quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dai de comer a quem tem fome.


          A participação no evento era de 95% de mulheres, o que supõe meiguice, calma  e sensatez, mas  com certeza, quem já conhece uma praça povoada por pombos, como a Plaza de S. Marcos em Veneza ou a Biquinha em S. Vicente, e viveu a experiência de jogar milho/ração aos pombos, não iria estranhar o coquetel de abertura.
Várias mesas dispostas em um salão não tão grande, comidinhas e bebidinhas finas dispostas entre arranjos de flores coloridas, sob a luz relaxante de um lustre de século e meio atrás, que pendia do teto branco e refletidas pelos cristais do lustre e de espelhos ao redor da sala, dava amplitude ao um turbilhão de mulheres famélicas se descabelando por um pouco de ração.



            O mesmo se repetirá nos dias seguintes, nas pausas para o café, ou como costumam dizer os adeptos do anglicismo, nos coffee-breaks, onde vi uma moça à minha frente ter a xícara de café derrubada por uma senhora que cortou a fila, empurrando a enorme bolsa sobre quem estivesse à frente, e como resultado ainda do desespero, a coitada que estava na fila educadamente, teve a mão queimada. Como digo as vezes, tem gente que se aproveita da idade para ser mal-educada.

            Pessoas que tem nível superior, trabalham com informação, cultura e pelo visto... Tem fome...

            A Educação, o glamour da ocasião, o bom senso são deixados de lado e... Oba!!! Comida!!!

            O vestuário um show a parte. Imediatamente à minha frente, uma zebra pálida, como a tintura do cabelo, que ornava com o perfume mais doce que já senti. Ao lado, bem próxima, entre  profusos e enormes babados multicores, repousava sobre o colo d’outra uma bolsa preta, enorme, de um material que não sei se era sintético ou pele de algum animal. Quase me atirei em cima da dona pois acreditei piamente estar sob ataque de um guaxinim. Bem, com a fauna e flora estampadas na roupa e o dourado das correntes e outros ornatos, não seria de estranhar. Certamente Clóvis Bornay chamaria o estranho look de “Esplendor da fauna e flora no reino de El-Dorado”.  Em meio a elas, homens de terno, de calça e camisa sociais, um rapaz com bata já um tanto surrada assim como o Jeans chama atenção. Tem gente que também se aproveita da idade pra ser mal-educado.

          Não me admira a colocação de uma amiga: “Não usava uma roupa desta nem pra lavar a casa com muita água sanitária.”
        
           Um outro, antes do coquetel,  ao notar na ponta oposta do salão, onde a orquestra executava uma peça  de Malher, uma notável da área corre pelo salão de piso de madeira, com passos fortes, fazendo barulho semelhante a cascos de jumento. Junta-se a ela, e tome horas de papo fútil.
 
              Ah, a subserviência e o puxa-saquismo... O que seria dos que amam paparicos, sem eles? E tome papo durante a sessão de música clássica... Ai de mim...

Foto: Djair - Tapete de Corpus Christ, feito com alimentos - Morro do Ferro - Oliveira - MG

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Urgente - Utilidade Pública

Uma amiga está com leucemia aguda e precisa de doação de sangue e plaquetas, urgente.
Conto com o apoio de todos vocês.
Abaixo estão todos os dados.
Obrigado, um abraço e fiquem com Deus.

Doação de sangue e plaquetas direcionada a:
Angela Maria Marcondes Machado de Barros - internada no Hospital Santa Cecília.

Postos de doação de sangue:

- Hospital do Câncer, fica na rua Prof. Antonio Prudente, 211, próximo ao Metrô São Joaquim.
Horário: de 2ª a sábado, das 8 às 17 h

- Hospital Edmundo Vasconcelos, fica na rua Borges Lagoa, ao lado da AACD, próximo ao Hospital do Servidor do Estado.
Horário: de 2ª a 6ª, das 8 às 17h

- Hospital do Coração, fica na rua Abilio Soares, 176 - Paraíso.
Horário: de 2ª a 6ª, das 8 às 17h

- Clínica de Hematologia de São Paulo, fica na av. Brigadeiro Luis Antonio, 2533.
Horário: de 2ª a sab, das 8 às 17:30h

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Leopardos, ou gatos pardos?

Hoje pela manhã, jogava um partida de buraco enquanto lá fora o sol tímido em conluio com o vento frio não convidava a fazer nada além disto. Sobre a mesa, coisinhas gostosas para beliscar e nas mãos uma boa jogada.

Assino o jornal apenas de sexta-feira a domingo, pois mais que isso não consigo dar conta no decorrer da semana, de tempo já escasso. Foi, quando de repente, ouço no rádio a notícia do ataque de um grupo de jovens classe média alta a um casal de rapazes que passeavam pela Av. Paulista.

Noticias assim sempre me chocam. Sejam elas sobre universitários (?) do interior perseguindo alunas acima do peso, machos no cio a perseguir moças de vestido curto em universidades, filhos de gente abastada ateando fogo em índios para se divertirem, idiotas a bradar morte a nordestinos, gentinha em altos postos a humilhar funcionários negros ou presidentes de democracias a expulsar ciganos. Ou ainda campos de concentração onde se exterminam pessoas de etnias, religião ou pensamento diferente da que o status quo da sociedade dominante permite.

Em São Paulo, maior cidade da América do Sul, não é a primeira vez que tal fato chega aos jornais. Há alguns anos, um outro rapaz, domador de cães, foi morto em plena praça da República, no centro da cidade. O domador de cães não se livrou das feras bípedes e somou-se às estatísticas policiais. O mesmo ódio, o mesmo tipo de perseguição, vários contra um ou dois.

