes.

Foto: Djair - Ilustração de painel da Biblioteca da Universidade de Coimbra - Coimbra - Portugal.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Confiança

               Um dos sentimentos mais importantes, em qualquer relacionamento... Confiança...
É ela quem nos faz permanecer em relacionamento com pessoas, grupos, trabalhos, nos faz manter empregados que têm às vezes muitas falhas, mas em quem confiamos, a quem entregamos as chaves de nossas salas, as de nossas casas, principalmente se, como eu, são descuidados que chegamos e espalhamos carteira, dinheiro, documentos e os deixamos em qualquer lugar. Sabemos que não os encontraremos ali, mas sobre uma cômoda ou em determinada gaveta.
Muitos casamentos acabam quando acaba a confiança; uma traição física, que a mais das vezes nada tem de envolvimento sentimental, mas sim de sexual, põe fim aí, exatamente no momento da descoberta que o outro não cumpriu um acordo tácito de relacionar-se apenas com o cônjuge. Amizades de anos a fio têm fim quando se descobre que aquele segredo confiado apenas àquela pessoa, foi compartilhado com terceiros, quartos e quintos, e ai, manda-se a relação para o quinto dos infernos.
Mais do que compartilhamento de segredos, a maior quebra de confiança dá-se quando se percebe que o outro utiliza-se de um relacionamento (que muitas vezes é longo, mas sem profundidade) para tirar alguma vantagem do que o outro tem, para aproximar-se de alguém que o outro conhece, para entranhar em negócios e obter vantagens pessoais, e lucro certo.
Nos dias atuais, Kali Yuga (Idade do Demônio Kali ou Idade do Vício), para os hindus, a confiança é algo difícil de conquistar e uma vez conquistada deve ser mantida como preceito, como a própria alma,pois quando se perde, dificilmente se resgata. E se a consegue resgatar, seu brilho sempre permanecerá ofuscado pela lembrança da traição passada. Afinal, mesmo nas relações saudáveis, onde se confia, volta e meia vem a dúvida... Até onde confiar? Posso realmente confiar? Quem não confia não está imune a traições, puxações de tapete ou imbróglios desta espécie. Faz parte do amadurecimento superar fins de relações, pessoais, profissionais, amorosas, mas as cicatrizes são profundas, muitas vezes originando queloides hediondos sem que se resgate a serenidade.
Mas o não confiar nunca, em nada, em ninguém (se isso é possível) não doerá mais que confiar e depois se descobrir equivocado?
É um processo de uma vida: confiar nos pais, confiar que a mãe o amamentará, que os pais o protegerão, que está seguro em casa, que o que o professor lhe ensina é correto, que seus amigos não o sacanearão, que o companheiro (a) vai se dedicar a você tanto quanto a ele, que sua religião e seu Deus o protegerão, que o seu sócio não o trairá, que seu amigo estará ali como você estaria no caso dele precisar, que a pessoa que você ama te doaria um rim se necessário fosse, que aquele amigo que propõe um empreendimento está realmente te contando a verdade sobre ele, suas consequências e riscos?
E por ai vai... Mas... Quem garante qualquer uma destas coisas?
Este texto não tem um desfecho, apenas leva ao questionamento sobre a confiança. Sobre em quem ou em que confiar. Confiança chega a ser um estado de espírito, porque às vezes você confia, mas em um determinado dia, cinza, frio, você pensa: e se não for assim? E então, confia? 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Viva Santo Antônio!

Imagem de Santo Antonio
Adquirida em Lisboa


13 de junho, dia do aniversário de Graciele, com quem não consigo mais falar, e... Dia de Santo Antônio; sempre que pude fiz fogueiras nesse dia e nos dos outros santos juninos (João e Pedro), e em outros dias, tivessem eles santos ou não. Aqui mesmo no blog já falei sobre fogueiras, mas... Hoje é dia de santo Antônio. Ano passado em Lisboa, me deparo com a igreja dele, segundo consta erigida no local onde foi a casa em que nasceu e morou. Assisti ali a uma missa e emocionado comunguei.

Bem, não é segredo que acredito em tudo, Deus e santos, e outros gênios, cristãos ou pagãos, já que para os cristãos tudo além do Cristo e seus mártires e santos é pagão. E mais abrangente, creio no Deus cristão e nos demais deuses também, Krsna, Orixás, e nem deveria, mas acredito (embora bem menos, mas mais do que deveria) nos homens também. Conheço ateus, agnósticos e fiéis de todas as vertentes, até um ateu devoto de S. Judas Tadeu e Nossa Senhora Aparecida.

