quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Réquiens...



            Zuleica ia para o hospital, para uma internação que não seria a última, mas a primeira de um processo que antecederia seu desencarne num processo lento e denso, doloroso. Para ela, para todos que a cercavam, para todos que a conheciam. Ela a agarrar-se à esperança que só os doentes graves têm de que serão curados. De que terão dores sanadas e saúde recuperada.
            Aquele dia mal se iniciava e a carreguei no colo, os dois pavimentos, descendo a escada até a sala e depois outra, até o carro. Sem fazer força, sem suores, num medo apenas de não lhe oferecer conforto em meus braços durante o trajeto. Não pesava mais que uns 40 quilos, peso que não senti. È esse momento o de lembrança maior, quando me lembro dela já no estado de adoecimento, e embora prefira me lembrar dela em Ubatuba, na praia, a  tomar uma cervejinha, ou a passar cera na ardósia da casa, aquela lembrança é mais presente. Ainda assim é melhor que outras de sua via crucis, por sondas alimentares e demais internações. Uma noite, quando ainda podia alimentar-se com as próprias mãos, Vera, sua prima, perguntou, prestes a descer ao café do hospital, se ela queria algo, ao que animadinha responde com a mesma vontade com a qual se agarrava à vida: “Um pãozinho de queijo”, com a voz fraca dos que têm o pulmão em falência, mas os desejos de uma mineirice enraizada, mesmo após décadas fora do torrão. Era a mesma vontade com que havia comido no Natal anterior, seu último Natal, os pastéis que Henriqueta, sua irmã, fez, com o costume da mãe delas, que os preparava sempre no dia do nascimento do Cristo. Zuleica surpreendeu por comer e repetir, quando já não mais tinha quase apetite. E assim agarrava-se a esses pequenos prazeres gastronômicos, talvez os últimos que tinha, até que partiu, mansa e suave, ao encontro do jazigo da família, com uma maquiagem feita pela funerária, na qual se destacava um batom completamente fora da cor e tom dos que usara a vida inteira.
Quando Zé Luiz morreu, depois de meses de uma depressão profunda, em que nada o animava, em que a psicóloga, que frequentou 03 vezes por semana por mais de década, mais metia-lhe medo que certezas a respeito de tudo, cheguei junto com Jair, a um só tempo, no portão do prédio. Apenas nos abraçamos sem dizer nada, cada um vindo acelerado de um lado da cidade. Nos abraçamos fortemente e entramos. Recebidos pelos irmãos do Zé, fomos direto ao quarto onde há pouco ele partira de vez; depois de dias com medo de dormir teria dito: “_Ah, vou dormir... Foda-se!”
E partiu, partiu como um passarinho... Na cama embaixo dele ainda o molhado de urina, ele inerte naquela poça, o corpo já a esfriar...  Lavei-o, era a última coisa que podia fazer por ele. Pelo corpo daquele amigo tão querido. O corpo depois foi à funerária, e depois do velório seguiu embalsamado para Belém, onde ele havia nascido, onde estavam pais e irmãos que pouco o tinham visto na última década. Ficaram as lembranças, do jeito, do riso... De como nos dias de transmissão do Oscar, em que ligava para nós a cada intervalo do espetáculo, só para tecer comentários, ansiosos, ansiosíssímos e às vezes exaltados. Da risada dele, de como quando eu comprava algo e ele imediatamente comprava um igual, dizendo entre risos: “Nossa, eu comprei tal coisa, ninguém nunca pensou em comprar um desse modelo!” e riamos a valer... o jeito como repetia frases minhas, como se fossem suas, fazendo cara de bonachão e arrancando-me gargalhadas. Foi em paz!
           
            Rafael foi dormir e não acordou mais... O ataque cardíaco fulminante que muitos invejam... Sem doenças corroendo, sem acidentes traumatizantes, sem falências que deixam à cama sem sentidos, sem memória, simplesmente... Foi! Não deu tempo de se despedir, não deu tempo de dizer nada. O que vale é que o fazia constantemente, falando o quanto gostava, fazendo dedicatórias em livros, reclamando do que achava injusto, fazendo piada das pessoas de posicionamento contrário. Não deu tempo de cumprir a promessa que me fez uma semana antes de uma visita surpresa. Aquele dia, o  da promessa, ele estava feliz! Era a primeira vez que dirigia o carro atravessando a cidade. Orgulhoso com a proeza, com a coragem e com o desenvolvimento da aventura. Ainda meio que espero a visita, num sonho talvez... Ficou a lembrança do jeito cômico do excelente ator que era, dos comentários jocosos e ferinos que ele mesmo fazia de si, de suas peças, dos outros... A lembrança do jogo de limpar lareira que compramos pro Sítio de Cunha, de onde ele me trazia pinhões e histórias de caseiros, de caipiras. De vidas...
            Os três se foram.
            Três dores, três saudades, três pessoas que gostavam de mim, a menos no mundo. E hoje a saudade bateu deste jeito...
            Estejam bem... E me aguardem... Eu também vou, acho que vou demorar... Mas vou... Só não me cobrem pontualidade.
           
 Foto: Djair - O infinito, visto através de um dos arcos do Mosteiro dos Jerônimos - Lisboa Portugal.


Requiem - Fauré Gabriel Fauré (1845 - 1924) Requiem in D minor

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Pisando em rastro de corno.