Lembro que há uma década, quando eu fazia faculdade, um colega, de outra turma, mas com quem mantenho contato até hoje, voltava de uma festa com o namorado e foram também agredidos por uma dessas hordas, em um vagão de metrô da linha verde (ramal que percorre a Av. Paulista). Quando as portas se abriram na estação seguinte à que foram abordados correram e procuraram os guardas da estação, que falaram que isso acontecia mesmo, etc..., sem o menor interesse em apurar nada. Não seria apenas passar um rádio e parar o trem na estação seguinte, para se averiguar? Mas para quê? Afinal, tratavam-se de homossexuais.

E assim a coisa vai, de seguranças que acham que gays devem apanhar, a juízes que julgam que leis de proteção a mulheres perseguidas, seviciadas, humilhadas e espancadas são descalabros...

Esta semana ainda fez-se estardalhaço sobre o caso de um rapaz de 18 anos que foi preso por beijar um garoto de 13. E tome críticas, acusações de estupro, etc... E se fosse um rapaz e uma garota de 13? Não os vemos aos beijos o tempo todo?

Assim como os padres gays, na nova caça às bruxas, são chantageados e expostos em praça pública por crianças de 17 anos... Ora, e os padres héteros? A questão primordial para igreja não deveria ser a quebra do celibato? Porque, para a lei comum, só é pedofilia se o caso é homossexual? Vende mais jornal?

Um jogador de futebol, que morou em frente a uma amiga, tinha uma postura homofóbica que disseminava para filhos e esposa, e esta última, sempre com comentários travestidos de piadinhas jocosas, falava ai, ainda bem que meu marido não gosta dessas coisas. Deus me livre. Entretanto, grande parte de nós (minha amiga que morava em frente e sua família, mais um grupo extenso de amigos) sabíamos de seus relacionamentos com pelos menos dois outros homens.

Um primo, em primeiro grau, que sempre se valeu  todo tipo de discriminação possível, e fazia questão de bradar aos quatro ventos sua posição, não nos surpreendeu quando soubemos de um “casinho”, com outro rapaz, inclusive, bem folclórico e conhecido na cidade.

Não consigo acreditar que quem realmente está bem resolvido com sua sexualidade vá perder tanto tempo e energia se preocupando com a opção sexual do outro. Mas parece que para resolver esses problema íntimos, os acometidos por essa forma de insegurança pessoal que leva ao ódio ao outro, ao invés do diálogo ou terapia, vão da verborragia estúpida aos ataque físicos chegando a causar mortes. O ódio está onde? De onde vem? De dentro, óbvio, mas porque se manifesta? Porque o outro faz aquilo que se tem vontade? O outro representa sua frustração em não conseguir aceitar-se? Ou em ver que o outro, apesar de diferente da maioria, consegue ser mais feliz?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Não adianta chorar, Leite Derramado ganha Portugal Telecom de Literatura 2010.

 Seguindo uma brilhante trajetória, “Leite derramado”, o livro de Chico Buarque, foi o primeiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de Língua Portuguesa que, neste oitavo ano  de existência, teve inscritas 408 obras.

Jô Soares, apresentador da premiação, deu a ela um caráter de talk show, como o faz em seu programa noturno na rede Globo de televisão.



 Perguntado se achava-se um  "escritor amador" por ser mais conhecido como cantor e músico, respondeu:  "Eu não me considero um escritor amador, mas as pessoas consideram. Isso é bom." "Eu acho que se for ver um ator ou apresentador de TV lançar um livro, talvez eu também achasse que não é uma literatura de qualidade”, alfinetou.

 Desde que Chico publicou o seu primeiro romance, "Estorvo", já passaram 20 anos. "Leite Derramado" conta a história de um velho, com mais de 100 anos, preso a um leito de hospital, de onde relata, a quem quiser ouvir, a história de sua vida e, por extensão, a história de um determinado Brasil.
  
“Outra Vida”, de Rodrigo Lacerda, e “Lar”, de Armando Freitas Filho, ficaram com o segundo e terceiro lugares.

 A jornalista espanhola Pilar Del Río, viúva do escritor português José Saramago (1922-2010), recebeu um troféu - a árvore com copa de letras, o mesmo dado aos três vencedores - e falou sobre o marido, ao lado da escritora Nélida Pinon, amiga de Saramago que participou desta edição do prêmio com "Coração Andarilho", que por sinal chegou a ficar  entre os 50 semi-finalistas. 

 Pilar, a Fundação Saramago e Companhia das Letras, editora do escritor no Brasil, retiraram da lista o livro "Caim",  de Saramago, que estava entre os 10 finalistas. Conforme declarou sua mulher, esta é uma atitude que “está mais no espírito de Saramago, que defendia o privilégio da partilha com os seus pares”. Esta decisão foi tomada “de forma a serem reconhecidos outros autores de língua portuguesa” e vai ao encontro do que José Saramago, ainda em vida, já o expressara. Após a entrevista, foram apresentadas cenas do documentário "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes, que emocionaram a platéia.

Perguntada por Jô o que tinha achado do filme, Pilar arrancou risos ao dizer que havia gostado muito pois que as interpretações eram ótimas.

Criado em 2003, o prêmio Portugal Telecom agracia obras específicas e não o conjunto delas, nas categorias: romance, conto, poesia, crônica, dramaturgia e autobiografia, escritos originalmente em língua portuguesa, com primeira edição no Brasil, entre 01 de janeiro a 31 de dezembro do ano anterior.


