quinta-feira, 3 de maio de 2012

Silêncio


Ai de mim, que tenho tanto a dizer
e engulo as palavras com receio do que seu som possa revelar

Ai de mim, que tenho tanto a verbalizar
E engulo as palavras com medo do que os ouvidos alheios possam interpretar

Ai de mim, que tenho tanto a gritar
e engulo as palavras com medo de que não saiam exatas

Ai de mim, que se pudesse
Gritaria ao mundo
As dúvidas que me afligem, os medos que me calam,
As vontades que me torturam

Ai de mim, que não encontro ouvidos sãos
Que se aconcheguem a minha boca, para que com as mãos em concha eu lhes possa sussurrar
Segredos, vontades, sonhos...
Poesias, causos, revelias...
Dúvidas, certezas, rebeldias...
Pesadelos, aflições e zelos...
Ou simplesmente o ruído abafado da respiração de quem cala todos os medos. 


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Erga a taça...

 Bem, vamos a mais um texto sobre vinhos, como nos últimos dias tinha trocado comentários e impressões sobre a bebida extraída das uvas, segundo a Bíblia por Noé ao descer da Arca no Monte Ararat, algumas dessas impressões vou transpor para este texto; espero que ele não fique um porre, pois porre de vinho é um horror.  Aliás , como deve ter sido o porre e a ressaca de Noé, que inclusive  deveria ter espremido as uvas bem antes, afinal 40 dias de chuva, sem um vinhozinho, sem música,  deve ter sido literalmente... Um porre!
 Uma vez disse a Pitonisa de Malbec: ‘cada garrafa de vinho que acaba é como um amor que vai embora.’ E é verdade, mas o vinho, pelo menos nesse caso sai ganhando em relação aos amores. Substituímos as garrafas com maior tranquilidade e o vinho nos dá muito menos dor de cabeça. 
Citações a pitonisa, frases dignas de oráculos, Noé, o texto está a ficar um tanto messiânico, e se assim parece vamos chutar o balde de gelo, que vinho tinto se serve a temperatura ambiente, de Paris no inverno, fique claro.
No Cântico dos Cânticos, livro poético do antigo testamento,  a mulher esperava o amado com vinho de romã: dar-te-ia a beber vinho perfumado, licor de minhas romãs.”* Escrito por Salomão, o sábio rei, que reza a lenda, chegou a possuir 900 concubinas; disse dele que tomava o afrodisíaco vinho de romã para fortalecer-se. Tá aí um vinho que tenho vontade de provar. Não tanto pelo afrodisíaco, mas mesmo pelo sabor, aroma... Ao que se indica, ainda hoje tomado em Israel e por famílias judaicas que o fabricam. Creio que deva tratar-se de algo próximo ao licor, como o vinho do Porto; aliás, caso receba em casa os reis de Inglaterra, reza o protocolo que a única bebida que deve ser oferecida a eles é justamente o vinho do Porto. Inclusive, Portugal recentemente ganhou a batalha pela exclusividade de direito ao nome de “vinho do Porto”, que estadunidenses teimavam em se apropriar, embora o famoso vinho seja produzido apenas naquela cidade lusitana que lhe empresta o nome. Aliás, tive oportunidade de conhecer na casa de Vitor em Lisboa o vinho da ilha da Madeira é menos conhecido, mas tão delicioso quanto. E olhe que o querido amigo não se atém ao vinho da Madeira, aprecia o tinto de boa cepa, e compra seus 300 litros por ano, de uma só vez, direto no produtor, garantindo qualidade.  Vez ou outra, conta que na adega onde os estoca uma ou outra garrafa “estoura” e a sujeira está feita. Mas que se há de fazer, senão abrir uma garrafa intacta para beber, enquanto se limpa o estrago feito pela garrafa que se foi:  afinal, não adianta chorar pelo vinho derramado.
No Piauí, produz-se licor de caju, que se assemelha ao do Porto, licoroso, de intenso vermelho, mas não tão difundido como a cajuína que encantou Caetano. Mas voltemos ao vinho.
Dia desses, enquanto tomava minha taça junto ao teclado, brindando com Wania que tomava seu Malbec do outro lado da cidade,  comentei com outro amigo, Rafael, que descrevia o vinho que tinha em casa, mas não bebia...  A garrafa estava fechada... e aí, já sob os efeitos do tinto, argumento que: “dentro de cada garrafa de vinho mora um espírito angustiado que só é liberado depois que se abre a garrafa, sente-se o cheiro, aprecia-se o vermelho a cair com suavidade e sensualidade na taça, aí então ao primeiro toque do líquido na língua o pequeno ser atordoado desperta, mas só é inteiramente liberto quando a garrafa chega à metade, a alegria dessa libertação faz com que também transbordemos em sorrisos, esperanças, e alegrias... Mantê-las fechadas é crueldade.”  (Sim, transcrito ipsis litteris, portanto perdoe a viagem de um espírito embriagado.)
 Um conhecido, certa vez, querendo arvorar-se conhecedor (afinal, é daqueles que tudo sabe, tudo conhece, e tudo dele é o melhor),  falava em tom alto (embora ainda à primeira taça, o tom era o da arrogância e não do etilismo): “Nossa, esse Proseco está ótimo!” Olhei para garrafa e confirmei a suspeita: Era um Lambrusco! Branco! Mas Lambrusco! Ninguém tem que conhecer, aliás, quem no Brasil conhece de fato sobre vinhos? (e aí me refiro não a sommeliers, que o fazem por obrigação da profissão, mas nós mortais que apenas apreciamos a bebida.) O que é um bom vinho? Aquele que me agrada o paladar, o olfato... ponto! 
* Cântico dos Cânticos, Livro 8, verso 2.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sobre amizades, rompimentos e distâncias.

Sempre digo que algumas pessoas passam por nossas vidas com a única e exclusiva função de nos apresentar a uma terceira, esta, com a qual a amizade realmente se estabelecerá. É fato constatado, já aconteceu uma série de vezes, aquela primeira simplesmente deixa de ter a importância que tinha, e a outra cuja afinidade é muito maior se estabelece como amiga. A pessoa que nos apresenta tem cumprida sua missão em nossa vida, pode partir, não devemos nada um ao outro. E assim seguimos em paz! Um cumprimento cordial em algum evento social e estamos conversados!

       É justo e perfeito, as pessoas se vão, nada é para sempre, inclusive as amizades. Valores compartilhados hoje, amanhã podem não ser mais. Dói quando um afeto sincero construído ao longo de tempo de dedicação se vai? Dói! Mas não há nada a fazer. Até porque em grande parte das vezes a dedicação e amizade foram dedicadas a um personagem, bem desempenhado pelo outro, enquanto a máscara social que aquele usava se adequava ao papel que representava àquele momento. O momento passou, a máscara foi substituída e agora interessa a ele novas amizades. Duro? É... E quem disse que o mundo é justo e que as pessoas são legais? Algumas amizades são apenas longas, mas superficiais. Aquele “Eu conheço desde...” é apenas questão de conhecer no sentido de que conheço nome, profissão, estudamos juntos... Agora, conhecer, conhecer mesmo... Nem vou discorrer, reflita você. 

