Em “A queda para o alto” no poema a um pai adotivo, Anderson Herzer (Sandra Mara Herzer), poeta brasileiro, com auto-identificação lésbico-transexual, diz: “Quando você morrer, eu vou tomar um porre! Pra compensar todas as vezes que você me aporrinhou.”...
Às vezes dá mesmo vontade de tomar um porre para curar os aporrinhamentos do dia-a-dia, das forças contrárias, dos pensamentos retrógrados, das aporrinhações repetitivas, maçantes, cansativas, extenuantes... Mas... fizesse isso e já estaria na fila do transplante de fígado. O mais próximo que aguento são uma ou duas ou cinco taças de vinho, ou um copo ou outro de gim-tônica, sobre o qual aliás, uma conhecida que cansou de tomar em casa agora torce o nariz dizendo não gostar de bebidas perfumadas; ah, esse povo influenciado pelas bichas finas e semanários da editora abril... tsc, tsc...
Mas o fato é que, em medida moderada, acompanhado por bate-papo com comentários risíveis, ainda que profundos, faz um bem danado, e se o álcool ataca o fígado, a risada o desopila, já que não dá pra evitar o amargor que vem de fora: uma dose de campari amargando por dentro faz milagres. Aliás campari só tem um problema, se é que isto é um problema: dá tesão. Lembro que, ainda no fim do colegial, comentávamos sobre isso e a Alda falou que não, pois tinha tomado uma garrafa de testa, com o Francisco, e ele nem tinha sentido nada, ao que ele rebateu olhando fixamente para ela: “E você por acaso encostou em mim? Pra ver como eu tava?” Foram ótimas gargalhadas; Alda aquela noite estava linda, de vestido vermelho, um belo colo torneado pelas alças finas, cabelos à altura dos cotovelos. Ela sentava-se imediatamente em frente a mim, teríamos prova, mas tendo faltado o professor da primeira aula fomos a um bar em frente ao colégio... Beber o quê? Lembrei-me da propaganda do Conhaque de Alcatrão São João da Barra, que no reclame parecia delicioso; pedi um, Alda outro, aquilo desceu queimando, um horror, um pavor, um terror... Só lembro que durante a prova Alda ria a cada vez que eu cochichava: Alda, tu estás bêbada?
Com Myrna, La Gioconda dançante, uma vez fomos à Casa do Norte em Higienópolis, antes que mudasse de dono e este trocado os garçons, fazendo com que não fosse mais nosso boteco predileto, mas àquela noite ainda era e não fosse pelo metrô encerrar-se à meia-noite, ainda hoje estaríamos ali, tanta cerveja, tanto papo, tantos segredos trocados, e tanta, mas tanta risada, que a felicidade foi buscar conosco um pouco de alegria para distribuir aqui e ali a quem merecesse.
Em outra época, meu bar preferido era na Canuto do Val, o Espetinho Cerveja e companhia, da Lilian Gonçalves, que volta e meia sentava conosco e contava algum causo. Nossa!, tomei não jarras, mas baldes de sangria ali, tinha o melhor frango a passarinho de Sampa, Márcia era gerente de lá e sempre, sempre, nos conseguia mesa na calçada, independente de tão cheio estivesse. Frequentei até pouco depois de Márcia sair de lá e eu perder o status vip que tinha com ela. Levava tribos diversas, pessoal da pós, pessoal do trabalho, pessoal de dois empregos anteriores, amigos diversos. E em uma destas vezes, Ivone bebeu tanto, que indo pegar o metrô deu de cara com um mendigo a pedir um trocado, com o dinheiro a mão foi explicar-lhe que não podia dar pois era o trocado do metrô e o mendigo olhando pra ela apenas disse: Tú tá é bêbada... Fez um gesto de desprezo com o braço e foi embora.
Outros bares vão passando e tornando-se preferidos ou caindo em desgraça, visto minha aversão a lugares onde tem que se esperar horas por um lugar. As estatísticas mostram que a frequência a bares e restaurantes tem caído na cidade de São Paulo depois da moda de arrastões, embora o senhor governador afirme semanalmente queda na criminalidade e investimento na polícia – deve ser a que lhe faz às vezes de guarda-costas “of course”, mas isso tem um lado bom, pode levar ao retorno daquilo que eu, Wânia, e outros amigos mais gostamos: reuniões em casa, com qualidade garantida na comida, na bebida, no som, no papo. E assim confraternizamos de fato, sem aporrinhamentos. Hoje é sexta: Saúde!
Foto:Tatiana Yoko Oliveira - Corrigido após alerta da Carol Bracht. - Galerinha relaxando após as aporrinhações de um dia de trabalho.