Faço diferente da maioria ao comungar que, ao tomar a hóstia, já se acreditam puros e sem pecado, por terem se confessado e recitado fórmulas repetidas por séculos e “seculorum” mas enfim, quando resolvo fazê-lo, é porque estou tomado de certa emoção de embevecimento, de fé (se a isso se pode chamar assim) e aí sim, entro na fila e tomo a hóstia, preferencialmente das mãos de quem a distribui, que prefiro seja o próprio sacerdote vestido com todos os seus paramentos. A tomo porém no sentido de a partir dali me tornar melhor de alguma forma. Da mesma forma que tomaria um passe, água fluidificada ou benzida, ou doces de Cosme e Damião, ou “prachada”. Afinal, se tudo está imbuído de bons fluídos, de amor, tudo há de fazer o bem, e se o objetivo também é o de tornar-se melhor, nada vai fazer mal; é o que acredito a despeito do que achem outras crenças e seus representantes, sobretudo os mais cheios de certeza e conhecedores de seus livros de leis. Até porque muita gente os lê, decora e segue fazendo sacanagens e escrotidões às baciadas é fato, o vejo diariamente, gente que puxa tapetes e faz trapaças enquanto cita versículos sem sequer ruborizar.

Mas... É dia de Santo Antonio, então viva o santo do dia! Faço gosto que suas simpatias e tradições se mantenham, simpatias de moças casadouras, como as da faca na bananeira, do pingo de vela na bacia d’água, ou o amarrar seguido de afogamento da imagem do santo de ponta-cabeça. Que fogueiras ardam iluminando céus e aquecendo românticos, sou a favor de tradições, mais por achá-las belas e romanceadas do que por crer de fato em seus ritos, o que creio, creio eu e pronto. O que acho belo, é belo a meus olhos e se outros não o acham, paciência, certos círculos de visão só veem mesmo o material, então, lamentemos sua miopia. 

Nessa época dá-me saudade do Nordeste e de Minas Gerais, de procissões, e crendices, das abóboras, batatas doce, bananas, carnes assadas na fogueira e dos quitutes juninos. Me dá saudade de Ubatuba, onde sendo S. Pedro padroeiro dos pescadores, estes fazem festa a ele coincidindo com a pesca da tainha, que no princípio era preparada e assada por suas esposas na Ilha dos Pescadores, e servida recheada e assada na brasa, por preço vergonhosamente barato. Dá-me saudades dos pinhões que Rafael me trazia de seu sítio em Cunha, e a lembrança que eles também existem no sítio de Ana Angélica em Curitiba, então que o Santo do dia me propicie logo a ter o meu, pois faço parte do movimento dos sem sítio. Prometo fogueiras a ele.

De mais, viva Santo Antonio, Viva São João, viva São Pedro!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

E então, preparado?


Você está preparado?

Pra que? Não importa... Está ou não está?

Sente-se preparado para ir adiante, ou pretende recuar à vista do desconhecido? Arrisca-se e atira-se de cabeça, ou recua ao menor sinal de desconforto?

Medo de que a água seja fria? Medo de que sob a superfície límpida e cristalina haja um lodaçal podre onde se afunda lenta e tediosamente e nenhuma força o resgate?

Quantas oportunidades, quantas bem-aventuranças, deixamos passar por não nos sentirmos preparados! Por nos acharmos incapazes e, com isto, nada somos, senão relapsos quanto a nosso próprio destino e papel enquanto bem-aventurados moradores do planeta, devedores de responsabilidades quanto a ele e quanto aos companheiros de viagem, não no papel de protetores e acalentadores, mas de desenvolvedores de sua intelectualidade e sua capacidade de desenvolver a si mesmos...

Uma coisa é saber teorias, outra é conseguir transformá-la em prática, e assim fazer com que essa energia mude. Sim, o texto hoje está um tanto messiânico, e se não é de agrado, pode parar a leitura aqui, como me disseram ontem em tosco comentário: “Visito seu blog, mas eu sou jovem (embora a pessoa em questão já tenha a idade para ser e comportar-se como adulto) e jovem não lê textos grandes.” Olha, taí, passei a admirar aqueles que fazem plásticas e pintam cabelos ocultando anos na face e na cabeça mas a desenvolver intelecto e sabedoria. E respondi que não é o fato de ser jovem o que faz ler ou não textos grandes... Aprofundar o diálogo? Não era o caso nem valia a pena...

