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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Segure-se...

Esta semana no blog Diário de Myrna*, o tópico fala de segurança. E o tema me trouxe várias elucubrações... Resgatou pensamentos que eu já tinha remoído diversas vezes, talvez sem nunca digerir por completo.

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, as três primeiras definições desta palavra são: s.f. (1391) 1  ação ou efeito de tornar(-se) seguro; estabilidade, firmeza 2  estado, qualidade ou condição de quem ou do que está livre de perigos, incertezas, assegurado de danos e riscos eventuais; situação em que nada há a temer 3  condição ou caráter do que é firme, seguro, sólido, ou daquele com quem se pode contar ou em quem se pode confiar.

Segurança? Quem a tem? Quem realmente sente-se seguro?
Recordo que quando criança, quando discordava de meus pais, sempre bradava, ora em voz alta, ora em voz íntima: “_Quando eu fizer 15 anos vou fugir de casa.” Bem, chegaram os quinze anos... E que aconteceu? Nada!

A segurança que eu imaginava obter como um passe de mágica, por ter completado a idade que tinha eleito para tal, não surgiu. Bem, vamos aos dezoito, logo substitui a idade cabalística... Nada de novo... 20...? Tampouco...

Hoje não espero mais, a segurança, o virar adulto, sei bem nunca virá com a idade, é preciso lapidar-se, sofrer, quebrar a cara, uma, duas, duzentas vezes... Óbvio que a independência econômica, o “ter algo de seu”, representado na maioria das vezes com um imóvel e um emprego estável, irão deixar-nos em um estado mais confortável. Mas segurança? Como? Porque? E os nossos medos, fundamentais? Os nossos receios primordiais? Aqueles que começam com o medo do escuro e passam pelo medo da solidão, de morrer, de não conseguir um emprego, de encontrar com a ex, de perder amizades, de frustrar pais e amigos, de ser maltratado, de morrer... E acaba com o medo do escuro, quando fecharmos os olhos pela derradeira vez.

Tem pessoas que realmente tem, ou ao menos,demonstram ter segurança. Em seus atos, na forma como decidem as coisas, com calma e serenidade. Elas existem, não digitando essas palavras, mas existem. Creio que foram as que receberam treinamento desde crianças, aprenderam a comandar, a dissimular sentimentos, a agir firmemente seja qual for a situação. E estas são pouquíssimas.

 Conheço uma delas, a qual eu dizia sempre, parafraseando a citação bíblica, que o lema era:”Caiam mil a minha direita, e dez mil a  minha esquerda, não moverei um músculo do rosto”. Um dia a idade chegou também para ela, com isso a debilidade da saúde, e como não bastasse o emprego sem esforço começou a perigar... O sorriso não se abalou, mas o corpo mirrou, somatizou e num passe de mágica (talvez a mesma mágica que eu esperava aos 15), envelheceu.

Onde estaria então toda a segurança que demonstrou sempre? Ela existia ou era uma máscara externa que ficou folgada e caiu?

Bem, o tema suscita hordas de reflexões que talvez em uma discussão à mesa de bar trouxesse risos frouxos e revoltas que enrugam testas, mas o que acredito é que nunca nos sentiremos realmente seguros, faz parte da nossa “humanidade”, e a pior forma de tentar adquiri-la é buscando-a nos outros. Uma vez ouvi de Marfisía, grande amiga: “Podem te tirar tudo, menos a experiência”. Acho que é por aí. Experimentando, ora a acertar e em outras a errar feio, mas adquirindo conhecimento, experiência a respeito de cada circunstância é que poderemos sentir um pouquinho de conforto.

*http://myrnagioconda.blogspot.com

terça-feira, 18 de maio de 2010

Crises

Um dos assuntos preferidos dos jornais nos últimos dias é a crise na economia grega, ou a possibilidade de uma quebra ainda maior na economia dos Piggs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, segundo a sigla em inglês). O macro sempre é lembrado, o que nunca se fala é do micro; o micro-universo não interessa a quase ninguém, apenas às pessoas relacionadas a ele e a um ou outro que se importe a título de interesse emotivo, profissional, antropológico ou, mais comumente, pura e mera curiosidade.
 
Trazendo essa crise para o micro, lembrei de um conhecido, filho de família de classe média, que estudou nas melhores escolas, fez na melhor faculdade um dos cursos mais renomados, foi para exterior a fim de  aprimorar o inglês, conheceu no avião uma moça de iguais valores (adquiridos na revista que é o catecismo da classe média no país).
 