            Parece que “pisei em rastro de corno” - foi lá pelos 1970/80 que ouvi pela primeira vez a expressão. E nem foi no Nordeste, onde surgem tantas e tais frases e expressões jocosas a respeito dos traídos, dos enganados, dos ludibriados, dos cornos...  A expressão se refere àqueles dias ou momentos de azar, em que nada parece dar certo; a culpa de tudo então seria o corno, que teria passado por algum lugar próximo onde pisamos, e daí ter atraído a má sorte... Afinal, alguém que é corno disseminaria essa perniciosa “vibração”.
            E daí, após isto me ser explicado, vinham os variados 'causos', como o do marido que matou a mulher por ele ter dito que aquele dia tudo tinha dado errado na vida dele, que só tendo mesmo pisado no rasto de um corno da orelha bem cabeluda (e não me perguntem a relação dos pelos com os córneos que não saberei responder, ainda que me remeta ao fato de ter lido ou ouvido alguma vez que os chifres dos rinocerontes seriam formados por pelos daquele tanque de guerra). Mas voltando ao azarado em questão, a mulher dele teria respondido no ato: “Mas também homem, você fica só pra dentro e pra fora, pra dentro e pra fora... numa referência a que ele pisaria no próprio rastro, e portanto, era ele o corno em questão. Daí ele ter tomado a frase da mulher como confissão da traição e a teria matado. Se tal caso é verdadeiro, também não era o dia de sorte dela... Talvez por ter pisado no rastro do próprio marido...
            E quem não conhece um corno? Os mansos, os conscientes, abundam em cidades interioranas; aliás, reza a lenda que em Cezídia, lá pros lados do bairro dos Benicíos, um deles teria morrido de chifre, e antes que me acusem de mentiroso explico o fato, conforme me foi contado. O marido da desfrutadora (naquele tempo não se usava o termo 'pegadora') em questão era dos cornos mais mansos que já houvera por ali, consciente absoluto da cornitude; enrolava os chifres como os de um carneiro e, manso como o bicho em questão, levava a vida à calma, sem importar-se com a alegria da esposa, fazendo de conta nada saber. Um dia, eis que ao acordar pela manhã, teria dado com um enorme par de chifres de boi em cima do capô de seu carro, que trazia pichado ao vidro a expressão: “Fulano: Corno manso.” E me poupo de não citar o nome do corno, que na hora teve um ataque cardíaco fulminante e morreu, dai a cidade toda a comentar em tom de sussurro: morreu de chifre!
            Chifres, melhor não tê-los, mas em tendo, melhor não sabê-los, muito embora a literatura erótica traga noticias de cornos contumazes que sentiriam prazer em saber ou ver as esposas a ter relações com outros... Embora, a mim, seja difícil imaginar que se sinta prazer ao ver o cônjuge a fornicar com quem quer que seja, taras, gostos e manias os há de todos os tipos. Vai saber se na verdade em assim os vendo realizem as fantasias de estar no lugar delas... Tudo muito cheio de elocubrações, sensações que não se ousam revelar, interpretações equivocadas... ou não... Enfim, tudo muito esquisito, pelo menos aos gostos convencionais. E não, não vou entrar na discussão do “é normal, mas não é natural” e vice-versa ou qualquer outra semelhante.
            É óbvio quer há aqueles que não tem o cuidado necessário com seus cônjuges e os encaminham ao leito de outros, por falta de carinho, de amor, de atenção, de apetite sexual... E também os há por um fogo nas “bacurinhas” e nos “santinhos” que não são aplacados em casa. Também há a cultura do macho que tem que trair, e da mulher que tem que se vingar, e assim há traições e cornos de todo o gênero, em altos números e em graus impressionantes.
            Não há como não falar nos que tem prazer em tornar alguém corno, seja pelo desejo à mulher ou marido alheios, ou por ser justamente do outro, e ai voltamos ao capítulo das taras. Uma vez inclusive, duas conhecidas conversavam sobre uma terceira que só gostava de homens casados, e uma dizia a dar risadas: vai ver que é porque assim ela sabe que funciona.
            Há aqueles que, após uma corneada bem tomada, tomam-se de mais amor e carinho pela amada, e vai saber se não é justamente por adivinhá-la com outro. Vai saber se no fundo ele não gostaria também de estar com o outro, ou se pelo fato de ela ter outro ele se sente desprezado e só assim a valoriza, por medo de ser deixado definitivamente. Mais ou menos como o brinquedo que em criança jogamos no fundo do quintal por ter enjoado, cansado da brincadeira, por ter aquele perdido a cor, estragado uma rodinha, ou seja lá o que for... Um dia, um priminho em visita, um filho da vizinha, uma criança qualquer, entra em nosso quintal e se encanta por ele, e ai, mimados que somos, corremos, tomamos dele, e abraçamos o velho brinquedo que ali estava jogado e esquecido, e fazendo bico e cara de mau, dizemos: “É meu!”           
            Abençoados sejam os cornos; se não os houvesse, pense que grandes obras literárias teríamos perdido... “Madame Bovary”, “Ana Karenina”, “Gabriela” e quem sabe até Capitu, que não se sabe ao certo se o Dom era de fato corno, ou não, e a dúvida persiste, e por isso Casmurro. Será que se tivesse sido sanada o faria Dom Alegre? Afinal de quem eram mesmo os ciúmes: da mulher ou do amigo? De quem a traição pior? Ah, as traidoras do século XIX...
            Mas deixemos os cornos em paz, que não atravessem nossos caminhos para que não tenhamos que pisar em seus rastros. Afinal chifres, reza a lenda que até o diabo os tem.
           

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Salve latinha

            Aquele dia, à noite, brincávamos na rua, que era uma rua em “L” sem saída, onde poucos tinham carro; afinal, naqueles anos 1970, carro era um artigo raro, e o ar das cidades muito melhor, assim como o transporte público, o trânsito, a educação das pessoas, mas enfim, a rua era larga e propiciava um lazer ótimo, eram piques, queimadas, garrafões, mãe-da-mula, balança caixão, e tantos outros que realmente faziam nossa alegria e com que fossemos assim, íntimos, de uma intimidade sem malícia e uma proximidade irmã.
            A brincadeira daquela noite era “salve-latinha”, uma espécie de esconde-esconde, onde jogávamos uma lata à maior distância que nossos pequeninos braços podiam, e quem estava na vez tinha que ir buscá-la, na maior carreira possível, afinal era o tempo que tínhamos para nos escondermos. Lata na mão, lá vinha o caçador, e a postava no local determinado, em geral quase ao meio da rua, a uns dois metros em linha reta do poste, onde ficava pousada ali, enquanto quem estava na vez, procurava os escondidos, ao  “achar” o escondido, corria até a latinha e batia com ela no chão por três vezes, dizendo: fulano está em tal lugar. Cada um dos encontrados ficava junto ao outro, que se mantinha com uma das mãos no poste, formando uma corrente e esperando a salvação. Caso o acusado corresse mais, pegasse ou chutasse a latinha, estaria salvo, ah, e o primeiro a ser achado, seria o “buscador” na próxima rodada; em compensação, se o último conseguisse se salvar e tocasse a mão do último que estivesse na “corrente de meninos” salvaria a todos os outros, e recomeçava-se a brincadeira com aquele jogando a latinha e o mesmo menino ficando de buscar os demais.
            Minha casa ficava depois do cotovelo do “L” que a rua formava,  sendo que os fundos davam para o quintal da casa da Ana, filha de nossa vizinha da direita, cujo nome já não tenho na memória, mas que  se lembra da imagem dos presépios que ela montava. Bem, Ana, que fora morar ali logo depois de se casar, cortava caminho com o consentimento de meus pais, pelo quintal de casa, subindo uma escada que meu pai colocara ao fundo do quintal, logo atrás do abacateiro, para este fim, pois a rua de cima ficava num nível mais alto. 