Geralmente atendo ao telefone, com esta palavra: “Pronto!” Uma vez, anos atrás, uma amiga daquela época, me liga e ao ouvir o meu “Pronto!” pergunta de chofre: “pronto, pra quê?” E eu imediatamente em xeque-mate: “Para o que der e vier!” E ela: “Nossa, quando liguei pro Lino, ele também atendeu falando: 'Pronto' e quando respondi pra quê, ele respondeu: 'pra tomar café'. Fiquei tão decepcionada...”

Mas para o “estar preparado” quando se está? Como se está? Para que se está? Bem, voltando ao messianismo da narrativa, sempre acreditei que as coisas acontecem. Sejam elas relacionamentos, mudanças, topadas... Pelo menos comigo, a maior parte das vezes foi assim, e acredito que se elas aconteceram, eu estava preparado para aquilo. Ou não aconteceria. Então... sim, estou... Posso arrepender-me? Sim, e muitas vezes vou... mas não seria pior lamentar não ter feito, experimentado? Então... tem-se que estar preparado até para recusar experiências, aprofundamento de relações e aprimoramentos.

Texto difícil de escrever foi este, expressando realmente o que quero passar, o que quero dizer, mas se você está preparado, vai entender. Então, se não entendeu... Prepare-se. Atire-se, creia, questione, pese, meça, recapitule, mas ao final... Esteja sempre pronto!


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Verbalizar


 Uma coisa há de se falar a favor das redes sociais, além do muito que é dito, discutido, explicado por especialistas (ainda mais nesta época em que há especialista pra tudo): elas servem para que muitas pessoas, que engolem em seco seus sentimentos, reflexões e tormentos, os coloquem pra fora.
Funcionam em muitos casos que vejo como uma terapia. É um saco ver muita bobagem que muitos postam? É! Sobretudo meiguicesinhas e rezinhas, simpatiazinhas e preconceitos servidos à mão cheia, alegadamente como pretensões humorísticas. Enchem-me mais o saco que aquele que vai ao banheiro e ali coloca: “fui ao banheiro” ou que almoça todo dia no mesmo lugar e à mesma hora e todos os dias faz o tal “Check in”, colocando no outdoor virtual o vazio de suas vidas.
Mas... E como digo, sempre existe um “Mas...” servem-lhe também de terapia, como já disse; afinal o que tem para falar, além disto? Muitos não têm opinião sobre nada, e talvez seja melhor do que ter opinião sobre tudo, como muitos querem mostrar, e nessa ânsia mostram que tem opinião sobre tudo, mas que ela é superficial, fragmentada e não resiste a uma arguição mais elaborada. Ou seja, opinião sobre tudo, mas sem densidade alguma. Mais ou menos como aqueles que se colocam à disposição para tudo e sempre que precisar, só que nunca têm tempo.
Por outro lado, há as grandes sacadas, tiradas memoráveis, risíveis mas profundas, e os conhecidos, que de meros conhecidos passam a amigos, graças às discussões que ali se geram, os embates que se aprofundam, as “não concordâncias”.
E assim como trato muitas indagações que trago dentro de mim no blog, muita gente exorciza seus monstros em postagens curtas sobre seus sentimentos daquele instante, deixando o fígado com menos bílis.
E o Verbo se faz palavra, pois muitas vezes, é mais fácil o verbo se fazer carne que ser expresso oralmente, afinal os nós na garganta servem para isso: prender as palavras e sentimentos lá dentro, fazendo mal às vísceras, já que não os colocamos pra fora. E tome somatizações e mal estares físicos e mentais. Aliás, na rede também eles se formam, de outro naipe certamente, por má interpretação do que é dito, por melindres e dedos em feridas, colocados mais ou menos conscientemente, pequenas estocadas com palavras digitadas, que jamais serão “expressadas” de outra forma.
Eu, que sou mestre em criar os mais mirabolantes e sangrentos planos de vingança, sem nunca ter coragem de realizá-los, esperando sim que a lei do retorno haja, acredito que falar e escrever é melhor do que concretizá-los; afinal quem é experto em puxar tapetes nunca o diz. E como o texto tem vida própria e já vai tomando outro rumo, conclui-se que está na hora de terminar. Exorcize também um pequeno monstro ai no link dos comentários. – Risos.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Conhece fulano?