          Por outro lado, muitas vezes o fato de querermos nos distanciar por um tempo de uma pessoa não significa que não gostemos dela, significa apenas que àquele momento estamos envoltos em nossos próprio afazeres e planos, sem vontade e/ou paciência para ouvi-los, sobretudo os que repetem seus dramas em looping infinito, com rosários tediosos sobre o quanto devem, mas não se desfazem de seus inúmeros cartões de crédito, com suas carências mas que não fazem nada para mudar a vibração que ali está. “Ah, mas você chamou a fulana, eu achei que era só pra mim...”. Ou o “Ah, mas você não me acha mais legal?” Putz... Não dá... Outros às vezes nos cansam pela repetição intermitente do pronome pessoal na primeira pessoa do singular. Ai de nós... Como cansa. E ai se você quer apenas um tempo. Afinal, quem fala mal dos outros o tempo todo só perde pra quem fala de si o tempo todo. Mas não significa que se tenha deixado de gostar da pessoa em sua essência, apenas não se quer participar dessa egotrip. O problema é que muitas vezes essa fase é longa, e você vai conhecer novas pessoas nesse ínterim, talvez com mais e maiores afinidades.

          E antes que o texto fique tão chato quanto, paro por aqui, assim, abruptamente mesmo, afinal as questões estão lançadas e mais seria correr em círculos sobre o tema, talvez até com casos interessantes, mas melhor não correr o risco, afinal o assunto é mesmo... Chato.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Como é bonito o meu umbigo!!!

É estranho o comportamento quanto ao blog; algumas vezes vem uma enorme inspiração e o s textos fluem naturalmente, fartos e caudalosos, de boa cepa, risíveis, trágicos, mal-humorados, e como vêm fácil e em profusão ficam alguns a esperar a semana seguinte para serem publicados, mas em algumas destas quintas, ao relê-los, a graça que pareciam ter, no momento em que o preto ganhou espaço no branco da tela, foi não sei pra onde e o “del” surge e apaga tudo. A luz no fundo da tela o engole, as letrinhas que formam palavras e frases, parágrafos e páginas cheias vão para o lixo... Outros tantos textos vão ao ar, e alguns, pelos comentários que suscitam, pode-se dizer que fazem certo sucesso...

Estranho também as reações a eles, alguns que escrevo sem esperar nada por eles despertam comentários profundos, evocam lembranças, e as colocações sobre eles se sucedem umas a outras, e então, outros dos quais gosto, de escrever e do resultado final, nem uma linha... Claro, ele estava dentro de mim e as lembranças que suscitam só a quem as viveu podem causar impressões. Mas também há os comentários gentis, de amigos que os fazem apenas para me fazer feliz. Assim como há aqueles que a qualquer comentário negativo meu, sobre algo que não concordem, param de comentar, de ler e mesmo de seguir o blog. Claro, a finalidade destes últimos, que saem mesmo do perfil, não é outra senão a de mostrar sua insatisfação mandando esse tipo de recado: “Ah, é? Então não sigo mais teu blog!” Paciência, se deixa de seguir é porque realmente nada ali o enriquecia, nada ali o fazia sorrir, nada ali valia a pena, e então... Por que continuar, não é mesmo? Vá com Deus. E tem a antítese destes, os que sei que seguem, que visitam semanalmente, e às vezes até perguntam em alguma quinta em que o texto utiliza o metrô paulista (ou seja, chega atrasado): “Ué, cadê o texto de hoje?”

E por falar nisso algumas pessoas, de algumas comunidades, de blogs inclusive, mandam recados: siga meu blog que sigo o teu, terei o maior prazer em retribuir... Bem, não quero que sigam porque sigo o seu, até porque só seguirei se tiver algo a ver com o que gosto, acredito, simpatize, ou de alguma forma ache interessante... Já dizia Fernando Pessoa: “Sou rei absoluto da minha simpatia, basta que ela exista para que tenha razão de ser.” E não para ter mais um seguidor.

Os dois últimos textos foram escritos atendendo pedidos, o que os tornam fáceis de escrever, e aliás, o último, escrito a pedido do Rafinha, que conhecia o “causo” de eu contar, por obra e graça do Windows, foi ao ar, faltando dois parágrafos, mas ele, leitor atento, alertou-me, está faltando uma parte, está faltando uma parte, e eu, como mula teimosa que empaca, não, não está (oras, haveria ele de saber mais sobre o caso que vivi?). Bem, tanto insistiu que por fim fui olhar e... Faltava mesmo... fui consertar e fazer o “mea culpa”. Enfim, embora ainda esteja a dever um texto também pedido (da Cláudia sobre coxinhas), hoje não foi dia dele, aliás, ontem, que hoje já é sexta e o texto continua atrasado, e desde lá, uma preguiça inenarrável (embora ainda vá narrar qualquer dia destes sobre este pecado cada vez mais capital, no sentido aí de central, de disseminador). E então lá vim eu escrever sobre o próprio blog, sobre as impressões que ele me causa. Sérgio postou hoje no Facebook que escrever era uma forma de liberdade, de facto, é essa a sensação muitas vezes experimentada, até porque a mais das vezes me expresso melhor pela escrita, tímido que sou, embora a afirmação cause protestos (eu disfarço bem em algumas situações). E talvez seja por isso que escreva para me sentir livre, ou justamente, pelo que acabei de dizer após a frase citada, por me expressar melhor assim. O que não quer dizer que seja real, e nem que me entendam, é apenas a impressão que tenho sobre mim mesmo e sobre o que escrevo. Como Nelson Gonçalves que, gago, uma vez ao repórter que lhe perguntava: “Você tem dificuldade de se expressar?”, respondeu: “eu não. Os outros é que tem dificuldade de me entender.”

quinta-feira, 5 de abril de 2012

E a vaca não foi pro brejo.

É, caímos no conto da Estrada Real que o governo mineiro dizia ter providenciado toda a infra-estrutura necessária. Embora se trate de uma estrada de terra na maior parte do percurso , isto posto, resolvemos seguir por ela; afinal já conhecíamos e apreciávamos o trecho de pedra entre São João D'el Rey (sim, sei que a grafia é Rei, mas se usa o arcaico no Del, porque não usar o charme do Rey?) a Tiradentes, mas estávamos em Outro Preto já e íamos dali à Diamantina. Pois bem, que seja pela Estrada Real, que de estrada de terra nunca tive medo.
Pois bem, saímos com pesar de Ouro Preto, onde entre igrejas belíssimas, museus interessantíssimos e arquitetura ímpar, lembrava de “Luar sobre Parador*” e Raul Julia e Sônia Braga a contracenar pela praça Tiradentes. Deixei com saudades a mocinha que atendia a pousada que em seus 13, 14 anos tinha um encanto brejeiro que nunca esqueci. Ao pedir emprestado uma faca, ela disse: “_Ah, tem um canivete na minha mochila”, e me passou um enorme canivete... E ai, eu lhe respondi: “Mas o que faz uma mocinha como você levar um canivete deste tamanho na bolsa?” E ela, com seu sotaque delicioso e jeitinho matreiro: “Ah, pra quando eu  vou na roça, cascar uma laranja, partir uma melancia...” Não há outra palavra: Encantadora!!!
Mas enfim, pegamos a Estrada Real, fomos por Mariana e de lá rumo a Diamantina. O problema tão somente se deu pela demora, afinal a pavimentação não era a imaginada, nem havia postos ou pousadas e redes de infraestrutura, conforme era prometido nos folhetos, e então... Uma hora, resolvemos sair dela, afinal a idéia era pernoitar no Serro, uma pequenina cidade a caminho de Diamantina,  e passar ali um ou dois dias. Aliás, olhe que vale muito a pena, não apenas por ter o melhor doce de leite que já comi, mas pelas igrejas de séculos passados, pela casa dos Otonis que é um pedaço de paraíso transformado em museu, a casa do Barão do Serro, a cordialidade, enfim... Visite o Serro.
                Pois muito bem, voltando ao barro antes de Serro: horas e horas de estrada de terra e resolvemos: vamos voltar ao asfalto? Vamos... Mas como sair dali? Nada conjuminava com nada, cansaço, pó, pó, cansaço, perguntamos em uma cidade lindinha, cujo nome não chegou ao asfalto, mas, onde finalmente pudemos lanchar, como voltar à rodovia. Era complicado como o quê, e decidimos seguir pela instrução do mapa, tomamos um desvio da Estrada Real por outra estrada de terra que nos prometia chegar à BR em algumas horas, e subimos a Serra do Cipó.

