Engraçado, nos propomos às vezes a escrever sobre uma coisa, e o texto como que ganhando vida própria vai serpenteando aqui e ali nas lembranças e aquela que nos despertou para aquele assunto se recolhe a seu quarto, entre outras, se aconchega e adormece, sabe-se lá até quando. Foi assim no texto da última semana; sem querer tratar de assuntos mais pesados, uma vez que estou doce, como campari, por esses dias, fui falar das navegações pelos bares da vida, daqui, dali, de além. E... o que me despertou para o tema foi a lembrança de Parco. Porém, no fim, o texto tomou outro rumo, a prosa cresceu e ele ficou comportadamente quieto em seus aposentos, no fundo da memória, e como arguto e gaiato que era, saiu daí a pouco, tão logo o texto já estava publicado e comentado por alguns queridos amigos que honram-me seguindo este blog, comentando, participando, do blog, dos textos, de minha vida. Mas para que o fantasma de Parco não venha assombrar-me, volto aos bares com ele.
Parco era um colega dos tempos em que eu andava com o pessoal do teatro, no interior; depois de ensaios era comum encontrarmo-nos todos e ir para algum boteco, tomar uma cerveja, ou duas, ou doze. Saíamos todos juntos, cada um rumo a sua própria casa e era um acordo tácito e silencioso que, antes de chegar à avenida onde nos desvencilharíamos, cada qual pegaria uma rua diferente, pararíamos em algum bar. Afinal era verão, lá sempre era verão, mesmo quando o frio forte fazia os termômetros chegarem à marca dos 23 graus. Brrrrr...
Mas enfim, logo alguém dizia, à primeira vista de um boteco agradável: vamos tomar uma cerveja? Todos assentiam... Menos... Parco. Parco logo falava: Eu não vou, vão vocês que eu tô devendo naquele bar. Bem, estávamos juntos, ninguém ia sem ele e seguíamos o caminho. No próximo alguém lembrava: vamos ali então? E Parco: Ah, ali não dá. É que tô devendo lá. Como ainda faltava bom trecho, passando em frente a padaria, alguém falava: e aqui? Ah, não rola porque tô devendo, dizia Parco. E assim íamos até achar um bar que ele não devesse. Nunca soube, se era pura blague, apenas para fazer gênero ou por não curtir o visual, música, ou o que quer que fosse, o fato é que ele dizia dever na maioria dos bares de Cézidia.
Com o tempo passamos a beber sempre no Arco da Velha, um boteco estiloso que tocava MPB e tinha mesas na calçada. Parco sempre pagava, e já fazia uns dois, talvez três meses, que bebíamos ali pelo menos duas vezes por semana; era certo nos encontrarmos lá. Até que um dia passávamos, Parco se adiantou e falou a Marco, o dono, que àquela altura já nos conhecia: “_Marco, hoje eu tô sem grana, será que você pode fazer um fiado até amanhã?” “Claro, fiquem à vontade, pode chegar!” - respondeu ele com enorme sorriso prestativo. Sentamos e... mal Marco trouxe a cerveja e afastou-se rumo ao balcão, ouvimos Parco em tom de confabulação: “_Ah, gente, vou sentir tanta falta! Eu gostava tanto desse bar!...
Foto: Djair - Confeitaria Nacional - R. dos Correeiros - Lisboa Portugal.