Fotos: Djair - Pilar Del Río e  Nélida Piñon  são entrevistas por Jô Soares e discorrem a respeito de Saramago.
Chico Buarque e Rodrigo Lacerda posam com os trófeus.
 Pilar del Rio, logo após a premiação.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Vaidade, acendendo esta fogueira

Ah, a vaidade...
No filme, “O advogado do diabo” – (The Devil's Advocate)* - John Milton, personagem de Al Pacino repete na cena final: “_Ah, a vaidade... Meu pecado favorito!” E porque não o seria? Conheço pouquíssimas pessoas desprovidas de vaidade. Seja ela física, intelectual, profissional, familiar, ela sempre está presente. Seja na roupagem fashion, da beleza fulgás, no estilo clássico do orgulho ou nos andrajos do desprendimento.
A mais comum nos dias de hoje é a da beleza plástica, onde a aparência física leva ao consumo de grifes, suplementos alimentares, e muita, muita tintura de cabelo. Movimenta salões de beleza, academias e lojas de cosméticos, seja na Oscar Freire (rua de comércio fino em SP) seja no recôncavo baiano. Não importa, se o momento é de boom financeiro as pessoas estarão a consumir grifes e produtos que as deixem mais belas e prontas a se exibirem em vitrines fashion (bares, restaurantes da moda, shoppings, cinema e casas de shows) onde vão às vezes mais para serem vistas, do que para consumir cultura, lazer, comida ou ver amigos. Se o momento é de crise, é necessário estar minimamente bem apresentado para conseguir (ou manter) um emprego.
 Sempre digo que o que acaba com uma mulher é dizer: “Você está acabada!” E o que a enterra de vez é a expressão: “fulana está sofrida!”, aí então não há redenção. É como o “boazinha”, que acaba de vez com qualquer possibilidade de se ser interessante. O mesmo que “bichinho de goiaba”.
Em outros a vaidade é intelectual, e pode ser tão chata quanto a beleza metida à cara dos outros. Até porque como já dizia Machado de Assis: “Existe muita besteira muito bem dita, assim como muito idiota muito bonito.” Às vezes se perde a mão e no intuito de mostrar o quanto se sabe, o quanto se conhece a respeito de tal ou qual assunto, o interlocutor fica chato e a conversa vira um monólogo sem fim.
Sábia, Danuza Leão aconselha no seu Na sala com Danuza: “Se alguém fizer uma viagem e falar sobre um restaurantezinho em uma cidadezinha, que você já conhece há séculos, não fale nada, deixe-a brilhar!” Não sei se são estas exatamente as palavras, mas o sentido, sim. Nunca esqueço que uma vez, voltando de Barcelona, uma colega perguntou como tinha sido a viagem e, antes que eu terminasse a primeira frase, uma terceira pessoa já estava contando como tinha sido a sua, feita alguns anos antes. Calei-me e ouvi, apenas isto...
Tenho uma tia, pobre como Jó, que se achava injustiçada pela sorte e usava sempre a frase: “Pobre com muito orgulho!” Deixou-a de usar quando uma vez lhe perguntei se ela não tinha nada mais do que se orgulhar. Orgulho de ser pobre? Isso é condição e não conquista!
Tem aqueles que viram todos os filmes, leram todos os livros, sabem de cor os nomes dos personagens, diretores, trilha... Mas há diferença entre ser fã e ver para arrotar conhecimento. Conheço uma pessoa que tira férias todos os anos para ver a mostra de cinema e já teve problemas oculares pela maratona de no mínimo três filmes por dia. Não consigo ver isso como prazer, mas como obrigação. E a troco de quê? Para falar: "Vi todos os filmes da mostra”? Tô fora! Equivale a quem se endivida em cartões, cheques especiais e crediários para usar grifes. E o diabo, é que nem sempre vestem Prada!
Outros se vangloriam da família. Porque minha família é ótima, minha família é perfeita, os meus filhos isso, o meu marido aquilo... Bem, em geral essas pessoas comentam podres de outras famílias, geralmente da dos cunhados, sobrinhos, primos... E escondem o da sua. Sempre perfeita, como num comercial de margarina. Tenho amigos aos quais cheguei a invejar o tratamento familiar, mas nunca ouvi deles este “orgulho”. Eles vivem isto. Não precisam proclamar em alto brado retumbante.
Conheço uma pessoa, uma só, mas devem haver muitas outras, que tem uma casa linda, decorada por decoradores profissionais, onde tudo é tão asséptico, tão organizado, lindo e limpo que dá a impressão de um espaço montado para fotografar. E ela se orgulha disso, mas não curte a casa que tem. Apenas a exibe aos outros, encaixando no texto o nome do arquiteto. Não valeria mais curtir o espaço mesmo que não combinasse o puff com o sofá, ou que não estivesse em perfeita harmonia o lustre com o biombo chinês?
Ah, a vaidade... A vaidade é o diabo... Eu que o diga... E fico por aqui, pois preciso ir ao cabeleireiro.

    * O advogado do diabo” – (The Devil's Advocate) 1997 Dir. Taylor Hackford, EUA,  Drama 143min 
    Foto:  Cristiane Camisão - Detalhe da bancada de penteadeira da Casa de Laura Alvin - Casa de Cultura Laura Alvim - Ipanema - RJ

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Édipo, complexo...

    Dei-me por gente tendo minha mãe como a mulher mais bonita que conhecia. Pelo menos a meus olhos infantis, era com certeza a mais bonita. Nas reuniões do colégio, nas pequenas festas na rua que morávamos, num tempo que os aniversários eram comemorados em casa e não em bares... Eu pequeno tinha consciência de sua beleza e disso e muito me orgulhava. Lembro de que  D. Lita, mãe do Celso, até pediu-lhe certa feita um vestido emprestado, era um modelo longuete, com aberturas laterais, manga em alça franzida, de um tecido mole e fresco, estampado, muito bonito mesmo. Mas... Não ficou a mesma coisa nela.
   
    Minha mãe, até hoje muito bonita de corpo, com cintura fina bem marcada, fruto, segundo ela, de uma cinta que moldava a cintura e que usou durante anos. Foi moda nos anos 1950/60 usar por cima dos vestidos e, quando a moda caiu, ela continuava a usar por baixo. Rememoro seu tempo de vaidades, quando ia todos os sábado ao salão arrumar o cabelo, e D. Lucinda, a cabeleireira, caprichava. No início dos anos 1970 chegou mesmo a confeccionar-lhe uma peruca, a partir dos próprios cabelos de minha mãe que foram cortados à altura dos ombros, quando antes atingiam cumprimento abaixo da cintura. Lembro que minha mãe tinha um sorriso lindo, que inclusive era invejado pelas irmãs, pois os dentes eram alvos e de belo formato em um tempo em que ainda não se usavam aparelhos ortodônticos. 
 
