quarta-feira, 30 de julho de 2014

O feio e o fake.

Você vê nas redes sociais fotos de algumas pessoas em poses estudadas, lê as legendas trabalhadas e compara com seu comportamento, com sua linha de pensamento expressada no modus operandi... Bate uma tristeza... Uma preguiça, e até uma irritação, ao olhar sorrisos coniventes com ideologias expressadas ali e que nada tem a ver com a prática. 

Foto: Jair Leal Piantino
Conteúdos forçados a fim de mostrar uma inteligência, uma opinião formada sobre tudo, e que muitas vezes, para não dizer a maioria delas, não corresponde àquilo que o discurso prega, o discurso pelas minorias, contra o preconceito, e no gestual, no dia a dia, você vê que suas opções não condizem com aquilo que a foto ou o texto tentam mostrar. Se Caetano já dizia há tempos que “de perto ninguém é normal”, em tempos de redes sociais, onde todos pretensamente geram conteúdo, emitem opiniões sólidas e profundas que quando contestadas ou contextualizadas têm a espessura de uma membrana, que termo definiria essa anormalidade?

Sempre houve e sempre haverá gostos e gestos conflitantes em cada um de nós, contradições, certezas afirmadas que no fundo estão repletas de dúvidas, mas a virtualização e a facilidade de publicação, disseminação e obsessiva afirmação e defesa dessas afirmações, ainda que não se tenha aprofundado uma análise sobre o tema ao qual se defende, não cria uma nova patologia psicológica? Exagero, talvez? Pode ser, afinal, quem está livre deles, mas se Eva tinha três faces, sem ter um livro delas, o que se diz quando se percebe que virtualmente aquela face apresentada na rede social não corresponde à face real?

Os pensamentos ali disseminados buscam o quê? Mostrar quem se é e o que se sente verdadeiramente?, ou apenas mostrar ao mundo que se é culto, inteligente, sagaz? Cheio de sentimentos nobres e de convicções políticas profundamente embasados?

Hoje para ser “fake”, usando o termo popular para perfis falsos, não é preciso fotos forjadas com imagens que não a do dono do perfil, nem a criação elaborada de uma personagem, muita gente que hoje olhasse a própria página na rede não se reconheceria tão forjada e moldada em formas diferentes de suas realidades, convicções e modo de vida.


sexta-feira, 27 de junho de 2014

As amigas da titia...



             Pois bem, tia Daça tinha várias outras amigas além de Socorrinha, a do olhar lânguido a qual me referi no último texto - se você segue o blog vai lembrar... -,  embora aquela fosse sua melhor amiga à época, a ponto de quando ela se casou ter sido convidada por minha tia a batizar seu primeiro filho, convite feito, minha tia morando em S. Luis do Maranhão, Socorrinha em Barro Duro, interior do Piauí... Ambas já casadas... O batismo não saiu e Danilson teve outra madrinha e padrinho que desconheço, por esse tempo eu já tinha retornado a São Paulo, terra de meu pai.

            Mas eis que naqueles dias em Teresina - onde passamos pouco mais de um ano, já que a obra que meu progenitor havia ido chefiar teve sua conclusão - nossa casa era frequentada por várias flores amigas de minha tia, sempre que vinham a Teresina. Socorrinha era a única que morava lá mesmo, fora para estudar e fazia o  curso de pedagogia, o que lhe valeu mais tarde a direção de uma escola em Barro Duro.

           Ely era uma das mais bonitas, e me lembrava Gislaine, uma prima por parte de pai, que morava em Santos – SP, a quem na infância eu dizia que seria com quem iria me casar. Ely, de cabelos castanhos, compridos, seios fartos sem descambar ao exagero, tinha até mesmo os dentes bem pronunciados de Gislaine. Lembro que em uma das visitas insistiu ela mesma de passar o café que tomávamos à tardinha. Cheia de autos elogios sobre sua infusão do pó de grãos, meteu-se à cozinha e nos veio com seu líquido marrom. Tomamos... Daí a pouco Ely se foi, já que voltava a sua cidade dali a pouco. Vejo logo em seguida minha mãe levantar-se e dizer: _Bom, agora vamos tomar um café de verdade, que esse mijo de vaca da Ely não está com nada. E a gargalhada foi geral.