Pois é... Se às rodovias privatizadas pelo governo tucano em São Paulo faltam placas, imagine na zona rural mineira, em uma via de terra onde o pó chega a dois dedos... Eba, aventura!!! E nessas, entramos em duas fazendas só pra fazer o retorno daquilo que era propriedade privada e voltar à estrada... De repente um caminhão à frente, e só pensei: agora é que vai ter pó... Melhor manter distância... Mas... Ele parou... Vamos em frente... Ao passar pelo caminhão, o motorista nos para para perguntar como sair daquele fim de mundo... Estava mais perdido que nós...
Logo à frente, vacas deitadas que à primeira buzina levantam-se malemolentes e seguimos. Mais uma hora na velocidade do pó e diante de um mataburro**, onde vários bois e vacas ali, tendo impedida sua passagem, faziam ponto e tomavam a fresca. Novas buzinadas e nada, meu amigo e co-piloto põe a cabeça pra fora pela janela aberta, sacode o boné e grita: “Xôoooooo Vaaaaacaaaa!!!! A que estava justamente atravessada à nossa frente, em pé, olhando para a paisagem que se desenhava à frente do mata-burro, vira solenemente a cabeça, encara-lhe a face e, olhando-o dentro do olho, com profundidade abissal, ergue o rabo e caga! Sim, caga majestosamente, olhando fundo nos olhos dele, como se estivesse a dizer: "tô cagando procê!". Meu amigo olha pra mim e começa a enrubescer a mais não poder. Explodimos enfim em gargalhadas incomensuráveis, incontroláveis, que me tomam até hoje ao relembrar a cena. Lógico, depois espantamos a cagona e prosseguimos viagem, mas foi um dos pontos altos da aventura na Serra do Cipó... Que merda!

       * Filme Estadunidense de Paul Mozursky de 1988 com locações em Ouro Preto.
 
       ** Espécie de ponte sobre uma vala, feita de tábuas, ferro ou concreto com  vãos espaçados, para evitar a passagem de animais e permitindo a passagem de veículos.


quarta-feira, 21 de março de 2012

Vamos almoçar?

           O texto da semana veio da sugestão da Alini, que me enviou por mensagem, primeira vez que me pedem para escrever sobre um assunto. Bem, fiquei orgulhoso, claro, e espero corresponder com um texto interessante, o que nem sempre é fácil de conseguir.
            Mas, vamos lá, já dizia Alini na mensagem: “Sabe quando as pessoas não querem ir com alguém mas não acha um jeito de falar ou fugir e fica tentando enrolar ou empurrar a pessoa pra ir com outras pessoas e no fim acaba chamando a pessoa por obrigação ou pra evitar maiores constrangimentos”. Bem...

            Ah... A hora do almoço... Deveria ser sagrada... Deveria ser um momento agradável de comunhão, de refazimento, mas... Ao mais das vezes não é... Muitas vezes é momento até de irritação, tanto faz seja na copa da empresa ou em restaurante próximo. Às vezes, à hora de sair, você quer ficar só, comer sua refeição em paz, pensar na morte da bezerra ou em criação de galinhas, fugir para longe desse insensato mundo, ainda que apenas em pensamento, e levanta e pensa... Ah. Acho que vou no vegetariano, ou... Ah, hoje vou comer  só um lanche... E... Eis que “de repente, não mais que de repente, do riso faz-se o pranto”, como diria Vinicíus, lá vem... A pessoa mais inoportuna, aquela que sempre vai te contar a última sobre o fulano, sobre o cicrano, sobre o que o chefe disse sobre alguém, sobre o que alguém fez, ou falar de trabalho o tempo todo, e sorrindo (incrível como são sorridentes) vai te perguntar: “Vai almoçar? Vai onde?” E você meio indeciso, vai responder: “Vou...” Pronto, lascou! Como diz minha mãe: "danou-se nêga do doce!” Ela vai junto, e se prepare, ela vai falar de trabalho o tempo todo. É por isso que já tenho respostas prontos do tipo; vou ao banco, se der depois eu como alguma coisa. Vale correio, vale fazer troca em shopping, desde que este não seja muito perto, senão... Lá tem praça de alimentação e ai... a estratégia já era...

            Também já fui direto muitas vezes: Só vou se você não falar em trabalho, nem em ninguém do trabalho. Promessa feita é promessa quebrada. E de repente lá vem o assunto. Uma vez falei: “Eu não precisava saber disto, eu estava tão bem!” Constrangimento à mesa... Mas se alguém vem me contar coisas desagradáveis a mesa, porque não posso constrangê-la? O ponto máximo que cheguei foi: “Ok, se você falar de trabalho, você paga meu almoço, se falar duas vezes paga o almoço e a sobremesa, se falar de novo paga o café depois lá no café tal...” Nesse dia nada de ouvir sobre o trabalho! Yesss!!!!

            E se o almoço é na copa? Tem gente capaz de vir te chamar para uma questão de trabalho... Ou vem tirar dúvida, ou fica conversando sobre como deveria ser tal ou qual procedimento, às vezes em graves e agudos bem acima dos decibéis normais. Uma vez reclamei do assunto e teve gente que lá estava, e nem era horário de almoço deste, que apenas discutia ocupando um lugar vago. E se levantou pisando forte...

            E se você chega e tem justamente quem você não quer encontrar? Dr. Smith e Hardy a hiena me emprestem seus bordões: “Oh céus, oh, dia, oh dor...” Há algumas saídas, comer o mais depressa possível, deixar a marmita no microondas e sair para lavar as mãos e esquecer de voltar... Sempre te interrompem no caminho, não é mesmo? Tomar um café e sair, colocando a marmita na geladeira (nesse caso, só para quem não a colocou antes). Conheço gente que esquenta e diz: "Dá licença vou comer na minha sala." O problema é que é a mesma pessoa que sempre quer fazer festinhas e comemorações... tem algo errado aí, ou só eu que acho?

            Tem gente que estranhamente quando vai almoçar com chefias, vai no restaurante mais caro, depois vai tomar um café expresso, torta, etc... E quando vai com você nunca tem dinheiro... estranho, muito estranho...