    A festa mais bonita que tivemos em casa, acho que foi a de 40 anos de minha mãe. Morávamos em MG, em Coronel Fabriciano. Matamos dois cabritos, que eu e meu pai fomos comprar em uma fazendola nos arredores de Ipatinga, matamos frangos que criávamos em casa, coelhos idem e encomendamos o bolo a D. Ritinha. Era um enorme bolo com glacê colorido. Àquele tempo, os glacês eram feitos de açúcar e manteiga e coloridos a base de Q-suco. Meu pai fez vários litros de batida de limão, colocamos a mesa no quintal, debaixo do abacateiro, repleta de porcos-espinho, que nada mais eram que repolhos com palitinhos de queijo e presunto, queijo e mortadela ou queijo e azeitona espetados. Àquele tempo, pelo menos em casa, não se usavam os salgadinhos que hoje fazem sucesso às festas. Minha mãe vestia um vestido rabo-de-peixe, justo, de Jérsei prata e preto, com mangas até os cotovelos e meio bufante nos ombros. Passou a tarde na cabeleireira, estava linda. Acho que foi a única vez que usou esse vestido desse jeito. Depois ele virou “longuete” e perdeu as mangas... E deve por fim ter virado pano de chão.


   Quando meu pai começou a apresentar os primeiros sinais de alcoolismo, ela foi perdendo o gosto. Deixou de ir ao salão, de se arrumar, e até alguns dentes perdeu... O jardim de casa que era o mais bonito da rua feneceu. Tenho a impressão que minha mãe era como aquelas flores, que sem atenção se deixaram murchar.
 
Foto: Desconhecido - Maria Cezídia Rodrigues de Lima e Souza - Minha mãe. 1966.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Palavras, prajalpas e expressões

Expressões idiomáticas são coisas que me agradam, sejam de uma determinada região, de um gênero, de uma pessoa comum que no falar preguiçoso e moleque, malemolente cria o próprio linguajar.
 
Muitas vezes acabo mesmo por adicionar à minha fala as expressões de outrem, como fiz com a de Chico, marido de Katya, minha grande amiga que mora em Recife. A passeio na cidade, ele foi buscar-nos de carro à saída do metrô e, no percurso até sua casa, ao parar no sinal, foi requisitado por uma pedinte, a quem respondeu simplesmente: “_hoje não!” Perfeito!!! Em geral o que fazemos nessa situação? Mentimos... Dizemos não ter trocado, o que nem sempre é verdade. Já dizer: “hoje não!” entende-se: Hoje não vou dar, quem sabe, em outro momento (por estar com ânimo de espírito diferente), pode ser que eu lhe dê. Não se está a mentir e encerra-se o assunto.
 
A própria Katya me brindou pela primeira vez com a expressão “até uma horas”, que em Recife é sinônimo de “muita coisa”, ao sair com: “Nossa, tem suco até umas horas”, depois de fazer uma jarra imensa de suco. Depois ouvi em várias outras situações e acostumei o ouvido a ela.
 
Uma vez ao trocar a água do motor do carro em um posto de gasolina, onde sempre abastecia, ao indagar o preço do serviço, que pareceu dar certa “mão de obra” ao atendente, ele reponde: “A casa cobra X.” Ou seja: “O preço do serviço é “X” mas se quiser dar uma gorjeta, eu agradeço.”
 
Em Passos, sudoeste de Minas Gerais, bom dia, boa tarde e boa noite, como vai você?, tudo bem?, se resume a "Bãooooo!" Já em Oliveira, ao sul do mesmo estado o mais comum é: “Oiiii Beeeem, CE tá boa/bão?”

E o lanche da tarde é sempre um: "Toma café com quitanda!"


 
E tem, ainda, os ditados, muitos dos quais eu herdei de minha mãe que se saía com alguns como: “Tem pobreza e tem “mundiça.” Ou de outras pessoas, como seu João, um senhor septuagenário que conheci na Bahia, à época que era técnico em piscicultura. Este senhor sempre morou na roça, em fazendas pelo interior e tinha o linguajar que pode soar rude a ouvidos mais delicados, como quando dizia (referindo-se a quem gastava demais ou simplesmente farolava): “É... quem tem tempo, caga longe.”
 
O próprio termo “prajalpa” que nomeia o blog, absorvi quando freqüentava os Hare Krshna do templo de Santos, onde residia  à época, e que freqüentemente usavam a expressão quando os assuntos começavam a ser menos proveitosos a um devoto. “Olha a prajalpa...” Também deliciava-me com eles em situações como quando um devoto chegava cansado da jornada de vendas e divulgações dos livros e falava para o devoto interno (que cuidava do templo): “Faz uma vitamina para Krshna, vai...”, uma vez que todo alimento é oferecido a Krshna para purificação e só depois consumido pelos devotos. Ou quando um que não gostava de salada de pepino com casca dizia: “Mas você vai ter coragem de oferecer casca para Krshna??”
 
No Ceará, a primeira vez que fui a Fortaleza, estranhei o “Macho” anterior a uma indagação a alguém do sexo masculino, tanto quanto o Siá que também podia surgir como “siazinha”(de sinhá), precedendo a pessoa do sexo feminino.
 
E por ai vai... O Leitê quente de manhã do Paraná, o “Tri” e o “Bah!” que é mesmo tri-legal no Rio Grande do Sul!
 
Tive uma empregada cuja filha dançava no "bailé"... Afinal, bailé era coisa de baile, mas quem sou eu para corrigir? Viva o neologismo!
 
Recursos lingüísticos e termos que beiram o dialeto são tão comuns em nossa língua e a fazem mais rica e bela. Basta estar de ouvido atento.

Foto: Djair - Tia Vicência: "Toma café com quitanda!" Casa de Tia Maída - Quebra Cangalha - Oliveira - MG.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nobel de Literatura 2010: uma notícia alegre, num dia triste de chuva.