            Se Ely na sua fartura e Socorrinha em sua languidez sensual eram belas, Mirta era uma desgraça, coitadinha!, feinha coitada, feinha que doía, lembrava a finada Aracy de Almeida com seus óculos escuros  enormes que mais a enfeiavam, e observem que: a época, não existiam esses modelos medonhos de hoje que deixam as pessoas com cara de alienígena de filme da sessão da tarde, mas enfim, era feia a Mirta. Pra ajudar não era simpática, ou eu teria ao menos essa desculpa e talvez entrasse num dilema machadiano, se feia porque tão simpática? Se tão simpática porque feia? Mas não, ela não era...

Flor do baile - Foto: Djair
            Quiseram o destino e o tesão que Mirta sucumbisse ao charme de um rapaz lá de sua cidade, e assim caída em tentação, deixou-se deflorar. Pois bem, no mal-me-quer, bem-me-quer, a pétala se foi... Os irmãos nem quiseram saber se foi ela quem deu em cima, ou se deu embaixo, vá lá se saber... O fato é que chegaram juntos, tomando dores e preservando a honra e cercando o deflorador, disseram apenas: "_Ou casa, ou os ovos!"

            Nunca soube de ninguém, que nesses casos, escolhesse a castração... Pois muito bem, Mirta casou! Não importa o quanto durou, nem que o marido tenha fugido com outra, tempos depois. Casou!

domingo, 22 de junho de 2014

Um dia de Flamengo e Ríver

      E quando moramos em Teresina, naquele longínquo 1979, quiseram o destino e a vontade dela, que minha tia Dacilene, a quem todos chamam até hoje Daça, vir passar uns tempos conosco. Naquele final de década eu cursava a sexta série, em uma escola cuja farda era camisa branca e calça de mescla. À tarde, depois de chegar do colégio, banho tomado, sentávamos à calçada, à sombra, e por vezes colocávamos ali a televisão, abrigando-nos assim daquele calor digno de Macondo, que só García Márquez saberia descrever tão bem. Ali, vez por outra, um passante parava à rua para assistir ali um pedaço do capítulo da novela, ali comprávamos o leite por volta das 18:00hsdo moço que trazia os galões na bicicleta, e os pães e broas, manuês e bolos que outros traziam em bicicletas ou dos que vinham a pé trazendo em cestos bolo de fubá, bolo frito e toda sorte de quitandas. Já era praxe e venda garantida. Na casa ao lado, D. Raimunda fazia o mesmo, embora sua TV não saísse da sala.

      Naquele final de década, o Flamengo do Rio tinha Zico, e o Flamengo do Piauí, tinha... tinha... bem, tinha lá seus jogadores. Fui com tia Daça e Socorrinha, uma de suas amigas, que a mim causava sempre uma impressão... Forte... O olhar lânguido, os cabelos cacheados e a pele muito clara que contrastava com o castanho escuro daqueles cabelos, pequena estatura, voz suave... Bem, fomos a uma das partidas; como diz minha mãe: se o espirito não me mente e a verdade não me falha, o jogo era com o Ríver. E fomos de camisetas, rubro negras, bandeira em punho, enorme, cuja haste era de talo de buriti, leve e firme.

     No Albertão, eu ainda não conhecia Morumbi, nem qualquer outro estádio, a imensidão da torcida, toda empunhada com as bandeiras. No intervalo, refrigerante e coxinha; foi onde vi pela primeira vez os desenhos da genitália humana, que o populacho reproduz pelas paredes e portas, muros e onde mais lhes caiba a mão e o giz, caneta ou pincel, por seu simples desejo ou pelo pouco uso que faz deles, igualzinhos aos que Pedro Nava descreve em seu “Baú de ossos”, com a diferença de que ele as vê, se não me trai a memória, no Maracanã. E surpresa, mas nem tanto, ele ainda menino, eu também, reconhecemos nas tais figuras a tal tesoura mal desenhada, o triângulo com riscos que me lembrava apenas o símbolo que tinha na porta da loja maçônica, não trazendo quaisquer outras considerações ao menino de 12 anos. Lembro que comentei da tesoura e minha tia, como o tio de Nava, confirmava que o objeto cortante era mal desenhado.