            Tem aqueles que você dá de cara quando entra num restaurante e chama pra sentar com eles, ai, não adianta, não é isca, é tarrafa! Ou como eu você diz que hoje não será uma boa companhia, ou como eu muitas vezes também o faço, senta, come sem alegria e oferece o sacrifício em desagravo aos pecados cometidos pela humanidade. “Mea culpa, mea culpa, minha tão grande culpa, minha máxima culpa.”

            Ah, mas nem tudo é o vale de lágrimas, tem gente legal com quem é bom almoçar, e que em geral compartilha o sentimento de não querer almoçar com as figuras carimbadas. Geralmente são aqueles com quem se faz happy hours, com quem se dá risada, e que você adiciona em suas redes sociais.

            Bem, o texto poderia ir bem adiante, e talvez o assunto seja retomado, ou como acontece a mais das vezes, lembre coisas que deveria ter mencionado e na hora não me veio... Mas... Já é hora do almoço, lá vou eu... Que Deus tenha piedade! E pra você: Bom apetite!


Foto: Arundo Nunes Terceiro - Almoço em casa

quinta-feira, 15 de março de 2012

Hoje é dia de pastel

            Dia destes, Humberto Werneck discorria em sua coluna semanal no jornal: O Estado de São Paulo, sim, aquele mesmo veículo que se diz perseguido pela censura, e, que demitiu a articulista Maria Rita Khel pelo mesmo motivo, mas o que interessa neste momento é a crônica de Werneck, que naquele domingo descrevia uma viagem pelas Gerais, e como é notório, Minas sempre rende prosas, causos e versos. Enfim, narrava uma viagem de Fernando Sabino e Otto Lara Rezende onde este último, fanático por pastéis amanhecidos. Ao pararem em uma tasca à beira da estrada Otto olha de pronto para a pequena estufa em cima do balcão e dispara ao proprietário: “Esses pasteis são de hoje”? Aquele inflando o ego de orgulho responde de chofre: Claro, são sim, estão frescos, crocantes e quentinhos, acabei de frita-los. Ao que o Escritor torcendo o nariz diz: “Pois então não quero, eu gosto é de pastel amanhecido!”
            Bem, Werneck sabia mais do fato que eu, que só conheci através de sua crônica e mnemonicamente repito o causo, logo, pode haver discrepâncias e pontos a mais, a menos... Mas deu-me o mote desta semana... Pastéis, sim, pastéis! Não os portugueses, de Belém, cuja dúvida paira sobre quais são os melhores, os da Torre que lhe emprestam a alcunha, como afirma o Vitor, ou os da Mariquinha, como afirma o José da Costa... Mas os pastéis deste lado mesmo do atlântico.

            Sempre se fala do pastel do japonês, embora os pastéis sejam invenção chinesa, e segundo uma amiga que esteve nas terras do Sol nascente, lá não se acha pastéis. Os chineses também não são como os nossos, afinal se aqui, em se plantando tudo cresce e floresce, com as receitas... Bem, se modificam, adaptam-se aprimoram-se. E... Voilá, temos o nosso pastel... Bem diferente das guiozas. Em São Paulo o mais famoso é o pastel de feira, embora em muitas barracas a massa, aliás os próprios pastéis já sejam comprados de segundos. Depois vem o do Mercadão, onde o pastel de bacalhau é o mais procurado. A mais das vezes costumo comprar a massa e fazê-los em casa, daí uso queijo branco, ou quando de carne, faço como os de D. Lourdes, vizinha das Gerais, que, na Coronel Fabriciano daqueles saudosos anos 1970, onde eu adorava brincar de carrinho nos montes de areia fazendo tuneis e estradinhas, ela passava horas no cilindro para deixar a massa finíssima, pois segundo ela quanto mais fininha mais gostosa, e os recheava com carne moída, cebola, coentro e batatinha cozida, hoje penso que a batatinha era também para fazer render a carne, uma vez que era viúva e mãe de muitos filhos. Até hoje se vou fazê-los as acrescento, saudoso de seu tempero. Faço as mais das vezes já em quantidade exagerada, para que sobrem e que coma no outro dia no café da manhã,. Geralmente os faço na véspera mesmo de vir a Neide e sua faxina providencial, que eliminará as emanações de óleo da cozinha. Antigamente eram apenas três sabores os das feiras, barracas e lanchonetes, hoje tem de tudo... Mas se como fora prefiro sempre o de palmito à carne e ao queijo.

            Os pastéis da Aparecida, de massa feita em casa, fritos com óleo novinho... Hummm... Coisas de dias de festa por lá. Aliás Zuleica, sua irmã, que antes de partir para outro plano, já em dias de definhamento neste planeta, em seu último natal, já ruinzinha e sem apetites, comeu os da Henriqueta, quatro naquele dia, deixando-nos surpresos. Devia lembrar dos pastéis de sua mãe, D. Ana, que não conheci, e dos pastéis só conheci a fama. Mas Zuzu também amava os pães de queijo como boa mineira, e já internada de onde só saiu para o repouso eterno, do corpo já que sua memória está entre nós e seu espírito aguardando novas vestes, era apenas um fio de voz, um restinho de ânimo, mas àquele dia, ao ser perguntada por Vera se queria que buscasse algo para ela, respondeu buscando um punhado de ânimo: “Um pão de queijo!”

quinta-feira, 1 de março de 2012

Não jogo fora no lixo, não jogo fora no liiiixo!!!

            Na infância colecionava figurinhas em álbuns, personagens Disney, jogadores das seleções, e por aí ia... Marcas famosas de refrigerantes lançavam bingos com cartelas com cara de jogadores que iam às tampinhas enfeitar. Aliás, também colecionei tampinhas. Bem, vieram os cartões postais, ainda tenho a maioria deles, começaram com os do Japão que ganhei de  meu tio Lourival.

            Depois vieram selos, que me acompanharam até a idade adulta, e quando deixei a casa de minha mãe lá ficaram, até que a concubina de meu irmão, se achando no direito, e por omissão materna, jogou fora os cinco álbuns, o que só vim saber tempos depois. Quando de nada adiantava saber. E muitos outros, quase que do Brasil inteiro. Lugares que vim a conhecer depois, outros que ainda pretendo visitar e tantos, que nunca poderei pisar.

            Com o avanço tecnológico as fichas caíram. Sim, caíram em desuso. E vieram os cartões telefônicos, antes que chegasse o advento do celular e a privatização das teles. Pois depois disto passou-se a não se investir em telefonia pública. E antes dos cartões serem abandonados por falta de uso, as sessões de telecartofilia foram fechadas pelas empresas que compraram as companhias estaduais que as mantinham e disputavam entre si quem editava os mais belos. Eram séries às dúzias, Museus - que acabou em várias sub-séries com reproduções de acervos de muitos museus brasileiros, flores -  que também se subdividiu em flores do cerrado, da mata atlântica e por ai vai... Fontes, e tantas e tantas outras belezas. Depois, viraram apenas propaganda das próprias teles e perdeu-se o interesse.