Sem grandes inspirações em dias tristes de chuva, interna e externa, recebo com alegria a notícia da premiação de Mario Vargas Llosa para Nobel de Literatura 2010.
 
O fato de um latino-americano (peruano) ganhar o prêmio não deixa de me ufanar. Sim, afinal, embora sejamos o único país do continente a falar Português, e por isto às vezes visto como não latinos, lembremos que a origem da língua vem sim do latim, o que alcunha os povos da Península Ibérica, Portugal e Espanha...
 
E daí, para a América, a também chamada América Católica, vista como berço de bárbaros, de iletrados, e onde, conforme informação recém divulgada pela imprensa, os estadunidenses fizeram pesquisas médicas infectando centenas de pessoas com vírus da Sífilis e Gonorréia (mais especificamente na Guatemala). É também na América Latina que povos desenvolvidos montam prisões, bordeis e resorts de luxo para seus devaneios e lazer

E porque a notícia do premio me traz alegria? Oras, pela demonstração da capacidade deste povo de produzir literatura de qualidade, da mais alta estirpe, um reconhecimento que vem de fora, divulgando com ele não apenas a literatura, mas costumes, idéias, modo de vida.
 
Atualmente choca-se muito ao saber sobre a extinção de espécimes das faunas e flora mundiais, mas quem se condói com a extinção de línguas, hábitos ancestrais e culturas locais, que cedem lugar  à cultura importada de outras regiões e divulgada através dos grandes meios?
 
            Nos países de língua portuguesa “Última flor do Lácio, inculta e bela”* conforme o conhecido poema de Bilac**, temos na galeria de Nobel como único representante José Saramago, que recebeu o prêmio em 1998. Falecido em 18 de junho último, Saramago é considerado o responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. Mesmo postumamente ele concorre ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, com a obra “Caim”, sua última briga com Deus em forma de livro. Saramago, ateu confesso, nessa obra acusa ao senhor dos fiéis de ser o culpado por tudo de ruim que acontece, porque afinal ele é Deus.
 
            O Prêmio Portugal Telecom de Literatura é uma premiação internacional, que busca difundir obras de autores de países de língua portuguesa, a quinta língua mais falada no mundo, a saber: Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e, desde 13 de julho de 2007, na Guiné Equatorial.

           Mas, voltando à premiação criada pelo inventor da dinamite, seis latino-americanos já ganharam o Oscar, os chilenos  Gabriela Mistral e  Pablo Neruda, o guatemalteco Miguel Angel Asturias, o colombiano Gabriel García Márquez, o mexicano Octavio Paz Losano e, agora, o peruano Mario Vargas Llosa. Saudações!!

* A expressão "Última flor do Lácio, inculta e bela" primeiro verso do poema “Língua Portuguesa”.

** Olavo Bilac, poeta parnasiano, brasileiro 1865-1918. Esse verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado e aí haja gerundismo!!!), mas que continua a ser bela.


LÍNGUA PORTUGUESA
 
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho
!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A CERTEZA INCERTA


Deus nosso!, que são os discursos que somos obrigados a ouvir? Preconceitos de classe média repetidos como verdade absoluta por pessoas que não têm condição social, financeira ou intelectual (já que se tornam repetidores de um discurso inconsistente), de se fazer irmanar com aqueles. Não que eles estivessem corretos, óbvio. Mas o desvirtuamento do discurso o torna ainda pior e mais arraigado.


Há ainda, os que têm opinião para tudo! Embora em grande parte das vezes sejam meras repetições de discursos de Veja – o novo testamento da classe média, ou da leitura fácil dos cadernos de cultura.


E não percebem que todos notam que este discurso é a repetição de idéias de outrem, sem transparência, sem profundidade, já que a idéia original, que não era dela, foi diluída com a inconsistência de sua retórica. E embora, como me disse uma vez a poeta Katya Carnib, uma grande amiga, o discurso seja fácil, enquanto não se exija a prática, sequer este discurso toma tom de veracidade.


E assim prosseguem a repetir impressões e traços de comportamento alienígenas, que não casam com suas posições, realidades e esperanças. E o pior, têm uma opinião pra tudo. Oswaldo Montenegro, em rico trecho discursivo que abre “A dama do Sucesso”,  propõe um brinde a todos que tiveram dúvida sempre.  E continua provocante: “Nunca vi um imbecil hesitar.” Viva a dúvida!

Foto: Djair - Namoradeira na janela.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Segure-se...

Esta semana no blog Diário de Myrna*, o tópico fala de segurança. E o tema me trouxe várias elucubrações... Resgatou pensamentos que eu já tinha remoído diversas vezes, talvez sem nunca digerir por completo.

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, as três primeiras definições desta palavra são: s.f. (1391) 1  ação ou efeito de tornar(-se) seguro; estabilidade, firmeza 2  estado, qualidade ou condição de quem ou do que está livre de perigos, incertezas, assegurado de danos e riscos eventuais; situação em que nada há a temer 3  condição ou caráter do que é firme, seguro, sólido, ou daquele com quem se pode contar ou em quem se pode confiar.

Segurança? Quem a tem? Quem realmente sente-se seguro?
Recordo que quando criança, quando discordava de meus pais, sempre bradava, ora em voz alta, ora em voz íntima: “_Quando eu fizer 15 anos vou fugir de casa.” Bem, chegaram os quinze anos... E que aconteceu? Nada!

A segurança que eu imaginava obter como um passe de mágica, por ter completado a idade que tinha eleito para tal, não surgiu. Bem, vamos aos dezoito, logo substitui a idade cabalística... Nada de novo... 20...? Tampouco...