      Volta à arquibancada, e que vexame!, não lembro de quanto, só que perdíamos feio, e nem cheguei a ver que ali estava também meu pai, com uma das muitas amantes que teve durante a vida; só soube disto por ouvir conversas depois... Mas antes disso minha tia, a pretexto de que estávamos mesmo perdendo, chamou-me a ir embora, mesmo sem terminar o jogo, afinal, a saída era muito cheia de gente e seria complicado, melhor já ir embora mesmo. E fomos...

      Ao escolher o táxi, já que o jogo ainda não tinha terminado e eles abundavam à saída do estádio, lembro que escolheram o de um rapaz bonito; é, tia Daça e Socorrinha eram moças e à época não consta que tivessem namorados. Além de que, era só pra olhar mesmo. Pegamos o carro do moço, tia Daça bufando pela derrota me mandava enrolar e esconder a bandeira que eu teimava em trazer aberta. Pois bem, bandeira enrolada, entramos no carro e... o tal moço bonito era um anti-flamenguista ferrenho, ou dizia sê-lo a fim de fazer charme, e assim fomos até em casa ouvindo o sarro que ele teimava em mais tirar, quando mais amuadas as moças ficavam.

      Mas que foi um belo passeio, isso foi!


 Foto: Internet - Estádio Governador Alberto Tavares Silva "Albertão"
 http://folhadebatalha.com.br/portal/?pg=noticia&id=3043


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Palavrinhas sobre palavrões



“Há maneiras adequadas de discordar do governo e do governante. Defender ideias contrárias é uma delas. Argumentar com sobriedade é importante para concordar e para discordar. A vaia e as grosseiras palavras gritadas no estádio contra a presidente da República, Dilma, envergonharam todos os brasileiros, até os que não gostam dela.”

Luiz Otávio Pereira



"Um povo que se julga culto, educado, uma gente de bem. E não respeitou a Chefe de Estado num evento sob holofote mundial. Chefe esta que foi eleita democraticamente.

Juro. Pra mim é tão claro quanto o sol a tentativa de furto do Estado Democrático de Direito”

Anna Mazzeo



Ambas as sentenças, publicadas no facebook, pelos dois amigos, refletem a educação, digo a absoluta falta dela, embora grande parte dos que o façam clame justamente por melhoras na educação; afinal, para esses, a educação formal é aquela adquirida em bancos escolares e cadeiras acadêmicas.

E por falar em cadeiras acadêmicas, estou engasgado, há meses, mas especificamente desde março, com a capa da revista Cult, na qual vinha estampada a professora da UFRJ, Ivana Bentes, senhora com quem tive contato profissional há alguns anos. Gentil, simpática, educada e cordial, tal contato valeu-me inclusive agradecimento em seu livro: Glauber Rocha: Cartas ao mundo. Pois bem, na capa a professora trazia o dedo médio em riste.

Não comprei a revista, aliás, desde então deixei de comprar, achei desrespeitoso, no meu ver esse gesto, que não cai bem nem a homens nem a mulheres (se aqueles, tendem a remeter à ideia de seus pênis, elas desejariam demonstrar seus clitóris?). O título da matéria era: “Respeitosamente Vândala”! Sério mesmo, que alguém pense ser respeitoso empunhando uma ereção do artelho central de uma das mãos? Isto à capa de uma revista que fica exposta nas bancas à vista de todo e qualquer passante? Onde somos obrigados a ver ainda que não quiséssemos? E era o que acontecia a cada hora de almoço onde, para chegar ao restaurante cotidiano, passava em frente à banca... Realmente eu tinha raiva cada vez que via a tal capa. Não tive desejos de ler o que ela tinha a dizer. Respeitosamente, declino.

Dia destes, um outro colega de rede social, posta também, assim, gratuitamente, o mesmo gesto: será que acha engraçado? Moderno? Rebelde? Não sei... Apenas cliquei o não quero ver isto. Afinal de contas, ainda valia manter-lhe ali apesar da reprodução do gesto. E ali eu tinha essa opção, diferente da capa da revista estendida à altura dos olhos, na banca.

E assim, vemos e ouvimos, os “vai tomar em tal lugar”, e outros mais de naipes semelhantes, em estádios, no metrô, na rua... Não que eu não fale palavrões, falo, embora evite esses, e ainda mais assim, gratuitamente, pelo simples prazer de mostrar-se boçal ou indignada, quando parece mesmo querer aparecer a qualquer custo. 