            Décio tem dúzias de gavetas repletas de CDs de música, é o que mais compra, coleciona, sabe onde está cada um, pois às centenas é fácil perder-se. Segundo ele próprio, ele é bem miserável e só gasta com CDs. Fiquei a pensar se havia algo que eu gostasse tanto... Achei que não tinha, até que um dia resolvi fazer um censo das plantas que tinha em casa, o número era bem maior do que eu pensava. A mania de recolher os vasos que se jogam fora, com as plantas ainda vivas, às vezes só precisando de um pouco de água, as faz aumentar, e embora esteja em processo de redução, doando vasos com espécies repetidas, mudas e fazendo podas mais agressivas, continuam bastante numerosas.

            Bem, essa característica minha e de tantos, de juntar coisas, é descrita na  homeopatia como própria dos indivíduos Sulfurinos (que tem por similimum:  Sulphur): “colecionador, na bagunça de sua mesa acha o papel que quiser, perdido em pensamentos intelectuais ou espirituais, contraditoriamente avarento, inclinação mental erudita ou filosófica, é o “filósofo maltrapilho”. Talvez seja por isso essa verve de “juntador”. Enquanto outros simílima trazem como características o desapego a objetos e a extrema organização – de pessoas que dão ótimas empregadas. Mas que provavelmente nunca colecionarão nada.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A chegada da velhice


Primeiro são uns poucos fios brancos nos cabelos, um aqui, outro acolá, leva-se na graça, acha-se bonito, até porque no dizer de uma amiga, não são nada demais, “fod* é mesmo o primeiro pentelho branco, esse sim te dá direito a três dias de depressão sem sair de casa...” Aguardemos... Mas ai, vem alguém, uma tia inconveniente por exemplo, e de graça arranca o fio. Logo alguém emenda: “_Ahhh mas se alguém arranca um nascem três.” Seja pela crendice, seja pela idade que chega imperceptível, eles aumentam, gradativamente. No inicio ficam bonitos, caem bem, dão um charme, e na foto do passaporte dão aquele ar respeitável, como se cabelo (branco ou em forma de bigode) fosse sinônimo de respeito. Às vezes tentamos escondê-los, e vamos às tinturas, sem receio de repetirmos o papel de Dirk Bogarde em Morte em Veneza. Outros muitos optam pelo boné, e aos quase sessenta os usem virados para trás como se fossem um jovem skatista. E quem nem sabe o que é ciático, que dirá dor... A morte é a mesma, só não tem o Mediterrâneo de fundo. Pelo menos livra-se da cena trágica de, ao morrer, o último suor escorrer pelo rosto com a cor da tinta que tentava ocultar a idade.

Mas, a vida continua, vamos a ela... Uma bela tarde está concentrado no trabalho e começa a perceber o quanto tem errado, palavras, números, e resolve marcar um oftalmologista... Suuuuurpresa! Não 0,25, não meio grau, mas uma bela e grande pontuação... Sim, a vista cansou, talvez o brilho dos olhos já tivesse ido na frente e não percebemos, afinal eles estão mesmo embaçados... E ai um dia ao levantar... Dor nas costas? No joelho? Na coxa? Friagem? Mau jeito? Não, é ela com seus passos de alma que mostra que chegou. Como diz a mesma amiga já citada: “depois dos quarenta, no dia que você acorda sem dor, pensa logo: Morri!” Mas vamos indo, pelo menos a dor circula, cada dia é num lugar, para não ficar monótono, claro!

E à medida em que os anos passam, as saudades de tempos passados vão ficando mais frequentes, é a grapette que não existe mais, o bolo de laranja que a tia fazia, o sorvete em tal lugar, e mesmo espécies de fruta que desapareceram. Essa nostalgia também é na verdade... saudades do que éramos àquele tempo, mais agéis, mais alegres, mais despreocupados.

É comum em uma festa mais... “elaborada” cruzar com senhoras muito, muito entradas em anos e vê-las sem uma ruga, nenhuma ruga. Nem de expressão. E ainda dão-se graças aos céus quando a tóxina butolinica é o balsámo da fonte da juventude, pois o efeito bisturi costuma ser pior. Aquela impressão de que se ela sorrir, faz xixi...

Conheço gente que evita envelhecer evitando o assunto. Falou-se em idade, envelhecimento, ou qualquer pormenor que os lembre, fecham a cara, fecham-se em copas. Será senilidade ou medo?

Homens e mulheres tentam aprisionar a juventude mantendo relações, ao mais vezes extra-conjugais com parceiros mais jovens. Como vampiros tentam sugar-lhes a juventude, como se pudessem absorver a pele tenra, o viço no olhar. Não a tôa vampiros exercem há tempos fascínio, na literatura, no cinema, salvo raras excessões são representados como belos, jovens, sensuais.

Bem enquanto escrevia envelheci, células morreram, fios embranqueceram. É inevital e a melhor maneira de envelhecer é... Não querer fugir da própria idade.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Alegres tristezas


             A tristeza não tem razão, ela chega e se instala simples assim. 
 
            Tem coisas que a deflagram, lógico. Um chefe escroto, uma falso amigo, uma traição de qualquer nível, trabalhos enfadonhos, leituras feitas por obrigação onde o autor é prolixo em texto chato e demasiadamente técnico... Se bem que há quem goste dos textos técnicos, como há os que apreciem em romances apenas a técnica e não a sensibilidade mostrada em nuances, aquela gama de sabores que o bom autor traz e que é capaz de nos entristecer também, mas de forma diferente, aquela tristezinha gostosa chamada nostalgia. Que acontece até com e sobre lugares que não conhecemos, coisas que não vimos.

            A tristeza chega no crepúsculo, tarde da noite, ou no alvorecer. Ela não se faz de rogada, íntima que é, não bate à porta. Chega! Pronto!

            Em geral, dura pouco, se bem que há os que se apegam a ela, e erguem-lhe um altar, fazendo com que fique ali, e se ela quer ir embora, ajoelham, rogam, imploram para que fique, pelo menos um pouquinho mais. E ela vaidosa, desfaz malas e deita-se ao lado de seu fiel servidor. E ai ele cultivando-a se entrega, nada está bem, nada presta, não vou para este ou aquele compromisso pois não estou bem. Ah, adoraria, mas hoje não. Ah, gostaria muito, mas hoje não vai dar. Ah, sabe o que é, já tenho compromisso... e tem mesmo... O de cultuar a donzela de olhos fundos. E ela sentindo-se tão amada envolve cada vez seu servo, os braços longos como que se transformam em tentáculos e vão deslizando sutilmente e prendendo o incauto como trepadeiras que se agarram a árvores

            Às vezes você a curte por um dia, ou dois, e nesse dia, pode ter certeza, vai aparecer gente para fazer você ficar ainda mais triste. Do mesmo jeito que urubus são atraídos por carniça, existe gente que sente cheiro de tristeza, poder-se-ia dizer inclusive que alguns são viciados nele, e estão sempre rondado, em círculos vão se aproximando, se chegando, e cada vez mais perto querem saber o porquê, como, onde, como e o que aconteceu para te deixar triste. Afinal a qualquer momento vão poder evocar essas lembranças quando estiveres bem, no intuito de trazer a tristeza de volta. É a única forma que eles têm de se sentir felizes, é sentindo que alguém não está bem.
  