O culto à celebridade hoje é tão vulgar que não se restringe apenas àqueles que aparecem nas grandes mídias. Atualmente, em linhas gerais, existem milhares de pessoas que prestam culto àqueles que lhe estão mais próximos, na forma de querer mostrar ter alguma relação com eles. E por que? Porque, pelo cargo que ocupam em seus empregos, na sociedade ou em pequenos círculos, mostram certa projeção de destaque. E ai vem o culto a eles por parte dos demais, na forma do “Eu conheço Fulano!”, “Beltrano é meu amigo!!”, “já trabalhei com Sicrano!!!”, “Mané Abano estava no mesmo bar que eu!!!...” E por ai vai... “Estudei com a vizinha do cunhado, da minha prima segunda, que é meia irmã, da mulher do...” Ai de nós...
Já que não se conhecem as grandes musas midiáticas, transporta-se isso para seus pequenos universos. A “onda” não é nova, vem de longe, daí tantos almoços aos párocos, às nossas pequenas autoridades de cada dia, que vêm já dos tempos em que padres eram recebidos com banquetes pelos coronéis e com a galinhazinha menos magra do quintal dos pobres, engordando a classe eclesiástica, ainda hoje farta em almoços e jantares em casa alheia. Assim como os políticos recebidos com esperanças de favores ou que seus fachos de luz atinjam o anfitrião e o faça também brilhar perante seus próximos.
        Afinal a coisa funciona mais ou menos assim:  “Fulano é legal”, ele é meu amigo, logo sou legal! “Fulano é inteligente...” e por ai vai... Nem sempre a qualidade do homenageado é lá essas coisas, mas a necessidade de estar junto a essas pequenas celebridades, tornam o fã (que nem se percebe como tal)um formador de  opinião, uma pessoa expressiva; na maioria das vezes ele não traz luz, sabedoria alguma, teve apenas a sorte e alguma habilidade (sabe-se Deus qual) para chegar e se manter num cargo que o destaque. Em outros casos foi apenas agraciado com beleza física, ainda mais nesses tempos nebulosos onde bundas, peitos/peitorais têm o dom de se destacarem mais que ideias, ou índoles. E tome coreografias e gestos e roupagens a serem copiadas sem cansar neurônios. Como já disse alguém...
      Quem? Oras, o fulano! Ah,  esse eu conheço!!! 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Gol!


Bem, semana passada não houve texto novo no blog, o que foi um alívio pra quem não suporta ver minhas chamadas nas redes, se bem que estes já devem ter ocultado minhas atualizações, assim como eu oculto as dos futebolistas exagerados:  vão amar seu time bem longe de mim. Que todos os times percam.
            Nunca tive paciência, a não ser é claro de ver no estádio; ia com meu pai ao Morumbi, aí sim era um festa: o passeio, os lanche e até as comemorações onde todos na numerada se confraternizavam num abraço único. Meu tio, além de ir ver ao vivo levava radinho de pilha com fone de ouvido para ouvir a narração sei lá de qual narrador, só sei que não é o famoso chato atual ao qual a torcida já ergueu cartaz que lhe mandava calar a boca.
            Íamos a mais das vezes uniformizados, isto antes de rebelar-me e passar a torcer para outro time. Lembro de meu pai a argumentar uma vez que “todos” os filhos torciam para o time do pai, o que rebati perguntando então porque ele não torcia para o time do vô. Reinou o silêncio e nunca mais se tocou no assunto.
             E era daquilo, a força da profissão de meu pai, à época, mudamos de cidade e estado algumas vezes, e lá vinha a dúvida:  para que time torcer ali? Lógico que ai sim, a mais das vezes, meu irmão, e eu,  torcíamos pra o mesmo time. Opa, menos eu, que os escolhia pela cor da camisa, a que mais gostava, ou por ser o time opositor, quando enchia muito o saco contando as vantagens desse time - melhor que tudo no mundo. Sim, lá pelos 8-9 anos eu já tinha aversão a fanfarronices e exibicionismos desnecessários. Não gosto de gente mais metida que eu!
             Também íamos ver meu pai jogar no campo do time do bairro, onde jogou até trincar 3 costelas, sendo esse o fim de sua vida de artilheiro. Mas antes disto era um dos mais animados; meu tio Lourival, aquele mesmo do radinho de pilha, era então o diretor, logo, o mantenedor do clube, Ponte Preta de Cezídia, que tinha esse nome por conta de uma enorme ponte que atravessa o Rio Ziza, que nasce em Cezídia e serpenteia até cair no mar. Mas essa ponte que dava nome ao time ficava quase na lateral do campo, tornando a paisagem agradabilíssima, juntando o gramado, o rio e a antiga ponte de ferro. Sempre havia espectadores para as partidas, e era sempre agradável, os gritos de vibrações a favor e contra, os xingamentos, tudo divertia.
             No colégio, sempre íamos assistir as copas estudantis; na classe sempre tinha um ou dois jogadores, lembro muito de Jaime, que era artilheiro e excelente colega; ensinou física pra Ana Angélica, vai ver usava tais conhecimentos no campo. Uma vez, no Centro Esportivo, deu-se uma batalha de ovos entre nosso colégio e uma outra escola, ovos eram jogados em nossa arquibancada; em outro jogo, esse feminino, as meninas xingavam uma das adversárias de “bunda de velha”.
             Em época de copa do mundo, o mais legal é a reunião de amigos, e talvez seja essa a única ocasião que eu goste de jogos televisionados, mais pela reunião das pessoas que pelo jogo em si; mas sim, chego a vibrar. De resto, me enche o saco, só não enche mais que os comentários de seus fanáticos, ponto!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Silêncio