            Não lembro quem jogou a latinha aquele dia, nem recordo-me quem foi buscá-la, só sei que corri, corri pela avenida (era onde iniciava-se o “L” e onde jogávamos a latinha) no sentido contrário ao que ela foi jogada, me escondi num vão e esperei que o buscador entrasse na rua, continuei e dei a volta na quadra, entrando pelo quintal de casa, desci a escadinha esbaforido, fui até a esquina e me abaixando via já uma longa fila de meninos junto ao poste. Voltei em casa, peguei um lençol novo que minha mãe tinha comprado por aqueles dias, embrulhei-me todo, coloquei uma peruca de minha mãe, peguei no quintal um bastão, algum cabo de vassoura provavelmente, enverguei a coluna e lá fui andando imitando um andar claudicante...
            Passei pelo buscador, que guardava a penca de meninos vigiando ao meio da rua, já que faltava apenas um, do qual ele estava determinado a não deixar se aproximar e muito menos salvar os demais... Nisso só ouvi alguém dizer: deixa a velhinha passar... E o buscador afastou-se e, como um relâmpago, corri a todo fôlego, dei a mão ao último menino, chutei a latinha e salvei a todos. Fizeram uma algazarra tremenda, e eu, sentindo-me vitorioso, era ovacionado pela molecada. Quem disse que não há momentos coroados?

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Noite de Lua Cheia... Uivemos.

 

Foto: Estela Takahachi (Tomie) Lua em  vista no céu de São Paulo, 2012.


Ontem indo à dentista, caminhando, pela rua, já noite, olho e me deparo com uma das mais belas luas que pude ver nessa cidade. Cheia, tão branca quanto a poluição da urbe permite, o que quer dizer que estava mais pro amarelo, bege, ou o que o valha, e perderia feio para a vestimenta da asséptica Silvia (a dentista citada), com sua roupa descartável que a deixa com ares de noiva, de orixá, de freira da ordem das Marcelinas; enfim, a lua não tinha o seu branco total radiante, mas ainda assim bela, mística, encantadora... Sim, sim, tens razão, é um texto piegas, daqueles que luas e romances suscitam.
Afinal, a lua começou a desencadear lembranças a seu respeito, de uma vez que eu revoltado sei lá com quê, possivelmente comigo mesmo, pois as revoltas sempre são com o desalinho em que nos encontramos com as situações, estejamos certos ou não. Estava de bode, portanto, e uma amiga daqueles distantes anos 1990 chamou a atenção para o quanto estava bela a lua, e eu, que só dei conta de minha condição mental naquele instante, respondi: Devia cair!
Mas a de ontem, ah, a lua de ontem. Fez-me lembrar de Minas, de Ubatuba, quando pela estrada à noite, a dirigir, sempre que a oportunidade aparecia, parava o carro em um trecho de estrada sem luz para apreciar lua e estrelas. A visão do céu no planetário é linda, mas artificial, nada a que se possa comparar a delicia de parar numa estrada longe de luzes artificiais e contemplar o céu. E daí me veio à cabeça o romance da lua, cantado por Amelinha nos (mais distantes ainda) anos 1980, tradução de um poema de Garcia Lorca, em Romanceiro Cigano,  onde os ciganos, apossando-se da lua, “com seu coração fariam anéis e colares brancos.” E veio-me à mente a imagem de ciganos a trabalhar pedaços de lua com martelos, bigornas em fogueiras, que também combinam com ciganos, e em fornos, que devem servir a isso, a trabalhar metal, a forjar joias e não armas, a servir para assar bolos, tortas e biscoitos, e não gente. Sejam de que etnia, religião, ordem forem, tenham o sexo ou preferência sexual que tiverem, sejam inocentes ou filhos da puta, até porque muitas putas tem filhos bons, muitas putas são boas mães, e putas também têm sentimentos e moral. E a lua brilha pra elas também.
Não, não me lembrei da “Lua de São Jorge” do Caetano, que só agora me ocorre, mas dos ciganos, das putas, do desejo que ela caísse. Não me lembrei do anel da Lua que Omar Cardoso, astrólogo, fazia propaganda em tempos em que se acreditava que ele (o anel) era feito com pedras trazidas da lua por astronautas, eu cujo uso seria de alguma forma benéfica.
Lembrei de outra lua cheia, linda, à beira da praia de Boa Viagem, em Recife, e outras tantas luas... A maior delas em João Pessoa, em uma noite linda enquanto comíamos um belo pargo frito e tomávamos cerveja a guisa de jantar. Pois é, a lua ainda me suscita essas coisas, o que me leva a concluir que ainda não estou de todo perdido... É isso... Hoje tô de Lua.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Deus salve a gafe nossa de cada dia