            O poema famoso do Neruda diz: “Estou triste, porém, sempre estou triste, venho de seus braços, para onde vou, não sei...” Que tristeza mais bela, a tristeza que faz criar poemas, imagens, músicas. O filme mais triste que vi foi “Dançando no escuro.” E alguns não gostaram exatamente por ser triste. Oras, de que serve um filme se não provoca sentimentos, se não transmite conhecimento, seja ele qual for. Em outro poema famoso, esse de Vinícius, lemos: “Tristeza não tem fim. Felicidade sim.” Os dois poemas foram musicados, fizeram sucesso enquanto música, ou seja, não sou apenas eu a cultuar vez em quando a tristeza. Adoniran Barbosa já a saudava com seu bom dia e a convidava a sentar-se e beber de seu copo. Vejam só quantas coisas belas a tristeza propicia. Tão belas que fazem da tristeza pura alegria. A alegria de ver que um sentimento dito negativo suscita a arte a apoderar-se dela e transformá-la em beleza!


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Morrer e matar de amor...


            Ontem morreu o cantor Wando, cantor romântico que embalou romances, “pegações” e  outras nuances, fundo musical há décadas de enlaces sexuais, afetivos ou não. Cantando ora em prosa, ora em verso, realidades como em Moça: “Moça, sei que já não és pura, teu passado é tão forte, pode até machucar...”, em uma época que a virgindade ainda era condição sine qua non para que uma moça fosse considerada de respeito. Depois o cantor já não tão romântico passou a colecionar calçolas, calcinhas e tangas atiradas por fãs em seus shows. Estimulando que o fizessem...
            O público romântico é grande, haja visto a imensa quantidade de comentários, lamentos e homenagens nas redes sociais da internet. Também o sol não há como negar. Mas... Vou mais fundo, mais que o romantismo... adoro o “Passional”, aquela passionalidade intermitente que narra o fim dos casos de amor.

            Em Bilhete, de Ivan Lins e Victor Martins, interpretada por Fafá de Belém (não a dos pastéis de Belém, mas a cantora da capital paraense), há alguns dos versos mais fortes, a meu olhar pelo menos, acerca dos fins de relacionamento. “Eu limpei minha vida. Te tirei do meu corpo. Te tirei das entranhas. Fiz um tipo de aborto. E por fim nosso caso acabou, acabou, está morto.”  Difícil uma comparação mais forte... É a imagem de ressentimento e resolução. E para que não restem dúvidas do fim, prossegue: “Jogue a cópia da chave, por debaixo da porta, que é pra não ter motivos de pensar numa volta. Fique junto dos seus, boa sorte. Adeus!”

            De cara me traz a lembrança de falecidos relacionamentos, por exemplo, a de uma amiga cujo marido achou que precisava de um tempo, mesmo depois de um tempo longe, forçado pelo trabalho. Ela não teve dúvidas: “Como a casa é minha, você tem duas alternativas: ou você arruma suas coisas, ou... eu arrumo suas coisas, qual você escolhe?”.

            Muitas músicas como esta evocam imagens, caso de Espumas ao vento, de Accioly Neto, interpretada por Fagner, Ricky Vallen e estupendamente por Elza Soares. Nessa composição o autor pernambucano “chora” as mágoas de um amor que morre, tentando com o pranto e dor oferecidos, como se fosse uma dose de epinefrina, ressuscitar o moribundo amor: “Sei que errei, estou aqui pra te pedir perdão. Cabeça doida, coração na mão. Desejo pegando fogo. Sem saber direito aonde ir e o que fazer.Eu não encontro uma palavra para te dizer. Mas se eu fosse você, eu voltava pra mim de novo.” No filme Lisbela e o prisioneiro, na cena que vai à tela com a música ao fundo, a epinefrina não surte efeito, o amor já está morto, substituído, e foi unilateral. A mulher abandonada chora, limpa lágrimas, retoca pintura e vai em busca de vingança.
            Um casal conhecido, ao separar-se depois de poucos anos de convívio, onde um não queria a separação, no caso o marido, executivo bem posicionado, saiu-se com a vingança de... dividir os presentes de casamento, por pura picuinha, e levou metade das panelas. Deve ter jogado no primeiro lixo à frente, mas vingou-se.
            A Passionalidade, permitida às mulheres com choros e ranger de dentes, ganha aspecto masculino na vingança, agora um pouco mais evoluído, passa pelo financeiro. Outrora era fatal, lavar a honra com sangue era uso corrente, principalmente porque nos idos anos da história adultério era crime. Podia mandar pra cadeia. Mas os senhores de suas esposas não perdoavam, e  apenas para ficar nos casos famosos, Lindomar Castilho (que era cantor de músicas apaixonadas, passionais... Como: Nós somos dois sem vergonhas A vida imita a arte?)  e Van Doca Street foram notórios casos de desfecho funesto. Helena de Grammont e Angela Diniz foram para as covas, mortas supostamente por amor. Vieram campanhas nacionais “Quem ama não mata” e outras por condenações aos assassinos em uma época que Maria da Penha não era lei e a mulher era ainda mais desamparada.
            Mas a passionalidade musical nem sempre é tão perversa, e exceptuando Amado Batista em  Não faça jamais como eu fiz, não me recordo de outro caso acabado em morte. “Se acaso lhe acontecer de amar uma mulher da vida, você nunca deve esconder, não faça jamais como eu fiz. Matar uma pobre infeliz pelo amor que ela foi vender.” Este amor infeliz é mais comum às literaturas e caiu em desuso no cinema.
            Talvez a canção mais clássica sobre separações seja Trocando em Miúdos de Chico Buarque de Hollanda, que aprecio em todas as versões, do próprio Chico à Zezé Mota. Nela o casal faz a partilha dos bens e arremata ao dizer que o outro “Pode guardar as sobras de tudo que chamam lar.” E  no desfecho uma praga: “Aceite uma ajuda do seu futuro amor, pro aluguel.” Afinal, nos rompimentos sempre se deseja que o outro lembre que sua própria vida era melhor com aquele a quem deixa. Mas Chico deixa claro o fim com o verso: “Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer. Aquela aliança você pode empenhar ou derreter.” E... lá me vem a memória mais um “causo”, de uma amiga que após alguns anos do término do relacionamento, já passado luto, foi empenhar a aliança, e ao ouvir da caixa: “Nossa, mas tão bonita, tão diferente, a senhora tem certeza de que quer mesmo empenhar?” respondeu a sábia amiga: “Minha filha, o marido valia muito menos, e eu já larguei. Passa esse dinheiro pra cá!”
              Renato Russo, entre muitos, prova que o coração roqueiro também sofre, em versos como: “Estamos medindo forças desiguais, qualquer um pode ver, só terminou pra você” (Os barcos).   E, aproveitando a deixa do verbo terminar, fico por aqui; se fosse uma tese ou dissertação iria fazer uma análise comparativa e discorrer sobre muitos outros casos e causos de amor e canções, mas como não se trata de... ficamos aqui, quem sabe retome o assunto em outro momento. Outras músicas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pauta: A síndrome da reunião

                Uma amiga carente, daquelas que ainda não resolveu os problemas de déficit de atenção da primeira infância, dizia sempre: “Reunião boa é aquela em que você sai dela com outras quatro ou cinco reuniões marcadas!” Para mim, que nunca tive a síndrome da reunião, ou a de palco, era a morte. Nada contra reuniões produtivas, mas o problema é que a maioria delas... não são!