Ai de mim, que tenho tanto a dizer
e engulo as palavras com receio do que seu som possa revelar

Ai de mim, que tenho tanto a verbalizar
E engulo as palavras com medo do que os ouvidos alheios possam interpretar

Ai de mim, que tenho tanto a gritar
e engulo as palavras com medo de que não saiam exatas

Ai de mim, que se pudesse
Gritaria ao mundo
As dúvidas que me afligem, os medos que me calam,
As vontades que me torturam

Ai de mim, que não encontro ouvidos sãos
Que se aconcheguem a minha boca, para que com as mãos em concha eu lhes possa sussurrar
Segredos, vontades, sonhos...
Poesias, causos, revelias...
Dúvidas, certezas, rebeldias...
Pesadelos, aflições e zelos...
Ou simplesmente o ruído abafado da respiração de quem cala todos os medos. 


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Erga a taça...

 Bem, vamos a mais um texto sobre vinhos, como nos últimos dias tinha trocado comentários e impressões sobre a bebida extraída das uvas, segundo a Bíblia por Noé ao descer da Arca no Monte Ararat, algumas dessas impressões vou transpor para este texto; espero que ele não fique um porre, pois porre de vinho é um horror.  Aliás , como deve ter sido o porre e a ressaca de Noé, que inclusive  deveria ter espremido as uvas bem antes, afinal 40 dias de chuva, sem um vinhozinho, sem música,  deve ter sido literalmente... Um porre!
 Uma vez disse a Pitonisa de Malbec: ‘cada garrafa de vinho que acaba é como um amor que vai embora.’ E é verdade, mas o vinho, pelo menos nesse caso sai ganhando em relação aos amores. Substituímos as garrafas com maior tranquilidade e o vinho nos dá muito menos dor de cabeça. 
Citações a pitonisa, frases dignas de oráculos, Noé, o texto está a ficar um tanto messiânico, e se assim parece vamos chutar o balde de gelo, que vinho tinto se serve a temperatura ambiente, de Paris no inverno, fique claro.
No Cântico dos Cânticos, livro poético do antigo testamento,  a mulher esperava o amado com vinho de romã: dar-te-ia a beber vinho perfumado, licor de minhas romãs.”* Escrito por Salomão, o sábio rei, que reza a lenda, chegou a possuir 900 concubinas; disse dele que tomava o afrodisíaco vinho de romã para fortalecer-se. Tá aí um vinho que tenho vontade de provar. Não tanto pelo afrodisíaco, mas mesmo pelo sabor, aroma... Ao que se indica, ainda hoje tomado em Israel e por famílias judaicas que o fabricam. Creio que deva tratar-se de algo próximo ao licor, como o vinho do Porto; aliás, caso receba em casa os reis de Inglaterra, reza o protocolo que a única bebida que deve ser oferecida a eles é justamente o vinho do Porto. Inclusive, Portugal recentemente ganhou a batalha pela exclusividade de direito ao nome de “vinho do Porto”, que estadunidenses teimavam em se apropriar, embora o famoso vinho seja produzido apenas naquela cidade lusitana que lhe empresta o nome. Aliás, tive oportunidade de conhecer na casa de Vitor em Lisboa o vinho da ilha da Madeira é menos conhecido, mas tão delicioso quanto. E olhe que o querido amigo não se atém ao vinho da Madeira, aprecia o tinto de boa cepa, e compra seus 300 litros por ano, de uma só vez, direto no produtor, garantindo qualidade.  Vez ou outra, conta que na adega onde os estoca uma ou outra garrafa “estoura” e a sujeira está feita. Mas que se há de fazer, senão abrir uma garrafa intacta para beber, enquanto se limpa o estrago feito pela garrafa que se foi:  afinal, não adianta chorar pelo vinho derramado.
No Piauí, produz-se licor de caju, que se assemelha ao do Porto, licoroso, de intenso vermelho, mas não tão difundido como a cajuína que encantou Caetano. Mas voltemos ao vinho.
Dia desses, enquanto tomava minha taça junto ao teclado, brindando com Wania que tomava seu Malbec do outro lado da cidade,  comentei com outro amigo, Rafael, que descrevia o vinho que tinha em casa, mas não bebia...  A garrafa estava fechada... e aí, já sob os efeitos do tinto, argumento que: “dentro de cada garrafa de vinho mora um espírito angustiado que só é liberado depois que se abre a garrafa, sente-se o cheiro, aprecia-se o vermelho a cair com suavidade e sensualidade na taça, aí então ao primeiro toque do líquido na língua o pequeno ser atordoado desperta, mas só é inteiramente liberto quando a garrafa chega à metade, a alegria dessa libertação faz com que também transbordemos em sorrisos, esperanças, e alegrias... Mantê-las fechadas é crueldade.”  (Sim, transcrito ipsis litteris, portanto perdoe a viagem de um espírito embriagado.)
 Um conhecido, certa vez, querendo arvorar-se conhecedor (afinal, é daqueles que tudo sabe, tudo conhece, e tudo dele é o melhor),  falava em tom alto (embora ainda à primeira taça, o tom era o da arrogância e não do etilismo): “Nossa, esse Proseco está ótimo!” Olhei para garrafa e confirmei a suspeita: Era um Lambrusco! Branco! Mas Lambrusco! Ninguém tem que conhecer, aliás, quem no Brasil conhece de fato sobre vinhos? (e aí me refiro não a sommeliers, que o fazem por obrigação da profissão, mas nós mortais que apenas apreciamos a bebida.) O que é um bom vinho? Aquele que me agrada o paladar, o olfato... ponto! 
* Cântico dos Cânticos, Livro 8, verso 2.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sobre amizades, rompimentos e distâncias.