Foto:  A capa da revista citada no texto, com edição feita por mim, a fim de não propalar o tal gesto.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Trova pequenina

     Realmente, uma “crise criativa” se apossa de mim nos últimos tempos, mais vontade de ler do que de escrever. Nenhuma vontade de reler e corrigir textos (meus); mas para rebater, nada como voltar ao blog, afinal escrever também é um ato de disciplina e de libertação, de liberação, então 'bora' reagir, como doses homeopáticas são recomendadas voltemos com uma pequenina trova, coisa suave, como quem ouve violinos e colhe sorrisos. 
Foto: Djair/Banco em rua bucólica da cidade de Goiás (Vulgo: Goiás Velho) - GO
 Os pés
As pétalas
O Pisar
Passo a passo
Flores no teu caminhar.

sábado, 26 de abril de 2014

Orelhas... Nem todas são de Eurídice.

     Depois de uma cirurgia de timpanoplastia (reconstituição do tímpano o enxerto de pele – uma segunda camada de pele, retirada de trás da orelha), fiquei a pensar sobre o ouvido/orelha. Vieram-me lembranças infantis, provas de que ele nunca funcionou muito bem mesmo, coisas que ouvia e entendia errado: uma palavra, o sentido de uma frase...

      Lembrei-me de Sr. Turiba, que era dono de metade das casas da rua onde morei dos oito aos doze anos. Usava um aparelho para surdez, àquele tempo enorme e indiscreto, possivelmente não tão eficaz quanto os de hoje; pelo aparelho sua fama, que não era apenas fama, mas fato: era surdo. Os meninos da rua chamavam-no de “seu Turiba – muchiba”.

     Lá pelos 14 anos, uma vez em que brincava com meus primos, juntando munição para atirar uns contra os outros, lançávamos caroços de feijões soprados por talos de folhas de mamoeiro e, não sei porque, tive a “brilhante” ideia de colocar um dos feijões dentro do ouvido... E ele ali, bem aconchegado, foi entrando duto adentro... Resumo da ópera infantil: minha mãe teve que levar-me ao pronto socorro para que o retirassem. A operação não durou mais que dois ou três minutos, nada como experiência e equipamentos nas mãos certas. Não olvido o comentário dos atendentes sobre aquele que seria o terceiro caso envolvendo ouvido só naquele dia... Não, não sei detalhes sobre os outros dois, mas foi o suficiente para fazer crer que ouvidos geram se não contusões, pelo menos confusões...

    E pra não esquecer Van Gogh, depois da cirurgia, as talas aplicadas em volta do meu ouvido tomaram a cabeça toda, encobrindo a orelha e me fazendo lembrá-lo. Pronto! Citado Van Gogh, deixemo-lo em paz e passemos ao Cazuza com sua “A orelha de Eurídice”. A música que tem um incrível solo de violinos traz o seguinte trecho: “Traz uma orelha envolta num pano vermelho. É a prova: meu amor me espera sem uma orelha.” Na época em que eu assinava a “Bizz”, revista de música, uma delas trazia uma reportagem sobre o cantor, na qual ele dizia ter praticamente psicografado a letra depois de um sonho: fazer letras eram coisas difíceis para ele, pois levava mais de uma semana em uma composição. Tendo dado essa letra a outro músico para musicá-la, a recebeu de volta... Era Renato Russo o músico em questão, que a devolvia dizendo não ter conseguido, que era complicada... Salvo erro, foi assim a história; afinal a li há mais de 20 anos. Mas continuando, Cazuza disse que saiu berrando pela casa: “_Orelha, orelha, orelha... orelha rima com o quê? Com pentelho!!!” E aí foi ele mesmo fazer a música... Dizia que a ideia da orelha era referência a antigos modus operandi de sequestradores que enviavam à família a orelha de suas vítimas...

      Bem, quem quiser e puder, consulte nas Bizz dos anos 1980/90 e vá ler a reportagem completa.

      Minha mãe desconhecendo que narizes e orelhas crescem até o fim de nossas vidas atribuía o tamanho a orelha ao tempo de vida que se teria e dizia que meu pai viveria muito mais que ela, uma vez que possuía orelhas grandes, e D. Felina, minha avó paterna vivera até quase aos 90 anos e tinha orelhas enormes. Não se concretizou, ele já partiu e suas orelhas devem ter sido apetitosas aos seres da terra.