                Uma vez ousei dizer que precisávamos ser mais pontuais e objetivos, ao invés de ficar nos auto-elogiando, dizendo como éramos lindos e maravilhosos; depois soube que haviam dito que eu era muito duro no falar.

                Bem, os adeptos de tais ajuntamento de gente vão me acusar de disfemismo, com certeza, mas o que se nota é: as pessoas não tem o menor respeito com o tempo dos outros. E tome discurso incoerente do tipo: “Isto está resolvido”, e lá vamos nós falar dele novamente daqui a cinco minutos... na mesma reunião! E tome-lhe o mesmo assunto e tatibitate... E você, com licença da enxurrada de gerúndios que o  assunto merece, vai cansando, bocejando, afundando na cadeira, e o saco enchendo, às vezes a bexiga também, e... quando finalmente o orador chega ao ponto final, você ajeita-se na cadeira e respira... ele começa tudo outra vez! Ai de mim... Deve ser o tipo de pessoa pela qual as telenovelas globais fazem flashback no meio e no fim do capítulo, do que ocorreu na primeira parte daquele mesmo dia. Devem ficar felizes da vida. Quem sabe até tenham orgasmos... Multiplos...

                Será medo de não se fazerem compreendidos? Mas raios, se estão entre adultos, aptos e em plena faculdade... Ora pois...

                Ou é a síndrome do palco? A necessidade de mostrar sua oratória, seu conhecimento de tal ou qual assunto? Ou de ser visto. Lembro de Isoldina, uma colega que nas reuniões sempre tinha o que comentar, o que dizer a respeito de tudo, num tom mais alto que os demais. Um belo dia estivemos em um aniversário de uma amiga comum, havia caraoquê (nem vou entrar no mérito da infeliz idéia que não deixou mais que fluíssem conversas), mas quem foi a primeira a pegar o microfone? A própria Isoldina. E canta, e canta, e grita, e berra, e urra, e muge... A tia da aniversariante consegue a custo tomar-lhe o microfone e começa a cantar enquanto Isoldina vai sentar-se em uma das mesas. E na metade da música... levanta e vai cantar junto com a tia, dividindo com ela o microfone! Até que a tia desiste e entrega novamente o microfone a Isoldina, que canta, que berra, que grita... É a mesma síndrome (se não for a mesma pessoa).

                Concluo daí que andam juntas: a síndrome da reunião e a síndrome do palco. A mais das vezes, muita gente com coisas a falar acaba por conter-se e desistir. Recentemente vi uma pessoa pedir a palavra por quatro vezes em uma reunião, sempre sendo dada a palavra a outro, que era interrompido por um terceiro e por um quarto que se alternavam. Nunca soube a colocação ou dúvida a ser explicitada por aquele companheiro!

                Sim, tem gente que mete o bedelho em toda e qualquer colocação que tenha a fazer, depois usa seu próprio tempo, e... pede licença e sai antes da reunião acabar por ter outro compromisso.

                Também tem gente que preside reuniões e usa da palavra mais do que devia. Por seu cargo, por sua necessidade de falar. E tome piadinha, e tome repetição, a anáfora toma conta, pode deixar...
                E ai de quem tem compromisso posterior, ai de quem ainda vai pegar metrô, ônibus ou o raio que a parta para chegar em casa, no trabalho ou simplesmente a sair do lugar da reunião que pode ser remoto, sobretudo quando se tem pólos empresariais, estudantis ou o que quer que seja em diferentes locais. Ou seja: falta de respeito com o tempo do outro.

                Para que uma reunião seja produtiva ela deve ser pontual, dinâmica, sem diálogos ou discussões fora do proposto. Sem que os carentes e necessitados de palco a tornem um catalogo de elucubrações a respeito do que já foi dito. Bem, e antes que o texto se torne o mesmo imbróglio de reuniões, querendo chamar a atenção mais do que devia, encerro por aqui. Comentários abaixo ou se inscrevam pra pauta na próxima reunião!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

São Paulo 458 anos

São Paulo 458 anos

Hoje aniversário da cidade de São Paulo.

Visto preto.

Visto luto.

                Luto por todas as àrvores sãs que cortam sem motivo, ou porque as folhas caem na calçada e dá trabalho, ou porque a paisagista da prefeitura não gosta, ou para fazer mais uma vaga de estacionamento.

                Luto pelos que estacionam carros na calçada e acham que é correto, pelos jovens que ocupam as vagas de idosos nos estacionamentos de supermercados, shoppings e afins; pelos estacionamentos e pontos comerciais que fazem da calçada extensão de seus domínios.

                Luto pelos rios e corregos da cidade, que não estão morrendo, estão mortos.

                Luto pelas pessoas que usam mochilas nas costas nos corredores de metrôs e ônibus lotados e ainda assim se acreditam educados. O mesmo para as moçoilas com bolsas enormes  que enfiam à cara das pessoas sem se importar com quem está ao lado. Aliás, luto pelo transporte público sucateado, porque pobre não tem vez, melhor abrir uma nova avenida para mais carros que um corredor de ônibus, e assim melhor o trânsito, não o transporte, luto pelo descaso com a população.

                Luto pela vergonhosa câmara de vereadores; luto por quem vota em celebridades, sejam artísticas, instantâneas ou religiosas. Luto por quem cai em artimanhas políticas que apresentam candidatos antigos como se fossem novos, e pior ainda, como tábua de salvação.

                Luto pelas faixas táteis do terminal de ônibus da estação Santa Cruz do metrô, onde  a faixa de piso táctil (para cegos) leva a uma coluna, sai de trás daquela e leva à... Outra coluna.

                Luto pela falta de espaços onde o cidadão possa se apropriar deles, luto pela falta de parques, luto pela progressão escolar, que desmoraliza e desincentiva ainda mais os professores.

               Luto pela arrogância e preconceito.

               Luto pelos engarrafamentos por falta de transporte público de qualidade.

          Luto pelo metrô que segue por bairros nobres e menos populosos, mas que dão maior visibilidade que bairros populosos como o Jardim Miriam que está há poucos quilômetros do Jabaquara o que facilitaria sua inclusão no transporte público de maior qualidade.

                Luto pelas salas de cinema fechadas.

          Luto pela falta de ciclovias, pela falta de banheiros públicos decentes que evitariam a fedentina no centro.

                Luto por um teatro municipal que só é “municipal” no nome já que não serve ao povo.

                Luto pela maioria das pessoas não se importar.

                Luto por jornais que fazem campanha contra censura e demitem pela mesma causa.

               Luto pela violência, luto por policiais que fardados passeiam pela Av. Paulista e peitam e dão ombradas em transeuntes por serem “a lei”. E esquecem que por isso mesmo deviam dar exemplo.
                 
                Luto pela falta de cordialidade, de educação.

                Que o luto em sinal de pesar tenha a força de luto do verbo Lutar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Criança feliz, é criança educada.

                Há uma tendência generalizada, a se achar que crianças são boazinhas, especialmente as mulheres com seus instintos maternais e estrogênio em abundância.

                Não são! Crianças são apenas bonitas. E olhe lá... Pois pequenos ogros estão por ai, e muitos deles em concursos de beleza infantil.