Hoje, como volta e meia acontece no meio político, do esporte e qualquer outro, foi dia de gafe. Ao anunciar as atletas da seleção de de futebol feminino da Coreia do Norte, foi exibida no telão do estádio em Glasgow, na Escócia, a bandeira da Coreia do Sul. Provavelmente alguém perdeu o emprego, ou no mínimo levou uma “encarcada” daquelas. Ainda mais em se tratando que a gafe envolve países rivais politicamente e que se estranham amiúde. As jogadoras saíram de campo antes da partida contra a Colômbia e retornaram depois de mais de uma hora. Organizadores emitiram pedido de desculpas e, apesar do constrangimento, o que poderia abalar a equipe da Coreia do Norte, serviu para (ao que me parece) estimular, e ela venceu a Colômbia por 2 a 0.
            Mas... Quem nunca cometeu uma gafe? E tantas, e quantas? E feias? Daquelas que fazem rir e viram causos àquelas que tiram noites de sono e causam remorsos. Eu as coleciono às dúzias, e me puno mentalmente por elas, por minha irreflexão e falta de tato, então deixemos elas lá bem quietinhas e falemos das dos outros, que a nossos olhos condescendentes são sempre menos graves e mais risíveis que as nossas, afinal a vergonha foi do outro.
            Uma que nunca esqueço foi ainda em Cezídia; naquele dia, à noite íamos todos a uma boate, recém-inaugurada e bem afamada por ter bom som, bom DJ, etc, etc, etc. Estávamos todos na casa de Pedro, a quem eu tratava de padrinho, por ter apadrinhado um relacionamento fugaz mas que serviu para dar-lhe tal alcunha.  Enfim, éramos umas 10 pessoas, fizemos as contas e já prontos vimos que precisaríamos de dois táxis, mais a entrada da boate, mais bebida, etc.; sairia uma grana a diversão noturna, mas a noite prometia. Descemos todos e vimos uma faixa na quadra do prédio, haveria uma festa com bingo em uma das casas vizinhas, não sei de quem partiu a ideia, mas... E se fôssemos à festa ao invés da boate, a diversão seria a mesma, dança, bebida, risada, etc, etc... Todos de acordo nos encaminhamos para lá... Ocupamos duas mesas no jardim e lembro que consumimos duas caixas de cerveja e uma de refrigerantes. Conhecemos a Marta e sua irmã, que moravam no mesmo prédio do padrinho, um andar acima e que juntou-se a nós. Ríamos, contávamos causos, um ou outro entrava e dançava por um tempo e depois voltava. O resto do pessoal? Bem... Pouquíssima gente, a festa fora um fiasco, e até por isso e por sermos um grupo que consumia, éramos tratados pelo rapaz que organizara o mico com o maior apreço, afinal prejuízo pouco é bobagem.
            Uma das meninas foi embora, não lhe lembro mais o nome, apenas que era bonita.. E fanha... Fosse eu Machado de Assis, e fosse o blog Dom Casmurro teceria: “Se fanha porque bela, se bela... porque fanha?” Mas enfim o causo era que a essas horas estávamos todos na mesa a cantar e, à saída dela, que era uma das mais cantantes, começamos todos a cantar imitando-lhe a nasalação, e dá-lhe “Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora, e chora, e choooora...” Pode não ter graça aqui, mas a maldade feita em grupo, e depois de várias garrafas de cerveja, era de despertar gargalhadas homéricas, altissonantes, intermináveis. E para quem  está a esperar que ela voltasse e nos pegasse no ato e daí viesse a gafe da história em questão... Pois bem... Isto não aconteceu...
            Bem, voltando à festa, Victória, que não bastasse o pré-nome de glória tinha que ser Régia, era das mais animadas com a dança lá dentro, e vinha à mesa volta e meia contar uma piada ou fazer um comentário jocoso... E lá vinha ela a adentrar de novo o “salão de baile”. Numa dessas ouvimos uma discussão... Quem era? Victória... A própria... Envolvida numa tonitruante discussão com outra menina...
            O namorado da moça tinha se engraçado por Victória, e Victória tinha achado muita graça no rapaz, já a namorada daquele... ficou séria e daí veio a discussão, - aliás porque sempre as moças vão tirar satisfação com as outras e não com os mancebos? – Enfim, a moça queria que fossemos embora, etc, etc... O rapaz dono da festa tomou-nos as dores e mandou que ela sim se retirasse; nossa amiga volta passada à mesa, narrando sua versão do acontecido e pedindo mais cerveja. Para o rapaz dono da festa, ela começa a desabafar: onde já se viu... Ah, mas eu conheço essa menina, ela trabalha lá na *Censurado que eu não sou besta*, não é? E ele: É, é sim... Pois ela vai saber quem é Victória Régia não sei das Quantas, ela me aguarde que vai ter noticias minhas. Isso é uma histérica que tá precisando mesmo de macho, e sobe o morro, e desce barraco, e de tão fina vira uma lavadeira (que segundo reza a lenda tinham um linguajar chulo e vulgar). Desabafo feito, ela pergunta ao rapaz que pacientemente ouvia mas agora queria que a gente fosse embora... Ela é o que aqui? Organizadora? Dona da casa??? E o rapaz: Não... é só minha irmã...
                E você, vai contar a sua?

Foto: Anjinhos barrocos, safadinhos - São João del Rey

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Fiado só amanhã!

Engraçado, nos propomos às vezes a escrever sobre uma coisa, e o texto como que ganhando vida própria vai serpenteando aqui e ali nas lembranças e aquela que nos despertou para aquele assunto se recolhe a seu quarto, entre outras, se aconchega e adormece, sabe-se lá até quando. Foi assim no texto da última semana; sem querer tratar de assuntos mais pesados, uma vez que estou doce, como campari, por esses dias, fui falar das navegações pelos bares da vida, daqui, dali, de além. E... o que me despertou para o tema foi a lembrança de Parco. Porém, no fim, o texto tomou outro rumo, a prosa cresceu e ele ficou comportadamente quieto em seus aposentos, no fundo da memória, e como arguto e gaiato que era, saiu daí a pouco, tão logo o texto já estava publicado e comentado por alguns queridos amigos que honram-me seguindo este blog, comentando, participando, do blog, dos textos, de minha vida. Mas para que o fantasma de Parco não venha assombrar-me, volto aos bares com ele.
Parco era um colega dos tempos em que eu andava com o pessoal do teatro, no interior; depois de ensaios era comum encontrarmo-nos todos e ir para algum boteco, tomar uma cerveja, ou duas, ou doze. Saíamos todos juntos, cada um rumo a sua própria casa e era um acordo tácito e silencioso que, antes de chegar à avenida onde nos desvencilharíamos,  cada qual pegaria uma rua diferente, pararíamos em algum bar. Afinal era verão, lá sempre era verão, mesmo quando o frio forte fazia os termômetros chegarem à marca dos 23 graus. Brrrrr...
Mas enfim, logo alguém dizia, à primeira vista de um boteco agradável: vamos tomar uma cerveja? Todos assentiam... Menos... Parco. Parco logo falava: Eu não vou, vão vocês que eu tô devendo naquele bar.  Bem, estávamos juntos, ninguém ia sem ele e seguíamos o caminho. No próximo alguém lembrava: vamos ali então? E Parco: Ah, ali não dá. É que tô devendo lá. Como ainda faltava bom trecho, passando em frente a padaria, alguém falava: e aqui? Ah, não rola porque tô devendo, dizia Parco. E assim íamos até achar um bar que ele não devesse. Nunca soube, se era pura blague, apenas para fazer gênero ou por não curtir o visual, música, ou o que quer que fosse, o fato é que ele dizia dever na maioria dos bares de  Cézidia. 
Com o tempo passamos a beber sempre no Arco da Velha, um boteco estiloso que tocava MPB e tinha mesas na calçada. Parco sempre pagava, e já fazia uns dois, talvez três meses, que bebíamos ali pelo menos duas vezes por semana; era certo nos encontrarmos lá. Até que um dia passávamos, Parco se adiantou e falou a Marco, o dono, que àquela altura já nos conhecia: “_Marco, hoje eu tô sem grana, será que você pode fazer um fiado até amanhã?” “Claro, fiquem à vontade, pode chegar!” - respondeu ele com enorme sorriso prestativo. Sentamos e... mal Marco trouxe a cerveja e afastou-se rumo ao balcão, ouvimos Parco em tom de confabulação: “_Ah, gente, vou sentir tanta falta! Eu gostava tanto desse bar!...

Foto: Djair - Confeitaria Nacional - R. dos Correeiros - Lisboa Portugal.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Saúde!!!