Ambos dando muito valor ao que é de fora, à grife de roupas, carros, imóveis...
 
Ela loura, “of course”, como ele diria, já que costuma usar termos em inglês no meio das frases.
 
Voltou e procurou a moça que também tinha voltado. Namoram, noivam e com a ajuda do pai dele e economias dela, compram um apartamento, e enfim, casam-se.
  
Valores financeiros acima de tudo, tanto que ele se orgulhava sempre em afirmar que “coisa boa” era com a esposa, pois ela só gostava do que era bom, dos eletrodomésticos do último tipo em inox, ao molho de macarrão importado. O sonho de consumo dela é uma jóia, não me lembro de que tipo, da Tiffany. Afinal agora têm duas em São Paulo. Mas, cá entre nós, se têm duas já não é algo tão exclusivo assim, certo?
 
Um dos programas de fim de semana é visitar lançamentos de imóveis de alto padrão. E voltam deslumbrados. A frase comum é: “É outro nível, você não entende, é outro nível!”
 
Troca-se de apartamento para dar lugar aos rebentos que vêm. Troca-se de carro para que o carrinho de bebê da grife Y, possa caber no porta-malas. E, no futuro, se ufanam do fato que os filhos sempre tiveram tudo do bom e do melhor.
 
Nos almoços e reuniões familiares os comentários são do tipo: “Este filé mignon está excelente!”, com o acento no filé mignon soando exagerado, onde cairia bem apenas a carne, ou bife, o filé que fosse, sem sobrenome...  Ou: “Este Prosecco é muito bom!” E você olha e vê pela garrafa  que o vinho servido é um Lambrusco...
 
O “modus vivendi” já demonstra insatisfação com a vida que se leva. Afinal, se a felicidade está apenas em objetos e estilos que tem de ser consumidos com furor a fim de se provar ser feliz, onde está a felicidade realmente? Na posse? A meu olhar, parece muito distante dali...
 
De repente, acorda-se do sonho, e... cansado de jornada mais ou menos longa, porém muito incômoda de trabalho, resolve pedir demissão do emprego a fim de estudar para um concurso...
 
A esposa, bem... concorda e continua a trabalhar. Continua a gastar, continua a querer para si e os seus o “do bom e do melhor”.
 
Os concursos públicos passam, e ele não passa. O que passa, cada vez mais rápido, é o tempo, e nosso pequeno herói continua fora do mercado de trabalho. As contas, essas, continuam a chegar, e a serem quitadas, mas começam a preocupar. O pai dele, que antes tinha uma renda excelente para os padrões, aposenta-se e com isso a renda cai; a mãe, que sempre foi do lar e acostumada a não se preocupar tanto com contas, começa também a preocupar-se com elas e com a situação do filho. Somam-se a isso uma doença aqui e outra ali... Um gasto inesperado acolá... Ou seja, o pai aos poucos começa também a dilapidar as economias feitas no tempo de bonança.
 
Enquanto isso, a irmã de nosso personagem principal soma cada vez mais sucesso profissional e financeiro, deixando o irmão cada vez mais a descoberto quanto às possibilidades de sucesso pessoal e profissional. Ele, por sua vez, começa a negar o curso que fez, e a dizer que nunca gostou daquela profissão, fêz por culpa do pai, mas aquele nunca impôs isto a ele, ficou evidentemente feliz com a escolha, mas daí a impor há uma distância intransponível.
 
Vem a depressão e, com ela, a falta de ânimo absoluta para reagir à situação que se apresenta. Daí para a doença mental se manifestar no físico é um passo, ela vem na forma de dores lancinantes em patologias que me escuso de expor, mas que o impedem fisicamente de agir, se a vontade de agir viesse.
 
Mas, enfim, a Crise Grega ou a dos Piigs, pode ser maior que nossas crises individuais? Profissionais, financeiras, emocionais?
 
A Europa e o resto do mundo preocupam-se com gregos, portugueses e italianos... E conosco? Com os seres viventes de carne e osso, que se apegam em valores empurrados goela abaixo por semanários e jornais, programas de TV, filmes e outras torrentes de invenções midiáticas? O apego a esses produtos consumidos a mão cheia já não é um sinal de adoecimento?
 
Um adoecimento como este aqui, exposto em nível individual, representa, somado a outros tantos indivíduos tais e quais, o adoecimento de uma sociedade inteira.
 Mas quem liga para o indivíduo, se a sociedade sobreviver?