                Pais despreparados, mães culpadas por não terem tempo suficiente para se dedicar a eles, avós permissivos e encantados pelo feitiço incompreensível que os netos exercem sobre eles. Tios corujas, padrinhos deslumbrados em “ter” um afilhado.

                Todos cúmplices, todos criadores, mantenedores e fomentadores de pequenos egos que fermentam e crescem mais rápido que epidemias de conjuntivite no verão. Mais rápido que os próprios pequenos.

                Conheço dezenas de casos... A “princesinha” que pais, avós, tios, dia após dia diziam ser linda e ao ouvir repetidamente tais e tantos elogios, neles crê, e que fazem crescer no mesmo ritmo uma personalidade oposta ao elogio.

                O neto, já pré-adolescente que sempre morou com a avó, e que, após os pais separarem, cede à chantagem emocional da mãe, que o quis abortar, e vai morrar com aquela. Com ela assite filmes madrugada adentro, acorda ao meio dia, e vai almoçar... Na casa da avó. Após a sobremesa sai às carreiras e vai para lan house. Joga até o tempo acabar e retorna à casa da mãe. À hora do jantar liga ao pai que vai buscá-lo e, já jantado não se demora e volta à asa materna(?).

                Uma pequena miss diz a mãe que não quer que esta vá a festinha na pré-escola pois tem vergonha da mãe ser mais feia e mais velha  que as das coleguinhas. Pois que a mãe continue a incentivar a beleza externa e colha mais louros.

                Uma conhecida, de tempos atrás, dizia que para ser mãe se deveria fazer vestibular. É vero, os pequenos monstros, não domados, cada vez mais não tem que fazer esfoço para nada, para agradar ninguém. Apenas ser bonitinhos e engraçados...

                E antes QUE o texto fique ainda mais denso, vou concluindo com aquela “lindezinha de mamãe” que aos sete bem vividos anos disse à mãe noite dessas que não iria jantar, pois não queria ficar gorda como ela. Detalhe a mãe da “lindezinha” não pesa mais que 70 kilos distribuídos em seus cerca de 1.73m.

                São essas as que me despertam imensas saudades de Herodes...


                É óbvio que existem crianças lindas, educadas e simpáticas, muito queridas por todos e por estas, estão de parabéns os pais que lhe impõem limites, que lhes educam verdadeiramente, com conceitos morais e éticos, que ensinam respeito e bondade. Mas se não são assim... Não, não deixai que venham a mim as criancinhas...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Chupa essa manga


                Estava eu a ler Fatos de Fato, blog da Mary Miranda, e eis que um post sobre “Mangas” lembrou-me variadas mangas, de manguitas que nunca mais vi às mangas rosa de quintais alheios, cobiçadas e muitas vezes roubadas, como as mangas de fiapo da casa de D. Juscelina.Em uma  ocasião inclusive, em galho altíssimo, estava uma lá posta em sossego tal Bela Inês, dependurada e brilhante à luz do sol, e Patrícia, prima minha, a olhava cobiçando a dizer que podia cair, e... Com uma brisa rara naquele calor de Floriano, a tal manga cai, e ela corre apanhando para lavá-la e degustá-la com gosto. Lembro também das manguitas, pequeninas e cheirosas que comia quando morávamos em Minas e que meu pai na feira comprava às dúzias. Uma vizinha, excepcional, que em sua infância tinha dificuldade ao falar, sempre que íamos à feira, vinha em casa e dizia que “A mamãe mandou falar pra mandar uma manga pra ela, pra colocar na ferida de papai”. Não sei de onde ela deve ter tirado que manga poderia servir como cataplasma, e como sabíamos de certo que as mangas não seriam para curativos, sempre dávamos a ela mangas para a família toda.
 

                Já as dúzias de mangueiras de tia Maída tomam um enorme pedaço de chão na roça do “quebra cangalha” e não posso lembrar dela sem lembrar do padre que ao pedir algumas colocou dois sacos no carro dando voltas que víamos da janela, mas pra finalizar o serviço pegou apenas meio saco e passou mesmo pelo quintal da casa (na fazenda). Escorregou rolando saco, mangas e padre... Tia Maída, com seu sorrisinho malicioso de canto de boca, apenas falou sobre o castigo: “Mas que bobagem, pode pegar à vontade, que as mangas estão a fazer lama, e tem tanta gente na paróquia...”  
 
                Lembro das mangas rosa de Dona Caetana, avó da esposa de um primo, de quem eu muito gostava, e ela de mim, tanto que, mesmo em outra cidade, sempre que tinha oportunidade, ela mandava-me sacolas de manga. Quando ia visitá-los é que comíamos com gosto. Chegava às vezes de madrugada das festas, sentávamos eu e minha tia Teresa, na praça em frente a casa e às quatro de “la matina” púnhamo-nos a comer manga rosa... 

                Aliás mangas rosa me perseguiam. Quando em Recife, as mangas rosa da casa do Terceiro, que morava em Olinda, eram saborosíssimas, e ele como bom amigo sempre me dava aquelas delícias. E lembrando as mangas de sua casa não há como não lembrar que lá também havia pimenta malagueta, e que certa feita um tio dele colheu um pacotinho e o levou no bolso de trás da calça. Contou depois as peripécias de quando se sentou no ônibus que o levaria à casa e as pimentas com a pressão do peso... bem, fizeram sentir seu ardor... e ele sem lembrar a causa do sofrimento tentava se ajeitar na poltrona e mais esmagava, e nisso mais elas ardiam em uma região tão inóspita que mesmo quando “caiu-lhe a ficha” sobre o porque de seu tormento, e tirar dali o saquinho de pimentas, o mal estava feito e o pobre velhinho ficou a arder-se por horas. 

                Mas voltando às mangas lembro-me do Rogério Magri, ministro do governo Collor, que em uma viagem para reunião da OIT em Genebra na Suiça, faltou à reunião e afirmou que tinha saído para comprar... “Mangas”...
 
                Bem, ela poderia ser a fruta do pecado no lugar da maçã, que é mais seca, e a meu paladar causaria mais tentação. Mas as da casa do Sr. José, pai da Socorro Rocha, eram algumas das mais saborosas que já provei. Tinha espécies que apenas por lá vi, e eles nos mandava aos quilos; aliás tinha uma que chamávamos manga de quilo, devido a sua dimensão e peso. Muitas vezes estive debaixo daqueles pés, enquanto Socorro ou Maria José lavavam roupas com água do poço... Era realmente um pedaço de paraíso aquele quintal.
 
                Na praça atrás da Faculdade de Direito no centro do Recife, existe também dessas mangas enormes (assim como jambos roxos) e é preciso cuidado quando elas estão maduras e a cair. Em um bar que ia muito no Jockey em Teresina, acima das mesas, as mangueiras iam alto e perigosas. Mangas pairavam por sobre nossas cabeças enquanto a cajuína aplacava calor e adoçava boca e espírito. Nunca fui atingido por uma manga, fruta asiática que aqui (em que se plantando tudo dá) plantada se adaptou tão bem que parece nativa. Em boa hora um antigo prefeito de Floriano (Pi) arborizou a cidade com elas. As mangueiras, da família Anacardiaceae, estão por toda cidade, abençoada sejam.