Sempre digo que algumas pessoas passam por nossas vidas com a única e exclusiva função de nos apresentar a uma terceira, esta, com a qual a amizade realmente se estabelecerá. É fato constatado, já aconteceu uma série de vezes, aquela primeira simplesmente deixa de ter a importância que tinha, e a outra cuja afinidade é muito maior se estabelece como amiga. A pessoa que nos apresenta tem cumprida sua missão em nossa vida, pode partir, não devemos nada um ao outro. E assim seguimos em paz! Um cumprimento cordial em algum evento social e estamos conversados!

       É justo e perfeito, as pessoas se vão, nada é para sempre, inclusive as amizades. Valores compartilhados hoje, amanhã podem não ser mais. Dói quando um afeto sincero construído ao longo de tempo de dedicação se vai? Dói! Mas não há nada a fazer. Até porque em grande parte das vezes a dedicação e amizade foram dedicadas a um personagem, bem desempenhado pelo outro, enquanto a máscara social que aquele usava se adequava ao papel que representava àquele momento. O momento passou, a máscara foi substituída e agora interessa a ele novas amizades. Duro? É... E quem disse que o mundo é justo e que as pessoas são legais? Algumas amizades são apenas longas, mas superficiais. Aquele “Eu conheço desde...” é apenas questão de conhecer no sentido de que conheço nome, profissão, estudamos juntos... Agora, conhecer, conhecer mesmo... Nem vou discorrer, reflita você. 

          Por outro lado, muitas vezes o fato de querermos nos distanciar por um tempo de uma pessoa não significa que não gostemos dela, significa apenas que àquele momento estamos envoltos em nossos próprio afazeres e planos, sem vontade e/ou paciência para ouvi-los, sobretudo os que repetem seus dramas em looping infinito, com rosários tediosos sobre o quanto devem, mas não se desfazem de seus inúmeros cartões de crédito, com suas carências mas que não fazem nada para mudar a vibração que ali está. “Ah, mas você chamou a fulana, eu achei que era só pra mim...”. Ou o “Ah, mas você não me acha mais legal?” Putz... Não dá... Outros às vezes nos cansam pela repetição intermitente do pronome pessoal na primeira pessoa do singular. Ai de nós... Como cansa. E ai se você quer apenas um tempo. Afinal, quem fala mal dos outros o tempo todo só perde pra quem fala de si o tempo todo. Mas não significa que se tenha deixado de gostar da pessoa em sua essência, apenas não se quer participar dessa egotrip. O problema é que muitas vezes essa fase é longa, e você vai conhecer novas pessoas nesse ínterim, talvez com mais e maiores afinidades.

          E antes que o texto fique tão chato quanto, paro por aqui, assim, abruptamente mesmo, afinal as questões estão lançadas e mais seria correr em círculos sobre o tema, talvez até com casos interessantes, mas melhor não correr o risco, afinal o assunto é mesmo... Chato.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Como é bonito o meu umbigo!!!