Hoje não espero mais, a segurança, o virar adulto, sei bem nunca virá com a idade, é preciso lapidar-se, sofrer, quebrar a cara, uma, duas, duzentas vezes... Óbvio que a independência econômica, o “ter algo de seu”, representado na maioria das vezes com um imóvel e um emprego estável, irão deixar-nos em um estado mais confortável. Mas segurança? Como? Porque? E os nossos medos, fundamentais? Os nossos receios primordiais? Aqueles que começam com o medo do escuro e passam pelo medo da solidão, de morrer, de não conseguir um emprego, de encontrar com a ex, de perder amizades, de frustrar pais e amigos, de ser maltratado, de morrer... E acaba com o medo do escuro, quando fecharmos os olhos pela derradeira vez.

Tem pessoas que realmente tem, ou ao menos,demonstram ter segurança. Em seus atos, na forma como decidem as coisas, com calma e serenidade. Elas existem, não digitando essas palavras, mas existem. Creio que foram as que receberam treinamento desde crianças, aprenderam a comandar, a dissimular sentimentos, a agir firmemente seja qual for a situação. E estas são pouquíssimas.

 Conheço uma delas, a qual eu dizia sempre, parafraseando a citação bíblica, que o lema era:”Caiam mil a minha direita, e dez mil a  minha esquerda, não moverei um músculo do rosto”. Um dia a idade chegou também para ela, com isso a debilidade da saúde, e como não bastasse o emprego sem esforço começou a perigar... O sorriso não se abalou, mas o corpo mirrou, somatizou e num passe de mágica (talvez a mesma mágica que eu esperava aos 15), envelheceu.

Onde estaria então toda a segurança que demonstrou sempre? Ela existia ou era uma máscara externa que ficou folgada e caiu?

Bem, o tema suscita hordas de reflexões que talvez em uma discussão à mesa de bar trouxesse risos frouxos e revoltas que enrugam testas, mas o que acredito é que nunca nos sentiremos realmente seguros, faz parte da nossa “humanidade”, e a pior forma de tentar adquiri-la é buscando-a nos outros. Uma vez ouvi de Marfisía, grande amiga: “Podem te tirar tudo, menos a experiência”. Acho que é por aí. Experimentando, ora a acertar e em outras a errar feio, mas adquirindo conhecimento, experiência a respeito de cada circunstância é que poderemos sentir um pouquinho de conforto.

*http://myrnagioconda.blogspot.com

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Indumentárias e Carapuças

       Estranhamente, observo que as pessoas que mais criticam aparência, física ou vestuário, e comportamento de outras pessoas, são as que menos toleram quando são elas as criticadas. Estão sempre a dizer: “Nossa, porque você não pinta o cabelo?”, “Porque você não corta o cabelo?” e ai se em uma hora de completa necessidade de mudança, você resolve fazer algo do gênero, aí estarão a comentar: “Nossa!... Eu preferia sem pintar.”, “Pôxa, porque cortou? Estava tão bonito.” E por aí vai... Nunca estarão satisfeitos, seja com seu cabelo, sua pele, se você engordou, se emagreceu, se está com a roupa toda combinando ou com estilo e cores completamente destoantes.


Mas ai de ti, se resolver dar um palpite em sua indumentária ou estilo. Joga-os lentamente no lodaçal da depressão e ao afundar apoiam o pé na fossa abissal da ira, que irão destilar a terceiros. “Porque ele (a) disse isso e aquilo, mas não se enxerga mesmo... E isso, e aquilo, e aquilo outro...” 

Tem gente que se enfurece na hora e parte pra briga, se não física, pela batalha verbal que geralmente fazem sós, uma vez que a outra parte em geral, cede. 

     Mas logo vem novo comentário em cima de uma vítima mais recente:”você viu a roupa da fulana?” 

                E me remetem a música de Rita Lee que diz: “Elas pecam pelo excesso e morrem pela falta.” Excesso de comentários maliciosos e falta de pudor em declará-los publica e acintosamente, sabendo que não causaram outro efeito que a infelicidade do comentado. Ou talvez o objetivo seja realmente esse. 

                E no mundo atual que julga a tudo e todos pela aparência, o comum é realmente se comentar: viu a blusa? O corpete, a calça? A cueca? Não que eu ache uma cueca aparecendo ou uma barriga (enorme) a pular fora da blusa algo bonito. Aliás, conheço pessoas que se recusavam a sentar em determinado local à hora do almoço porque quem passasse por aquele lado (atrás das pessoas em questão) iriam ver seus “cofrinhos”... Oras, mas a intenção de um calça apertada de cintura extremamente baixa não é essa? Mostrar...? 

                E isso me recorda Danusa Leão na primeira edição do seu “Na sala com Danusa”, que dizia algo mais ou menos assim: “ Se você ver alguém de zíper aberto, avise. Mesmo correndo o risco de estragar a performance da pessoa em questão.”


Foto:  Djair - monumento ao "Cabeça de Cuia"- Encontro das Aguas -  (rios Poty e Parnaíba) Teresina -Piauí.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Intimidade

Do que é feita a intimidade?

Acredito que seja de vivência, de parcerias, de compartilhamento. Seja de ideologias, gostos, experiências. Afinidades que são descobertas aqui e ali, aumentando admiração, respeito e provocando a inevitável vontade de se estar junto, de compartilhar mundos, idéias, cores...

Foto: Djair - Anjos barrocos - Igreja de S. Francisco - S. João del Rey - MG

 A experiência adquirida nestes percursos me mostra, cada vez mais, que amizades construídas de forma muito rápida e ruidosa se dissolvem com a mesma facilidade. E é incrível a necessidade de algumas pessoas de se mostrarem íntimas sem de fato o serem, e a efemeridade destas relações, pelo menos comigo que “tenho a paciência curta”.
E os “causos” são muitos e diversos. Uma vez estava eu a planejar uma festa, que daria em minha casa, já tinha formado na cabeça a lista de convidados, a decoração, o que servir, etc... Uma pessoa de minhas relações à época, ao ouvir-me comentar que daria a tal festa, saiu-se com o seguinte comentário: “_nossa, já estou me vendo lá, te ajudando a receber as pessoas...”
Resultado: não dei a festa.