Em “A queda para o alto” no poema a um pai adotivo, Anderson Herzer (Sandra Mara Herzer), poeta brasileiro, com auto-identificação lésbico-transexual, diz: “Quando você morrer, eu vou tomar um porre! Pra compensar todas as vezes que você me aporrinhou.”...
Às vezes dá mesmo vontade de tomar um porre para curar os aporrinhamentos do dia-a-dia, das forças contrárias, dos pensamentos retrógrados, das aporrinhações repetitivas, maçantes, cansativas, extenuantes... Mas... fizesse isso e já estaria na fila do transplante de fígado. O mais próximo que aguento são uma ou duas ou cinco taças de vinho, ou um copo ou outro de gim-tônica, sobre o qual aliás, uma conhecida que cansou de tomar em casa agora torce o nariz dizendo não gostar de bebidas perfumadas; ah, esse povo influenciado pelas bichas  finas e semanários da editora abril... tsc, tsc...
Mas o fato é que, em medida moderada, acompanhado por bate-papo com comentários risíveis, ainda que profundos, faz um bem danado, e se o álcool ataca o fígado, a risada o desopila, já que não dá pra evitar o amargor que vem de fora: uma dose de campari amargando por dentro faz milagres. Aliás campari só tem um problema, se é que isto é um problema: dá tesão. Lembro que, ainda no fim do colegial, comentávamos sobre isso e a Alda falou que não, pois tinha tomado uma garrafa de testa, com o Francisco, e ele nem tinha sentido nada, ao que ele rebateu olhando fixamente para ela: “E você por acaso encostou em mim? Pra ver como eu tava?” Foram ótimas gargalhadas; Alda aquela noite estava linda, de vestido vermelho, um belo colo torneado pelas alças finas, cabelos à altura dos cotovelos. Ela sentava-se imediatamente em frente a mim, teríamos prova, mas tendo faltado o professor da primeira aula fomos a um bar em frente ao colégio... Beber o quê? Lembrei-me da propaganda do Conhaque de Alcatrão São João da Barra, que no reclame parecia delicioso; pedi um, Alda outro, aquilo desceu queimando, um horror, um pavor, um terror... Só lembro que durante a prova Alda ria a cada vez que eu cochichava: Alda, tu estás bêbada?
Com Myrna, La Gioconda dançante, uma vez fomos à Casa do Norte em Higienópolis, antes que mudasse de dono e este trocado os garçons, fazendo com que não fosse mais nosso boteco predileto, mas àquela noite ainda era e não fosse pelo metrô encerrar-se à meia-noite, ainda hoje estaríamos ali, tanta cerveja, tanto papo, tantos segredos trocados, e tanta, mas tanta risada, que a felicidade foi buscar conosco um pouco de alegria para distribuir aqui e ali a quem merecesse.
Em outra época, meu bar preferido era na Canuto do Val, o Espetinho Cerveja e companhia, da Lilian Gonçalves, que volta e meia sentava conosco e contava algum causo. Nossa!, tomei não jarras, mas baldes de sangria ali, tinha o melhor frango a passarinho de Sampa, Márcia era gerente de lá e sempre, sempre, nos conseguia mesa na calçada, independente de tão cheio estivesse. Frequentei até pouco depois de Márcia sair de lá e eu perder o status vip que tinha com ela. Levava tribos diversas, pessoal da pós, pessoal do trabalho, pessoal de dois empregos anteriores, amigos diversos. E em uma destas vezes, Ivone bebeu tanto, que indo pegar o metrô deu de cara com um mendigo a pedir um trocado, com o dinheiro a mão foi explicar-lhe que não podia dar pois era o trocado do metrô e o mendigo olhando pra ela apenas disse: Tú tá é bêbada... Fez um gesto de desprezo com o braço e foi embora.
Outros bares vão passando e tornando-se preferidos ou caindo em desgraça, visto  minha aversão a lugares onde tem que se esperar horas por um lugar. As estatísticas mostram que a frequência a bares e restaurantes tem caído na cidade de São Paulo depois da moda de arrastões, embora o senhor governador afirme semanalmente queda na criminalidade e investimento na polícia – deve ser a que lhe faz às vezes de guarda-costas “of course”, mas isso tem um lado bom, pode levar ao retorno daquilo que eu, Wânia, e outros amigos mais gostamos: reuniões em casa, com qualidade garantida na comida, na bebida, no som, no papo. E assim confraternizamos de fato, sem aporrinhamentos. Hoje é sexta: Saúde!

 Foto:Tatiana Yoko Oliveira - Corrigido após alerta da Carol Bracht.  - Galerinha relaxando após as aporrinhações de um dia de trabalho.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ritos



Ritos servem para preservar tradições, unindo grupos, preservar e fortificar relações, propagar conceitos, e mesmo preconceitos. Mostrar tradições de antepassados, para que alguns se exibam, para que outros invejem aqueles detentores do status ali representado e queiram ocupar o lugar de destaque que é mostrado, e assim lhes rendam homenagens, rapapés, de forma a afagarem-se egos e perpetuarem sua cultura.

Muitos ritos estão em ruínas, em plena decadência, falta-lhes modernidade no ritmo e poder agregador, mas como modernizar algo que busca justamente preservar tradições?

Os bailes de debutantes, por exemplo, eram uma cerimônia onde a moça era apresentada à sociedade, pela primeira vez usava maquiagem, salto alto, entrava-se uma menina e saía uma moça. Hoje, muitas meninas pulam a etapa moça, tornam-se mulheres, tanto física e mentalmente como sexualmente. Oras, muitas hoje perdem a virgindade antes de sequer menstruarem, namoros são permitidos por pais permissivos cada vez mais cedo, e os rapazes dormem em suas casas...

Um dos grandes ritos católicos, a missa do galo, ritual celebrado por séculos à meia noite, hoje sob argumento da segurança é realizado insipidamente às 20:00hs, se muito, a mais das vezes para que os fiéis (e sacerdotes) possam estar em suas festas à hora da virada para o dia do natal, para que possam comer e rir, sem lembrar o que se celebra ali. Mas já que falamos destes, vamos aos valores outros representados no espetáculo dominical. O rito por belo que seja deveria realmente mostrar um congraçamento, e calhou de vir aqui a analogia com o rito apostólico romano, mas é apenas uma analogia que identifica mil outros ritos, religiosos ou não, basta um trocar uma nomenclatura de cargos ou expressão identificadora do ato teatral. Quem tiver olhos que veja, e quem tiver ouvidos que ouça, já diz o livro da lei da cristandade.