É estranho o comportamento quanto ao blog; algumas vezes vem uma enorme inspiração e o s textos fluem naturalmente, fartos e caudalosos, de boa cepa, risíveis, trágicos, mal-humorados, e como vêm fácil e em profusão ficam alguns a esperar a semana seguinte para serem publicados, mas em algumas destas quintas, ao relê-los, a graça que pareciam ter, no momento em que o preto ganhou espaço no branco da tela, foi não sei pra onde e o “del” surge e apaga tudo. A luz no fundo da tela o engole, as letrinhas que formam palavras e frases, parágrafos e páginas cheias vão para o lixo... Outros tantos textos vão ao ar, e alguns, pelos comentários que suscitam, pode-se dizer que fazem certo sucesso...

Estranho também as reações a eles, alguns que escrevo sem esperar nada por eles despertam comentários profundos, evocam lembranças, e as colocações sobre eles se sucedem umas a outras, e então, outros dos quais gosto, de escrever e do resultado final, nem uma linha... Claro, ele estava dentro de mim e as lembranças que suscitam só a quem as viveu podem causar impressões. Mas também há os comentários gentis, de amigos que os fazem apenas para me fazer feliz. Assim como há aqueles que a qualquer comentário negativo meu, sobre algo que não concordem, param de comentar, de ler e mesmo de seguir o blog. Claro, a finalidade destes últimos, que saem mesmo do perfil, não é outra senão a de mostrar sua insatisfação mandando esse tipo de recado: “Ah, é? Então não sigo mais teu blog!” Paciência, se deixa de seguir é porque realmente nada ali o enriquecia, nada ali o fazia sorrir, nada ali valia a pena, e então... Por que continuar, não é mesmo? Vá com Deus. E tem a antítese destes, os que sei que seguem, que visitam semanalmente, e às vezes até perguntam em alguma quinta em que o texto utiliza o metrô paulista (ou seja, chega atrasado): “Ué, cadê o texto de hoje?”

E por falar nisso algumas pessoas, de algumas comunidades, de blogs inclusive, mandam recados: siga meu blog que sigo o teu, terei o maior prazer em retribuir... Bem, não quero que sigam porque sigo o seu, até porque só seguirei se tiver algo a ver com o que gosto, acredito, simpatize, ou de alguma forma ache interessante... Já dizia Fernando Pessoa: “Sou rei absoluto da minha simpatia, basta que ela exista para que tenha razão de ser.” E não para ter mais um seguidor.

Os dois últimos textos foram escritos atendendo pedidos, o que os tornam fáceis de escrever, e aliás, o último, escrito a pedido do Rafinha, que conhecia o “causo” de eu contar, por obra e graça do Windows, foi ao ar, faltando dois parágrafos, mas ele, leitor atento, alertou-me, está faltando uma parte, está faltando uma parte, e eu, como mula teimosa que empaca, não, não está (oras, haveria ele de saber mais sobre o caso que vivi?). Bem, tanto insistiu que por fim fui olhar e... Faltava mesmo... fui consertar e fazer o “mea culpa”. Enfim, embora ainda esteja a dever um texto também pedido (da Cláudia sobre coxinhas), hoje não foi dia dele, aliás, ontem, que hoje já é sexta e o texto continua atrasado, e desde lá, uma preguiça inenarrável (embora ainda vá narrar qualquer dia destes sobre este pecado cada vez mais capital, no sentido aí de central, de disseminador). E então lá vim eu escrever sobre o próprio blog, sobre as impressões que ele me causa. Sérgio postou hoje no Facebook que escrever era uma forma de liberdade, de facto, é essa a sensação muitas vezes experimentada, até porque a mais das vezes me expresso melhor pela escrita, tímido que sou, embora a afirmação cause protestos (eu disfarço bem em algumas situações). E talvez seja por isso que escreva para me sentir livre, ou justamente, pelo que acabei de dizer após a frase citada, por me expressar melhor assim. O que não quer dizer que seja real, e nem que me entendam, é apenas a impressão que tenho sobre mim mesmo e sobre o que escrevo. Como Nelson Gonçalves que, gago, uma vez ao repórter que lhe perguntava: “Você tem dificuldade de se expressar?”, respondeu: “eu não. Os outros é que tem dificuldade de me entender.”

quinta-feira, 5 de abril de 2012

E a vaca não foi pro brejo.