    Sem orelhas os narizes não seriam tão eficientes em segurar os óculos. E a indústria de jóias perderia toda a clientela dos brincos. E, claro, já teríamos nos acostumado a nossas estranhas caras sem os apêndices laterais, mas imaginar isso tendo-os é um tanto estranho.

      Orelha, orelha..

      A maioria das informações que recebemos entra-nos por elas... Talvez por isso as abas dos livros, que nos trazem informações sobre as obras e sobre seus autores, também optamos por chamá-las: orelhas.

      Nunca ouvi ninguém dizer a mim ou a outrem: “_Você tem as mais belas orelhas que já vi!” E se ninguém disse, ninguém escutou... mesmo tendo ouvidos.

      E antes que eu ouça um pito, vou voltar ao repouso, que é o recomendado a meu ouvido!


Foto: Djair - A própria orelha, enquanto o  texto era escrito.
Áudio:YouTube - A Orelha de Eurídice - Cazuza

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Monga, a mulher gorila

      Os anos 1970 já iam pela metade naquele Melo Viana, bairro de Coronel Fabriciano. Tínhamos uma Minas pacata, à exceção dos dias de jogos de Atlético e Cruzeiro, aí então era dia de algazarra de buzinas e carreatas que se revezavam ora com bandeiras listrada de preto e branco, as minhas preferidas, ora de bandeiras azuis com suas estrelas brancas... Pois bem, estava no segundo ou terceiro ano primário, lá no Padre Deolindo Coelho, e já tinha então um certo cangote grosso, conforme dizia meu pai, o que me permitiu ver o entretenimento que por aqueles dias se dava ali, na esquina mesmo da Dr. Euzébio de Brito com a avenida cujo nome se apagou da memória e cuja preguiça me impede de abrir o google (a panaceia para esquecimentos e falta de conhecimentos), a bem de que não irá alterar o curso da prosa.

      Neste citado terreno da esquina, onde não existiam muros e os pés de mamona floresciam ao lado do riacho ainda não canalizado, e onde depois se construiu o Escritório de Contabilidade de D. Aparecida e o consultório odontológico de seu marido, Joaquim Gomes Alvernaz, por aquela época vereador, tendo se candidato também a prefeito logo em seguida. Mas essas são outras estórias, portanto, voltemos ao terreno ainda semivirgem... Foi nele que veio instalar-se a tenda da Monga, a mulher gorila.

      Em polvorosa, toda a gurizada ficou louca para ver, saber, sentir a experiência; o tempo já me tirou os sons e as cores referentes ao que comentávamos e as impressões dos mais velhos que já tinham ido ver. Ora, molecotes como nós, os pequenos, só podíamos ir acompanhados de um adulto, e assim manhosos implorávamos aos pais para nos levarem.

      À noite, a brincar de esconde-esconde e outros piques, na rua, praticamente sem carros, onde éramos livres, espreitávamos querendo achar frestas e botando reparo na cara das pessoas que entravam e nas das que saíam.

      E meu pai, a me fazer gosto, levou-me lá em uma dessas noites. Não lembro de ter outro menino da aula, nem colega de colégio, lembro apenas dele, meu pai, de camisa branca, de manga comprida, calça preta, os cabelos com seus pega-moças, como ele chamava masculinizando o nome dos cachos que lhe formavam pontos de interrogações, de ponta cabeça, à testa.

      Chegada a hora, uma loura, não podia ser diferente, cabelo preso num rabo de cavalo, encorpada, num tempo em que curvas eram sinônimo de beleza (e não a magreza anoréxica destes dias), biquíni de vários tons de brilho onde o verde se destacava, e eis que de repente, como diria o poeta, não mais que de repente, salão escuro, todos em pé, pois o espetáculo era curto e não carecia de sentar, as únicas luzes voltadas para a moça, que começa a ter o corpo coberto por pelos escuros, lentamente, mas não tanto que se perceba os truques de espelho, até se transformar em... Monga, a mulher macaco!

      A bela transformada em fera, um gorila, enorme, para meus olhos infantis. Lembro que encostei-me mais a meu pai, juntando o corpo a suas pernas; ele colocou a mão em meu ombro, dando-me segurança, afastando o medo. Ele estava ali, logo, eu estava protegido, e depois do susto, um sustinho.