Bem, existe um momento no rito onde todos se “saúdam como irmãos” desejando as mais nobres e belas benesses; o cumprimento é dado com sorrisos e afagos: “A paz de Cristo” e... logo depois, na melhor hora da missa segundo um conhecido: “Vamos em paz e que o Senhor nos acompanhe!” Ainda na praça, ou mesmo no corredor do templo, já não se olha nos olhos daquele que se abraçou com fluídos salutares. Não se cumprimenta, ele já não faz parte do seu mundo. Mesmo autoridades leigas, Ministros de eucaristia, Sanyasis, Diáconos, Grãos-mestres, a mais das vezes buscam o quê? Uma projeção social dentro daquele ambiente, onde em gestos compungidos e serenos entregam “o corpo de Cristo” a seus irmãos, dão passes, passam em belas filas com ornamentos, paramentos, taças de vinho a serem distribuídas, pembas e pós, incensos e flores, e mil apetrechos dependendo de cada rito, crença ou que os valha... E depois dali? Postam-se ao mais das vezes no trono de orgulho, do Eu Sou, do estou acima de você. Não seria mais prudente e lógico quanto mais elevado espiritualmente, quanto mais próximo de Deus, que fosse mais humilde, que buscasse maior contato com seus irmãos ao invés de impostar-se como mestre e conhecedor de seus ritos e dogmas? Mas infelizmente, assim como títulos de doutorado não conferem bons modos a quem se dedica apenas à educação formal, gestos e palavras decoradas não os dão a quem não foi educado dantes.

Foto: Djair - Ilustração de painel da Biblioteca da Universidade de Coimbra - Coimbra - Portugal.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Confiança

               Um dos sentimentos mais importantes, em qualquer relacionamento... Confiança...
É ela quem nos faz permanecer em relacionamento com pessoas, grupos, trabalhos, nos faz manter empregados que têm às vezes muitas falhas, mas em quem confiamos, a quem entregamos as chaves de nossas salas, as de nossas casas, principalmente se, como eu, são descuidados que chegamos e espalhamos carteira, dinheiro, documentos e os deixamos em qualquer lugar. Sabemos que não os encontraremos ali, mas sobre uma cômoda ou em determinada gaveta.
Muitos casamentos acabam quando acaba a confiança; uma traição física, que a mais das vezes nada tem de envolvimento sentimental, mas sim de sexual, põe fim aí, exatamente no momento da descoberta que o outro não cumpriu um acordo tácito de relacionar-se apenas com o cônjuge. Amizades de anos a fio têm fim quando se descobre que aquele segredo confiado apenas àquela pessoa, foi compartilhado com terceiros, quartos e quintos, e ai, manda-se a relação para o quinto dos infernos.
Mais do que compartilhamento de segredos, a maior quebra de confiança dá-se quando se percebe que o outro utiliza-se de um relacionamento (que muitas vezes é longo, mas sem profundidade) para tirar alguma vantagem do que o outro tem, para aproximar-se de alguém que o outro conhece, para entranhar em negócios e obter vantagens pessoais, e lucro certo.
Nos dias atuais, Kali Yuga (Idade do Demônio Kali ou Idade do Vício), para os hindus, a confiança é algo difícil de conquistar e uma vez conquistada deve ser mantida como preceito, como a própria alma,pois quando se perde, dificilmente se resgata. E se a consegue resgatar, seu brilho sempre permanecerá ofuscado pela lembrança da traição passada. Afinal, mesmo nas relações saudáveis, onde se confia, volta e meia vem a dúvida... Até onde confiar? Posso realmente confiar? Quem não confia não está imune a traições, puxações de tapete ou imbróglios desta espécie. Faz parte do amadurecimento superar fins de relações, pessoais, profissionais, amorosas, mas as cicatrizes são profundas, muitas vezes originando queloides hediondos sem que se resgate a serenidade.
Mas o não confiar nunca, em nada, em ninguém (se isso é possível) não doerá mais que confiar e depois se descobrir equivocado?
É um processo de uma vida: confiar nos pais, confiar que a mãe o amamentará, que os pais o protegerão, que está seguro em casa, que o que o professor lhe ensina é correto, que seus amigos não o sacanearão, que o companheiro (a) vai se dedicar a você tanto quanto a ele, que sua religião e seu Deus o protegerão, que o seu sócio não o trairá, que seu amigo estará ali como você estaria no caso dele precisar, que a pessoa que você ama te doaria um rim se necessário fosse, que aquele amigo que propõe um empreendimento está realmente te contando a verdade sobre ele, suas consequências e riscos?
E por ai vai... Mas... Quem garante qualquer uma destas coisas?
Este texto não tem um desfecho, apenas leva ao questionamento sobre a confiança. Sobre em quem ou em que confiar. Confiança chega a ser um estado de espírito, porque às vezes você confia, mas em um determinado dia, cinza, frio, você pensa: e se não for assim? E então, confia? 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Viva Santo Antônio!

Imagem de Santo Antonio
Adquirida em Lisboa


13 de junho, dia do aniversário de Graciele, com quem não consigo mais falar, e... Dia de Santo Antônio; sempre que pude fiz fogueiras nesse dia e nos dos outros santos juninos (João e Pedro), e em outros dias, tivessem eles santos ou não. Aqui mesmo no blog já falei sobre fogueiras, mas... Hoje é dia de santo Antônio. Ano passado em Lisboa, me deparo com a igreja dele, segundo consta erigida no local onde foi a casa em que nasceu e morou. Assisti ali a uma missa e emocionado comunguei.

Bem, não é segredo que acredito em tudo, Deus e santos, e outros gênios, cristãos ou pagãos, já que para os cristãos tudo além do Cristo e seus mártires e santos é pagão. E mais abrangente, creio no Deus cristão e nos demais deuses também, Krsna, Orixás, e nem deveria, mas acredito (embora bem menos, mas mais do que deveria) nos homens também. Conheço ateus, agnósticos e fiéis de todas as vertentes, até um ateu devoto de S. Judas Tadeu e Nossa Senhora Aparecida.

Faço diferente da maioria ao comungar que, ao tomar a hóstia, já se acreditam puros e sem pecado, por terem se confessado e recitado fórmulas repetidas por séculos e “seculorum” mas enfim, quando resolvo fazê-lo, é porque estou tomado de certa emoção de embevecimento, de fé (se a isso se pode chamar assim) e aí sim, entro na fila e tomo a hóstia, preferencialmente das mãos de quem a distribui, que prefiro seja o próprio sacerdote vestido com todos os seus paramentos. A tomo porém no sentido de a partir dali me tornar melhor de alguma forma. Da mesma forma que tomaria um passe, água fluidificada ou benzida, ou doces de Cosme e Damião, ou “prachada”. Afinal, se tudo está imbuído de bons fluídos, de amor, tudo há de fazer o bem, e se o objetivo também é o de tornar-se melhor, nada vai fazer mal; é o que acredito a despeito do que achem outras crenças e seus representantes, sobretudo os mais cheios de certeza e conhecedores de seus livros de leis. Até porque muita gente os lê, decora e segue fazendo sacanagens e escrotidões às baciadas é fato, o vejo diariamente, gente que puxa tapetes e faz trapaças enquanto cita versículos sem sequer ruborizar.