É, caímos no conto da Estrada Real que o governo mineiro dizia ter providenciado toda a infra-estrutura necessária. Embora se trate de uma estrada de terra na maior parte do percurso , isto posto, resolvemos seguir por ela; afinal já conhecíamos e apreciávamos o trecho de pedra entre São João D'el Rey (sim, sei que a grafia é Rei, mas se usa o arcaico no Del, porque não usar o charme do Rey?) a Tiradentes, mas estávamos em Outro Preto já e íamos dali à Diamantina. Pois bem, que seja pela Estrada Real, que de estrada de terra nunca tive medo.
Pois bem, saímos com pesar de Ouro Preto, onde entre igrejas belíssimas, museus interessantíssimos e arquitetura ímpar, lembrava de “Luar sobre Parador*” e Raul Julia e Sônia Braga a contracenar pela praça Tiradentes. Deixei com saudades a mocinha que atendia a pousada que em seus 13, 14 anos tinha um encanto brejeiro que nunca esqueci. Ao pedir emprestado uma faca, ela disse: “_Ah, tem um canivete na minha mochila”, e me passou um enorme canivete... E ai, eu lhe respondi: “Mas o que faz uma mocinha como você levar um canivete deste tamanho na bolsa?” E ela, com seu sotaque delicioso e jeitinho matreiro: “Ah, pra quando eu  vou na roça, cascar uma laranja, partir uma melancia...” Não há outra palavra: Encantadora!!!
Mas enfim, pegamos a Estrada Real, fomos por Mariana e de lá rumo a Diamantina. O problema tão somente se deu pela demora, afinal a pavimentação não era a imaginada, nem havia postos ou pousadas e redes de infraestrutura, conforme era prometido nos folhetos, e então... Uma hora, resolvemos sair dela, afinal a idéia era pernoitar no Serro, uma pequenina cidade a caminho de Diamantina,  e passar ali um ou dois dias. Aliás, olhe que vale muito a pena, não apenas por ter o melhor doce de leite que já comi, mas pelas igrejas de séculos passados, pela casa dos Otonis que é um pedaço de paraíso transformado em museu, a casa do Barão do Serro, a cordialidade, enfim... Visite o Serro.
                Pois muito bem, voltando ao barro antes de Serro: horas e horas de estrada de terra e resolvemos: vamos voltar ao asfalto? Vamos... Mas como sair dali? Nada conjuminava com nada, cansaço, pó, pó, cansaço, perguntamos em uma cidade lindinha, cujo nome não chegou ao asfalto, mas, onde finalmente pudemos lanchar, como voltar à rodovia. Era complicado como o quê, e decidimos seguir pela instrução do mapa, tomamos um desvio da Estrada Real por outra estrada de terra que nos prometia chegar à BR em algumas horas, e subimos a Serra do Cipó.

Pois é... Se às rodovias privatizadas pelo governo tucano em São Paulo faltam placas, imagine na zona rural mineira, em uma via de terra onde o pó chega a dois dedos... Eba, aventura!!! E nessas, entramos em duas fazendas só pra fazer o retorno daquilo que era propriedade privada e voltar à estrada... De repente um caminhão à frente, e só pensei: agora é que vai ter pó... Melhor manter distância... Mas... Ele parou... Vamos em frente... Ao passar pelo caminhão, o motorista nos para para perguntar como sair daquele fim de mundo... Estava mais perdido que nós...
Logo à frente, vacas deitadas que à primeira buzina levantam-se malemolentes e seguimos. Mais uma hora na velocidade do pó e diante de um mataburro**, onde vários bois e vacas ali, tendo impedida sua passagem, faziam ponto e tomavam a fresca. Novas buzinadas e nada, meu amigo e co-piloto põe a cabeça pra fora pela janela aberta, sacode o boné e grita: “Xôoooooo Vaaaaacaaaa!!!! A que estava justamente atravessada à nossa frente, em pé, olhando para a paisagem que se desenhava à frente do mata-burro, vira solenemente a cabeça, encara-lhe a face e, olhando-o dentro do olho, com profundidade abissal, ergue o rabo e caga! Sim, caga majestosamente, olhando fundo nos olhos dele, como se estivesse a dizer: "tô cagando procê!". Meu amigo olha pra mim e começa a enrubescer a mais não poder. Explodimos enfim em gargalhadas incomensuráveis, incontroláveis, que me tomam até hoje ao relembrar a cena. Lógico, depois espantamos a cagona e prosseguimos viagem, mas foi um dos pontos altos da aventura na Serra do Cipó... Que merda!

       * Filme Estadunidense de Paul Mozursky de 1988 com locações em Ouro Preto.
 
       ** Espécie de ponte sobre uma vala, feita de tábuas, ferro ou concreto com  vãos espaçados, para evitar a passagem de animais e permitindo a passagem de veículos.