De outra feita me prepararam uma surpresa, muito bonita por sinal, com um conjunto de trovadores a cantar músicas selecionadas dentre meu gosto musical, com indumentária diferenciada, instrumentos e tocadores afinadíssimos. Dias depois, uma das pessoas que participou da cota do presente, saiu-se com: “_Foi o presente mais caro que já dei pra alguém!”

Devo comentar? Bem, só vou dizer que devia ser uma forma, não muito nobre, de demonstrar uma amizade e afeto que, na realidade, não me eram assim tão dedicados.

Em outro momento, uma pessoa que me jurava amizade, que me adorava, e que tinha todas as afinidades, deste e de outros mundos, comigo rompeu a amizade certa vez porque eu não quis convidar uma terceira pessoa, amiga daquela, para passar o natal na minha casa. E olhe que eu não disse que não poderia trazer o tal fulano, mas apenas que eu não iria convidar uma vez que a pessoa em questão se aproveitava de uma terceira pessoa amiga e que era influenciável e carente a ponto de emprestar cartão de crédito para pagamento de compras que nunca eram ressarcidas. Teria eu obrigação de recebê-la em minha casa? Acredito que além de não ter, a vibração dela não estaria de acordo com as dos demais. 

Claro, houve casos em que achei que uma pessoa seria meu amigo por muito tempo, talvez para sempre, e depois disso, passada uma primeira impressão, que às vezes dura meses, vendo de perto as falhas de caráter, os jogos com pessoas e fatos a fim de tirar proveito pessoal, distanciei, e passei cada vez mais a evitar. Estranhamente, as pessoas às vezes ou não notam ou ignoram esses sinais de distanciamento. E em casos assim dá vontade de falar: “mantenha a distância,” e de exigir o comprimento de um braço, como na organização de filas nas escolas públicas brasileiras à época da ditadura. Deve ser como se portam no exército...

Teve uma vez, inclusive, ao trabalhar em uma empresa para a qual já tinha prestado serviço há alguns anos e onde conhecia uma pessoa, mais de ver que de falar, e mesmo de avistá-la pode-se contar nos dedos de uma única mão as vezes que isto aconteceu, ao chegar para os primeiros dias de trabalho, soube que a tal pessoa era minha melhor amiga de infância, acreditavam que tínhamos comido no mesmo prato, tal grau de intimidade aquela demonstrava para comigo, e todos na empresa, através dela já me conheciam, sabiam quem eu era, meus gostos, relacionamentos, competências e acredito que até a cor da cueca que eu usava na ocasião.

Você faz o quê? Eu afasto-me rapidamente. Detesto pressões, detesto prisões. E quanto mais se insiste na participação em amigos-secretos, e festa de finais de ano, menos vontade tenho de ir. Rabugice? Pois muito bem, que seja! Já dizia minha mãe, eu ainda adolescente, que quando eu ficasse velho ninguém iria me suportar e eu morreria só. Que venha a morte! E por favor, só apareça no velório se for íntimo de verdade.
 

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Divulgação dos 10 finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010.

Acontecerá no dia 31 de Agosto de 2010, terça-feira, às 19h00,no Consulado Geral de Portugal em São Paulo. 

A divulgação dos 10 finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2010.

Na ocasião os curadores comentarão as obras selecionadas para a terceira e última fase.

Entre as 54 obras semifinalistas, 48 autores  são brasileiros, 04 portugueses,  02 angolanos e um moçambicano.

Saiba mais  em:
Semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010
Prêmio Portugal Telecom de Literatura

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Férias

Mas uma vez devido a férias, o blog entra em recesso.

Quem sabe após a viagem a inspiração e vontade de escrever voltem.

Por hora aproveitem para rever postagens antigas, que podem ter passado rapidamente por vossas visões sem ser notadas.


"Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. "
Clarice Lispector.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Três Marias Gozosas


Maria Letícia sempre foi uma moça avantajada, seios fartos e firmes como os glúteos, pernas longas como um obelisco, se queixava de não ter cintura, mas precisava? 
  Fazia o gênero morena de sobrancelhas grossas, que ornavam olhos de um negro profundo que as vezes desafiavam noutras convidavam a aproximar-se deles, dela... 
  Casou-se apaixonada, arrebatada, emocionada. 
Ainda se usava casar virgem, então se guardou. Mais por ele, que por ela. Resolveram não ter filhos. Estava tudo tão bem, pra que arriscar, e embora a mãe de ambos cobrassem, eles sempre davam como resposta que elas já tinham netos suficientes dos irmãos. E ela frisava, que todo o instinto materno, tinha ficado com a irmã mais velha, que tinha quatro rebentos. Com ela não. 
  Um dia, e sempre há: “um dia”, ela descobre um caso dele com a secretária. Continuam juntos, mas algo havia se quebrado. O amor e pureza, dedicação e credulidade estavam perdidos. E com isto, veio o desejo de vingança.

  De espírito prático e investigativo, indagou e teve como resposta que o que mais humilharia um homem não era ser trocado por um homem, mas por uma mulher. E decidiu, então se é assim, que assim seja!

  Conheceu uma amiga de uma amiga em uma festa, e demosntrou a esta, que já tinha sua opção definida, que estava disposta, e muito bem disposta a experimentar.

  E assim, foi, não como quem dá-se ao carrasco, mas de peito aberto, e com o prazer de quem se vinga. Não sei qual o prazer foi maior, mas ela gostou da experiência, repetiram uma duas, e as vezes que foram necessárias.

Comunicou ao marido, e mandou-lhe cuidar do filho e amante, ela seria ótima esposa, já que fora secretária tão competente.

  Maria Lúcia veio morar com Maria Letícia, que continuou a gozar a vida.

***** 

Gisele Maria era uma loura bonita, olhos azuis claríssimos, pele alva com sardas charmosas a tornar-lhe os ombros sensuais, magra sem excessos, e uma graça natural que somada ao sorriso de dentes alvos e perfeitos fariam anjos descerem a terra.