Mas... É dia de Santo Antonio, então viva o santo do dia! Faço gosto que suas simpatias e tradições se mantenham, simpatias de moças casadouras, como as da faca na bananeira, do pingo de vela na bacia d’água, ou o amarrar seguido de afogamento da imagem do santo de ponta-cabeça. Que fogueiras ardam iluminando céus e aquecendo românticos, sou a favor de tradições, mais por achá-las belas e romanceadas do que por crer de fato em seus ritos, o que creio, creio eu e pronto. O que acho belo, é belo a meus olhos e se outros não o acham, paciência, certos círculos de visão só veem mesmo o material, então, lamentemos sua miopia. 

Nessa época dá-me saudade do Nordeste e de Minas Gerais, de procissões, e crendices, das abóboras, batatas doce, bananas, carnes assadas na fogueira e dos quitutes juninos. Me dá saudade de Ubatuba, onde sendo S. Pedro padroeiro dos pescadores, estes fazem festa a ele coincidindo com a pesca da tainha, que no princípio era preparada e assada por suas esposas na Ilha dos Pescadores, e servida recheada e assada na brasa, por preço vergonhosamente barato. Dá-me saudades dos pinhões que Rafael me trazia de seu sítio em Cunha, e a lembrança que eles também existem no sítio de Ana Angélica em Curitiba, então que o Santo do dia me propicie logo a ter o meu, pois faço parte do movimento dos sem sítio. Prometo fogueiras a ele.

De mais, viva Santo Antonio, Viva São João, viva São Pedro!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

E então, preparado?


Você está preparado?

Pra que? Não importa... Está ou não está?

Sente-se preparado para ir adiante, ou pretende recuar à vista do desconhecido? Arrisca-se e atira-se de cabeça, ou recua ao menor sinal de desconforto?

Medo de que a água seja fria? Medo de que sob a superfície límpida e cristalina haja um lodaçal podre onde se afunda lenta e tediosamente e nenhuma força o resgate?

Quantas oportunidades, quantas bem-aventuranças, deixamos passar por não nos sentirmos preparados! Por nos acharmos incapazes e, com isto, nada somos, senão relapsos quanto a nosso próprio destino e papel enquanto bem-aventurados moradores do planeta, devedores de responsabilidades quanto a ele e quanto aos companheiros de viagem, não no papel de protetores e acalentadores, mas de desenvolvedores de sua intelectualidade e sua capacidade de desenvolver a si mesmos...

Uma coisa é saber teorias, outra é conseguir transformá-la em prática, e assim fazer com que essa energia mude. Sim, o texto hoje está um tanto messiânico, e se não é de agrado, pode parar a leitura aqui, como me disseram ontem em tosco comentário: “Visito seu blog, mas eu sou jovem (embora a pessoa em questão já tenha a idade para ser e comportar-se como adulto) e jovem não lê textos grandes.” Olha, taí, passei a admirar aqueles que fazem plásticas e pintam cabelos ocultando anos na face e na cabeça mas a desenvolver intelecto e sabedoria. E respondi que não é o fato de ser jovem o que faz ler ou não textos grandes... Aprofundar o diálogo? Não era o caso nem valia a pena...

Geralmente atendo ao telefone, com esta palavra: “Pronto!” Uma vez, anos atrás, uma amiga daquela época, me liga e ao ouvir o meu “Pronto!” pergunta de chofre: “pronto, pra quê?” E eu imediatamente em xeque-mate: “Para o que der e vier!” E ela: “Nossa, quando liguei pro Lino, ele também atendeu falando: 'Pronto' e quando respondi pra quê, ele respondeu: 'pra tomar café'. Fiquei tão decepcionada...”

Mas para o “estar preparado” quando se está? Como se está? Para que se está? Bem, voltando ao messianismo da narrativa, sempre acreditei que as coisas acontecem. Sejam elas relacionamentos, mudanças, topadas... Pelo menos comigo, a maior parte das vezes foi assim, e acredito que se elas aconteceram, eu estava preparado para aquilo. Ou não aconteceria. Então... sim, estou... Posso arrepender-me? Sim, e muitas vezes vou... mas não seria pior lamentar não ter feito, experimentado? Então... tem-se que estar preparado até para recusar experiências, aprofundamento de relações e aprimoramentos.

Texto difícil de escrever foi este, expressando realmente o que quero passar, o que quero dizer, mas se você está preparado, vai entender. Então, se não entendeu... Prepare-se. Atire-se, creia, questione, pese, meça, recapitule, mas ao final... Esteja sempre pronto!


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Verbalizar


 Uma coisa há de se falar a favor das redes sociais, além do muito que é dito, discutido, explicado por especialistas (ainda mais nesta época em que há especialista pra tudo): elas servem para que muitas pessoas, que engolem em seco seus sentimentos, reflexões e tormentos, os coloquem pra fora.
Funcionam em muitos casos que vejo como uma terapia. É um saco ver muita bobagem que muitos postam? É! Sobretudo meiguicesinhas e rezinhas, simpatiazinhas e preconceitos servidos à mão cheia, alegadamente como pretensões humorísticas. Enchem-me mais o saco que aquele que vai ao banheiro e ali coloca: “fui ao banheiro” ou que almoça todo dia no mesmo lugar e à mesma hora e todos os dias faz o tal “Check in”, colocando no outdoor virtual o vazio de suas vidas.
Mas... E como digo, sempre existe um “Mas...” servem-lhe também de terapia, como já disse; afinal o que tem para falar, além disto? Muitos não têm opinião sobre nada, e talvez seja melhor do que ter opinião sobre tudo, como muitos querem mostrar, e nessa ânsia mostram que tem opinião sobre tudo, mas que ela é superficial, fragmentada e não resiste a uma arguição mais elaborada. Ou seja, opinião sobre tudo, mas sem densidade alguma. Mais ou menos como aqueles que se colocam à disposição para tudo e sempre que precisar, só que nunca têm tempo.
Por outro lado, há as grandes sacadas, tiradas memoráveis, risíveis mas profundas, e os conhecidos, que de meros conhecidos passam a amigos, graças às discussões que ali se geram, os embates que se aprofundam, as “não concordâncias”.
E assim como trato muitas indagações que trago dentro de mim no blog, muita gente exorciza seus monstros em postagens curtas sobre seus sentimentos daquele instante, deixando o fígado com menos bílis.
E o Verbo se faz palavra, pois muitas vezes, é mais fácil o verbo se fazer carne que ser expresso oralmente, afinal os nós na garganta servem para isso: prender as palavras e sentimentos lá dentro, fazendo mal às vísceras, já que não os colocamos pra fora. E tome somatizações e mal estares físicos e mentais. Aliás, na rede também eles se formam, de outro naipe certamente, por má interpretação do que é dito, por melindres e dedos em feridas, colocados mais ou menos conscientemente, pequenas estocadas com palavras digitadas, que jamais serão “expressadas” de outra forma.
Eu, que sou mestre em criar os mais mirabolantes e sangrentos planos de vingança, sem nunca ter coragem de realizá-los, esperando sim que a lei do retorno haja, acredito que falar e escrever é melhor do que concretizá-los; afinal quem é experto em puxar tapetes nunca o diz. E como o texto tem vida própria e já vai tomando outro rumo, conclui-se que está na hora de terminar. Exorcize também um pequeno monstro ai no link dos comentários. – Risos.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Conhece fulano?