      A Monga, balançando as grades, tenta fugir ao cativeiro. O apresentador pede calma, “atenção, não emitam sons para que ela não fique nervosa! Calma Monga, calma, lembre do que aconteceu em tal cidade – já não lembro qual era – onde você feriu 3 pessoas, calma....”. E aos poucos a Monga se tranquiliza, poderia dizer que lhe foi dada uma banana, mas isso já não sei se ocorreu ou sou eu que invento...

      E assim, diante da plateia, Monga, a mulher gorila, já serena, volta aos poucos a ser a blonde girl, de formas torneadas, dentro de seu biquíni de pedrarias.

      Em casa, a mãe esperava, que aquela programação não era para senhoras. Quer saber como foi e conto de olhos esbugalhados a experiência. Pergunta-me se fiquei com medo: “_Só um pouquinho, o pai tava lá!”


Foto: internet: http://www.mamajuana.com.br/monga-ganha-versao-inovadora-no-parque-guanabara/


sábado, 12 de abril de 2014

Dai de comer a quem tem fome II

E naqueles dias, Dalva saía da aula as 12:45, ia para casa, cansada, fazia comida e depois, um cochilo da tarde, pois para quem acordava às 06:00 da madrugada para estar no colégio às sete e trinta, o sono pesava, principalmente para quem apreciava os filmes da Sessão Coruja, sim, existia a hora da sessão coruja...
Vindo então àquela tarde, extenuada, moída de tanto fustigar o raciocínio na aula de física na qual Igor, o menino veneno que tirava suspiro das moças, bela beleza plástica e fazia as caspas virarem mandiopã devido ao esforço que se fazia na matéria. Em vão, as explicações pouco didáticas não entravam na cachola nem com reza nem com praga... Mas enfim, vinha ela cansada e pensando se ia direto dormir e depois comia, ou se comia algo e depois dormia, e nessa dúvida ouve D. Umbilina, a vizinha de três casas anteriores a sua.
_Dalva minha filha, vem cá, almoça aqui comigo, hoje sobrou um tanto de comida que ninguém dá conta.
D. Umbilina servia marmitas e na grande sala de sua casa improvisava um refeitório onde os comerciantes e demais trabalhadores da redondeza se revezavam no almoço, pagando menos que nos restaurantes daquela beirada de bairro e tinham comida de qualidade e saborosa.
Dalva não se fez de rogada: _Aceito sim D. Umbilina, a senhora não imagina o quanto eu fico grata... Nossa, eu ainda ia fazer, e tô tão cansada, nossa... A senhora é um anjo.
E Dalva mastigou, e Dalva engoliu, e Dalva comeu... Bom garfo, não enjeitava nada, se era pra comer era com ela mesma... E comeu que regalou-se. D. Umbilina solícita foi logo dizendo: _Ah, pera um pouquinho que tem um docinho de banana, fiz ontem você vai adorar. Saiu para buscar e foi logo gritando em direção a um dos quartos da casa, clamando a neta: _Ô Jovelina, Jovelina minha filha, levanta pra me ajudar com a louça... A pia tá até o teto. Eu não dou conta sozinha, não...
Dalva ficou já de orelha em pé, com a pulga atrás dela...
E D. Umbilina volta com o doce, não sem antes ao passar no corredor clamar de novo a pobre Jovelina: _Vem menina, bora me ajudar que essa vida de só comer e dormir não dá certo não.
Pôs o doce à frente de Dalva e foi lá sacudir a neta, que não respondia e nem aparecia. Voltou com uma xícara de café, mais doce que o doce que ela tinha acabado de servir, e começou a reclamar para Dalva...: _Olha Dalva, essa menina... não sei não... Tá vendo que não dou conta e não vem me ajudar...
E Dalva, compreendendo-lhe a jogada depois de tanta indireta, apenas reponde: _É D. Umbilina... Essa juventude é assim mesmo... Mas olha, eu já vou indo, que hoje eu tô com muito trabalho da escola... A sua comida tava mesmo uma delícia viu!? Precisando de mim é só chamar tá? Deus lhe pague... Meteu a alça da bolsa no ombro, os cadernos e livros debaixo do braço e picou a mula.
E assim, deixou para trás D. Umbilina a gritar: _Jovelina... Jovelina, minha filha... Os pratos...

Foto:  Djair - Farofa que acompanha o muzonguê - a ser feita por Verónica, em Lisboa - PT, e que nada tem a ver com o causo.