  Casou-se logo depois de formar-se. Virgem, como queria, para se guardar ao homem a quem amava. Branco, festa, flor de laranjeira.

  O marido, alta patente do exercito, era de uma beleza física que ornava com a sua em número e grau, apenas de gênero diferente e em versão amorenada e embora a sisudez máscula se fizesse presente, era de carisma tal e qual, despertando cobiças nas amigas e primas  de Gisele Maria.

  Logo depois do casamento a decepção. Àquele para quem ela se guardara, e tão belo que era, tinha ejaculação precoce. Há tratamentos, logo o problema não haveria de ser assim tão grave. No entanto, o machismo arraigado, talvez até acentuado pela carreira militar, fazia com que ele sequer pensasse na idéia de submeter-se a tal.

  Para piorar, não era dado a carinhos, era penetrar, ejacular, sair, banhar-se. E ela, submetia-se sem prazer e enquanto ele de bruços sonhava, ela encarava o pesadelo cotidiano.

  Os anos passaram-se e vieram os filhos, um casa, gêmeos, herdaram a morenice do pai e os olhos da mãe.

  Um dia ela revê um primo que tinha ido estudar fora, e matam saudades, matam curiosidades, e a amizade que era profunda volta na forma de atração. Ela decide ceder a tentação, já sete anos de casada, sem nunca um orgasmo sequer, era hora de experimentar outro, afinal para o marido estava tudo bem, e ele não admitia mais seuqer tocar no assunto. Ela era mulher, não tinha que conversar destas coisas.

  Na alcova, achou tudo muito diferente, carinhos, beijos, afagos, tantas mãos ele tinha, tantas bocas, tanto contato, e derepente, no fogacho da narrativa, ela tem o seu orgasmo na vida, seguido por um desmaio que assustou o primo que não sabia o que lhe proporcionava.

  Depois disto, não teve jeito. Pediu divórcio, o primo foi embora, ela pediu transferência no emprego e também mudou de cidade, vieram outros homens, vieram outros orgasmos, tão, mais e menos intensos.

  Ela voltou a andar com um sorriso nos lábios.

 
 *****

Maria Rita era uma morena vistosa, a quem deus presenteou com as curvas mais voluptuosas do bairro.

  Casou-se cedo, e cedo enfadou-se do sexo monótono do marido, afinal decotes, meias calças, mini-saias, peitos fartos, coxas roliças, cintura fina, grossos lábios sempre cobertos de carmim, eram pra despertar maior cobiça naquele moço pacato, trabalhador e que acima de tudo a adorava.

              Ouvia sempre cantadas por onde passasse, das mais sutis às mais descaradas. Na rua, no trabalho, na feira. E um dia resolveu, vou experimentar. E daí a pratica foi um pulo, a experimentação deu certo, e assim o hábito se fez frequente.

              O Marido até sabia, mas era dos que não se importam desde que não lhes falte, até porque a chama de afeto que por ela sentira, nunca deixou de arder dentro dele. A de tesão então, não era apenas uma labareda, mas um incêndio. Para ele, para ela não.

              Um dia perguntada por uma amiga porque não o deixava respondeu: “_Ele gosta de mim, me aceita do jeito que eu sou, cuida bem da casa, de mim, e do filho. Vou deixá-lo por quê?”

              E assim vivia suas aventuras, e vivia muito bem o marido. Um dia, em uma discussão comum entre casais, o marido xingou-a: “_Vagabunda!”

              Não teve dúvidas, foi direto à delegacia da mulher, prestar queixa. Afinal a palavra era forte!

              Enquanto aguardava, prestava atenção à fauna presente, mulheres estropiadas, olhos roxos, braços quebrados, lábios inchados, hematomas dos mais diversos tons e cores. Choro, ranger de dentes, lagrimas no rosto e catarro jogado às paredes.

              Uma “estrupiadinha” que estava ao lado, talvez tendo a curiosidade despertada pela mulher bonita e com cara de bem cuidada sentada também a aguardar, pergunta-lhe o que faz ali.

              Narrado o fato, que por ter sido chamada de vagabunda irira prestar queixa, a interlocutora indaga incrédula: “_Mas você vai dar queixa dele só por isso?”

              A resposta fulminante, corta quaisquer possibilidade de continuidade no diálogo: “Vou, sim senhora, antes que ele pegue gosto e eu chegue aqui como você!”

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Labareda



Labareda

Calor que vem das chamas
Rebatendo o fresco vento leste
As estrelas a brilhar
Competem com a luz das labaredas
 
Nem junho é - dizem alguns...
É preciso que seja? Respondo eu.
Sempre fiz fogueiras
Sempre farei
 
Perto do fogo
Aconchegado no calor
Junto do fogo e do vinho
- iluminado...
 
A madeira ardente crepita
Sobrinhos ao lado
Conto histórias
De trancoso* e de fadas
 
A água
Apaixonada pelo fogo
Se aproxima (por cima)
E do céu desce
 
O sereno lento cai
E encontra a chama
No beijo voluptuoso
Se consomem
 
O tempo, senhor das horas corre
As crianças e mais velhos se recolhem
Fico só. Ou não...
Eu, o fogo e o vinho
 
E sinto-me iluminado
Como hippies, como hindus
Como adoradores de fogo da idade média
Ou cuspidores de fogo dos circos
 
E ouço no silêncio
Apenas a madeira crepitando
Chorando a arder
E se transformando em algo também belo
 
Talvez pela embriaguez do vinho
Um sentimento de solidão
E ao mesmo tempo de acolhimento
E só quero estar ali.
 
Perto do fogo
Aquecido
Abandonado
Querido
Inebriado.



* A expressão histórias de trancoso, denomina histórias de encantamento, de autoria desconhecida ou lendas e crendices. As histórias de trancoso independente de autores recebem esta denominação, tem tradição oral e serviram como inspiração para muitas obras da  literatura de cordel.