O culto à celebridade hoje é tão vulgar que não se restringe apenas àqueles que aparecem nas grandes mídias. Atualmente, em linhas gerais, existem milhares de pessoas que prestam culto àqueles que lhe estão mais próximos, na forma de querer mostrar ter alguma relação com eles. E por que? Porque, pelo cargo que ocupam em seus empregos, na sociedade ou em pequenos círculos, mostram certa projeção de destaque. E ai vem o culto a eles por parte dos demais, na forma do “Eu conheço Fulano!”, “Beltrano é meu amigo!!”, “já trabalhei com Sicrano!!!”, “Mané Abano estava no mesmo bar que eu!!!...” E por ai vai... “Estudei com a vizinha do cunhado, da minha prima segunda, que é meia irmã, da mulher do...” Ai de nós...
Já que não se conhecem as grandes musas midiáticas, transporta-se isso para seus pequenos universos. A “onda” não é nova, vem de longe, daí tantos almoços aos párocos, às nossas pequenas autoridades de cada dia, que vêm já dos tempos em que padres eram recebidos com banquetes pelos coronéis e com a galinhazinha menos magra do quintal dos pobres, engordando a classe eclesiástica, ainda hoje farta em almoços e jantares em casa alheia. Assim como os políticos recebidos com esperanças de favores ou que seus fachos de luz atinjam o anfitrião e o faça também brilhar perante seus próximos.
        Afinal a coisa funciona mais ou menos assim:  “Fulano é legal”, ele é meu amigo, logo sou legal! “Fulano é inteligente...” e por ai vai... Nem sempre a qualidade do homenageado é lá essas coisas, mas a necessidade de estar junto a essas pequenas celebridades, tornam o fã (que nem se percebe como tal)um formador de  opinião, uma pessoa expressiva; na maioria das vezes ele não traz luz, sabedoria alguma, teve apenas a sorte e alguma habilidade (sabe-se Deus qual) para chegar e se manter num cargo que o destaque. Em outros casos foi apenas agraciado com beleza física, ainda mais nesses tempos nebulosos onde bundas, peitos/peitorais têm o dom de se destacarem mais que ideias, ou índoles. E tome coreografias e gestos e roupagens a serem copiadas sem cansar neurônios. Como já disse alguém...
      Quem? Oras, o fulano! Ah,  esse eu conheço!!! 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Gol!


Bem, semana passada não houve texto novo no blog, o que foi um alívio pra quem não suporta ver minhas chamadas nas redes, se bem que estes já devem ter ocultado minhas atualizações, assim como eu oculto as dos futebolistas exagerados:  vão amar seu time bem longe de mim. Que todos os times percam.
            Nunca tive paciência, a não ser é claro de ver no estádio; ia com meu pai ao Morumbi, aí sim era um festa: o passeio, os lanche e até as comemorações onde todos na numerada se confraternizavam num abraço único. Meu tio, além de ir ver ao vivo levava radinho de pilha com fone de ouvido para ouvir a narração sei lá de qual narrador, só sei que não é o famoso chato atual ao qual a torcida já ergueu cartaz que lhe mandava calar a boca.
            Íamos a mais das vezes uniformizados, isto antes de rebelar-me e passar a torcer para outro time. Lembro de meu pai a argumentar uma vez que “todos” os filhos torciam para o time do pai, o que rebati perguntando então porque ele não torcia para o time do vô. Reinou o silêncio e nunca mais se tocou no assunto.
             E era daquilo, a força da profissão de meu pai, à época, mudamos de cidade e estado algumas vezes, e lá vinha a dúvida:  para que time torcer ali? Lógico que ai sim, a mais das vezes, meu irmão, e eu,  torcíamos pra o mesmo time. Opa, menos eu, que os escolhia pela cor da camisa, a que mais gostava, ou por ser o time opositor, quando enchia muito o saco contando as vantagens desse time - melhor que tudo no mundo. Sim, lá pelos 8-9 anos eu já tinha aversão a fanfarronices e exibicionismos desnecessários. Não gosto de gente mais metida que eu!
             Também íamos ver meu pai jogar no campo do time do bairro, onde jogou até trincar 3 costelas, sendo esse o fim de sua vida de artilheiro. Mas antes disto era um dos mais animados; meu tio Lourival, aquele mesmo do radinho de pilha, era então o diretor, logo, o mantenedor do clube, Ponte Preta de Cezídia, que tinha esse nome por conta de uma enorme ponte que atravessa o Rio Ziza, que nasce em Cezídia e serpenteia até cair no mar. Mas essa ponte que dava nome ao time ficava quase na lateral do campo, tornando a paisagem agradabilíssima, juntando o gramado, o rio e a antiga ponte de ferro. Sempre havia espectadores para as partidas, e era sempre agradável, os gritos de vibrações a favor e contra, os xingamentos, tudo divertia.
             No colégio, sempre íamos assistir as copas estudantis; na classe sempre tinha um ou dois jogadores, lembro muito de Jaime, que era artilheiro e excelente colega; ensinou física pra Ana Angélica, vai ver usava tais conhecimentos no campo. Uma vez, no Centro Esportivo, deu-se uma batalha de ovos entre nosso colégio e uma outra escola, ovos eram jogados em nossa arquibancada; em outro jogo, esse feminino, as meninas xingavam uma das adversárias de “bunda de velha”.
             Em época de copa do mundo, o mais legal é a reunião de amigos, e talvez seja essa a única ocasião que eu goste de jogos televisionados, mais pela reunião das pessoas que pelo jogo em si; mas sim, chego a vibrar. De resto, me enche o saco, só não enche mais que os comentários de seus fanáticos, ponto!