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quinta-feira, 15 de março de 2012

Hoje é dia de pastel

            Dia destes, Humberto Werneck discorria em sua coluna semanal no jornal: O Estado de São Paulo, sim, aquele mesmo veículo que se diz perseguido pela censura, e, que demitiu a articulista Maria Rita Khel pelo mesmo motivo, mas o que interessa neste momento é a crônica de Werneck, que naquele domingo descrevia uma viagem pelas Gerais, e como é notório, Minas sempre rende prosas, causos e versos. Enfim, narrava uma viagem de Fernando Sabino e Otto Lara Rezende onde este último, fanático por pastéis amanhecidos. Ao pararem em uma tasca à beira da estrada Otto olha de pronto para a pequena estufa em cima do balcão e dispara ao proprietário: “Esses pasteis são de hoje”? Aquele inflando o ego de orgulho responde de chofre: Claro, são sim, estão frescos, crocantes e quentinhos, acabei de frita-los. Ao que o Escritor torcendo o nariz diz: “Pois então não quero, eu gosto é de pastel amanhecido!”
            Bem, Werneck sabia mais do fato que eu, que só conheci através de sua crônica e mnemonicamente repito o causo, logo, pode haver discrepâncias e pontos a mais, a menos... Mas deu-me o mote desta semana... Pastéis, sim, pastéis! Não os portugueses, de Belém, cuja dúvida paira sobre quais são os melhores, os da Torre que lhe emprestam a alcunha, como afirma o Vitor, ou os da Mariquinha, como afirma o José da Costa... Mas os pastéis deste lado mesmo do atlântico.

            Sempre se fala do pastel do japonês, embora os pastéis sejam invenção chinesa, e segundo uma amiga que esteve nas terras do Sol nascente, lá não se acha pastéis. Os chineses também não são como os nossos, afinal se aqui, em se plantando tudo cresce e floresce, com as receitas... Bem, se modificam, adaptam-se aprimoram-se. E... Voilá, temos o nosso pastel... Bem diferente das guiozas. Em São Paulo o mais famoso é o pastel de feira, embora em muitas barracas a massa, aliás os próprios pastéis já sejam comprados de segundos. Depois vem o do Mercadão, onde o pastel de bacalhau é o mais procurado. A mais das vezes costumo comprar a massa e fazê-los em casa, daí uso queijo branco, ou quando de carne, faço como os de D. Lourdes, vizinha das Gerais, que, na Coronel Fabriciano daqueles saudosos anos 1970, onde eu adorava brincar de carrinho nos montes de areia fazendo tuneis e estradinhas, ela passava horas no cilindro para deixar a massa finíssima, pois segundo ela quanto mais fininha mais gostosa, e os recheava com carne moída, cebola, coentro e batatinha cozida, hoje penso que a batatinha era também para fazer render a carne, uma vez que era viúva e mãe de muitos filhos. Até hoje se vou fazê-los as acrescento, saudoso de seu tempero. Faço as mais das vezes já em quantidade exagerada, para que sobrem e que coma no outro dia no café da manhã,. Geralmente os faço na véspera mesmo de vir a Neide e sua faxina providencial, que eliminará as emanações de óleo da cozinha. Antigamente eram apenas três sabores os das feiras, barracas e lanchonetes, hoje tem de tudo... Mas se como fora prefiro sempre o de palmito à carne e ao queijo.

            Os pastéis da Aparecida, de massa feita em casa, fritos com óleo novinho... Hummm... Coisas de dias de festa por lá. Aliás Zuleica, sua irmã, que antes de partir para outro plano, já em dias de definhamento neste planeta, em seu último natal, já ruinzinha e sem apetites, comeu os da Henriqueta, quatro naquele dia, deixando-nos surpresos. Devia lembrar dos pastéis de sua mãe, D. Ana, que não conheci, e dos pastéis só conheci a fama. Mas Zuzu também amava os pães de queijo como boa mineira, e já internada de onde só saiu para o repouso eterno, do corpo já que sua memória está entre nós e seu espírito aguardando novas vestes, era apenas um fio de voz, um restinho de ânimo, mas àquele dia, ao ser perguntada por Vera se queria que buscasse algo para ela, respondeu buscando um punhado de ânimo: “Um pão de queijo!”